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1. APRISIONAMENTO E PROCESSO EDUCATIVO

2.3. Semiformação

Em contrapartida à ideia de formação cultural, Adorno (1996) diagnosticou a alienação do indivíduo, ajustando-se cegamente à sociedade; constatou a ascensão da técnica e, consequentemente, o empobrecimento dos processos reflexivos e formadores. Para o autor, vive-se num “mundo em que a técnica ocupa uma posição tão decisiva como acontece atualmente, [o que] gera pessoas tecnológicas, afinadas com a técnica” (ADORNO, 1995d, p. 132). Fato que as impossibilita de amar, sentimento que, segundo Adorno (1995e), é essencial para a formação.

Dessa maneira, nota-se que atualmente os indivíduos presenciam certa dificuldade em ligarem-se afetivamente, fato interligado com a tendência à fetichização da técnica, que torna as pessoas incapazes de amar, e:

isto não deve ser entendido num sentido sentimental ou moralizante, mas denotando a carente relação libidinal com outras pessoas. Elas são inteiramente frias e precisam negar em seu íntimo a possibilidade do amor, recusando de antemão nas outras pessoas o seu amor antes que o mesmo se instale (ADORNO, 1995d, p.133).

Perante à necessidade técnica e a partir da elevação do nível de vida, cresceram as reivindicações de uma formação que elevasse o indivíduo tendo em vista a ascensão social. Como resposta a esta demanda, há incentivo a “camadas imensas a pretender uma formação que não têm [...]. Um grande setor da produção da indústria cultural vive dessa nova realidade e, por sua vez, incentiva essa necessidade de semicultura” (ADORNO, 1996, p.399). Todavia, aquilo que é oferecido, longe de promover a formação cultural, produz a padronização dos comportamentos e das atitudes, pois a indústria cultural depende desse nivelamento, muitas vezes entendido erroneamente como democratização de acesso à cultura, agora ao alcance de todos.

Com a semiformação, os sujeitos se colocam, real ou imaginariamente, pertencentes a um campo elevado da sociedade; isso se deve à ideia instaurada de que a formação leva à ascensão social, porém, isto se constitui em parte como uma alucinação, sustentada por meio de ações pontuais, tais como “a frequência a um certo colégio ou instituto, ou, ainda, a simples aparência de se proceder de uma boa família. A atitude em que se reúnem a semicultura e o narcisismo coletivo é a de dispor, intervir, adotar ares informados, de estar a par de tudo” (ADORNO, 1996, p.403). Fatos que iludem o indivíduo, fazendo-o acreditar que está sendo formado, quando na realidade é semiformado, pois aquilo que incorporam em termos culturais está diretamente relacionado à possibilidade de alterar sua posição social, o que se apresenta de maneira ainda mais acentuada no âmbito da instituição prisional, pois, como discutido anteriormente, é comum o investimento no trabalho e na educação na prisão como possibilidades de “ascensão e reinserção social”.

A partir do momento que a técnica se sobrepõe à formação cultural, os homens continuam reduzidos a apêndices das máquina ou do aparato que, ao serem treinados (educados), aumentam sua eficácia, produzindo mais e, dessa forma, sendo valorizados no mercado de trabalho.

Além disso, “ao manipular a máquina, o homem aprende que a obediência às instruções é o único meio de se obter resultados desejados. Ser bem-sucedido é o mesmo que adaptar-se ao aparato. Não há lugar para a autonomia” (MARCUSE, 1999, p.80). Assim, o

indivíduo semiformado acredita que conhece algo que na verdade não conhece (CROCHIK, 2009).

A semicultura torna a cultura em algo cristalizado, o que repercute na definição dos conteúdos educacionais e materiais e recursos didáticos utilizados em espaços como as escolas localizadas em presídios. Com isso, os conhecimentos são vistos como impenetráveis e incompreendidos, fato que impede a formação cultural. Assim, “o semiculto transforma, como que por encanto, tudo que é mediato em imediato, o que inclui até mesmo o que mais distante é” (ADORNO, 1996, p.405). Segundo Adorno (1995d), é nesse mundo permeado pela racionalidade tecnológica que as pessoas tendem à claustrofobia, pois “no mundo administrado, [há] um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, como uma rede densamente interconectada” (p.122). Dessa forma, não há possibilidade de autonomia, uma vez que a organização econômica força os indivíduos a dependerem de situações pré-estabelecidas; predomina a impotência e mantem a não-emancipação, pois para sobreviverem nada resta aos sujeitos a não ser adaptar-se à situação, como ocorre com as mulheres presas, que além de “sofrerem” socialmente por serem mulheres, apresentarem baixa escolaridade, são presas e destituídas de seus papéis sociais. Assim, tendem a conformar-se, abrindo mão de sua subjetividade e autonomia. Em outras palavras, só é garantida a sobrevivência a partir do momento que se abdica do próprio eu; uma vez que a adaptação foi imposta, esta leva à produção e à reprodução dos meios já existentes (ADORNO, 1995d).

Frente à adaptação irreflexiva, aumentam as tendências à intolerância e ao preconceito que:

pode dizer respeito tanto às percepções, experiências ou conceitos já formulados, quanto às necessidades emocionais existentes antes da nova experiência. Isto significa que não há, a priori, a possibilidade de uma experiência ou de uma reflexão que de alguma forma não seja direcionada por aquilo que o individuo já era (CROCHIK, 2006, p. 31-32).

Em outras palavras, o preconceito diz respeito às experiências incompletas que enrijecem o indivíduo, levando-o a evitar o dispêndio de esforços para aproximar-se do objeto desconhecido, o que potencializa a semiformação, o preconceito e a barbárie (CROCHIK, 2006).

Nesse sentido, o que se vê, em relação à educação, como já descrito, é que esta que deveria conduzir os indivíduos e a sociedade para a formação cultural, acaba por abandonar seu caráter político e reflexivo, ou seja, leva-se ao aprendizado para reprodução, de forma mecânica, eliminando a capacidade de pensar dos sujeitos, tornando-se assim uma educação para a alienação (CROCHIK, 2009). Além disto, “a desumanização implantada pelo processo capitalista de produção negou aos trabalhadores todos os pressupostos para

a formação e, acima de tudo, o ócio” (ADORNO, 1996, p.392). Ócio que na prisão tenta ser preenchido de todas as formas, seja por meio da educação, do trabalho e/ou de oficinas “culturais”, pois acredita-se que o(a) preso(a) deve se manter ocupado(a) o tempo todo para que, assim, não tenha tempo de refletir nem de contestar, além de manter a ilusão de que essa ocupação leva à chamada e à almejada ressocialização.

Tenta-se remediar a situação recorrendo-se à chamada “educação popular”, que nutre a ilusão de que a formação por si só acabaria com a exclusão dos trabalhadores (ADORNO, 1996) e dos presos, futuros egressos. Contudo, o que se vê são focos de semicultura que disseminam essa ilusão de formação cultural. De outra parte, nota-se que a educação vem se transformando em mercadoria, o que é demonstrado pelos “índices nacionais que indicam aos pais dos alunos quais são as melhores escolas” (CROCHIK, 2009, p. 16). Por meio disso, é possível perceber que “a escola se vê mais e mais aprisionada pela lógica do capital e à razão instrumental inerente a ela, cujo âmbito do pensamento equivale à quantificação” (BATISTA, 2000, p. 190).

Ao falarmos de instituições privadas de ensino, a lógica do capital se potencializa, pois a disputa pela melhor avaliação está diretamente relacionada aos maiores investimentos financeiros dos alunos. Assim, nota-se que a escola tornou-se um meio de reprodução e perpetuação da semiformação, ao invés de “manter a tensão indivíduo/sociedade e estar para a realidade como a filosofia está para a ciência. Ou seja, distanciar-se para refletir sobre ela” (BATISTA, 2000, p. 190).