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O cuidado como elemento propulsor da Segurança do Paciente

No documento Segurança do paciente (páginas 70-73)

4 CONSIDERAÇÕES ACERCA DOS PILARES: SABERES, TRABALHO E

4.2 O cuidado como elemento propulsor da Segurança do Paciente

O objetivo principal desta categoria é analisar a relação entre o cuidado em enfermagem e uma prática assistencial segura. Percebemos frequentemente, nas

falas dos entrevistados, o cuidado associado a segurança ou indissociável a esta, o que pode estar relacionado com o cuidado humano ser entendido popularmente como uma resolução das necessidades humanas (alívio da dor e sofrimento, suporte para a sobrevivência) e estar atrelado à uma expectativa dos pacientes e profissionais, do desempenho de funções obrigatoriamente fundamentadas na segurança.

Para os profissionais da equipe entrevistada, a própria definição de Segurança do Paciente está intimamente ligada ao que denominam de cuidado seguro, como podemos acompanhar no relato a seguir: “Segurança do Paciente é o cuidado, evitar sequelas para o paciente, evitar danos ao paciente, zelar pela segurança dele, ter atenção no cuidado. Acho que é isso” (ENF 02). A mesma ideia aparece na fala de uma técnica de enfermagem quando questionada sobre o conceito de segurança do paciente: “Tudo num geral para o cuidado do paciente”

(TEC ENF 03).

A política pública de Segurança do Paciente compartilha da mesma relação entre cuidado e segurança descrita pelos sujeitos da pesquisa, sendo afirmado em um dos objetivos propostos pelo Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), descrito no artigo n° 2: “O PNSP tem por objetivo geral contribuir para a qualificação do cuidado em saúde em todos os estabelecimentos de saúde do território nacional” (BRASIL, 2013).

Verifica-se também, o cuidado bastante relacionado com qualidade, conforme segue: “Segurança do Paciente é tudo aquilo para dar uma assistência melhor ao paciente, um cuidado melhor ao paciente, e com isso também [ao] funcionário... a gente vai se prevenir de muitas coisas” (ENF 01). Percebemos ainda, o reconhecimento, por parte da equipe, do cuidado como o “que deve ser realizado” e o “fazer certo”, ou seja, a maneira ideal de realizar a assistência prestada.

Se considerarmos a efetividade do cuidado, pode-se apontar: (1) pertinência do cuidado; (2) conformidade do cuidado. A pertinência do cuidado representa o “fazer a coisa certa”. Exemplos: utilização do protocolo de acolhimento e classificação de riscos na porta de urgência; utilização de protocolos de administração de aspirinas em dor torácica no atendimento pré-hospitalar, entre outros exemplos. A conformidade do cuidado significa o “fazer certo a coisa certa”. Exemplos: preenchimento adequado do prontuário do paciente; utilização adequada de antibióticos (dose, espectro, tempo adequados), passagem do plantão na enfermaria, entre outros (GRABOIS, 2011, p. 159).

A qualidade da assistência prestada pelos estabelecimentos de saúde se constitui em objetivo da maioria dos serviços atualmente, devido à exigência de satisfação cada vez maior de seus usuários e a concorrência imposta pela diversidade de serviços oferecidos e opções de tratamento, bem como a rápida e complexa evolução tecnológica.

Nesta corrida contra o tempo imposta nas instituições de saúde, com necessidade de tratamento ágil e eficaz, o cuidado prestado torna-se cada vez mais difícil e multifacetário. No próprio Documento de referência para o Programa de Segurança do Paciente (BRASIL, 2013, p. 6), os órgãos governamentais destacam que: “O cuidado à saúde, que antes era simples, menos efetivo e relativamente seguro, passou a ser mais complexo, mais efetivo, porém potencialmente perigoso”.

Na mesma medida em que são desenvolvidas novas técnicas, desenhados e fabricados aparelhos e medicamentos mais potentes e eficazes no tratamento e prevenção de doenças, os colaboradores precisam articular mais competências e habilidades para o desempenho de suas funções. É neste cotidiano em transição dos profissionais que se busca trabalhar segurança dos pacientes e profissionais para evitar riscos e eventos não desejados, aliados a um cuidado individualizado.

Em realidade, o cuidado é um somatório de decisões quanto ao uso de tecnologias (duras, leves-duras e leves), de articulação de profissionais e ambientes em um determinado tempo e espaço, que tenta ser o mais adequado possível às necessidades de cada paciente (GRABOIS, 2011, p.

154).

No âmbito da saúde, a qualidade é frequentemente citada como missão das instituições, e deve ser relacionada com o atendimento das necessidades apresentadas pelos usuários, ou seja, resultando em obtenção dos benefícios com o máximo de segurança. Como exemplo da relação da qualidade com o cuidado seguro, segue frase de uma entrevistada: “É prestar o cuidado ao paciente sem causar dano, sem causar lesão, sem por ele em risco, por a vida dele em risco, agravando a situação de saúde dele” (TÉC ENF 02).

Importante salientar a complexidade da temática da segurança. A medida que o tema é divulgado e assume cada vez maiores proporções, fica latente aos profissionais a necessidade de adesão de outras profissões, já que os riscos podem estar presentes desde a porta de entrada dos estabelecimentos de saúde. Como descreve o profissional:

Acho que Segurança do Paciente é todas as medidas que a gente toma para manter a segurança do paciente e tudo o que envolve ele, desde a parte específica da enfermagem, de cuidados que a gente tem desde administração de medicação e cuidados assistenciais e também tudo o que envolve ele fora da assistência de enfermagem. Desde que o paciente entra no hospital tem a questão de segurança. Na recepção tem que ter todo o cuidado, qual o quarto que vai colocar o paciente, se é o quarto certo...

desde ali já entra segurança do paciente, não só a enfermagem, mas todo o contexto... Todas as medidas que se toma para que saia tudo correto. (TÉC ENF 04).

Verificamos, a importância do cuidado profissional no cenário atual das instituições de saúde, devido à complexidade cada vez maior deste tipo de serviço.

Lembramos ainda, que mesmo neste tipo de cuidado institucionalizado, são necessários ajustes e adaptações de outros aspectos fundamentais, como organização e gerenciamento.

O grau de complexidade que o cuidado de saúde atingiu não deixa mais espaço para uma gestão de Saúde não profissionalizada. Os descompassos entre os estabelecimentos de Saúde inadequadamente geridos e a necessidade de lidar profissionalmente com organizações que operam em condições de alto risco tendem a provocar crises cada vez mais frequentes (BRASIL, 2013, p. 13).

4.3 Consequências da organização e carga de trabalho da enfermagem na

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