1. APRISIONAMENTO E PROCESSO EDUCATIVO
2.4. O Criminoso
Após discorrer sobre alguns conceitos da Teoria Crítica da Sociedade, o objetivo neste item é realizar a intersecção entre os itens anteriores, bem como introduzir a temática desta pesquisa. Assim, prosseguindo a investigação pautada nos estudos de Horkheimer e Adorno (1985a), os autores apresentam sumariamente, considerações a respeito do criminoso.
Consideram tanto o criminoso quanto a privação da liberdade instituições burguesas, uma vez que:
na Idade Média, encarceravam-se os infantes reais que simbolizassem uma incomoda pretensão dinástica. O criminoso, em compensação, era torturado até a morte, para incutir na massa da população o respeito pela ordem e pela lei, porque o exemplo da severidade e da crueldade educa os severos e os cruéis para o amor. A pena de prisão regular pressupõe uma crescente necessidade de força de trabalho e reflete o modo de vida burguês como sofrimento (HORKHEIMER; ADORNO, 1985a, p.210).
Com estas modificações, o indivíduo criminoso passa a ter sua vida regulada e coordenada pela direção da prisão, além de ser forçado “a absoluta solidão, o retorno forçado ao próprio eu, cujo ser se reduz à elaboração de um material no ritmo monótono do trabalho, delineiam como um espectro horrível a existência do homem no mundo moderno” (HORKHEIMER; ADORNO, 1985a, p.211).
Para os autores, o presidiário, forçado à submissão, torna-se:
a imagem virtual do tipo burguês em que ele deve se transformar na realidade. Os que não o fizerem lá fora serão forçados a isso aí dentro numa terrível pureza. Justificar a existência de penitenciárias com a necessidade de separar o criminoso da sociedade, ou mesmo de regenerá- lo, não atinge o âmago da questão. Elas são a imagem do mundo do trabalho burguês levado às últimas consequências, imagem essa que o ódio dos homens coloca no mundo como um símbolo contra a realidade em que são forçados a se transformar (HORKHEIMER; ADORNO, 1985a, p.211). Dessa maneira, pode-se dizer que a prisão continua propagando a perspectiva descrita pelos autores, uma vez que o que se observa, no cotidiano prisional, de forma dramática, nada mais é do que a reprodução do que ocorre na sociedade, provocando ainda mais a exclusão, a adaptação e a submissão diante do capital.
Para Horkheimer e Adorno (1985a), a prisão, no século XIX, era análoga à doença, uma vez que os indivíduos criminosos eram considerados doentes devido sua “fraqueza”, pois em prol de sua autoconservação rompe com o “socialmente aceito”. Frente a isso, os autores consideram que o indivíduo que comete um ato criminoso, devido a situações sociais em que se encontram, além de sofrerem como indivíduos passam a sofrer por meio de um castigo cego, alheio à sua vontade, o que caracterizará em sua vida algo como uma doença, sendo assim a prisão equivale a uma moléstia expressa pelas atitudes e posturas cautelosas dos prisioneiros, sendo assim:
a prisão representou o inverso de sua fraqueza. A energia necessária para se destacar como um indivíduo do mundo ambiente e, ao mesmo tempo, para estabelecer uma ligação com ele, através das formas de comunicação autorizadas, e assim nele se afirmar, estava corroída no criminoso. Ele representava uma tendência profundamente arraigada no ser vivo e cuja superação é um sinal de evolução: a tendência a perder-se em vez de impor-se ativamente no meio ambiente, a propensão a se largar, a regredir à natureza (HORKHEIMER; ADORNO, 1985a, p.212).
Outro ponto relevante destacado pelos autores é a comparação da prisão com o campo de concentração, pois:
o isolamento, que outrora se infligia de fora aos prisioneiros, se generalizou neste meio tempo e se instilou no sangue e na carne dos indivíduos. Sua alma bem adestrada e sua felicidade são tão desoladoras como as células da prisão, que os donos do poder já podem dispensar, porque a totalidade da força de trabalho das nações caiu presa deles. A privação de liberdade é um pálido castigo comparado com a realidade social (HORKHEIMER; ADORNO, 1985a, p.213).
Após apresentarem, nesse breve texto, aspectos que servem para pensar sobre o desenvolvimento histórico das penitenciárias, os autores consideram que, na sociedade atual, a pena de privação de liberdade já poderia ser dispensável, pois com os progressos da sociedade, não haveria mais necessidade deste tipo de punição, uma vez que, na sociedade burguesa:
a constituição de um sistema penitenciário que obrigava os homens à disciplina monótona do trabalho, por meio da execução repetitiva de trabalhos sem sentido, representando triste e radicalmente o mundo burguês, portanto, não [é] uma necessidade econômica da sociedade. [...] [assim salienta-se] a falácia que está permeando a afirmação da necessidade de um sistema penitenciário (MASSOLA, 2007, p.137-138). Considerando a tensão existente entre indivíduo e sociedade e a busca constante por controle social na sociedade capitalista, é possível inferir que a prisão se mantém, pois os criminosos, aqueles que rompem a ordem estabelecida, apresentam-se à sociedade como um sinal da necessidade de coerção para que a civilização possa se desenvolver, o qual tem como função alertar os demais indivíduos sobre a possibilidade de sofrerem punições, caso tentem cindir com a ordem. Por outro lado, cabe inferir se o indivíduo considerado socialmente criminoso não seria aquele que apresenta resistência às amarras do capital, uma vez que explicita instintos repudiados pela sociedade racionalizada e que, por tentar resistir, precisa ser aprisionado e treinado para transformar-se no “bom burguês”.
A partir dessas considerações a respeito das mobilizações que o criminoso provoca na sociedade, torna-se possível compreender o ódio em relação aos que rompem com a ordem estabelecida, pois o criminoso escancara os desejos latentes e reprimidos dos demais indivíduos, que fragilizados egoicamente e por meio de atitudes irrefletidas, voltam sua fúria ao indivíduo “errante”, reproduzindo a barbárie e viabilizando o desenvolvimento do preconceito e a manutenção do sistema penitenciário. O combate à barbárie, ao preconceito e à ausência de consciência, constantemente reproduzidos, pode ser possibilitado por meio da ascensão e emancipação do indivíduo, no entanto, para que ocorresse o fortalecimento do indivíduo seriam necessárias também alterações na sociedade no sentido de superação da semiformação e da onipotência da técnica, o que, de acordo com os autores considerados, poderia ocorrer com uma participação efetiva da educação, como já descrito.