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REFLEXÕES ACERCA DO EXERCÍCIO DO PODER EM UTOPIA, DE THOMAS MORE

3. O exercício do poder em Utopia

3.7 Os crimes e a punição

Em Utopia, aos menos três são os casos punidos com a pena de morte: a reincidência no adultério, reunir-se fora das assembléias e rebelar-se contra a escravidão. Em sua grande maioria os crimes não possuem penalidades fixas, pois para cada transgressão o Senado estipula penalidades específicas, dependendo da gravidade do delito cometido. A punição geralmente não é exercida diretamente pelos governantes.

Os maridos são responsáveis pela punição das esposas e os pais, pela punição dos filhos, a menos que a falta cometida seja tão grave que o interesse público requeira uma punição pública (More, 2004, p. 96).

Assim, não só a vigilância é multiplicada pelos atores sociais, mas também a responsabilidade por punir os desvios de conduta. Para as faltas mais graves estabelecem-se punições públicas como, por exemplo, a escravidão. Esta é considerada pelos utopianos, segundo Rafael, “tão eficaz para conter o criminoso quanto a pena capital imediata, sendo, no entanto, mais benéfica para o Estado” (More, 2004, p. 96). Isto porque aqueles que são punidos com a escravidão além de deixarem de praticar os delitos de outrora também “ficam permanentemente visíveis aos olhos do público para lembrar-lhes de que o crime não compensa” (p. 96). Dessa forma, os efeitos da escravidão são multiplicados entre aqueles que poderiam em algum momento vir a praticar atos indesejáveis.

A rebelião contra a escravidão é, como já foi dito, prontamente punida com a execução. Para que a motivação dos escravos não se esgote, “[d]epois de submetidos a trabalhos forçados por longo período de tempo, se vierem a mostrar, com seu comportamento, que sofrem mais com o arrependimento pelo crime cometido do que com a punição imposta, sua condição de escravo pode ser abrandada ou mesmo cancelada pelo príncipe ou pelo voto popular” (More, 2004, p. 96).

O uso da escravidão, sempre exposta aos olhos da comunidade, é o método utilizado para se evitar o crime. Além dela, também estimulam- se as práticas consideradas virtuosas por meio da construção de estátuas em praças públicas como forma de homenagear.

4. Conclusões

Pôde-se perceber em Utopia um projeto de governo que privilegia a imposição do “mesmo”. Não só é abolida a propriedade privada, mas a própria pluralidade não é bem vinda. A forma de se vestir, por exemplo, em qualquer região da ilha e ao longo de séculos, se dá por meio de “roupas com o mesmo feitio, distinguindo-se apenas o homem da mulher e os casados dos solteiros” (More, 2004, p. 56).

Tal busca pela ordem e harmonia reflete-se em todas as cinquenta e quatro cidades. Estas possuem traçados arquitetônicos idênticos, além de serem “idênticas em língua, costumes, organização e nas leis” (More, 2004, p. 49). O espaço para o “outro”, para o “diferente” é restrito, pois coloca em risco a própria estabilidade das relações de forças constituídas.

João Almino (2004) ressalta que falta à Utopia “a genuína visão do outro. O outro nada mais é do que uma extensão dela própria. Em geral, o interesse do outro não é expresso por ele, mas sim interpretado pela Utopia” (p. XXXIII). Ainda que ele afirme isso acerca da relação de

Utopia com os demais povos, é possível transpor sua análise para o que se dá internamente em Utopia. Há, nesta terra imaginária, segundo Almino (2004), uma outra face “reveladora da desigualdade e da concentração de poder nas relações entre os povos” (p. XXXIII).

Não seria incoerente aproximar e estabelecer relações entre a utopia de More (2004) e algumas distopias tais como 1984, de Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Leonard Huxley. Ambas denunciam o exercício do poder que tende à violência, ou seja, que restringe cada vez mais o espaço de liberdade a ponto de oferecer aos sujeitos apenas um lugar de passividade, de conformidade. Almino (2004) assim comenta:

Apesar das ressalvas que fez sobre as instituições da Utopia, talvez More não tivesse idéia de que estava também criando uma distopia, uma utopia negativa, ao imaginar aquela ilha. O inferno, como a Utopia, está cheio de boas intenções. Muito já se comentou sobre a organização totalitária de uma sociedade que se quer transparente para si mesma e onde não há divisão entre o público e o privado. Mas distopia existe também nesta ordem internacional unidimensional, unilateral, em que as regras são impostas por um só ordenador do mundo, auto- suficiente e todo poderoso intérprete do bem, que se crê detentor dos valores da civilização (p. XXXIII, grifo nosso).

Um dos aspectos que certamente contribui para ocultar o caráter distópico da Utopia é que na narrativa realizada por Rafael mantém-se a polaridade entre guerra e paz, como se ambas fossem mutuamente excludentes. Para visualizar o antagonismo das estratégias, a verdadeira guerra que fervilha ocultamente sob o signo da harmonia das relações, faz-se necessário superar tal dicotomia. Só assim, as relações

agonísticas sempre presentes nas sociedades podem reaparecer.

Referências

Almino, João. Prefácio - A Utopia é um império. In: More, T. Utopia. Trad. Anah de Melo Franco. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004. pp. IX-XXXIII.

Foucault, Michel. Microfísica do poder. Org. e Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. pp.VII-XXIII.

________. História da sexualidade I: A vontade de saber. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

________. O sujeito e o poder. In: Dreyfus, Hubert L.; Rabinow, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica (para além do estruturalismo e da hermenêutica). Trad. Vera Porto Carrero. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. pp. 231-249.

________. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975- 1976). Trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1999. ________. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tad. Raquel

Ramalhete. 38. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

Franco, Afonso Arinos de Melo. Apresentação à edição de 1980. In: More, T. Utopia. Trad. Anah de Melo Franco. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004a. pp. XXXV-XXXVI.

________. Comentários em notas de rodapé. In: More, T. Utopia. Trad. Anah de Melo Franco. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004b.

Machado, Roberto. Introdução: Por uma genealogia do poder. In: Foucault, Michel. Microfísica do poder. Org. e Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. pp. VII-XXIII.

More, T. Utopia. Trad. Anah de Melo Franco. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004.

Orwel, George. 1984. Trad. Wilson Velloso. 29. ed. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 2005.