6 ANÁLISE DOS DADOS
6.1 PRIMEIRA SUBCATEGORIA: O CURRICULO
6.1.1 O Currículo e as linguagens do programa
O Programa Escola 2.0 traz em seu arcabouço as experiência acumuladas pela TV Cultura na idealização e produção de tantos outros programas voltados especificamente para a educação, tendo como público crianças e adolescentes. A linguagem de tal programa buscou se valer do ritmo mais acelerado imposto em comerciais e em videoclipes, da dinâmica apresentada nas animações, da mistura de conflitos inerentes à fase da adolescência. Nos episódios, observam-se elementos da cotidianidade dos adolescentes vinculados ao espaço da escola e tal cotidiano é aproveitado para veicular processos de construção de conhecimento e de aprendizagem.
O currículo aberto, o currículo oculto, e a história de cada um deles, estão vinculados às categorias que utilizamos para dar tão facilmente significado à nossa atividade cotidiana, que por sua vez está vinculada aos interesses sociais e os justifica. Pode ser difícil ver os resultados de nosso trabalho programático e intelectual como contribuindo com a hegemonia. No entanto, vendo como esses elementos se ajustam, relacionalmente, às estruturas reais de dominação numa sociedade, podemos agora começar a entender os mecanismos por meio dos quais se dá nas escolas a reprodução econômica e cultural. (APPLE, 1982, p. 36)
Tendo em vista o currículo conforme proposto por Apple em que se observa no ambiente escolar a reprodução econômica e cultural da sociedade, o “Escola
2.0”, apresenta dois contrastes que se fazem presentes nas instituições escolares contemporâneas: por ser gravado em uma escola pública de São Paulo, apresenta salas de aula amplas tais quais as construídas no início do século XX, com um número de alunos que denota lotação máxima e em que o professor só tem à frente o quadro negro e alguns corredores para se locomover, já os alunos aparecem “conectados” em tempo integral aos seus celulares, câmeras fotográficas ou filmadoras, ipods etc, ou seja, representa efetivamente uma escola pública tradicional.
As cenas em sala de aula apresentam professores usando instrumentos tecnológicos igualmente tradicionais, como o quadro e o giz. Não se visualizam, neste ambiente, instrumentos como o projetor multimídia, computador, nem internet ou televisão. Os professores utilizam-se de aulas teórico-expositivas enchendo o quadro de informações e transmitindo conhecimento, já os alunos aparecem ora prestando atenção aos professores e ao conteúdo da aula, ora conversando com os colegas. Em certos momentos, percebe-se Cadu ou Mano divagando na fala dos professores, nestes momentos há uma quebra de cena marcada por algum recurso como uma vinheta, passando para um quadro diferente do programa que visa informar, de modo mais contundente, o que está sendo dito, mostrando cenas que elucidam tal fato abordado pelo professor, ou ainda, personagens que pertenciam à trupe da primeira temporada de Almanaque Educação, discutindo sobre o assunto. Novo jogo de câmeras e retorna ao ambiente da aula como se nada tivesse acontecido.
Pode ser destacado ainda que o processo ensino-aprendizagem é enfocado por vezes no professor, na medida em que aparenta ser repassador de saberes prontos quando de sua atuação em sala de aula, outras vezes nos alunos que se mostram criativos, críticos e reflexivos, pesquisando, entrevistando, publicando temas pertinentes ao currículo escolar em seus blogs. Percebe-se enfoque também no próprio conteúdo que enfatiza temas concernentes à contemporaneidade. No caso do professor “transmissor de conhecimento”, verifica-se um conceito de currículo tradicional, já no caso dos alunos proativos e da discussão de temas atuais, observa-se maior aproximação ao conceito de currículo defendido por Apple ou Gimeno Sacristán, que anunciam a questão do currículo enquanto utilização prática do conhecimento na rotina de cada aluno.
Com relação ao elenco juvenil que compõe o programa, pode-se dizer que é eclético e apresenta, entre os personagens principais, a dupla conhecida já da segunda temporada, Cadu, um menino negro, bonito, vivaz, otimista, criativo, feliz e empático e Mano, um menino branco, também bonito, mas aparentemente menos “bonzinho” que Cadu, denotando uma personalidade menos preocupada com a felicidade dos demais, ou, como observado no conceito de currículo defendido por Gimeno Sacristán, uma personalidade que parece não favorecer o estabelecimento de um compromisso pessoal com as causas sociais. Exemplo disso, é que quando a nova aluna Bia chega na classe, cena apresentada no primeiro episódio, a turma toda a olha com desprezo, Cadu logo se interessa em fazer amizade e Mano o aconselha a não intervir para que o resto da turma não o exclua também.
A terceira personagem é a recém-chegada à escola (e, consequentemente ao programa) Bia, que a princípio é recebida com indiferença pelos demais alunos, que a estigmatizam com adjetivos como “esquisita” ou “estranha”, pois sua personagem está em desalinho com o estereótipo esperado pela maioria dos alunos da escola, indicando que o modo como se veste sugere um não pertencimento àquela comunidade. Os outros personagens são de fato, alunos da escola que se propuseram a participar das gravações em horários diversos ao período escolar e, desse modo, vestem-se e agem como se estivessem mesmo na escola, com roupas que invariavelmente incluem o jeans, camisetas, tênis e mochilas.
A instituição escolar é, por excelência, o local de formação intelectual, porém, considerando-se os conceitos observados nas obras de Apple e Gimeno Sacristán, deve ir além disso, cumprindo um papel de caráter político na formação moral e ética de seus alunos. O currículo é, sem dúvida, uma das estruturas mais importantes para organizar o conhecimento que se pretende construir e esse exige processos de escolhas e também de exclusões, pois o conhecimento, ao ser inserido em um currículo, obrigatoriamente sofrerá redução. A proposta do Programa Escola 2.0 é ir além do conhecimento que compõe o currículo escolar, preocupando-se notadamente com o cotidiano dos educandos. Exemplo disso pode ser visto já na abertura do programa que mostra os garotos voltando da escola de bicicleta e skate, porém devidamente equipados com capacetes, demonstrando a importância em se atentar com as questões de segurança dos adolescentes.
A concepção de currículo apresentada neste estudo considera a cultura, o cotidiano e o contexto social em que vivem os alunos e estes devem ter uma
compreensão clara da realidade em que estão inseridos. Com relação a isso, o episódio, “Aproximação e Distanciamento”, traz a preocupação da diretora da escola em aproximar os pais, pois, nas últimas reuniões, não conseguiu atrair as famílias para a escola. Ela leva essa preocupação ao grupo de professores e solicita que a ajudem a encontrar uma solução. Há então a sugestão do professor de educação física, que propõe que os pais venham participar de atividades com seus filhos em um dia determinado. A atividade é um sucesso e, consequentemente, a reunião também.