4 AS REPRESENTAÇÕES DE DIOCLECIANO NO DE MORTIBUS
4.2 O Cerimonial de Corte Baixo-Imperial
4.2.1 O culto imperial e a religiosidade de Estado
Segundo Aymard e Auboyer70, além do poder militar, dos dispositivos legais havia ainda outro elemento que dava sustentação ao poder imperial que era um certo teor religioso, consubstanciado no culto imperial. Este assume, pois, um importante papel no sentido de dar estabilidade ao poder imperial, pois esse poder entra em conexão direta com o sagrado. Contudo, o culto tal como o estabelece Augusto, não continha uma completa divinização da figura do imperador, mas apenas do Império, do qual ele era o representante. Assim, o imperador se configura como o intermediário entre as divindades e o Estado, que deve representar o corpo dos cidadãos. É, portanto, necessária preservar a harmonia com as forças cósmicas que regulam o destino de todas as coisas para que o Estado permaneça próspero e preserve o bem-estar da população (é um pouco essa a idéia também com o cristianismo, pois apenas com a proteção do verdadeiro Deus é que o Estado poderia se manter próspero, e se se mantinha era por causa dos cristãos, mesmo quando o Estado não os favorecia). Nesse sentido, é bastante interessante a seguinte passagem da circular de Licínio e Constantino, transcrita por Lactâncio, na medida em que denota essa concepção da espiritualidade do poder imperial: “conceder a los cristianos y a todos los demás la facultad de practicar libremente la religión que cada uno desease, con la finalidad de que todo lo que hay de divino en la sede celestial se mostrase favorable y propicio tanto a nosotros como a todos los que están bajo nuestra autoridad”71. Numa atitude que prefigura a tendência adotada posteriormente por Constantino, o que se pretende é captar a força político-social que o cristianismo tem para utilizá-la a favor do Estado.
70 AYMARD, A. & AUBOYER, J. op. cit., p.39 71 LACTANCIO. Sobre..., p.203.
Já que da harmonia cósmica depende o bom funcionamento das coisas terrenas, daí a importância de manter os cultos todos em dia, por isso Augusto promove uma revivescência geral do paganismo tradicional. Estabelecendo uma maior relação entre a religiosidade tradicional e o novo regime imperial no sentido de torná-lo aceitável aos olhos dos cidadãos. A religião na sociedade clássica (tanto em Roma quanto na polis clássica) tinha uma função eminentemente política, sendo o culto oficial mais um dever cívico do que a resultante das demandas espirituais individuais. A religião assim como a política tinha como função assegurar a manutenção do bem comum, daí que assumisse um teor ritualizado e oficial. Somente com a crise dos valores tradicionais ocorridas no século III é que começa a se delinear uma religiosidade de cunho mais individual, cuja maior preocupação seria a salvação individual, donde resulta a difusão de novas crenças de origem oriental, por todo o território romano.
Desse modo, mesmo com a tentativa de resgate dos valores tradicionais por Augusto, nos séculos seguintes o culto pagão vai sendo gradativamente abandonado em prol das religiões estrangeiras, geralmente orientais (como o próprio cristianismo), em decorrência dessa nova religiosidade, como já no século II o testemunhava Plínio, o Jovem, para o caso da Bitínia.72 Talvez mais adequado seria dizer que acabasse ocorrendo uma fusão entre o paganismo tradicional e as tendências orientais.
Portanto, pode-se perceber, que a religiosidade imperial vai gradativamente assumindo um caráter diferenciado. A religiosidade de Augusto se adequava às estruturas por ele estabelecidas, relativas ao modelo do Principado, em que se sobressai o ideal romano da liberdade. Mas aos poucos o poder imperial tendente à centralização, passa a corresponder a uma espiritualidade de teor mais transcendental. Novamente o processo de dá de modo lento e gradual e tem suas idas e vindas, daí que as fontes não tenham unanimidade ao afirmar quem foi o responsável por introduzir certas práticas, talvez porque logo após a sua adoção por determinado imperador esta tenha sido abandonada e sua memória execrada.
De qualquer modo, a exceção das intenções teocráticas de Calígula (e se se quiser ir mais longe pode-se encontrar raízes dessa atitude mesmo na República, com César e Marco Antônio, ligados à tendência helenística, aposta à vertente republicana nas guerras civis), outro importante marco nesse processo parece ter sido o governo de Domiciano, que segundo as fontes foi o primeiro a exigir que fosse oficialmente chamado “deus e
senhor”73. Após ele, ao que parece, a palavra dominus (‘senhor’), que antes tinha uma conotação pejorativa quando utilizada em um contexto político74, acaba se tornando usual para se referir e tratar diretamente com o príncipe. De forma que já na época de Trajano os termos dominus e domina passam a ser adotados para se dirigirem ao imperador ou aos seus familiares e próximos de modo mais corriqueiro, ao menos no seu círculo íntimo, sem que com isso acarrete algum problema75. Depois dos Antoninos, em que suas tendências pró-senatoriais contrabalançam esse costume, Severo também é tido como um dos primeiros a adotar suma política de franca divinização do poder imperial, correspondente ao processo de intensa concentração por ele favorecido, segundo o testemunho da iconografia, pois há moedas em que é identificado à divindade solar76. Isso, antes de Aureliano que é quem dará o passo decisivo, pois, identificado como dominus et deus natus77, ele adota uma ideologia monoteísta para dar embasamento ao seu poder de cunho quase absoluto.
Daí por diante essa associação do imperador à figura de uma divindade se dá de modo mais evidente e intenso, até que se chegue ao período da tetrarquia, em que o resgate da religião tradicional não implica que tenha havido um retrocesso, pois que o paganismo romano já está pleno desse sentido monoteísta que impregnava a sociedade na época. A despeito da memória negativa preservada desses primeiros imperadores que tentaram algo nessa direção, Diocleciano e Constantino provam que essa tendência não foi infrutífera, o imperador torna-se como um reflexo, emanação, ou encarnação da força divina que preside a harmonia cósmica.
Uma passagem que demonstra esse caráter sagrado do poder baixo-imperial e das relações entre os tetrarcas, pois se utiliza da palavra “impiedade” para se referir a um comportamento que ia contra a autoridade imperial: “habiendo hecho César a um personaje oscuro com el objetivo de que se le mantuviese sumiso, éste (Maximino), olvidándose del favor recibido, se resistía impíamente a sus deseos y a sus súplicas”78. Já que os desejos do imperador se revestiam de um caráter sagrado, o que demonstra uma relação hierárquica que se estabelece e o estado de deterioração do sistema tetrárquico, em que Galério se vê
73 SUETONIO. op. cit., p.334.
74 Um pouco como a palavra grega, que dá origem ao nosso termo ‘déspota’ (δεσπότης), pois ambas tinham
apenas um sentido neutro, indicando o chefe da casa, onde as relações de poder são hierárquicas. Já quando transpostas para a política, lugar onde as relações se dão entre iguais, é que estes termos assumem uma conotação negativa, ao menos inicialmente.
75 AYMARD, A. & AUBOYER, J. op. cit., p.94.
76 PIGANIOL, A. Historia de Roma. Buenos Aires: EUDEBA, 1961, p.375. 77 AYMARD, A. & AUBOYER, J. op. cit., p. 304.
forçado a dar o título de Augusto aos quatro, pondo-os todos no mesmo nível. E isso, na prática, dificultava o exercício de sua autoridade de Augusto mais velho (senior Augustus).