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O CORPO E O CONTEXTO: A CONFIGURAÇÃO DO ETHOS CORPORAL

5 RITUAL, CORPO E CARNAVAL: A ANÁLISE DOS DADOS EM PELOTAS

5.2 O CORPO E O CONTEXTO: A CONFIGURAÇÃO DO ETHOS CORPORAL

Já foi referido em algumas oportunidades durante este trabalho que o contexto de ocorrência de um fato social é determinante para a constituição do referido e que, mediante as inúmeras variantes e interferências a que o ambiente está submetido permanentemente, o contexto vai se modificando de modo constante e não-linear (ou não óbvio), assim como, ao modificar-se, modifica o que a ele está atrelado. Tal compreensão se apóia em autores como Geertz (1989), Rodrigues (1975) e Katz & Greiner (2002), que atestam esta condição de co- contaminação entre o sujeito e o seu entorno como um processo inestancável.

No ambiente carnavalesco, considero que se processa algo bastante semelhante. As condições de ocorrência do carnaval configuram um ambiente bastante particular e as inúmeras variáveis que estão associadas a este contexto engendram rotinas próprias e se desdobram em modos peculiares de comportamento durante o período carnavalesco.

Atestar a existência do ethos corporal carnavalesco significa, neste ínterim, ratificar a importância no carnaval como ritual nacional brasileiro e, por consequência, a compreensão de que o corpo é um dos principais símbolos do carnaval de rua, que assume uma gramática gestual própria no período das festas momescas.

Mediante tal concepção, caberia indagar como se comporta o corpo e que possibilidades gestuais configurariam este ethos corporal a ponto de torná-lo marcante deste momento ritual. Todavia, o que percebemos no processo de investigação de campo, durante os seis anos de convivência com o carnaval de rua de Pelotas, é que o estabelecimento de uma gramática específica se torna tarefa quase impossível, pois a liberdade e a criatividade expressas no dado contexto se desdobram infinitas alternativas gestuais, cinestésicas e comportamentais, de modo a inviabilizar um rol gestual determinado ou fechado.

Independente desta condição é possível identificar que existem pressupostos de significação, que apresentam certa recorrência e que, embora deduzam gestualidades diferentes, acabam por agir de modo decisivo neste processo de construção de significados, que se articulam para a gestação do ethos corporal carnavalesco.

É imprescindível destacar que a configuração do ethos corporal não se processa, neste sentido, numa perspectiva linear e, assim sendo, se apresenta mediante diferentes possibilidades expressivas e gestuais de acordo com cada micro-contexto carnavalesco a que está vinculado. Assim, pode-se dizer que existe um ethos corporal carnavalesco que abrange a sociedade em geral no período do carnaval, mas que se configura efetivamente a partir dos contextos específicos de sua ocorrência.

Deste modo, ao tomar como referência o recorte metodológico a que me proponho com a presente tese, cabe destacar que existe um ethos corporal carnavalesco que se instaura no âmbito dos desfiles de rua do carnaval pelotense e que apresenta modos de comportamento corporal-gestual específicos e distintos para os micro-contextos dos blocos burlescos, de um lado, e das escolas de samba do grupo especial, de outro. Apesar desta distinção, existem elementos das gramáticas gestuais que transbordam estes ambientes e circulam entre um e outro destes espaços de ocorrência.

Estes indicadores de especificidade a que o ethos corporal está atrelado são constituídos a partir das características inerentes aos referidos contextos, nos quais são articuladas uma série de peculiaridades, já referidas e mencionadas anteriormente. Tal processo de co-contaminação é quase osmótico, uma vez que o ambiente gerado dentro do espaço de desfiles se espalha fazendo com que a energia e a cinestesia sejam contagiantes

dentro da passarela, e também extrapolem para fora dela, de modo que os sujeitos participantes na condição de público ou platéia também sejam contagiados.

Ao desfilar em entidades carnavalescas diferentes durante estes seis anos de investigação de campo, presenciei uma série de sensações e situações pelas quais passei e fui registrando determinadas impressões e/ou percepções que surgiram ao longo do processo. Abaixo, destaco alguns destes pontos104 que mencionei:

- “A energia da música é contagiante”: o som das baterias, dos tambores, das vozes, enfim, das músicas que são executadas durante o desfile produzem sensações que estimulam o movimento, geram um envolvimento ímpar; é como se fosse impossível não se deixar levar por aquela sonoridade;

- “Há uma atmosfera envolvente entre passarela e público”: por vezes, é como se todos (platéia e desfilantes) fossem uma coisa só; constitui-se naquele cenário amplo de realização do desfile de carnaval uma atmosfera amistosa, de envolvimento, onde o público é parte essencial para que tudo seja como é; os olhares, a comunicação, os aplausos e toda a gama de gestos interativos que são produzidos pelos sujeitos de dentro e de fora da passarela fazem com que todos componham de maneira decisiva aquele ambiente;

- “O movimento é contagioso”: assim como a música, o movimento também cria uma atmosfera de envolvimento e acaba contagiando as pessoas; tanto na passarela quanto nas arquibancadas e camarotes é possível perceber a maioria das pessoas se movendo, dançando, se mexendo de diferentes modos; a sensação de haver alguém próximo a você que está balançando os braços, tirando os pés do chão, acenando com as mãos, movendo quadril ou cabeça ou ainda arriscando algum “passinho” com as pernas é um convite para que você também se mova; assim, o movimento vai contagiando de um a um e, quando se percebe, quase todos os sujeitos que participam do ritual (independente do papel que nele ocupam) estão tomados de alguma forma pelo movimento;

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Estas frases, apesar do uso das aspas, são de minha autoria e foram escritas durante a participação nos desfiles ou imediatamente após o encerramento destes.

Foto 5 – Desfile do bloco burlesco toma conta da Passarela do Samba (Tomberg, 2012)

- “É como se o tempo parasse”: quando estamos desfilando não temos a percepção sobre a passagem do tempo, é como se o relógio ficasse estagnado e nada mais acontecesse fora daquele ambiente; tanto pelo aproveitamento quanto pela tensão (em alguns casos), a relação com o tempo é substancialmente modificada; à exceção daqueles que têm como função cuidar do controle do tempo de desfile (previamente designados para tal), a grande maioria dos desfilantes “nem vê o tempo passar”, pois está envolvida de modo muito intenso com aquela atmosfera que se cria durante a participação no desfile de carnaval;

- “Existe a necessidade de registrar o momento”: a alegria e a satisfação expressas de modo bastante explícito parecem necessitar serem registradas para que não terminem, para que haja a prova de que aquilo tudo foi vivido e mesmo para que sejam rememoradas em outro momento; as câmeras, máquinas fotográficas, filmadoras e mesmo os aparelhos celulares são recursos utilizados para registrar a participação no carnaval, tanto por parte daqueles que são público, quanto daqueles que desfilam (especialmente no caso dos blocos burlescos); assim sendo, posar para uma fotografia é algo indispensável;

Foto 6 – Foliões com corpo pintado posando para foto durante o desfile do bloco burlesco (Tomberg, 2012)

- “Parece que todos estão te olhando”: mesmo que existam centenas ou até milhares de pessoas desfilando na passarela do samba, você presencia a sensação de que todos que estão ali prestigiando o desfile parecem estar te olhando; o sujeito se sente o centro das atenções quando desfila, pois é cumprimentado por pessoas que não conhece e mesmo que nunca viu, porque está no foco, no centro do ritual (ou zona focal) e também porque os sujeitos desfilantes ocupam o lugar/posição daqueles que estão ali para serem vistos; aí se processa a distinção entre a notoriedade e o anonimato, pois você, antes de entrar para a passarela, ocupa um lugar de anônimo e quando entra para o desfile e “todos começam a te olhar” você passa a ser o centro das atenções, assumindo, então, uma posição de notoriedade;

- “Não há vergonha de nada”: o desfile de carnaval parece pressupor uma aceitação inquestionável do diverso, uma vez que tal condição faz com que nos sintamos “desenvergonhados” acerca de qualquer especificidade que se processe naquele contexto; independente do traje que estejamos vestindo, de como estejamos cantando e mesmo do modo com que estejamos nos movendo na passarela, se ausenta de nós qualquer resquício ou possibilidade de vergonha ou rubor; a alegria, a irreverência, o bom humor, a satisfação, a descontração e até mesmo a ousadia é que tomam o lugar de destaque neste cenário;

Foto 7 – Homem trajado com vestido e peruca extravasa alegria do desfile de carnaval (Xavier, 2012)

- “Surge uma sensação de pertencimento”: talvez pareça engraçado ou estranho mencionar a ideia de pertencimento a respeito de algo do qual você participa, mas a sensação de coletividade, de envolvimento, de não estar sozinho, de fazer parte de um grupo ou tribo é muito marcante quando da participação no desfile; apesar das distintas posições ocupadas dentro daquele cenário, todos compõem algo maior, cuja marca é a diferença, ou seja, desfilar é pertencer a um contexto de diversidade e sentir-se envolto por uma atmosfera coletiva, uma continuidade entre público e passarela.

Estes aspectos acima relatados auxiliam na compreensão do ethos corporal

carnavalesco, que está associado a algumas marcas simbólicas produzidas pelo

comportamento dos sujeitos durante o desfile de rua. Todavia, tais signos da linguagem corporal empregada não delimitam uma gramática gestual fechada, uma vez que a produção de novos signos se dá permanentemente dentro de tal contexto.

A gramática gestual estabelecida no período das Festas de Momo associa o ethos

corporal carnavalesco ao uso das técnicas corporais extracotidianas, uma vez que os modos

de apresentação do corpo demarcam “situações de representação”, ou seja, situações nas quais a utilização do corpo escapa à cotidianidade e, portanto, sugerem movimentações específicas àquele dado contexto.

Cabe também mencionar que estão circunscritas neste universo de extracotidianidade de técnicas corporais aquelas expressões gestuais oriundas de técnicas corporais cotidianas e que assumem a condição de extracotidianas por estarem imersas em um contexto extracotidiano. Na foto abaixo (Foto 9), visualizamos diversos foliões participando do desfile de rua de um dos blocos burlescos do carnaval pelotense e que estão caminhando e usando roupas aparentemente cotidianas, de uso em sua rotina habitual, ao passo que alguns poucos foliões estão trajando adereços, adornos ou mesmo fantasias (esta discussão será retomada e aprofundada no item 5.4).

Ainda, no contexto dos desfiles de rua é possível identificar graus diferentes de apropriação, execução e simbolização das movimentações realizadas no âmbito do ethos

corporal – aqui entendido como um modo peculiar de ser e mover o corpo – que vão do mais

simples ao mais complexo. De todo modo, não se pode perder de vista que a movimentação corporal varia de acordo com o papel e função desempenhados, assim como a qual subcontexto que o sujeito está vinculado (bloco burlesco ou escola de samba, por exemplo) e em que momento, dentro do ritual, realiza tais movimentos.

Foto 10 – Comissão de Frente executa sua coreografia e apresenta a escola de samba na avenida (Marques, 2011)

Neste sentido, a imagem acima (Foto 10) apresenta uma das seqüências coreográficas da Comissão de Frente de uma das escolas de samba do grupo especial de Pelotas, onde se percebe a busca pela sincronia na execução do gestual. O emprego de técnicas corporais extracotidianas, neste caso, denota uma movimentação corporal temática do enredo apresentado pela escola e que se desenvolva de forma mais complexa que a apresentada na foto anterior, relativa ao desfile do bloco burlesco.

O universo da corporeidade empreendida no desfile de rua indica uma diversidade de apresentação do ethos corporal carnavalesco nos diferentes âmbitos do carnaval. Vale destacar que pelo fato do desfile de escola de samba ser constituído de uma complexidade maior, onde a subdivisão interna das partes da escola deduz um contingente de funções e papéis mais abrangente que aquele que compõe o desfile dos blocos burlescos, existe um rol de comportamentos corporais bastante diverso e mais limitado na escola de samba em relação aos blocos.

Esta limitação deve-se prioritariamente ao fato de que os papéis e funções que os foliões assumem no contexto do desfile da escola de samba indicam determinados comportamentos corporais associados a estes papéis, gerando, de certo modo, uma previsibilidade a respeito do que será apresentado no desfile.

Tal condição aproximada de um comportamento corporal previsível não aponta para a ausência de criatividade por parte de quem desfila ou mesmo que já se tinha conhecimento prévio daquilo que será apresentado na hora do desfile. Todavia, é inegável que existe um universo simbólico que denota uma gramática gestual própria para as funções e temas que são apresentados pelos sujeitos no desfile. Por exemplo, mesmo que o tema e a coreografia da comissão de frente seja diferente a cada ano, existem determinados signos que compõem basicamente o papel da comissão de frente dentro do desfile da escola, uma vez que sua função é abrir o desfile e apresentar a agremiação carnavalesca ao público presente e aos jurados.

Tomando o corpo como referência primordial neste processo de significação inerente ao contexto dos desfiles de rua do carnaval, cabe entender que é nele (corpo) que se materializam prioritariamente as marcas simbólicas que constituem o rito carnavalesco, de acordo com o papel desempenhado dentro do referido contexto.

5.3 A CONSTITUIÇÃO DO CARNAVAL COMO RITO DE PASSAGEM: O CORPO