2.2 UNIVERSO TRANS
2.2.1 O corpo seus usos e significados
Travestis e transexuais constituem um dos exemplos mais ilustrativos de uma perspectiva teórica que compreende o corpo como sujeito da cultura, como dimensão ativa e construída historicamente que influencia pensamentos e comportamentos ao passo que é influenciada por eles. Ao perceberem a reconstrução permanente do corpo como um aspecto fundamental de suas vidas, tais pessoas demonstram que a incorporação dos valores e das práticas não pode ser explicada simplesmente pela ideia de um esquema mental aplicado sobre um corpo natural, mas sim a partir da consideração da própria criação e experimentação corporal dessas características e valores (BENEDETTI, 2005).
A constituição desses sujeitos está diretamente ligada à elaboração dos corpos assim como as próprias características culturais do grupo. Isso faz com que a experiência seja uma forma de conhecimento muito valorizada. É o que ilustra a fala da travesti Porcina que, com a mesma desenvoltura, faz suas roupas e seu corpo.
… arranjei uma máquina de costura e aí comecei a fazer minhas roupas. Fui fazendo minhas roupas, como eu não tinha seios, eu fazia roupas com uns ‘jabôs’, assim, com umas coisas assim na frente, pra tapear, sabe, e umas calças largas, uns bons saltos. Depois eu comecei a tomar hormônio e em sete meses eu fiz um corpo, eu tinha um peito maravilhoso com sete meses, quadril, tudo, comigo foi muito rápido; tem pessoas que não, mas em mim foi muito rápido, em mim foi rapidíssimo, tem gente que demora, comigo, sete meses e eu tava com um corpo maravilhoso, seios lindos (Porcina in JAYME, 2009, p. 11).
Assim, as modificações corporais criam subjetividades e provocam também uma mudança na identidade social desses indivíduos, reformulando-a. No processo, são construídos corpo, mente e pessoa. É através do corpo que travestis e transexuais se diferenciam e expressam a alteridade e, mais do que isso, o corpo – e, então, o sujeito – é
transformável, performático, tanto no sentido de que expressa algo, como naquele de que acrescenta a transitoriedade ao sujeito (JAYME, 2009). Em seu estudo sobre fisiculturistas cariocas, Sabino incita uma reflexão totalmente apropriada para a compreensão dos grupos sociais investigados nesta pesquisa. O autor adverte que, antes que se julgue os procedimentos em busca de um corpo específico como ignorância ou irracionalidade, é necessário:
Focalizar o aspecto social que confere significado a tal uso. Este, frequentemente, está imerso em sistemas simbólicos com lógica própria. Em se tratando do sistema simbólico inerente aos grupos sociais das academias, a dor e o sacrifício aparecem como um preço a ser inevitavelmente pago pela conquista de uma vitória presumível na construção de uma identidade inerente à aceitação em um grupo restrito (SABINO apud PELÚCIO, 2005, p. 103).
Para desconstruírem suas formas masculinas, travestis utilizam uma série de recursos, do mais simples (como a pinça que auxilia diariamente na retirada dos pelos faciais19) aos mais complexos (o silicone líquido injetado no corpo). As unhas geralmente são pintadas com esmaltes vermelhos e cores da moda. A maquiagem é um elemento fundamental, utilizado mesmo quando ainda se é uma “bicha-boy” - fase de transição caracterizada pela realização de pequenas alterações corporais reversíveis. Serve para ressaltar determinadas partes do rosto - em destaque, boca (imprimindo um formato mais redondo ou alongado) e olhos (construindo um olhar lânguido e insinuante) - e ocultar indícios de pelos da barba.
De modo geral, os cabelos longos têm prestígio entre as travestis e se forem naturais são ainda mais valorizados. “Elas despendem muito tempo pensando nos cabelos, falando dos cabelos, cuidando deles e deixando-os crescer” (KULICK, 2008, p. 214). Porém, em sua pesquisa com travestis jovens, Duque observou uma mudança de valores no que diz respeito ao uso do aplique. “Há um maior uso das mulheres em relação ao aplique, o que o torna, na visão das travestis, ‘muito feminino’” (2009, p. 86) e permite que elas troquem de cabelo habitualmente sem serem discriminadas por outras travestis. Entre elas, a preocupação com a voz também é uma constante.
A transformação da fala é feita forçando-se diariamente a voz, de forma que as palavras e os fonemas sejam pronunciados num tom mais agudo, normalmente em falsete. Com o hábito, a nova conformação da voz acaba se impondo, e as travestis utilizam esse tom agudo no cotidiano (BENEDETTI, 2005, p. 63).
19 Na linguagem nativa, tal procedimento é denominado “fazer o chuchu”. O chuchu também pode ser feito através de tratamento estético, em clínicas, ou com lâmina.
Travestis transformam seus corpos, adquirindo contornos arredondados, através do uso de hormônios e de silicone. Os primeiros são vendidos, originalmente como métodos contraceptivos e repositores hormonais, em farmácias na forma de comprimidos ou ampolas injetáveis. Não há uma quantidade padrão utilizada pelas travestis, mas é fato que são consumidas doses muito mais pesadas do que geralmente se administra entre as mulheres. Travestis valorizam o hormônio porque o produto custa pouco, é fácil de obter e funciona relativamente rápido. Muitos hormônios produzem resultados visíveis no curto espaço de dois meses de ingestão diária: aumento dos seios e arredondamento das formas (KULICK, 2008). Movidas pelo desejo de aprimorar ainda mais as formas e de modo imediato, muitas travestis apelam para um recurso radical: o silicone20. “As opiniões e os juízos sobre o uso desse produto não são homogêneos, existindo mesmo controvérsias sobre as aplicações” (BENEDETTI, 2005, p. 86). Por temerem os riscos do procedimento - feito clandestinamente, durante horas seguidas, com agulhas e seringas fabricadas para uso veterinário e, nem sempre, com anestesia -, antes de se tornarem clientes de uma “bombadeira” 21 as travestis costumam pensar durante meses e, por vezes, anos.
Todas as travestis parecem saber que se bombar é perigoso. Mas a maioria não abre mão dessa técnica de transformação do corpo. Em pesquisa realizada pela Unidas, associação formada por travestis de Aracaju (SE), constatou-se que mesmo 68% das 22 travestis entrevistadas sabendo dos riscos do silicone industrial, e 92% delas conhecendo pessoas que tiveram problemas com o uso do mesmo, 80% delas fariam aplicação do produto (PELÚCIO, 2005, p. 103).
Bombar-se é entrar definitivamente no mundo das travestis e com ele compactuar. Por isso, algumas travestis “tops” (bem sucedidas financeiramente, que podem fazer operação plástica do nariz ou eliminação do pomo-de-adão, por exemplo) asseguram que não têm nem nunca terão esse “lixo” no corpo. Criam, dessa forma, uma clara distinção entre elas e as “outras”: pobres, “feias”, “viados de peito” (PELÚCIO, 2005). É interessante notar que, ainda que façam um investimento permanente na construção de si mesmas, valorizando sobremaneira a juventude e a beleza, as travestis também têm muito apreço pela “naturalidade”. Dessa forma, ao mesmo tempo em que consideram legítimo buscar todos os
20
Kulick (2008) explica que, tanto Fernanda Farias de Albuquerque (1995), como travestis entrevistadas por ele, afirmam que o uso do silicone cirúrgico por travestis no Brasil teve início em 1981, em Curitiba, quando o produto era trazido de Paris. A dificuldade para adquirir o silicone cirúrgico fez com que as travestis descobrissem o silicone industrial - um líquido oleoso, grosso e incolor que não é submetido a cuidados de purificação, esterilização e acondicionamento em bolsas protetoras.
meios para melhorar a aparência, também creem que a pessoa é mais esplêndida quando não precisa lançar mão de tantos meios artificiais para se tornar bonita (KULICK, 2008).
Além de sofrerem na pele a “dor da beleza” ao esculpirem suas formas com aplicações de silicone, muitas travestis carregam em seus corpos outras marcas. A violência é bastante presente no cotidiano dessas pessoas e a polícia é uma fonte significativa de agressões. Travestis frequentemente denunciam que são presas sem o flagrante delito, sem os direitos constitucionais, num total desconhecimento da sua identidade enquanto cidadãs (OLIVEIRA, 1994). Quando enfrentavam a brutalidade policial, elas costumavam recorrer à automutilação.
Mott e Assunção (apud BENEDETTI, 2005) explicam que “se cortar”, como falam as travestis, era uma estratégia de defesa em situações de desigualdade, em que a travesti estava prestes a sofrer violência maior do que aquela resultante da automutilação. Contudo, tal reação vem se tornando cada vez mais rara. “Se quase todas as travestis na faixa dos 30 anos ou mais possuem diversas cicatrizes (algumas profundas) nos braços, o mesmo não acontece
com as jovens travestis, que jamais se cortaram” (KULICK, 2008, p. 50). Mas, se travestis experimentam corpos inacabados, que são constantemente postos a
prova, podemos dizer o mesmo de transexuais? Ao reivindicar uma identidade de gênero em oposição àquela informada pela genitália, transexuais têm sua experiência medicalizada e patologizada. A resolução do Conselho Federal de Medicina, que autoriza a realização de cirurgias de transgenitalização no país (nº 1.4821/1997), considera que “o paciente transexual é portador de desvio psicológico permanente de identidade sexual, com rejeição do fenótipo e tendência à automutilação ou auto-extermínio” (ARÁN; MURTA; LIONÇO, 2009).
Dessa forma, por precisarem do aval de psicólogos, psiquiatras e de outros especialistas para terem seu desejo atendido, as pessoas transexuais devem corresponder a um padrão transexual. Sem indicadores objetivos que legitimem essa classificação, o modelo transexual é orientado somente pelas verdades estabelecidas socialmente para os gêneros, ou seja, por uma matriz binária heterossexual. Como, dentro dessa concepção, só é possível atender as expectativas de um gênero se a pessoa possui uma anatomia adequada a ele, é considerado/a um/uma verdadeiro/a transexual aquele/a que possui uma relação de total insatisfação com seu corpo, mais especificamente com seu órgão genital. “Imbuídos em um paradigma identitário que fixa a identidade de gênero das pessoas nos genitais, a reconstrução genital aparece, em geral, como condição sine qua nom de reconhecimento jurídico de uma troca de sexo - ou seja, sem semelhança, não há mudança verdadeira” (CABRAL, 2010, p. 184).
Além disso, a obrigatoriedade da semelhança morfológica faz com que também a esterilidade torne-se um requisito para o reconhecimento legal da mudança de sexo. No Brasil, por exemplo, muitas vezes, juízes condicionam o reconhecimento de uma nova identidade de homens trans à realização da histerectomia por não considerarem a mastectomia elo de ruptura suficiente com o sexo anterior (GUIMARÃES; SCHRAMM, 2009). Dessa forma, o que constitui um direito para alguns pode se configurar como uma grave violação da integridade corporal para outros. De fato, há transexuais que encontram na cirurgia de transgenitalização e em outras modificações corporais como a mastectomia uma possibilidade de liberdade e realização.
É muito cansativo, todo o tempo tem que colocar as faixas para esconder os seios. No verão faz um calor insuportável. Fico com medo de abraçar as pessoas e elas descobrirem que as faixas estão ali (Joel in BENTO, 2006, p. 195).
Meu maior prazer [depois da cirurgia] foi poder entrar no banheiro das mulheres e fazer xixi de porta aberta... As primas de meu companheiro, que nunca souberam direito quem eu era, todas curiosas, ficaram me vendo e eu ali de porta aberta na maior (Luiza in ARÁN; ZAIDHAFT, MURTA, 2008, p. 77).
No entanto, como ressalta Cabral (2010), também existem transexuais que não consideram a modificação corporal a única salvação e sim uma possibilidade a mais, que não tem fins particulares de congruência necessária. É o caso de Bea Espejo, uma das fundadoras do Coletivo de Mulheres Transexuais da Catalunha.
Para Bea, o pênis faz parte de seu corpo, e ela não reivindica a cirurgia, pois uma vagina não mudará seu sentimento de gênero, “não passará de um buraco”. Para ela, é seu sentimento que importa, sendo o órgão totalmente secundário. Pôs prótese nos seios, não tem nenhum sinal de barba ou pêlo nos braços e toma hormônios (BENTO, 2006, p. 189).
Bento (2006) argumenta que não há uma rejeição linear ao corpo entre os/as transexuais e nem uma auto-imagem corporal negativa, sendo as qualidades físicas, muitas vezes, valorizadas. Durante sua pesquisa com transexuais do Brasil e da Espanha, a autora identificou relatos sobre a relação com as genitálias que variam de afirmações tais como “tenho horror a essa coisa” até “ele faz parte do meu corpo, não tenho raiva”. Ou seja, nas experiências transexuais, se observam variadas formas de convívio com as partes do corpo que impedem essas pessoas de serem reconhecidas como pertencentes ao gênero com o qual se identificam. O que não indica uma desordem mental e sim a plena capacidade de exercer a autonomia de decidir sobre o seu próprio corpo.