RONALDO DE SOUZA WOITECHEN
O DE MORTIBUS PERSECUTORUM E A IMAGEM DE DIOCLECIANO ENQUANTO PERSEGUIDOR
Monografia de conclusão de curso apresentada À disciplina de Estágio Supervisionado em Pesquisa Histórica do Curso de História do Setor de Ciências Humanas Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná.
Orientador: Renan Frighetto
CURITIBA 2006
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO...1
2 DA CRISE DO SÉCULO III AO FORTALECIMENTO DO ESTADO BAIXO-IMPERIAL...2
2.1 Os Antecedentes do Regime Baixo-Imperial: as transformações no modelo do Principado de Augusto (séculos I e II)...2
2.2 O Regime Militarizado de Severo e a Crise do Século III...6
2.3 As Primeiras Tentativas de recuperação: a monarquia solar de Aureliano.9 2.4 As Reformas de Diocleciano e o Período da Tetrarquia...10
2.5 Constantino e a Nova Base Ideológica do Estado Imperial...14
3 LACTÂNCIO: VIDA E OBRA...16
3.1 Esboço Biográfico...16
3.2 A Obra...18
3.2.1 A apologia cristã...18
3.2.2 A historiografia latina...20
3.2.3 O De mortibus persecutorum...23
4 AS REPRESENTAÇÕES DE DIOCLECIANO NO DE MORTIBUS PERSECUTORUM...26
4.1 As Relações Entre Cristianismo e Império: da Perseguição de 303 ao Cristianismo de Estado de Constantino...26
4.2 O Cerimonial de Corte Baixo-Imperial...30
4.2.1 O culto imperial e a religiosidade de Estado...31
4.2.2 O ritual de proskynesis e o cerimonial Baixo-imperial...34
4.3 A Representação de Constantino Enquanto Ideal de Governante...36
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS...39
1 INTRODUÇÃO
O período da chamada tetrarquia em que quatro elementos compartiam o poder imperial é um momento chave para se compreender os desenvolvimentos posteriores, é um momento de transição, em que o Império Romano vai se tornando cristão e estabelece as bases para épocas posteriores. É um momento de síntese entre elementos distintos, o cristianismo antes perseguido passa a integrar um dos elementos constitutivos do Estado imperial.
Além disso, o Estado imperial assume um teor distinto, após um longo período de lentas transformações, que terá seus avanços e recuos, mas que conduzirá a um Estado de cunho centralizador amparado por uma ideologia monoteísta. Pois o elemento senatorial que compunha o Estado republicano e que representava a legitimidade (a legalidade) acaba perdendo espaço, sendo gradativamente afastado. Segue-se um período de instabilidade e problemas nos mais variados âmbitos, conhecido como crise do século III, do qual surge um Estado fortalecido e centralizado cujo desenvolvimento acaba sendo incitado como espécie de reação à crise. Nesse sentido, Diocleciano assume papel preponderante nesse processo de transformações.
Esta pesquisa tem por objetivo definir os caracteres que constituem a imagem do imperador Diocleciano segundo Lactâncio, a partir da qual é possível definir um conceito de perseguição/perseguidor, na visão de Lactâncio. A hipótese que permeará a investigação é a de que a imagem de Diocleciano enquanto perseguidor assume uma conotação política, em contraposição ao ideal da política constantiniana na visão de Lactâncio.
A bibliografia utilizada vai desde as diversas Histórias de Roma que forneceram o respaldo do contexto histórico, até trabalhos específicos sobre a fonte utilizada, como é o caso do estudo de Ramón Teja1. A fonte, De mortibus persecutorum escrita no século IV,
pelo professor de retórica Lactâncio, reflete uma imagem do período da tetrarquia da perspectiva de um cristão, e por essa razão é plena de elementos variados, que compõem a sua dupla formação pagã e cristã.
Nesse sentido, assumem grande importância as convicções políticas do autor, fundamentadas em sua formação retórica, apegado aos valores tradicionais romanos, relativos à elite senatorial. A partir desse ponto de vista é que Lactâncio verá os imperadores que compõem a tetrarquia, segundo o qual se entende o “tirano” como
1 TEJA, R. Introducción. In: LACTANCIO. Sobre la muerte de los perseguidores. Madrid: Editorial
sinônimo do imperador anti-senatorial, como o estabelece Lactâncio2. Formado dentro das duas tradições, Lactâncio terá como duplo pré-requisito para a formação do seu modelo de governante, o seguinte: ser pró-senatorial e ser pró-cristão.
Além disso, a nova religiosidade imperial adquire um papel central no novo regime Baixo-imperial, visto que é a ideologia de cunho monoteísta o que dá consistência ao poder centralizado.
Deste modo, a obra de Lactâncio é também um testemunho desse novo teor do poder imperial e Diocleciano é uma das figuras centrais nesse processo, assim como o é Constantino, embora de uma outra maneira. Assim, iniciar-se-á fazendo um panorama do contexto, tentando compreender as modificações do regime imperial, a partir do modelo do Principado de Augusto, passando pela crise do século III, para chegar ao período de reformas, e finalmente a tetrarquia e o governo unitário de Constantino. Em seguida, analisar-se-á os elementos que constituem a vida e a obra de Lactâncio, sua participação nas esferas de poder da época, as sedes imperiais de Nicomédia e Tréveris, bem como os aspectos constantes em sua obra, constituída na confluência entre a tradição clássica e a nascente fé cristã. Por fim, examinar-se-á a imagem de Diocleciano, feita por Lactâncio, tendo por base três pontos principais: as relações entre cristianismo e Império (e a questão da perseguição), o cerimonial de corte Baixo-imperial e o ideal de governante representado pela figura de Constantino.
2 DA CRISE DO SÉCULO III AO FORTALECIMENTO DO ESTADO BAIXO-IMPERIAL
2.1 Os Antecedentes do Regime Baixo-Imperial: as Transformações no Modelo do Principado de Augusto (séculos I e II)
Antes de se tentar avaliar a dimensão política da obra de Diocleciano e seus desdobramentos, o chamado regime Baixo-Imperial, seria conveniente introduzir brevemente o fenômeno do Estado Imperial tal qual concebido pelo seu fundador passando brevemente pela dinastia dos Severos, que introduz elementos importantes para se compreender os desenvolvimentos ulteriores e pela crise do século III. O que se quer notar é que o fenômeno do fortalecimento estatal ocorrido nos séculos III e IV, tem suas raízes
em épocas mais recuadas. E se pretende compreender esse fenômeno como o desenvolvimento de um processo de longa duração, e não como resultante imediata dos sucessos do conturbado período de anarquia militar.
A República enquanto sistema de governo se adequava muito bem às dimensões limitadas de uma cidade, mas jamais a tão vastos territórios adquiridos ao longo do seu desenvolvimento.3 Então, como uma espécie de conseqüência natural desse processo de expansão tem-se o advento do Império (inicialmente sob a forma do Principado), que na prática significava a concentração dos poderes, antes reunidos no tradicional conselho republicano, nas mãos de uma única personalidade. Ele reunia em si o comando (imperium) de todas as tropas e era considerado como o primeiro (princeps) entre os cidadãos. Desse modo, o Império se constitui já desde o princípio como um regime de cunho militar, visto que a figura do imperator já tinha um lugar assegurado nos quadros do regime republicano em casos específicos. O que Augusto, e em certa medida César, teve o mérito de fazer foi tornar permanente esse cargo.
Contudo, advertido pelo exemplo de seu predecessor, Augusto tenta conciliar o novo regime pessoal com as instituições republicanas, em decorrência dos preconceitos romanos avessos a tudo quanto contrariasse o seu ideal de “liberdade”, sendo, pois, impossível realizar um transplante puro e simples do modelo de monarquia oriental-helenística. Mesmo no século IV, como será visto mais à frente, a despeito de o processo de centralização do poder já estar em estágio avançado, essa cultura estará arraigada nos elementos ligados a essa tradição senatorial como é o caso de Lactâncio, entre outros, a quem a adoção de um modelo oriental causa extrema repugnância por não estar de acordo com essa dignidade romana.
Augusto, inaugura assim o modelo do Principado, que acaba por se constituir como apenas mais uma etapa no desenvolvimento de um processo que conduzirá a uma forma de governo em que a centralização e a burocratização assumem um caráter acentuado. Ele se mantém, pois, fiel a esses elementos republicanos e elabora um sistema capaz de assegurar o regime pessoal e sua continuidade, ao mesmo tempo em que preserva as antigas instituições, embora desprovidas de suas tradicionais atribuições para manter uma fachada republicana num regime em que o poder se concentra cada vez mais em uma única pessoa. Ele realiza uma espécie de síntese, bastante hábil e sutil, visto que não seria possível
3 AYMARD, A. & AUBOYER, J. História Geral das Civilizações (II, 2). Roma e seu Império. São Paulo:
instituir um regime à moda oriental, dada a resistência dos elementos da aristocracia senatorial, que não deixou de se manifestar hostilmente ao longo do período.
Aos poucos, ao longo desse vasto período, o regime vai se livrando da roupagem republicana e se tornando abertamente centralizado, sendo às vezes de modo mais exacerbado (como com Domiciano e Adriano), e outras de modo mais relaxado, dando a impressão de ocorrem rupturas, mas isso significa apenas que seu desenvolvimento não segue uma linha contínua.
Pode-se dizer que já com Augusto, mas principalmente após as conquistas de Trajano o Império assume uma postura oposta à que vinha sendo adotada passando de ofensiva a defensiva. Já Augusto institui toda uma estrutura de cunho defensivo, quase fixando de modo definitivo as fronteiras do Império (que vez por outra avançavam ou recuavam, mas que se fixam em torno de determinadas marcas). Essa atitude defensiva se reflete no que ficou conhecido como pax romana ou pax augusta, um período marcado por poucas movimentações ofensivas, a tal ponto de Tácito afirmar que seus Anais4 se configuravam como algo monótono diante dos feitos passados já que o modelo de história antiga estava pautado basicamente no eixo da política e da guerra. O que não quer dizer que não houvesse conflitos e guerras, mas apenas que a atitude seguida assume um teor diferenciado com relação ao período anterior.
Como um regime de cunho militar, não é de se estranhar que o elemento do exército assuma uma nova dimensão a partir desse período. Na prática, tornar o poder imperial permanente significava manter um exército permanente assegurando a defesa das fronteiras e a estabilidade interna impedindo o surgimento de novas guerras civis. Com a cessação ou diminuição considerável das conquistas reduz-se significativamente o botim de que dependia em boa parte o pagamento das tropas, sendo assim necessário regularizar o soldo. Daí que o exército sofra algumas modificações e assuma um papel diferente (com relação ao governo civil da República em que a defesa era provida por um exército de soldados-cidadãos, o que ao mesmo tempo tinha conseqüências graves na economia) gradativamente ao longo do período em decorrência da natureza militar do regime. Assim, o governo deverá prover um rendimento e recompensas regulares para os soldados, sustentáculo do poder imperial.
Augusto ainda intenta equilibrar o elemento militar favorecendo em alguns aspectos o elemento civil representado pelo Senado, mas na prática este tem a maior parte das suas
atribuições retiradas restando-lhe muito pouco a fazer. Quando da morte de Calígula o Senado, que se dizia pretender retomar as rédeas do Estado se vê acuado ante a escolha do exército e é obrigado a aceitar sua escolha por Cláudio e pela continuidade do regime.5 O processo era irreversível e já estava em estágio avançado, pois justamente Cláudio dará importantes passos para a consolidação do regime imperial pelo estabelecimento de um funcionalismo ainda que não-oficial, na figura de seus libertos, mas abrindo um precedente imitado por seus sucessores. Mas somente no século II é que será regularizado por Adriano, que faz amplos avanços nessa direção, atribuindo-as a pessoal especializado e de condição social mais elevada (da ordem eqüestre), marcando uma etapa importante do processo de burocratização estatal, que ao mesmo tempo significa o afastamento dos membros do Senado da administração imperial direta. A cada passo, pois, como uma conseqüência necessária do novo regime o Senado se vê destituído de suas antigas atribuições, não sem realizar protestos, conseguindo vez por outra recuperar um pouco do seu antigo poder para tornar a perdê-lo logo em seguida.
Enquanto o imperator, como comandante supremo dos exércitos, consegue articular os diversos elementos de que depende seu poder e controlar o poderio dos soldados, através de um sistema sucessional estável como foi o dos Antoninos, essa força que sustenta o regime é contida em seus limites, mas a partir do momento em que essa estabilidade é quebrada, por fatores que estão além da simples interrupção dessa continuidade (visto que por trás dessa aparente estabilidade, já começam a se delinear os sintomas de um grave desequilíbrio) e Estado é vítima de suas próprias contradições. Pois que avivados os particularismos regionais, e diminuídas consideravelmente as prerrogativas da aristocracia senatorial o exército queda como a única força, até pela natureza militar do regime, que passa a impor a sua vontade, a um Estado que já não está podendo arcar com esse ônus.
O reaparecimento das movimentações nas fronteiras, já com Marco Aurélio, revela uma nova situação, pois o governo se mostra incapaz de atuar em várias frentes e suprir as pesadas despesas. E a ausência de uma economia organizada intencionalmente (que se baseava na agricultura, pois segundo a concepção antiga a riqueza deriva da terra), torna difícil manter a estabilidade.
O assassinato de Cômodo, em 292, por elementos ligados à linha senatorial, prova que o Senado, embora tivesse sido consideravelmente diminuído o seu poder ainda
mantinha certa importância na estabilidade do regime (pois representava o elemento legalista), visto que suscitou a sua oposição um regime de teor marcadamente concentrador (‘tirânico’). Sem o controle de uma figura central, e na impossibilidade de o Senado retomar a direção do Estado o exército dá mostras de sua força e resolve (a exemplo do que tinha feito na situação relativa à aclamação de Cláudio) dispor do poder a seu talante. Pertinax é aclamado, e depois assassinado, depois a dignidade imperial é posta à venda pelos pretorianos, em seguida se instaura uma situação de guerra civil, após o que Severo (analogamente ao que aconteceu no que diz respeito à sucessão de Nero) sai vitorioso e impõe a sua posição.
2.2 O Regime Militarizado de Severo e a Crise do Século III
Com Severo, o Império, já por natureza militar, acaba assumindo um caráter militar cada vez mais acentuado, em contraste com o período de maior florescimento do poder civil favorecido pelo poder imperial que foi o período dos Antoninos (embora se tenha de fazer uma concessão, visto que com Adriano o processo de concentração e burocratização assume dimensões importantes, razão pela qual nessa tradição literária pró-senatorial esse imperador geralmente não é retratado com os caracteres mais positivos6). Geralmente
Severo é tido como o iniciador desse processo de militarização do poder imperial7, mas esse processo já vinha sendo levado a cabo no período precedente, basta lembrar a situação relativa à crise de 68-69, que evidencia esse caráter instável do regime.
Contudo, as reformas de Severo são significativas para a consecução desse processo, ele afasta cada vez mais o elemento senatorial da participação efetiva no governo imperial, fundamentando seu poder no exército. Assim, desprovido de um contrapeso civil, o exército acabaria por se sobrepor.
Para tentar assegurar seu poder em bases mais sólidas Severo e Caracala resolvem sacrificar o bem estar comum em prol dos soldados que era onde residia o seu poder, e assim inauguram uma nova orientação política, logrando certa estabilidade (relativa afinal o próprio Caracala acabou sendo assassinado pelos soldados, visto que as condições econômicas e sociais não permitiam a manutenção dessa situação instável por muito mais tempo) mas abrindo um precedente perigoso que traria conseqüências funestas para o
6 cf. EUTROPIO. Breviario; AURELIO VICTOR. Libro de los Césares. Madrid: Editorial Gredos, 1999. 7 cf. HOMO, L. Nueva Historia de Roma. Barcelona: Editorial Iberia, 1949, p.343 e ROSTOVTZEFF, M. Historia de Roma. Rio de Janeiro: Zahar, 1961, p.252
regime imperial. Pois, por conta do aumento dos efetivos e da remuneração militar aliada às dificuldades econômicas seria cada vez mais difícil arranjar os recursos para satisfazer os soldados (como dizia a máxima atribuída a Severo), além disso, a inflação que se desenvolveu nesse período acabou por criar uma defasagem gerando a necessidade crescente de se obter cada vez mais recursos com um aumento na carga tributária que se tornara demasiado pesada para os contribuintes. E a não satisfação devida de suas necessidades acaba por gerar uma maior instabilidade. Nesse sentido, é que acaba por figurar o edito de Caracala em 212, estendendo a cidadania romana a todos os habitantes do Império, justamente no intuito de obter maiores recursos para satisfazer as crescentes demandas.
Outro elemento importante desse período dos Severos é a crescente intrusão de influências de origem oriental. O próprio Severo demonstrava um certo desapego às tradições romanas, não só pela origem provincial de Severo (e de sua esposa síria), como pela sua política de franco afastamento do elemento aristocrático romano, razão pela qual o seu governo acaba tendo seu eixo modificado, se configurando o governo dos Severos como o predomínio do elemento provincial. Desse modo acaba favorecendo a penetração de elementos alheios a essa tradição romana, abrindo um período de influência estrangeira em que os elementos provinciais começam a encontrar um espaço cada vez maior. O próprio edito de Caracala pode ser visto também como resultado dessa tendência, culminação de uma série de transformações já iniciadas por seu pai. Isso é significativo, pois o Estado romano, a partir de então parece se abrir para as influências orientais, o que favorece a própria inclusão do cristianismo. Assim, se dá uma mudança de orientação ideológica, que já vem se processando desde algum tempo, constituindo uma modificação do paganismo clássico.
Por essas e outras os valores tradicionais romanos se encontram meio relegados na época, vez por outra ainda surgirá uma tentativa de resgatá-los (a exemplo de Décio em 249-51, louvado pelas fontes pagãs como um dos últimos patriotas romanos - o ‘restaurador dos cultos’8) como o fez o próprio Augusto numa época em que a presença oriental já se fazia sentir. Um processo de lenta transformação cultural, que não se dá de modo linear e homogêneo, conduz a uma síntese dessas diversas tendências. Assim quando Diocleciano, realiza novamente uma tentativa de restaurar essa tradição ele já o fará num teor diferente, visto que as tendências alheias já haviam se imiscuído nela e um bom
exemplo disso é a síntese do neoplatonismo. Com essa intrusão de elementos orientais o cristianismo acaba sendo indiretamente favorecido. E nesse ponto faz-se notar a devoção sincrética do último representante da dinastia dos Severos, Alexandre Severo em cujo altar, diz-se, congregava-se as figuras de Orfeu, Apolônio de Tiana, Abraão e Jesus Cristo.9
Severo ainda logra dar certa estabilidade a seu regime, fundamentando seu poder no exército, através do qual foi alçado à dignidade imperial, mas através de seu exemplo e suas reformas abre um precedente perigoso, conseqüência do próprio caráter do regime e das dificuldades cada vez mais agravantes de satisfazer as crescentes demandas das tropas, em número aumentado por Severo. Essa sua política de favorecimento do poder militar seria uma necessidade para sua sobrevivência no poder. Mas isso não poderia ser levado a cabo por muito tempo, e Alexandre Severo, último representante de sua dinastia, já não tem como sustentar as elevadas despesas, sendo assassinado pelos soldados. A partir daí a prática se difunde e durante quase todo o século III, imperadores serão feitos e desfeitos pelas tropas, às vezes simultaneamente em várias localidades, muitas vezes governando em âmbito regional como foi o caso de Póstumo, nas Gálias.
Com o fim da dinastia dos Severos (235) geralmente se assinala o início do período de anarquia militar, inaugurado pelo governo do “semi-bárbaro” Maximino (235-238), trácio de nascimento e de ascendência germânica, retratado como uma figura sobre-humana. Mas o mais significativo é o que as fontes dizem a seu respeito, a exemplo de Eutrópio, na sua característica concisão: “de procedencia militar, fue el primero que llegó al poder sólo por voluntad de los soldados, sin que hubiera mediado la autoridad del senado y sin que él mismo fuese senador”10. Portanto, nesse momento o Senado passa a ser relegado mais ainda e o Império, que perdendo o seu elemento de legitimidade, que era ao mesmo tempo o que lhe dava estabilidade. Maximino ascende e se mantém no poder exclusivamente pela força das armas, sem a necessidade do reconhecimento do Senado. Este era necessário para dar a base legal do poder e constituir o contrapeso civil (como representante da aristocracia) do poder militar imperial. Embora o Senado eventualmente volte ter sua opinião considerada, mas por pouco tempo, como no caso da sucessão de Aureliano11.
É dispensável se deter na rápida sucessão de imperadores aclamados e derrubados pelas tropas, o importante é compreender o principio geral que rege a dinâmica do período,
9 KOVALIOV, S. I. Historia de Roma (t. III). Buenos Aires: Editorial Futuro, 1959, p.195. 10 EUTROPIO. op. cit., p.123.
resultante da progressiva perda do poder por parte da aristocracia senatorial, que vai conduzir a longo prazo a um Estado fortemente centralizado e burocratizado. A crise do século III acelerou o processo de concentração do poder, pois diante da ameaça estrangeira e de usurpações e da instabilidade econômica, era necessária uma força que unificasse todos os esforços e fosse capaz de superar a crise.12
2.3 As Primeiras Tentativas de Recuperação: a monarquia solar de Aureliano
Aureliano é uma figura interessante em vários aspectos, não apenas por prefigurar as reformas de Diocleciano, como por instituir o culto solar como ideologia monoteísta que dava sustentação ao seu poder de cunho centralizador. Também de origem humilde como praticamente todos os imperadores ilíricos, de simples soldado passa a imperador, numa ascensão gradual a serviço do Império e que deve muito às reformas de Severo. Aureliano inicia uma série de medidas que vão auxiliar a recuperação do Império, consegue restabelecer a sua unidade, assegurando as defesas e derrotando os diversos impérios regionais que surgiram durante o relativamente longo governo de Galieno, embora se beneficie das reformas militares deste. Inicia ainda uma tentativa de recuperação monetária e de controle da inflação.
Igualmente colocado no De mortibus persecutorum como um dos perseguidores, e destacado na historiografia por suas tendências cruéis e ‘tirânicas’13. O que importa é que ele inicia uma nova orientação, a partir desse momento já se tenta restaurar a unidade imperial não mais em nome da religião tradicional romana, o eixo agora muda para uma nova ideologia calcada em preceitos transcendentais, que passa a ser adotada pelos imperadores para fundamentar o poder. Aureliano se utiliza de uma nova ideologia monoteísta e sincrética que não deixa de ser significativa se se interpreta o monoteísmo como simbolizando essa unidade em torno do poder imperial, e essa tendência sincrética como o esforço de unir toda essa diversidade numa unidade sob a direção do Império Romano. Assim sendo, essa tentativa de Aureliano, embora fracassada (mas apenas em parte, pois se abre o precedente a Constantino que inicialmente estava inclinado ao sincretismo solar, mas que percebe o potencial unificador do cristianismo) é extremamente significativa para se ter uma noção da mudança que está se processando. Em especial se se
12 AYMARD, A. & AUBOYER, J. op. cit., p.284.
13 Segundo Eutrópio: “cruel y sanguinario y un emperador más necesario en algunos aspectos que amable.
Fue feroz en todo momento (...), pero la mayor parte de las veces veló por la disciplina militar y corrigió las costumbres disolutas” (Breviario, IX, p.128).
tem em conta que após esse período anárquico o Império se reestrutura e consegue prolongar sua sobrevivência.
Da mesma forma Aureliano é o primeiro a adotar símbolos externos como a diadema, as roupas adornadas de pedras, embora as fontes baixo-imperiais tendam a atribuir a primazia a Diocleciano, como será visto mais à frente, com exceção do Epitome de Caesaribus.14
Aureliano não apenas adianta alguns aspectos da política de Diocleciano, como da não menos controvertida figura de Constantino, tanto pelo seu apego à divindade solar como sua elevação enquanto representante da divindade na terra e se Constantino troca depois a divindade solar pelo Deus cristão isso não vem alterar a estrutura anteriormente estabelecida para essa nova ideologia.
Após a morte de Aureliano as coisas parecem retornar ao estado inicial de deterioração, contudo o primeiro passo já estava dado na direção de uma nova orientação. E após breve reação senatorial, Probo retoma e avança a obra de Aureliano, mas é apenas com Diocleciano que ela se completa e ganha uma dimensão definitiva.
2.4 As Reformas de Diocleciano e o Período da Tetrarquia
No ano de 284, um personagem de origem obscura (“hombre de oscurísimo origen” segundo Eutropio15), um soldado, nascido na Dalmácia, e destinado a eternizar seu nome, como um dos mais habilidosos políticos da Antigüidade, assume a direção do Império, aparentemente sem muita diferença com relação aos seus antecessores, aclamado pelo exército pelas suas qualidades militares. Contudo, diferentemente dos outros não apenas logrou ampla longevidade na direção do governo, como marcou um feito inédito até então com a sua abdicação em 305. Além disso, suas reformas iniciaram a recuperação do Império abatido, garantindo sua sobrevivência que estava então ameaçada.
Assim como Aureliano o havia logrado fazer mesmo que por um curto intervalo, coube a Diocleciano restabelecer a unidade do Império, organizando a defesa das fronteiras e reprimindo as diversas usurpações que pululavam por toda a parte. Ele percebe que não poderia fazer isso sozinho e que, portanto, precisaria contar com o auxílio de gente capacitada para essa árdua tarefa e que fosse de confiança. Assim, em 285, ele associa ao
14 BRAVO. G. El ritual de “proskynesis” y su significado político y religioso en la Roma imperial (Con
especial referencia a la Tetrarquía). Gerión. Madrid, nº 17, 1997, p.180.
poder a seu companheiro de armas Maximiano, a quem a historiografia costuma atribuir características bem menos favoráveis que a Diocleciano, como sua ferocidade e crueldade16. Alguns argumentam que também a escolha por Maximiano fora outra prova da sagacidade de Diocleciano, pois que aquele, a despeito da sua exaltação lhe seria submisso, e um instrumento necessário nos momentos em que se necessitasse de medidas mais enérgicas sem que a responsabilidade direta lhe coubesse nesse caso, desviando de si os possíveis descontentamentos17. Já Valeriano havia realizado uma divisão semelhante para facilitar a defesa do vasto Império, deixando seu filho Galieno a cargo do ocidente enquanto ele em pessoa se encarregava do oriente. Contudo, Diocleciano vai além e constitui um mecanismo intencionalmente direcionado para controlar institucionalmente a divisão para que não aconteça de surgirem Impérios regionais como no século III. E, em 293, ocorre a subdivisão do império entre mais dois correligionários, denominados “Césares”, em oposição aos “Augustos”, seus maiores: Constâncio Cloro (pai de Constantino), a quem coube, junto com Maximiano, os territórios ocidentais, e Galério, que juntamente com Diocleciano, se encarrega dos territórios orientais.
Embora dividido o Império sob Diocleciano ainda é uma unidade (aliás fortalecida mais do que nunca até então), sendo sua divisão meramente administrativa, para facilitar a defesa das fronteiras e administração das regiões mais distantes, tornando assim o imperador presente nas diversas partes do império, através de seus colaboradores e pela multiplicação dos funcionários imperiais. A estrutura tetrárquica também tinha a intenção de tornar o poder limitado a um espaço e um tempo determinados. E por trás dessa nova estrutura havia um Estado cada vez mais fortalecido e centralizado. O Estado sob Diocleciano acaba não apenas restabelecendo a unidade do Império como instituindo uma nova orientação política (referida como regime de dominatus)18, em que as antigas formas republicanas são deixadas de lado e o poder reside na pessoa do imperador e na burocracia estatal, não mais na velha aristocracia.
E assim fundado na fidelidade pessoal, nos laços matrimoniais e numa certa autoridade moral do mais velho, ele pretendia garantir um sistema duradouro de sucessão, mas que teve êxito apenas enquanto ele esteve presente. Após a sua abdicação esse mecanismo criado por ele começa a ruir. Em 306, após a morte de Constâncio Cloro, seu filho, Constantino, fundado em uma espécie de direito hereditário e, principalmente (a
16 ibid., p.134.
17 GIBBON, E. Declínio e Queda do Império Romano. São Paulo: Cia das Letras/ Círculo do Livro, 1989,
p.154.
ponto de se tornar uma ameaça à estabilidade do Império, caso Galério, o Augusto mais velho não o aceitasse), no apoio das tropas é aclamado imperador, dando o primeiro golpe no sistema. A partir daí abre-se um precedente perigoso e a exemplo de Constantino, Maxêncio, filho de Maximiano, é proclamado imperador pelas tropas na Itália, por conta da perda dos privilégios de Itália pela política tetrárquica. Era o início da desestruturação, que culmina com o governo exclusivo de Constantino. Em vista dessa experiência alguns autores19 argumentam que um dos elementos do insucesso do sistema tetrárquico estava em não considerar a sucessão em base hereditária, pois, Constantino e Maxêncio, filhos de dois imperadores da tetrarquia foram preteridos em prol de outros dois desconhecidos.
Embora seu sistema para garantir a estabilidade da sucessão não tenha se sustentado sem a sua presença, ele é responsável por concretizar todo um processo de mudanças, algumas delas intensificadas e continuadas por Constantino. Entre suas medidas se destacam: a reorganização do exército para poder garantir as fronteiras; reforma na administração imperial, subdividindo o império em diversas províncias, agrupadas em dioceses (constituindo uma ampliada hierarquia, restando apenas ao imperador o poder supremo), o que facilitava a sua administração e diminuía o risco de usurpações; uma reforma fiscal, tentando redistribuir os impostos de maneira mais justa, pois do modo como estava, visto que a base da economia era agrária, recaía sobre o setor produtivo estrangulando a produção necessária para o abastecimento. Também tentou controlar os preços e revalorizar a moeda que em decorrência da inflação já não tinha mais o mesmo poder de compra, embora nesse âmbito não tenha sido muito bem sucedido.
No que diz respeito à religião, Diocleciano, como Décio, resolve incentivar a religião tradicional, contudo, oferece um incremento ao velho culto imperial estabelecido por Augusto, introduzindo todo um cerimonial de corte que fazia lembrar muito as monarquias orientais, pelo que acabou sendo tão mal visto, também pelos pagãos. Pois desde Augusto, a manutenção de algumas estruturas republicanas e a atitude “humilde” do príncipe, contribuíam para minorar o aspecto de um poder de fato monárquico. Segundo Eutrópio, Diocleciano foi “el primero que introdujo en el Imperio Romano una práctica más propia de la realeza que de la libertad romana, puesordenó que debían postrarse ante él todos cuando o saludasen. Vistió ropas y calzados adornados con piedras preciosas, cuando antes la insignia del imperador era sólo la clámide de púrpura mientras que en el resto no había atributos especiales”20.
19 ibid., p.366.
Apesar de Aurélio Victor o acusar de vaidade e soberba21, isso na verdade se trata de um cálculo político, pois essa nova mística imperial faz parte do processo de fortalecimento do poder, e foi um dos elementos mais importantes para garantir a estabilidade. Pois justamente por isso ele tenha se preservado a salvo e prolongado a sua obra política, marcando a diferença entre ele e Aureliano, administrador não menos habilidoso e ousado, mas que não foi capaz de triunfar sobre as vicissitudes de sua época, perecendo numa traição, como a maioria dos imperadores do século III.
Pois no momento em que Diocleciano pretendendo restringir o acesso a sua pessoa, através de toda a pompa cujo propósito era impressionar a população e criar toda uma aura mística em torno do poder imperial (que acabou por se tornar um lugar comum entre os monarcas cristãos), ele deixa de estar suscetível às agressões dos soldados e ambiciosos. Portanto, todo o aparato cerimonial introduzido por Diocleciano, embora repulsivo aos olhos de seus contemporâneos (aristocratas), nada mais era do que uma estratégia necessária ante as circunstâncias de seu tempo.
Nesse sentido, também o sistema tetrárquico servia a esse intuito pois que se um fosse alvo de um atentado ainda haveria três outros para restabelecerem a ordem, as reformas administrativas, e nos comandos militares, a dissociação entre autoridade civil e militar, tudo isso contribui para garantir um caráter sólido à sua obra. por esse motivo, se percebe a singularidade da obra de Diocleciano. Mas à diferença de Constantino, ele não percebeu o potencial do cristianismo enquanto elemento corroborador desse sistema, e ao contrário viu nele um empecilho no desenvolvimento de sua obra.
Portanto, o reavivamento do culto tradicional mais do que uma retomada da velha religião, acaba assumindo um importante papel no reforço do poder imperial. Em especial no contexto das sociedades antigas, se faz notar a relação necessária entre o sagrado e poder22, sem o que este não se sustenta. Com relação a isso, faz-se necessário referir, até por ser o núcleo central a partir do qual Lactâncio desenvolve sua obra, a situação relativa à que ficou conhecida como “grande perseguição” que tem início em 303.
O cristianismo como não admitia os deuses pagãos, embora em diversos momentos tenha reiterado a submissão ao poder imperial, pode ter sido visto como um empecilho nesse processo de centralização (embora isso seja algo relativo). O fato é que a partir de 303, após quase vinte anos de governo de Diocleciano, o governo imperial muda de atitude para com o cristianismo, que até então gozava de certa tolerância. Ficou conhecida como a
21 AURELIO VICTOR. op. cit., p.236.
“grande perseguição”, por ter sido a mais rigorosa e sangrenta, embora tenha variado de região para região.
Antes mesmo do primeiro edito a perseguição se manifesta pela expulsão dos cristãos do exército da parte de Galério e também Diocleciano, pois nessa época a profissão de soldado já não era tida como tão incompatível com a religião cristã e havia um número razoável de cristãos no exército. Depois, fez-se publicar quatro editos no intervalo de um pouco mais de um ano, em 303, o primeiro edito, alguns meses depois os outros dois e, no ano seguinte, o último. O primeiro ordenava a destruição dos templos cristãos e a queima dos seus livros sagrados, e também a proibição de se reunirem; o segundo era dirigido, como no caso de Valeriano, às lideranças cristãs, tentando desestruturar sua organização, obrigando os sacerdotes a apostatar; o terceiro trazia a obrigação de estes realizarem sacrifícios, os que o fizessem seriam libertos, e os que se negassem seriam condenados à morte; e o último, estendia estas últimas determinações a todos os cristãos. Houve muitos apóstatas e também inúmeros mártires.
A extensão dessa perseguição acaba variando de acordo com a região. Pois, nos territórios ocidentais ela acaba sendo mais restrita, em especial nos de Constâncio Cloro, pela sua tendência tolerante e conciliatória (tendendo a uma religiosidade sincrética) e também por nessas regiões o cristianismo não ter se difundido tanto como no oriente, que acaba se estendendo para todo o ocidente quando em 305, com a abdicação, ele se torna o Augusto de todo o ocidente. Já no oriente, região de maior concentração de cristãos, a perseguição foi mais intensa e segue até 311, quando Galério, à beira da morte, publica seu edito de tolerância. Mas em 313, quando Maximino Daia, que a despeito do edito de Galério continuava a perseguição em seus territórios, é derrotado e morre, é que se tem por oficialmente encerrada a perseguição, com o acordo dos dois imperadores Licínio e Constantino, conhecido como edito de Milão, que confirma e amplia as determinações do edito de Galério. Apesar disso, Licínio ainda retomará as hostilidades contra os cristãos posteriormente, até 324, quando é derrotado por Constantino que passa a governar sozinho, até sua morte em 337.
2.5 Constantino e a Nova Base Ideológica do Estado Imperial
Constantino se constitui ao mesmo tempo como o princípio detonador da política tetrárquica de Diocleciano, pois se infiltra nele de fora e reunifica o Império em torno de si, mas também como seu herdeiro e continuador. Desde sua ascensão em 306, na Britannia,
até a sua morte em 337 são mais de trinta anos, sendo somente superado por Augusto, e a analogia com o fundador não deixa de ser significativa pois Constantino se coloca também de certa forma como um novo fundador. Ele solidifica os alicerces do Estado renovado por Diocleciano, fundamentando em bases ideológicas mais firmes. Constantino, evidentemente se beneficia da obra de Diocleciano, contudo com ele a unidade imperial passa a ser encarnada novamente na figura de um único soberano. Ele logra, assim, um governo mais duradouro que o do próprio Diocleciano, todavia, não o conseguiria se não fosse a obra realizada por este e seus sucessores. Em vários aspectos, portanto, Constantino perfaz a obra de Diocleciano, é o seu necessário complemento.
Ao infiltrar-se no sistema tetrárquico, ele acaba por contestar as bases sobre que estava fundamentado o sistema, visto que não respeitou a ordem e hierarquia interna, chamando para si o apoio das tropas, e reclamando como que um direito de sucessão hereditário. Mais tarde, tenta tornar a sua situação mais próxima aos princípios tetrárquicos, no intuito de tentar se colocar como o seu verdadeiro herdeiro, dando assim uma maior legitimidade à sua ascensão e ao seu regime. Ele o faz através de uma ligação com um dos principais membros da tetrarquia, o antigo imperador Maximiano, e o casamento com sua filha Fausta, já que sua filiação a Constâncio Cloro, era tida por ilegítima por alguns elementos23, talvez por essa razão é que algum tempo depois de ter
realizado a damnatio memoriae de Maximiano, em decorrência da sua tentativa de usurpação, é que reabilite a memória do velho imperador.
Além disso, o que se sobressai com relação a Constantino é a sua política pró-cristã, mas não desprovida de sutilezas e astúcias. Como dito acima, embora em muitos aspectos tenha sido um continuador da política de Diocleciano, ele é responsável por introduzir algumas novidades com relação ao plano traçado por seu predecessor. No que diz respeito às reformas, no âmbito militar, organizou a defesa das fronteiras, separando o exército em duas categorias (e separando seus comandos), exército de fronteira e exército interior em decorrência de no século III ter ocorrido muitas vezes de os bárbaros, rompendo a resistência fronteiriça encontrarem caminho aberto para suas incursões. Separou definitivamente os poderes civis dos comandos militares, segmentando por sua vez este em comandos de infantaria e cavalaria no intuito de incrementar esse processo de burocratização, tornando a administração cada vez mais segmentada, evitando assim o perigo do acúmulo de poder em uma única pessoa, que não ele próprio, diminuindo o risco
de usurpações. Dissolveu definitivamente as tropas pretorianas substituindo-as por uma guarda pessoal, e a figura do prefeito do pretório assume função exclusivamente civil (como já de certa forma acontecia na época de Diocleciano, em que o prefeito do pretório acaba se constituindo como um dos funcionários mais importantes nessa hierarquia). Além disso, realiza medidas que vão favorecer francamente os cristãos, como: estende os privilégios que gozavam os colégios religiosos à Igreja; reconhece prerrogativas à hierarquia eclesiástica que ultrapassam o aspecto religioso, como o exercício do judiciário. Interfere mesmo em questões de doutrina (como é o caso do concílio de Nicéia em 325) com o intuito de estabelecer uma unidade (necessária para a devida eficácia da unidade imperial), excluindo as opiniões divergentes e estabelecendo uma ortodoxia..
Muito se tem conjecturado sobre a adoção do cristianismo por Constantino, mas independentemente de suas convicções pessoais o importante é que o cristianismo passa a assumir uma função no Estado imperial e que as relações entre essas duas instituições se modificam fundamentalmente, pois não só o governo passa a favorecê-lo como se beneficia de seu apoio ideológico. Sua doutrina monoteísta acaba por fornecer ao Império uma ideologia unificadora mais eficaz que o paganismo tradicional, o qual já vinha sendo abandonado em prol de crenças estrangeiras, e ao mesmo tempo tinha algumas vantagens sobre o culto solar e outros. Constantino, portanto, percebe esse potencial do cristianismo, e é a partir dele que o cristianismo assume um papel importante como ideologia unificadora e que dá fundamento ao poder imperial centralizado. Com Constantino ocorre verdadeira simbiose entre cristianismo e Imperador Romano.
3 LACTÂNCIO: VIDA E OBRA
3.1 Esboço Biográfico
Sobre sua vida pouco se sabe, as únicas fontes para se determinar algo a respeito de sua trajetória são: umas poucas referências em sua própria obra ou algumas informações numa inscrição em Cirta e no De Viris Ilustribus de São Jerônimo24. Seu nome completo era Lucius Caecilius Firmianus Lactantius, era africano de Numídia, e foi discípulo do retórico Arnóbio, de que quem aprendeu o ofício de retórico, mas que não exerceu dedicando-se apenas ao ensino de retórica para sobreviver. No que talvez tenha sido bem
sucedido, gozando talvez de algum prestígio em sua atividade, já que Diocleciano o chama até a nova capital, Nicomédia, para ensinar retórica. Lá parece que passa por dificuldades financeiras (segundo São Jerônimo), talvez em decorrência da abdicação de Diocleciano, tendo a partir de então se dedicado a escrever. Quanto à data de sua conversão, também é imprecisa, mas o que parece é que já havia se convertido em 303 quando ocorre a perseguição, mas não se sabe se se convertera em África ou somente depois de chegar a Nicomédia. Apesar disso, parece não ter sofrido nenhuma conseqüência da perseguição, ao menos até a abdicação de Diocleciano em 305 (fato que é utilizado por alguns como prova para afirmar que sua conversão é posterior25). Depois disso apenas se sabe que já em idade bastante avançada, é chamado por Constantino a Tréveris para que se encarregasse da instrução de seu filho mais velho Crispo. A partir de então, perde-se o seu rastro, mas como já estava em idade avançada supõe-se que não tenha morrido muito depois. A última data que se pode precisar é a dos últimos acontecimentos descritos em sua obra De mortibus persecutorum, ou seja 314 ou 315.26 Dentre suas obras mais importantes que chegaram até nossa época destacam-se, na ordem cronológica: De opificio Dei, Diuinae institutiones, De ira Dei e Epitome. A Instituições Divinas é considerada a sua obra mais importante, composta provavelmente entre 305 e 313, é mais propriamente uma apologia (embora não exatamente), bastante interessante no que diz respeito à fusão de conteúdos de origem pagã e cristã.
Ramón Teja estabelece uma conexão entre estas e as outras obras de Lactâncio que constituiriam para ele uma unidade.27 Pode-se perceber um espírito de conciliação entre filosofia pagã e doutrina cristã nas Instituições Divinas e entre Igreja e Estado, política e religião no De mortibus persecutorum, diferente dos cristãos anteriores, mais intransigentes. Essa conciliação reflete as novas circunstâncias políticas, em que ocorre uma mudança nas relações entre cristianismo e poder imperial com Constantino. Lactâncio é um entusiasta da grandeza de Roma, é ao mesmo tempo um defensor da religião cristã ante os pagãos e da ‘romanidade’ frente aos ‘bárbaros’, daí sua implicância com os imperadores que não demonstravam um verdadeiro apego às tradições romanas.
Mesmo com o pouco que se sabe de sua vida é possível notar um dado importante, que é a presença de Lactâncio próximo ou na corte de dois das mais importantes personalidades do período, Diocleciano e Constantino, indicando que fora testemunha
25 SÁNCHES SALOR, E. In: LACTANCIO. Instituciones Divinas. Madrid: Editorial Gredos, 1990, p.11. 26 TEJA, R. In: LACTANCIO. Sobre..., p.8-9.
direta ao menos de alguns acontecimentos da época. Isso é interessante também no que diz respeito às diretrizes que pautaram as relações entre cristianismo e Império, pois que se é certo que Lactâncio já havia se convertido quando ocorre a grande perseguição (e mesmo o fato de ser um cristão trabalhando normalmente ao lado de pagãos e por iniciativa do próprio imperador) e não foi molestado é preciso rever o significado dessa perseguição. O que se pode inferir é que os cristãos parecem ter tido participação ativa na vida política e social desse período independentemente dessa perseguição (que pode ter sido apenas uma interrupção momentânea nas relações cotidianas pacíficas entre cristãos e pagãos).
Além disso, o que se sabe é que Lactâncio não se viu constrangido a deixar Nicomédia senão após 305 28, ano da abdicação de Diocleciano, talvez mais por esse fato do que pela perseguição, até porque não é possível deixar de notar a imagem extremamente negativa que representa de Galério, sucessor imediato de Diocleciano, e que parece não ter tido as mesmas sutilezas de seu antecessor.
Tal como se percebe em sua obra Lactâncio é adepto das concepções políticas pró-senatoriais bastante desenvolvidas em sua província de origem, a África, em especial pela sua formação retórica, mais diretamente ligada à tradição romana. E por isso é que se pode perceber tal qual em Tácito um certo ressentimento pelo abandono dos valores romanos pelos imperadores por ele criticados.
3.2 A Obra
3.2.1 A apologia cristã
Em decorrência dessa sua dupla formação, pagã e cristã, pode-se compreender a obra de Lactâncio como a confluência de tendências literárias de origens tanto cristãs quanto pagãs. No que diz respeito à tradição literária cristã pode-se destacar a apologia. Esta surge como uma forma de expressão caracteristicamente cristã e que tinha por finalidade preservar o cristianismo dos ataques, fossem eles físicos ou intelectuais, vindos da parte dos pagãos. Isso na prática podia significar a sua sobrevivência enquanto grupo social distinto e minoritário. E como não podia deixar de ser esses contatos produzem trocas, que se traduzem nas tentativas de síntese, verdadeiro esforço de conciliação entre
28 ibid., p.22.
pontos divergentes que constitui a própria apologia enquanto gênero totalmente novo e cristão.
Embora tenha havido conflitos a iniciativa de conciliação grassou de ambos os lados, e da parte dos cristãos havia uma intenção de integração na sociedade, mas preservando as suas particularidades. Assim a apologia constituía um instrumento importante para a defesa de uma posição dentro dessa sociedade, utilizando-se para tal dos próprios recursos dos pagãos, em especial da filosofia e sobretudo a corrente neoplatônica. Tinha por finalidade demonstrar que o cristianismo não era incompatível com a sociedade greco-romana e com o regime político imperial.29 Nesse sentido, o exemplo mais significativo é o de Orígenes (e depois dele Agostinho de Hipona), que realiza uma ambiciosa e fundamental síntese entre cristianismo e platonismo que está na base dos desenvolvimentos posteriores.
Não que o De mortibus se constitua como uma apologia propriamente, no sentido em que foi definido, visto que foi escrito num período em que o cristianismo passa a ser favorecido, mas sim que a apologia cristã acaba se transformando num modelo literário de que a produção literária de Lactâncio pode ser considerada um exemplo, pois traz em si alguns de seus elementos mais característicos. Mas com relação a Lactâncio a obra que mais se enquadraria nesse modelo de apologia seria a Instituições Divinas, embora esta se proponha a ser uma institutio, ou seja, a definição dos elementos básicos de uma doutrina30. Mas, no fim das contas, o seu teor é o de uma defesa da doutrina cristã diante dos pagãos. Nas Instituições, Lactâncio tenta conciliar a religião cristã (vista por muitos pagãos e acusada pelo filósofo Celso de ser uma religião de pobres e ignorantes 31) com uma cultura elevada, estabelecendo uma separação entre os sábios e os ignorantes (uma espécie de separação em caracteres distintos do cristianismo de acordo com a camada social a que se dirige, demonstrando a amplitude da fé cristã que serve tanto aos mais simples como aos ilustrados)32, para estes a simples fé bastaria, mas para aqueles era necessário recorrer à filosofia, mas para ambos se chegaria ao mesmo fim. Não que se rompa com a idéia da importância da fé (que continua sendo um elemento fundamental e nesse sentido como aponta Dodds acaba ocorrendo uma espécie de permuta pois enquanto o cristianismo recorre à razão, a filosofia da época cada vez mais recorre à fé, e acaba por
29 TEJA. Ramón. El Cristianismo Primitivo em la Sociedade Romana. Madrid: Ediciones Istmo, 1990,
p.33.
30 SÁNCHES SALOR, E. In: LACTANCIO. Instituciones..., p.14.
31 GIGON, O. La Cultura Antigua y el Cristianismo. Madrid: Editorial Gredos, 1970, p.155. 32 LACTANCIO. Instituciones..., p.66.
se tornar em religião33), mas que a razão fundamenta e confirma a fé, que religião e saber se complementam e não se contrapõem.34
Lactâncio utiliza-se ainda em sua obra dos baluartes da própria cultura clássica, como os filósofos e poetas (ele tem uma grande admiração por Virgílio) embora às vezes de modo tendencioso, para confirmar a verdade da doutrina cristã. Afinal de contas ele também se vê como partícipe dessa cultura ancestral e a adoção dos mestres do pensamento pagão acaba se dando também de uma forma natural. Ele tenta encontrar no próprio paganismo (como no caso das sibilas35) indícios de uma idéia monoteísta, que viesse a confirmar a verdade da doutrina que defende.
3.2.2 A historiografia latina
Embora não se pretenda ser uma obra de história do período36, não há como deixar de notar a presença de elementos característicos da vertente historiográfica latina. Faz-se, portanto, conveniente ter-se em conta alguns elementos presentes na historiografia latina e clássica em geral e que se pode perceber em Lactâncio, lembrando que este teve uma formação primordialmente clássica, somente depois vindo a adicionar o elemento cristão. Até mesmo as suas convicções políticas e a perspectiva adotada no que diz respeito aos acontecimentos, acabam por aproximá-lo desses historiadores romanos. Essa literatura pró-senatorial constituía como que a continuadora da damnatio memoriae dos maus imperadores, realizada tradicionalmente pelo Senado, mas quando este não estava em condições de fazê-lo, reservava-se ao protesto por escrito os ressentimentos dessa camada da sociedade romana. Da mesma forma, Lactâncio acabará por se utilizar desse “pelourinho literário”37, embora com um caráter distinto, para execrar a memória desses imperadores, que se contrapunham à sua perspectiva política.
A história enquanto modelo literário é um gênero bastante amplo, que segundo Emma Falque, se constituiria, na verdade, como um conjunto de gêneros literários e não um único38. Mas cujas bases podem ser buscadas na própria tradição historiográfica grega Como Heródoto o coloca no início de suas Histórias39, sua intenção era a de realizar uma
33 DODDS, E. R. Paganos y Cristianos en una Época de Angustia. Madrid, 1975, p.159-161. 34 LACTANCIO. Instituciones..., p.70.
35 ibid., p.84.
36 TEJA, R. In: LACTANCIO. Sobre..., p.37. 37 AYMARD & AUBOYER. op. cit., p.54. 38 FALQUE, E. In: EUTROPIO. op. cit., p.17.
investigação40 empírica acerca dos fatos humanos, numa espécie de oposição ao intento dos poetas e filósofos, pelo qual é considerado o pai da história até mesmo num sentido próximo ao moderno. Com relação à historiografia imperial romana a figura que mais se destaca é a do grande historiador Tácito, cuja influência foi das mais ampliadas. E como dito acima, suas convicções políticas não destoavam muito das de Lactâncio, assim como ambos tiveram uma formação retórica. Além disso, em Tácito prevalece uma visão bastante pessimista da história, como a que se sobressai na visão sobre os perseguidores de Lactâncio. Além dele, outro cuja obra também deixou profundas influências no fazer historiográfico posterior, não apenas por ter servido de fonte, como também de modelo para as caracterizações dos imperadores, foi Suetônio e sua Vida dos Doze Césares41.
A história na concepção clássica também era uma forma de expressão literária, não sendo vista como algo distinto dos outros gêneros literários, é claro que ela não exclui toda uma investigação (como foi dito e que é a própria etimologia da palavra), e apelo à veracidade, mas também inclui alguns rasgos literários e algumas liberdades, que pareceriam estranhas na concepção moderna, acabam sendo tomadas. Até certo ponto, era comum a utilização de recursos retóricos na composição das histórias (como no caso da invenção de discursos mesmo quando se possui os documentos originais em mãos), visto que a história enquanto gênero literário da antiguidade tem suas origens na própria tradição oratória, pela qual se aproxima da apologia cristã, ao menos em sua intenção. Essa ligação entre a história e a oratória se manifesta também na trajetória dos autores, como Tácito (e Lactancio depois) que se dedicam inicialmente à retórica passando depois à história (também nesse sentido que essas obras se constituem como uma defesa no sentido clássico de uma causa a favor da qual tentam argumentar).
Além da oratória, outros elementos que estariam na gênese da história seriam: o drama, talvez em seu sentido mais literal, relativo a uma seqüência, uma sucessão de ações, como o faz crer o radical grego δραµ-/δροµ- 42, mas também no sentido da tragicidade dos acontecimentos históricos, pois a história se constitui como o palco de uma luta entre as forças cósmicas e a liberdade humana, e esse aspecto fica especialmente evidenciado em Tácito (até pela sua visão essencialmente negativa) e mesmo em Lactâncio. E na épica, ou seja, a exaltação dos feitos dos heróis, daí talvez essa função mnemônica da história, de fazer com que os grandes feitos não acabem sendo esquecidos. E por último, assume certa
40 Significado original/etimológico do termo grego ἱστορία (ou em sua forma dialetal jônica, na qual escreve
Heródoto: ἱστορίη) que deu origem ao termo história.
41 SUETONIO. op. cit..
importância a tradição romana de registro dos fatos documentalmente e a manutenção de arquivos oficiais, para guardar a memória dos fatos públicos43.
Em Tácito, além da função de preservar uma memória, de cristalizar uma tradição, para que esta não seja vítima do esquecimento, como o coloca Heródoto, ou o próprio Tácito (“persuadido de que o principal dever da História é impedir o esquecimento das virtudes e inspirar o temor da posteridade e da infâmia para com as palavras e ações más”
44), percebe-se uma preocupação em tornar a história um fato moral, tal como a concepção
ciceroniana de história como mestra da vida. Em Tácito, pois, a história deve mostrar um conteúdo moral, também é um pouco isso o que subjaz a obra de Lactâncio, só que nesse caso a moral adotada é uma moral cristã. Essa história de caráter exemplar é também conseqüência da concepção clássica de tempo diferente da concepção até certo ponto teleológica (ou reversiva) judaico-cristã, pois se a história está sujeita a retornos então a sua escrita pode servir de alerta. A noção de um tempo cíclico foi expressa de modo bastante afortunado por Aurélio Victor: “Este hecho nos ha demostrado especialmente que todo vuelve al punto de partida como en un círculo y que nada sucede que no pueda la fuerza de la naturaleza repetir en el trascurso del tiempo; además que las situaciones, incluso las desesperadas, son fácilmente remontadas por las virtudes de los emperadores y las más estables son arruinadas por sus vicios”45. Nesse sentido, se justifica essa intenção
de servir de exemplo, pois que os fatos se repetem, além disso, dá-se grande importância para a atuação da virtude que poderia triunfar diante das vicissitudes, por isso esse destaque tanto às virtudes quanto aos vícios dos personagens. E como assinala Moralejo, Tácito está no meio do caminho entre uma concepção determinista e a não-determinista, não se posicionando por nenhuma das duas, mas apenas referindo ambas46.
Quanto a Suetônio, outro autor de grande importância e que cultiva um gênero diferente de história (para alguns um gênero literário distinto47), biográfica, sua influência também se fez sentir na produção historiográfica posterior, em especial no que diz respeito aos seus retratos negativos de alguns imperadores do século I. Ele está talvez na base de caracterizações posteriores, tais como as de Eutrópio, Aurélio Victor ou Lactâncio, não apenas para os imperadores de quem ele escreve a biografia (sua obra é evidentemente uma das fontes senão a principal para as caracterizações que estes autores tardios fazem dos
43 MORALEJO, J. In: TÁCITO. op. cit., p.22-3.
44 TÁCITO. Apud: AYMARD & AUBOYER. op.cit., p.202. 45 AURELIO VICTOR. op. cit., p.233.
46 MORALEJO, J. L. In: TÁCITO. op. cit., p.16-7. 47 VERGER, A. R. In: SUETONIO. op. cit., p.24.
imperadores do século I, como é o caso do próprio Lactâncio, embora este una as tradições historiográfica latinas com a cristã, inserindo na questão referente à perseguição de Nero, por exemplo, as figuras dos apóstolos Pedro e Paulo48), como também no que diz respeito a um modelo de retratos e composição das biografias. Suetônio constitui como que um roteiro, que com algumas variações e de modo bem mais reduzido pode-se encontrar em Eutrópio e Aurélio Victor por exemplo. Ele estabelece como que a forma pela qual se amoldarão novos conteúdos, embora no caso de Lactâncio sua convicção cristã o faça inserir elementos alheios à tradição historiográfica.
Embora classificado no gênero literário da biografia, não está alheio à história propriamente, visto que trata de personagens históricas importantes, a não ser pelo seu gosto pelo anedótico, pelos detalhes. Suetônio em suas Vidas define uma ordem, um protótipo pelo qual se guia a narrativa que não segue uma ordem necessariamente cronológica, a despeito de que no caso de Lactâncio, à exceção de alguns equívocos, o que prevalece é a ordem cronológica. Ele define padrões a partir dos quais se desenvolverá, em muitos aspectos, a escrita histórica. Além do mais as suas personagens acabaram por adquirir um caráter transcendente, sua caracterização se desenvolve por uma série de estereótipos (muitos dos quais acabam por aproximar seus biografados de personagens literários, como é o caso das representações bufônicas de um Calígula ou de um Nero, ou ainda da monstruosidade repugnante de um Tibério em sua fase decadente), em sua maioria negativos, que também compartilham da tradição pró-senatorial de Tácito, embora ele às vezes estruture suas biografias dividindo-as em seus aspectos negativos e positivos dos príncipes (mas nos quais se sobressaem os aspectos negativos, quando se trata de um personagem estigmatizado). Ele se utiliza de uma série de características estereotipadas, como a do tirano cruel, sanguinário, devasso, que farão parte de todo um modelo negativo, e que pode ser encontradas nos retratos negativos feitos por Lactâncio em seu De mortibus. Também em Suetônio se percebe a constituição de um ideal a ser exaltado e imitado (ou no seu aspecto negativo a ser execrado e evitado), e que permeia sua narrativa.
3.2.3 O De mortibus persecutorum
A obra De mortibus persecutorum foi descoberta na biblioteca Colbert de Paris em 1676 por S. Baluze, em um manuscrito – o único, Colbertinus (C), um códice em
minúsculas visigóticas de fins do século XI – proveniente da abadia beneditina de Moissac, – conservado atualmente na Biblioteca Nacional de Paris (nº 2627) – p.51, encabeçado Lucii Cecilii incipit liber ad Donatum confessore de mortibus persecutorum identificado pelo seu descobridor à obra que S. Jerônimo atribui a Lactancio denominada De persecutione, não sem controvérsias sobre sua autenticidade ou não, mas na atualidade geralmente aceita. A edição utilizada aqui é uma tradução feita diretamente do original latino para o castelhano – baseado no texto latino fixado por J. Moreau49 – por Ramón Teja e publicado pela editorial Gredos em 1982.
Classificada como um opúsculo – é uma obra breve, de 52 capítulos. Estes podem ser agrupados em duas partes distintas: uma que vai do I ao VI e outra que vai do VII até o fim. O primeiro capítulo é uma espécie de introdução, com a dedicatória a Donato (um típico confessor que passou por perseguições sucessivas), em que apresenta o roteiro da obra. Do II ao VI trata dos imperadores anteriores à tetrarquia, parte agregada posteriormente. Depois o núcleo inicial da obra que, por sua vez, pode ser dividido, do ponto de vista da cronologia também em duas partes: a primeira que trataria do período de Diocleciano (VII-XIX) e a segunda do período restante da tetrarquia e da progressiva ascensão de Constantino até o momento de equilíbrio entre este e Licínio, que é onde termina a obra. Nos capítulos de VII a IX, ele faz uma apresentação dos personagens estigmatizados da tetrarquia, no estilo de um Suetônio. De X a XIX refere os acontecimentos relativos ao período que vai do início da tetrarquia até a abdicação de Diocleciano, dando ênfase ao tema da perseguição. No capítulo XVIII utiliza-se de um recurso retórico recriando um suposto diálogo entre Diocleciano e Galério, no qual aproveita para apresentar as figuras restantes – Severo, Maximino Daia, Maxêncio e o próprio Constantino. De XX a XXIII trata especificamente do período de governo de Galério; e a partir de XXIV inicia-se o processo de ascensão de Constantino, e seguem-se os conturbados acontecimentos relativos aos confrontos entre os distintos imperadores. A partir de então a obra segue os passos vitoriosos de Constantino e do fim da perseguição (é interessante ver-se os dois aspectos ligados, pois a obra de Lactâncio acaba por sugerir essa conexão entre a vitória política de Constantino e a vitória religiosa do cristianismo), com cada um dos perseguidores sofrendo as conseqüências da ira divina um a um, para culminar ao final com a ferocidade de Licínio atuando como instrumento da vingança divina eliminando todos os parentes restantes dos perseguidores (embora seus expurgos
possam ser entendidos num sentido mais político que religioso), terminando (LII) com um epílogo, em que louva a justiça divina.
Como o faz notar Teja, Lactâncio defende uma idéia central a de que a Providência rege o mundo e as ações humanas50. Nesse sentido, em Lactâncio, a Providência substitui a Fortuna (deusa, mas também o acaso) no seu papel de reguladora da sucessão dos acontecimentos humanos, como se pode perceber pela seguinte citação: “Éstos eran sus planes. Pero Dios, cuya ira se había atraído, desbarató todos sus designios”51.
A obra foi escrita provavelmente entre finais de 314 e começos de 315 52, trata-se de um momento de circunstâncias muito específicas, do curto período de equilíbrio entre Constantino e Licínio, e que não muito depois seria quebrado. Constantino havia recém-assumido o controle dos territórios ocidentais e se realizava um acordo com Licínio e a partir de então começa o processo de simbiose entre cristianismo e Império Romano. É uma obra escrita por um contemporâneo e em data próxima aos acontecimentos e que portanto reflete o seu momento. Na escrita de sua obra Lactâncio se utiliza de sua experiência pessoal, dos testemunhos de seus contemporâneos e dos documentos oficiais53.
Por ser uma mistura de tendências variadas, é obra de difícil classificação, mas de acordo com Teja é um misto de história com apologia cristã54. E mesmo no que diz respeito à história também é a fusão de duas tradições historiográficas diferentes, uma das crônicas das perseguições, de origem cristã, e outra da história política pagã55. No que diz respeito à crônica cristã assume grande importância o nome de Eusébio de Cesárea que inaugura uma nova vertente historiográfica, cristã. Esta parece se alimentar da vertente apologética (pois vem da necessidade de fornecer provas para demonstrar sua tese), mas a transcende, e se diferencia da vertente pagã por se despojar das tendências retóricas e de ser mais documental56. De certa forma também Lactâncio já prefigura alguns desses elementos, pois também inseriu alguns documentos em sua obra como é o caso do edito de tolerância de Galério e da circular de Licínio.
Nesse ponto, o que se tentou fazer até aqui foi delinear os caracteres básicos dessas múltiplas tendências que confluem para formar a obra de Lactâncio tão rica em seus mais
50 TEJA, R. In: LACTANCIO. Sobre..., p.11. 51 LACTANCIO. Sobre…, p.125.
52 TEJA, R. In: LACTANCIO. Sobre..., p.19. 53 ibid., p.21.
54 ibid., p.23-4. 55 ibid., p.21.