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A escolha da cidade de Pelotas para a realização do trabalho de campo do presente estudo é justificada, entre outros fatores, por dois motivos essenciais: pela representatividade que o carnaval de rua pelotense tem no cenário dos carnavais gaúchos e também pelo conjunto de características que constituem tal manifestação popular nesta cidade, uma vez que é possível perceber a manutenção de alguns componentes bastante específicos da festa como que num movimento que entendo como de parcial resistência às referências estéticas contemporâneas reproduzidas por alguns dos principais carnavais do Estado do Rio Grande do Sul.

Para seguir com a descrição deste contexto, que foi analisado durante o período de investigação de campo realizada para a presente pesquisa, considero pertinente trazer, pois, alguns pressupostos históricos que influenciaram na configuração que o carnaval pelotense assumiu na contemporaneidade.

Não realizarei na presente tese um movimento de discussão aprofundada sobre a história do carnaval de Pelotas, considerando que não é este o objetivo do trabalho, o qual se concentra numa análise da referida manifestação nos dias atuais. Sendo assim, meu papel nesta seção é o de trazer alguns apontamentos referentes à constituição e história do carnaval pelotense, como modo de permitir uma melhor compreensão deste cenário atual onde o trabalho foi realizado.

Conforme já foi mencionado, o foco principal está concentrado na descrição e análise do contexto do carnaval de rua de Pelotas entre os anos de 2008 e 2013, período de seis anos em que estive em contato direto com o referido ambiente a fim de realizar as pesquisas de mestrado e doutorado, consecutivamente.

Tal qual acontece em outros lugares do país, não há, em Pelotas, uma posição unânime a respeito da origem das primeiras manifestações carnavalescas presenciadas na cidade. Em um importante trabalho publicado com o intuito de problematizar a questão, Barreto (1994) já traz no título da referida produção uma indagação motivadora da temática: “Carnaval Pelotense: europeu ou africano?”.

Tal autor, apoiado na análise de diferentes pesquisadores e historiadores, lança mão, de início, de um questionamento importante que está bastante presente no imaginário

pelotense, pela história da formação cultural da cidade, que aponta uma origem africana para a composição do carnaval da cidade.

Por dedução lógica, segundo ele, muitos autores apóiam-se em dois fatores principais para declarar a gênese da folia momesca pelotense como africana: 1) “o contingente expressivo de negros na cidade, reflexo da produção econômica das charqueadas e seu uso extensivo do trabalho escravo” (que chegou a ser de um terço da população urbana em 1890)46; e, 2) “a atual configuração africanizada da festa momesca”. (BARRETO, 1994, p.2)

Todavia, existem outros fatores que deflagram grande participação européia, na constituição do carnaval pelotense, e que pode ser situada a partir do processo colonizatório e imigratório dos países do velho continente nas terras charqueadoras pelotenses.

Demarcação simbólica de tal condição é a existência do Entrudo Português em Pelotas, ainda no século XIX, conforme apontava o Jornal Diário Popular em 1º/02/1890: “Há uns bons nove ou dez anos (...) ninguém se continha: moços e moças, velhos e velhas – de acordo – reuniam-se na praça (...) e numa intimidade doce, invejável, numa confiança cega – se atiravam todos às delícias do Entrudo”47.

A configuração do Entrudo remetia-se às formas européias de brincar o carnaval, vindas através dos colonizadores portugueses e que simbolizavam manifestações típicas dos Festejos de Momo48, provenientes de aldeias da Península Ibérica. Durante os festejos do Entrudo, eram realizadas brincadeiras com „limões” e “laranjas-de-cheiro” e “enfarinhamentos”49

, ou mesmo o ato de molhar com água os foliões utilizando-se de seringas, bisnagas e até baldes ou tinas.

Segundo VON SIMSON (apud SEBE, 1986), a participação do negro no Entrudo era minoritária, sendo que a ele cabiam três funções principais: assistente dos brancos, vítima passiva das brincadeiras realizadas pelos brancos ou vendedor das laranjas e limões-de-cheiro que eram fabricados para serem comercializados durante a respectiva festa. No intervalo de suas atividades, os negros podiam “jogar” o Entrudo, (desde que isso ficasse restrito ao

46 Vide: LONER & GILL, 2009, p.146-147. 47

Um elemento indispensável na história do carnaval pelotense trazia a denominação de “pulha” ou “pulhas”. De acordo com Barreto (2003, p. 25), os “pulhas” eram indivíduos fantasiados que percorriam a cidade, individualmente ou em pequenos grupos, fazendo brincadeiras e divertindo os Dias Gordos. Estes foliões eram contrastados, por vezes, com os fantasiados de luxo e caracterizados, além de suas singelas vestimentas, por travessuras de mau gosto e pelo “mau cheiro”.

48 Segundo Barreto (1994), o termo referia-se a uma forma de festejar os Três Dias Gordos, cuja realização se dava mais no meio rural ou em pequenos aglomerados urbanos daquela referida região européia.

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Limões e laranjas-de-cheiro eram pequenas bolinhas de cera contendo águas perfumadas; Enfarinhamentos eram chamadas as ações de lançar farinha (ou pós semelhantes) nos foliões durante a festa.

próprio agrupamento negro), atividade que era realizada, todavia, mantendo os padrões do “Entrudo Branco”.

Conforme detecta Barreto (2003, p. 24), 1909 é o ano no qual se encontram as últimas referências na imprensa pelotense a respeito da presença do Entrudo no carnaval da cidade. Apesar disso, o autor chama a atenção para o fato de que isto não significou que o referido modo de expressão carnavalesca não continuasse sendo realizado, uma vez que, como nos chama a atenção, a respectiva imprensa “se movimenta pela ótica de elite e nem sempre abre espaço para as manifestações mais simples ou populares, caso do Entrudo e do Pequeno Carnaval”.

Através da detecção da época de ocorrência de tal episódio, é possível identificar que a realização do Entrudo em Pelotas já coincidia com o período do chamado “Carnaval Veneziano ou Grande Carnaval”, que, em alguns lugares do Brasil, chegou a compreender por volta de setenta anos, entre a segunda metade do século XIX e a segunda década do século passado.

Esta fase se configurou como um modo de expressão carnavalesca que pode ser considerado a transição entre o “Entrudo” (colonização até 1850) e o “Carnaval Popular” ou simplesmente “Carnaval” (a partir de 1920). Estes tipos de ocorrência do carnaval mencionados são utilizados como classificação dos três grandes momentos do carnaval no Brasil. (BARRETO, 1994; 2003; QUEIROZ, 1999). Sobre tal transição, Barreto explica:

Quanto à passagem do Entrudo ao Carnaval, cabe ressaltar que a imprensa de Pelotas ainda se refere ao Entrudo em 1905, quando ele já perdeu sua força e foi substituído (pelo menos em grandes centros) pela forma “civilizada”: “e o Entrudo?... Por aqui não se proíbe nada, meu bom povo. Podes jogar o repuxo, o limão, o relógio, a bisnaga e o lança-perfume. Até o sifão, rapaziada, até a água de soda podes encharcar a tua pequena (...)”50. Cabe informar, inclusive, que o Entrudo numa versão mais atenuada e sofisticada, com lança-perfume e batalha com flores ao invés de água e farinha, persiste em Pelotas nos anos 10, quando ocorre, justamente, o apogeu dos préstitos51 e dos clubes. (BARRETO, 1994, p.12-13)

50 Trecho extraído do Jornal Diário Popular, edição de 07/02/1905.

51 “Préstito” era um desfile de carros alegóricos pelas ruas da cidade, evento que buscava mostrar luxo, refinamento e arte, com vistas a deslumbrar a platéia. No carnaval pelotense, eles não eram novidade, pois vinham sendo apresentados desde a década de 1870, embora não de modo contínuo. O padrão era a realização de dois passeios: um durante o tríduo momesco, outro durante a “Pinhata” (final de semana posterior ao Carnaval, o que em outras localidades é chamado de “Enterro dos Ossos”). O préstito era aberto por uma banda de clarins a cavalo, seguindo-se os carros alegóricos, a começar pelo do Porta-Estandarte. Alguns possuíam guarda de honra, em especial o da Rainha. Fechavam o cortejo: o zabumba (carro alegórico mais simples em comparação aos demais, que trazia rapazes fantasiados que tocavam instrumentos de percussão) e decorados veículos de tração animal (depois substituídos por automóveis de capota descoberta) que transportavam diretores, associados e simpatizantes. As bandas ficavam entre algumas das alegorias para garantir que sempre houvesse acompanhamento musical. Vide: BARRETO, 2011, p. 234-235.

O período seguinte (situado aproximadamente entre 1850 e 1920), que marcou efetivamente a substituição do Entrudo pelo Carnaval Veneziano e ficou caracterizado, entre outras coisas, pela realização dos bailes de salão e desfiles de clubes com carros alegóricos, também atestou aspectos políticos relacionados ao carnaval, conforme nos aponta o relato a seguir:

Promovido pela elite, exigindo um certo padrão econômico do folião, era uma nova maneira de festejar, reputada como mais civilizada e adequada ao desenvolvimento vivido pelo país, especialmente após a chegada da Família Real Portuguesa. O processo de substituição do Entrudo pelo Carnaval durou praticamente todo o século XIX e, quando se consolidou o novo modelo, o festejo ganhou em luxo, perdendo a participação popular efetiva, isso porque o povo passou a assistir aos desfiles. O papel dos negros permanece minoritário: trabalham na confecção dos carros, controlam os cavalos ou bois que puxam as alegorias e assistem os préstitos. Outro destaque é que muitas das sociedades carnavalescas participam da campanha abolicionista e republicana, usando de seus recursos para comprar a liberdade de negros. (BARRETO, 1994, p.12)

O relato acima faz referências importantes que reiteram a compreensão do fenômeno carnavalesco como um processo histórico de relevância singular que, inclusive, extrapolam as próprias margens do ambiente festivo momesco. Embora as atribuições dos negros não tenham sofrido grandes modificações em relação à sua participação no momento anterior do Entrudo, percebe-se que o exercício de expressão ideológica a favor do término da escravidão e, mais ainda, em prol de sua efetivação pós-assinatura da Lei Áurea (em 13 de maio de 1888), é um marco importante do papel político que o carnaval desempenhou para a sociedade daquela época, trazendo a causa libertadora para as ruas, através do carnaval52.

Outro ponto relevante que merece ser destacado neste período é a redução significativa no caráter popular e participativo da festa carnavalesca. O aumento excessivo de custos para a participação no novo modo de realização instituído pelo Carnaval Veneziano (de origem italiana, mas também com grande influência francesa, especialmente de Nice e Paris) fez com que a participação efetiva no desfile se tornasse um privilégio da elite. Este fator obrigou o povo a se contentar em assistir ao corso53 e ao cortejo dos carros alegóricos (BARRETO, 2003), uma vez “eram necessários significativos recursos econômicos e inserção em determinados grupos sociais, com vistas a: associar-se ao clube, adquirir a fantasia; ser

52 Conforme Mello (1994, p.69), tanto em Pelotas quanto em Porto Alegre, são as sociedades dos Nagôs e a dos Congos, respectivamente, as primeiras a reivindicar o fim da escravidão nos desfiles, a apresentar carros manifestando o desejo pela “redenção dos cativos” e, além disso, a exemplos de outras entidades, a angariar fundos para a compra de cartas de alforria.

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proprietário ou poder alugar carro ou automóvel” para participar do carnaval neste período. (BARRETO, 2011)

Um fator marcante no cenário carnavalesco pelotense que coincide com este período foi gerado a partir dos clubes sociais e carnavalescos, os quais tiveram presença decisiva para a composição do cenário do carnaval que se realizava àquela época. Destacam- se, aí, o Club54 Carnavalesco Nagô (organização do movimento negro) e os Clubes Diamantinos e Clube Brilhante (representativos da elite branca)55.

O Club Carnavalesco Nagô (C.C. Nagô), que teve seu surgimento em 1882 e era composto por negros libertos de origem Nagô, chamava a atenção da sociedade pelotense durante o período de carnaval, desde sua criação e de suas primeiras aparições públicas. Mello (1994, p.68-69) chama a atenção pata tal aspecto, entendendo que “é na rua que os negros ganham visibilidade estética, pelo sentimento de pertença e pela beleza da festa”. Segundo o autor, sociedades negras (como o C.C. Nagô) “surgiram originalmente das congadas56 e se constituíram como uma reação aos bailes burlescos nas grandes sociedades carnavalescas que existiam em Porto Alegre e Pelotas”.

Reportagens nos veículos de comunicação pelotense da época davam destaque para a participação dos negros no carnaval:

A monotonia a que parecia condenado o carnaval foi dissipada pelo brilhantismo com que se apresentavam os clubs „Nagô‟ e „Trovadores do Luar‟. O primeiro com banda de música, formando em alas, trajando costumes africanos, conduzia um carro representando a aurora da liberdade, no cimo do qual, por entre nuvens aparecia uma gentil criança, que simbolizava a redenção do escravo, belíssimo pensamento que mereceu gerais aplausos. (...) (CORREIO MERCANTIL. Pelotas, 08/02/1883)

No final do Império, os grupos de negros trazidos para a região como mão-de- obra escrava, especialmente para o trabalho nas charqueadas, optaram por congregarem-se entre si em entidades de diversas naturezas como profissionais, étnicas, desportivas e futebolísticas, recreativas, teatrais, carnavalescas, além de entidades de assistência às crianças e de representação de classes, formando uma ampla rede associativa.

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A expressão “Club” corresponde ao nome original da referida entidade (idem clube).

55 Sabe-se da existência de outros clubes carnavalescos da época (década de 1880) como “Satélites de Momo”, “Estrela do Sul”, “Helênico”, “Demócrito” e “Tire-Bouchon” (LOPES, 2011, p. 141); entretanto, optou-se por mencionar estes três clubes (Diamantinos, Brilhante e Nagô) por considerar que são os mais representativos deste período e, também, porque não é intenção do trabalho fazer um mapeamento histórico de todas as entidades desta natureza que existiam em Pelotas naquele momento, mas ilustrar estes apontamentos históricos com exemplos do período.

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Festas folclóricas negras trazidas para o Brasil pelos africanos, nas quais são celebradas a eleição e a coroação do Rei Congo, de África.

Embora este amplo e complexo processo de organização tivesse uma repercussão social bastante significativa entre a etnia negra, Loner & Gill (2009) explicam que tal movimento ainda não buscava a construção de uma identidade étnica, mas sim de auxiliar no processo de socialização e inclusão social dos negros, além de auxiliar a amparar seus sócios57.

Por outro lado, o Clube Diamantinos e o Clube Brilhante demarcavam a soberania dos representantes da elite branca pelotense mediante a realização dos préstitos, eventos bastante pomposos e de pura ostentação e imposição econômica, conforme é relatado no trecho que segue:

No mesmo período [década de 1910], em Pelotas, ele [Carnaval Veneziano] atingia um patamar sem medida de comparação com o que apresentara até então, principalmente graças à rivalidade entre dois clubes carnavalescos: Diamantinos, fundado em 1906, e Brilhante, criado cinco anos depois. A denominação dessas entidades não deixa dúvidas sobre a qualidade de seus componentes, afirmados como jóias de alto valor, reflexo de suas posições na hierarquia social. [...] O ponto alto da atividade dos clubes residia no préstito. [...] O Diamantinos veio a público nos anos de 1907 a 1918 e em 1920. Já o Brilhante, de 1912 a 1920, com exceção de 1918. [...] Não havia coordenação entre as entidades para formular regras comuns em relação aos cortejos e tampouco ação do poder público com vistas a definir o dia e a duração do passeio, a ordem de saída das entidades e o roteiro a ser percorrido. Igualmente, inexistia concurso oficial. [...] Os clubes também demonstravam o gosto por inovações tecnológicas, como: novos efeitos de iluminação, uso de diversos tipos de espelhos e, grande destaque, alegorias móveis, que estrearam em 1913. (BARRETO, 2011, p.234-237)

Além dos préstitos, outras opções carnavalescas58 para a elite da época eram o corso e a batalha das flores59. O corso se constituía como um passeio, que cumpria

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De acordo com Loner & Gill (2009, p.149), no ano de 1933, houve a mais importante iniciativa de organização política negra na cidade, com a formação da Frente Negra Pelotense, que se propunha a lutar pela educação e elevação do negro na sociedade, articulando um expressivo grupo, na tentativa de conscientizar os demais, através de palestras e conferências nas associações negras. A Frente Negra Pelotense enviou um representante ao 1º Congresso Afro-brasileiro do Recife (1934), o qual leu um manifesto denunciando a existência da segregação no sul. Apenas em poucas cidades do país houve a criação de associações do mesmo gênero, a maioria delas, tal como a pelotense, inspirada na Frente Negra Brasileira de São Paulo, que depois progrediu para a idéia da criação de um partido negro, o que não aconteceu devido à conjuntura repressiva do Estado Novo. Contudo, a Frente Pelotense era diferenciada ideologicamente, pois, além de lutar contra a discriminação racial, buscava, através da educação, capacitar o grupo negro a ocupar uma melhor posição na sociedade e tinha elementos socialistas em seu seio, enquanto a frente paulista era simpática ao governo Vargas e desenvolveu posturas xenófobas.

58 Também há que ser mencionada a realização dos Bailes de Carnaval nos Salões dos Clubes, tanto os de fantasias quanto os de máscaras (bal masqué). De acordo com Barreto (2011, p.241), “eles [bailes] não constituíam uma novidade naquela época, pois compunham o elenco da folia há muito tempo – e assim continuam. Embora necessários à festa, que sem os bailes não seria a mesma, nem por isso eram vistos como uma manifestação que pertencesse à essência do carnaval, isso porque não eram realizados nas ruas, o lócus por excelência das comemorações. Assim, o „Carnaval Veneziano‟ precisava dos bailes de salão, mas se só houvesse tais festejos, faltaria o principal, composto pelo préstito e, em menor medida, pelo corso”. Em 1915, Pelotas chegou a ter sete bailes em clubes; número que caiu para três em 1920 (BARRETO, 2003, p.74). Segundo Lopes (2011, p.145), também o Clube Comercial realizava bailes de carnaval neste período.

determinado trajeto definido previamente e era realizado por automóveis decorados, descobertos ou “de capota arriada”, os quais traziam as famílias, os vizinhos e os amigos. A maioria vinha fantasiada (por vezes, também se apresentavam com máscaras), os quais brincavam entre si ao jogarem serpentinas, confetes, lança-perfume e flores. Segundo explica Barreto (2011), eles ocorriam tradicionalmente no domingo de carnaval e na terça-feira gorda, assim como no domingo da Pinhata (ou Enterro dos Ossos).

Barreto (2003) aponta outro aspecto peculiar do carnaval pelotense desta época, compreendido no âmbito dos festejos pré-carnavalescos. De acordo com o autor, na década entre os anos de 1910 e 1920, torna-se de grande relevância a realização dos espetáculos teatrais, ligados especialmente ao Clube Brilhante e ao Clube Diamantinos, que atuavam como alternativas de subsídio ao carnaval.

Tais eventos, de cunho erudito à época, eram realizados com o intuito especial de obter recursos para financiar a realização dos préstitos. Além de operetas, os referidos clubes realizavam outros espetáculos e eventos como a Coroação da Rainha e apresentações musicais, tendo como palco o Theatro Sete de Abril ou o Teatro Polytheama. O Clube Brilhante, por exemplo, foi o responsável pela realização de cinco operetas entre 1914 e 1919. (idem, 2003, p.74)

Este cenário carnavalesco de predominância européia começa a ser redimensionado no início do século XX, especialmente a partir da segunda década, quando a miscigenação étnico-cultural (e, consequentemente, estética), aliada a uma maior e mais efetiva participação popular, foram responsáveis por uma ampla reconfiguração do carnaval, cuja similitude apresenta-se mais condizente com o carnaval presenciado nos dias de hoje.

Em sua valiosa contribuição com o estudo sobre o carnaval de Pelotas, Barreto (2003), ao investigar as modificações da folia carnavalesca na cidade durante os anos de 1890 a 1937, analisa a alteração presenciada pelos agentes principais da folia pelotense, que passou dos setores de elite às classes populares. A este respeito, o autor traz: “como resultado, os costumes deixaram de ser manifestação de um modelo de raiz européia, para se tornar uma mescla entre a matriz européia e reminiscência de festas profano-religiosas de origem africana”.

Sobre o processo de passagem do Grande Carnaval (ou Carnaval Veneziano) para o Pequeno Carnaval (ou Carnaval Popular), em Pelotas, há que se considerar um aspecto

O episódio dos Bailes Carnavalescos de Salão não será aprofundado aqui, uma vez que o foco da pesquisa concentra-se nas expressões provenientes dos desfiles do carnaval de rua.

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político importante que orienta o próprio olhar a respeito das condições transicionais que se estabeleceram na configuração do carnaval da cidade, a partir de então.

Para empreender nesta reflexão, apóio-me na observação feita for Barreto (2003, p. 81) a respeito dos acontecimentos carnavalescos ocorridos em Pelotas a partir da segunda década do século passado: “falar em decadência da folia, no período posterior a 1920, é um juízo imediatista, baseado unicamente no fato de ter desaparecido a grande modalidade de comemoração, e numa ótica excessivamente voltada aos valores da elite”.

A mudança dos padrões vigentes, conforme presenciado à época, não representou necessariamente uma regressão ou decadência do carnaval pelotense, mas um redimensionamento organizacional, participativo e estético da festa, que passou a envolver de outro modo camadas da população cuja participação, até então, era restringida por fatores sociais e econômicos.