3.6 ESTRUTURAS SONORAS – A MÚSICA COMO UM CORPO SONORO
3.6.4 O corpo se concentra e dança – exercícios e comentários
Observamos que a prática da concentração através das Estruturas Sonoras de Gelewski revelou-se, durante o laboratório de prática, como um momento de quietude, sincronicidade entre as participantes, e de interiorização, ao mesmo tempo em que nos permitia o processamento interior de suas outras propostas.67 Partindo do princípio referenciado no próprio método: “o critério que rege a ordem dos exercícios é o princípio do MAIS SIMPLES PARA O MAIS COMPLEXO” (GELEWSKI, 1974, p. 10) - escolhemos trabalhar com o primeiro exercício de Estruturas Sonoras 1 e o exercício inicial de Estruturas
Sonoras 2, vol.II, que abre a série com movimentação reduzida de braços, mãos e tronco. (E
25). E posso dizer, preliminarmente, que mesmo trabalhando os exercícios mais simples e nas suas menos complexas possibilidades de realização, chegamos a graus aprofundados de interiorização, reflexão e percepção da ressonância dessas propostas “em nosso próprio corpo e SER”.
Introduzimos o método no início da segunda parte de nosso laboratório, começando com Estruturas sonoras 1, repetindo o exercício em dias alternados, passando em seguida para Estruturas sonoras 2. No primeiro caso, a fase de improvisação abria sempre novas possibilidades de variação e criação em torno do sugerido. No segundo caso, buscamos seguir estritamente as instruções escritas na publicação pela sua especificidade e concisão. Em ambos eu conduzia a execução dos exercícios e sempre que possível experimentava junto, razão porque descrição e execução coincidem no primeiro exercício.
Estruturas Sonoras 1 - E 1
Música: (preâmbulo de) ARNS MAGNA Compositor: Johann Speth
Execução: Jan Jangepier (Órgão Holandês do séc XVIII)
67
Note-se que, conforme dito anteriormente, este método foi trabalhado de forma transversal, a partir da segunda parte do laboratório de prática, em dias não consecutivos.
Descrição e execução: Na realização deste exercício não se solicita um posição corporal específica, apenas um tipo de escuta concentrada. Iniciamos sentadas, com a representação gráfica da música à nossa frente. A primeira fase do exercício é a de ouvir repetidas vezes o trecho de música selecionado. Na segunda fase, aliamos à escuta, a visualização do gráfico I, e acompanhamos o desenho com um dos braços, buscando sincronizar a subida e descida do braço com a curva ascendente e descendente do arco que corresponde ao tempo exato de execução da música. Note-se que esta, por ter uma estrutura simplificada, compreende nesta primeira representação um grande arco. Na próxima etapa, buscamos desenhar o arco no espaço com um movimento contínuo de todo corpo (mesmo permanecendo sentadas) em sincronia com a música. A seguir, nos aproximamos do papel e, colocando o dedo indicador sobre a representação gráfica, desenhamos o grande arco buscando sincronizar desenho, movimento e música. Na última fase, buscamos improvisar movimentos em sincronia com a música, o mais livre possível, em deslocamento no espaço. Nesta fase, a música já deve estar interiorizada e, se possível, não “pensamos” mais em sua estrutura.68
Variação e criação: Observo que existem outros níveis de aprofundamento e variação na execução do exercício proposto, explorando, por exemplo, as representações gráficas II e III (também em arcos) da mesma música, que exigem uma escuta mais aprofundada, para discriminação dos elementos musicais e dos desdobramentos de sua estrutura-base, além de outras possibilidades didáticas em torno da mesma. Em nosso caso, ficamos no nível mais simples da estrutura musical (gráfico I), variando e criando em torno dos movimentos corporais e improvisações com a música e os desenhos. Exploramos, assim, as diagonais da sala, apenas visualizando os três arcos desenhados no gráfico III (sem distinguirmos racionalmente suas variantes musicais) – que simbolizou, para a nossa criação, as três fases da vida: infância, juventude e velhice; e, num segundo momento, se transformou em outro tema: o amanhecer, o sol do meio dia e seu poente. Além disso, realizamos essa diagonal em dupla: cada executante saindo de uma diagonal oposta da sala, improvisando concentradamente com foco em seu próprio corpo, escuta e percepção sonora. Muitas vezes, acontecia um encontro em algum ponto do caminho e, novamente, o centramento em seu próprio movimento e escuta era resgatado.
68 Noto que nessa descrição/execução, mesclam-se as instruções recebidas quando aprendi introdutoriamente o método com membros da Casa Sri Aurobindo, as instruções escritas por Gelewski e minha própria experiência criativa na condução do exercício. Não sei o quanto, neste último caso, estou sendo fiel ao método, mas me parece uma maneira viva de reinventá-lo a partir do que já foi registrado e vivenciado, desde seu criador até chegar aqui.
Comentários: “Trabalha o centramento do dançarino, sua concentração em si mesmo através da concentração no tempo da música...até encontrar o ponto interno para acompanhar a percepção sonora com o corpo.” (Karin). Já Diana se concentrou mais na música, lembrando de quando a mãe tocava “essas músicas renascentistas no piano” como insights para suas improvisações de dança. Patrícia se referiu a uma “meditação em movimento” e que, “nesse estado se aproxima do butô, embora no butô o ponto de foco seja o interno e o movimento surja a partir desse interno e não da música.” Também considerou, a partir dessa vivência, a profundidade e minúcia dos métodos de Gelewski.
Indicação: Trabalha a percepção sonora em sincronia com o deslocamento do corpo no espaço, as relações entre música, desenho e movimento (dança) e a concentração.
Estruturas Sonoras 2 – volume II
E 25 – Concentração-Unificação com movimento
Música: Gigue
Compositor: Johann Sebastian Bach Execução: Glenn Gould (piano)
Descrição: A posição inicial é sentada na parte de frente do assento de uma cadeira, com os pés afastados um do outro e mãos sobre os joelhos, dobrando levemente o trono e abaixando a cabeça até encostar o antebraço nas coxas e permanecendo um certo tempo quieto. Numa segunda fase, levanta-se o braço (aquele que estiver mais pronto para o movimento), erguendo-o verticalmente, com a mão estendida e, ao mesmo tempo, relaxada e simultaneamente, erguendo o tronco e levemente o rosto. Nesta posição, solicita-se uma concentração em todo o corpo, fechando os olhos, buscando um estado de reunião-de-si. Só num terceiro momento, entra a música e se inicia a descida do braço, sincrônica ao tempo da música, com movimento lento e suave, quase imperceptível, buscando manter a vertical, e observando que, quando a mão e o antebraço passarem em frente ao tronco, este volta a se curvar até alcançar novamente a posição inicial. (com mãos nos joelhos e antebraços nas coxas). Nesta fase, o professor-dançarino recomenda: “é de real importância que este movimento de descida seja executado de maneira absolutamente contínua e fluida, sem parada alguma, embora com uma extrema lentidão, invalidando-se a noção comum de tempo” (GELEWSKI, 1975, ex. 25, p.2)
Execução: Buscamos executar o exercício exatamente como descrito acima e seguir as recomendações escritas pelo professor, concentradas e cada uma “reunida em si”69
Comentários: Percebo, nas repetidas vezes em que executei (ou neste caso „guiei‟) este e outros exercícios de concentração de Gelewski, que eles exigem, realmente, uma interioridade e exatidão, uma reunião de corpo-mente-alma, um situar-se no momento presente. Notei o quanto é simples a execução quando nos colocamos na posição de disponibilidade para as instruções e, o quanto torna-se difícil quando estamos dispersos. Ao mesmo tempo em que intensifica nossa presença cênica e vivencial, proporciona um desacelerar do movimento exterior, para percebermos a dança interior: “A desintensificação do movimento externo, intensifica ainda mais o movimento interno e expande a noção de tempo e espaço, colocando-nos concentradas no momento presente”- escrevi em meu diário de prática. Diana comentou sobre o silêncio que sentiu no final da execução, e enfatizou a noção de suspensão do tempo cronológico: “O corpo entra em outro tempo”. Já Patrícia continuou na linha da meditação, aprofundando a percepção sentida com Estruturas sonoras
1: “Isto é meditação pura é também usado no treino do butô.” Ela observou que, diferente do
primeiro método, neste o movimento é mais independente da música e tem que ser bem lento, o que provoca esse estado de meditação: “No outro, é a partir da música...aqui é a partir do movimento. Aqui a música ambienta a emoção, a conexão, determina o jogo dramático. Com outra música seria outra a expressão do movimento!”
Indicação: Trabalha a concentração, a interiorização e a presença cênica.
Apresento, a seguir, as tabelas com o resumo dos exercícios referentes aos métodos
Estruturas Sonoras 1 e 2, experimentados em nosso laboratório de prática, seguido de
comentários e aplicações.
69Em Estruturas Sonoras 2, Gelewski explicita a recomendação de uma execução individual dos exercícios, para um trabalho sobre si mesmo, acompanhada por um condutor que já o tenha experienciado.
Quadro 5: Estruturas Sonoras 1 (1973) Princípios e Material Didático Exercício Descobertas: Comentários e Aplicações Material: 1. 25 músicas selecionadas. 2. 25 gráficos representando cada música. 3. Fichas de informação das músicas e seus compositores.
Princípios:
Relações entre música e movimento. Audição simples da música. Audição concentrada. Conscientização da estrutura musical. Utilização de gráficos para representar a música ouvida (e não a música escrita). Sincronização entre desenho, música e movimento. Improvisação em sincronia com a música. E 1 Música: Arns Magna Compositor: Johann Speth Descrição:
Inicia-se na posição sentada com a representação gráfica da música à frente.
Escuta repetida do trecho musical.
Escuta acompanhada de movimento do braço sobre o gráfico representativo da música.
Desenho do arco no espaço com movimento de todo o corpo em sincronia com a música.
Com o dedo indicador sobre o gráfico, desenha-se o grande arco buscando sincronizar desenho, música e movimento.
Improvisação livre, em deslocamento no espaço, em sincronia com a música.
Comentários:
“Trabalho o centramento do dançarino, sua concentração em si mesmo através da concentração no tempo da música.”(Karin)
Diana se concentrou na música e lembrou quando a mãe tocava “essas músicas renascentistas no piano” como insights para suas improvisações de dança. Patrícia se referiu a uma “meditação em movimento” e disse que nesse estado se aproxima do butô.
Aplicação:
Trabalha a percepção sonora em sincronia com o
deslocamento do corpo no espaço, e as relações entre música, desenho e
movimento (dança); bem como a concentração.
Quadro 6: Estruturas Sonoras 2 exercícios de concentração e unificação com base em audições específicas de música e movimentação reduzida do corpo (1974 – 1975 – revisado)
Princípios e Material
Didático Exercício
Descobertas: Comentários e Aplicações Material:
Dois volumes e um caderno introdutório contendo: 1. 14 audições a serem realizadas sem movimento físico. 2. 10 exercícios com gráficos indicando a movimentação de uma parte do corpo (ex. mão e braço).
3. 12 exercícios nos quais braços, mãos e tronco se movimentam de maneira restrita.
4. Caderno de instruções Princípios:
Movimentação reduzida do corpo para gerar estados de concentração e interiorização. Relação entre imobilidade, movimento, silêncio e música, alternando concentração, movimentação e pausas. E 25 (vol II) Música: Gigue
Compositor: Johann Sebastian Bach
Descrição:
Inicia-se sentado na parte da frente do assento de um banco ou cadeira, dobrando levemente o tronco e a cabeça baixa, até encostar os antebraços nas coxas e as mãos pousadas nos joelhos, permanecendo-se quieto.
Levanta-se um dos braços, erguendo-o verticalmente, com a mão estendida e relaxada, erguendo-se simultaneamente o tronco e o rosto levemente, e fechando os olhos.
Entra a música e se inicia a descida do braço, sincrônica ao tempo da música, com movimento lento e suave até alcançar a posição inicial.
Comentários:
Observei que este tipo de exercício exige uma
interiorização e exatidão, uma reunião de corpo-mente-alma e um situar-se no momento presente:
“A desintensificação do movimento externo intensifica ainda mais o movimento interno e expande a noção de tempo e espaço, colocando-nos concentradas no momento presente.” (Karin)
Diana comentou o silêncio que sentiu e notou a noção de suspenção do tempo: “O corpo entra em outro tempo”.
“Isto é meditação pura” - comentou Patrícia. Ela observou que neste segundo método o movimento é mais independente da música e bem lento, o que provoca esse estado de meditação. Aplicação:
Trabalha a concentração, a interiorização e a presença cênica.