O dano existencial se constitui de diversas espécies, entre elas, uma se desenvolve nas relações de trabalho. Constitui, portanto, um dano à existência da pessoa, de modo a não permitir que seja feliz, impedindo as suas escolhas e decisões. Os desgostos e as decepções oriundas do trabalho fazem com que o empregado fique preso a situações e condições que impossibilitam a execução do seu projeto de vida, tanto pessoal quanto profissional.
O empregado tem características fundamentais para ser identificado, devendo prevalecer a pessoalidade, pois o contrato de trabalho é realizado com a pessoa certa e determinada, os horários de chegada e saída devem ser cumpridos diariamente, com respeito às regras da empresa. A prestação de serviço é cumprida de tal forma que o empregador tenha para si os riscos e prejuízos constituídos a qualquer tempo (MARTINS, 2014).
A subordinação é item indispensável, o empregador ordena as tarefas e o empregado deve segui-las, não podendo tomar decisões próprias e sem a concordância de quem está no comando, podendo ser o empresário, o gerente, entre outros. Prestadas as tarefas em favor de determinado empregador, a contraprestação é o pagamento, caso contrário será identificado como trabalho voluntário. Martins (2014, p. 156) entende nesse sentido que, “Se o prestador de serviço é pessoa física, trabalha com continuidade, subordinação, pessoalmente e recebe um valor pela prestação de serviço, é empregado. Está, portanto, sujeito às leis trabalhistas.”
O homem construiu diversas garantias, entre elas o direito à dignidade da pessoa humana, que inclui a existência digna do indivíduo, exigindo proteção máxima e inegociável, concedida pelo legislador constitucional. Na CF/88 estão elencadas estas garantias, expostas no art. 5º, entre elas, o direito à honra, à imagem, à intimidade, à vida privada, à presunção de inocência, o direito a não ser submetido à tortura, entre outros. No art. 6º tem-se a garantia do direito à saúde no trabalho, ao lazer, à segurança. Já no art. 225 consta o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado; no art. 226, § 7º, o planejamento familiar; no art. 227, o direito da criança e do adolescente à alimentação, à profissionalização, à cultura, ao respeito à convivência familiar, à proteção contra violência, a negligência, entre outras (ALMEIDA NETO, 2012).
Quando as atividades realizadas pelo trabalhador em seu emprego ultrapassam o nível suportável, existem grandes chances de desencadearem transtornos pessoais, profissionais, familiares e sociais. Tais atividades excessivas comprometem a saúde do trabalhador, possibilitando o aparecimento de doenças ocasionadas pelo trabalho, pondo em risco a sua saúde física e mental. Boucinhas Filho e Alvarenga (2013, p. 251) afirmam nesse sentido que, “[...] Quanto maior a agressão à saúde do trabalhador no ambiente de trabalho, maior também será a agressão ao seu sistema imunológico, ficando este cada vez mais vulnerável a doenças decorrentes do trabalho.”
Essas perturbações afetam desde as menores escolhas do dia a dia até as mais importantes, decisivas e irreparáveis situações, incidindo diretamente na liberdade de decisões com a família, amigos, lazer, saúde, cultura, intelecto, e outros mais que afetam o desenvolvimento e a construção do destino do trabalhador.
O reflexo dos danos causados pela agressão à vida do trabalhador se desencadeia na sua saúde, sendo a duração da jornada de trabalho uma das principais causas, conforme aponta Delgado (2007, p. 26),
Do mesmo modo que a ampliação da jornada (inclusive com a prestação de horas extras) acentua, drasticamente, as possibilidades de ocorrência de doenças profissionais, ocupacionais ou acidentes do trabalho, sua redução diminui, de maneira significativa, tais probabilidades da denominada “infortunística do trabalho”.
Nesse quadro, a diminuição para 40 horas do módulo semanal de labor no Direito brasileiro constitui notável medida de saúde no ambiente do trabalho, por restringir o desgaste inerente à atividade laborativa, com a fundamental ênfase de que se trata, regra geral, de redução apta a propiciar o franqueamento de um inteiro dia adicional, dentro da semana, para o respectivo trabalhador brasileiro.
Nesse sentido, a saúde do trabalhador está ligada a atividades ou ambientes que possuem elementos decisivos quanto aos efeitos de insalubridade. A redução da jornada de trabalho constitui medida importante para a área da Medicina Laboral, razão porque as regras jurídicas laborativas se tornaram regras de saúde pública, e não somente de cunho econômico (DELGADO, 2007).
A CF/88 demonstra a importância de implementar uma política de saúde no trabalho, relacionada com a jornada e a duração laborativa, exposto no seu dispositivo legal:
Art. 7º, CF/88. São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
[...]
XXII - redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança;
[...]. (BRASIL, 1988).
O dano existencial nas relações de trabalho é constatado quando o empregado é submetido por seu superior à subordinação degradante, tendo que sujeitar-se à jornada de trabalho excessiva, horário incompatível com a vida familiar e social, condições no ambiente de trabalho que tornem impossível manter a sua saúde, crescimento profissional e patrimonial.
Assim, se as atividades laborativas ultrapassarem o seu fim, que é a prestação de serviço, bem como ignorarem a integridade do obreiro, resultarão em prejuízos à sua saúde. Além disso, o prejuízo se confirma quando o empregado se sente prejudicado pelas condições expostas pelo trabalho, modificando fisicamente a forma como produz ou realiza suas atividades. As alterações físicas e psicológicas ocasionadas pela necessidade de adaptação para continuar realizando as atividades no mesmo ritmo, quantidade e qualidade, afetam não só o desgaste no ambiente laborativo, mas também refletem nas relações pessoais, familiares e, consequentemente, no projeto de vida.
Existem diversas doenças ocasionadas pelo desgaste do indivíduo no trabalho10. A modernização do trabalho foi um dos principais fenômenos responsáveis pelo aumento de
10 Automação: é fator crescente que obriga o aumento da mão de obra humana mais qualificada, algumas vezes
com redução de horários de trabalho ou até mesmo de jornada de trabalho. Os trabalhadores submetidos à pressão do dia a dia podem adquirir doenças como desgaste mental ou físico, fadiga, stress, Síndrome Loco
Neurótica, e Síndrome de Burn-out.
Desgaste mental e/ou físico: motivado pelo ritmo de trabalho acelerado, ausência de pausas para descanso,
concessão incorreta de folgas e condições ambientais no local de trabalho acarretam o desgaste, pois não existe repouso físico e mental adequado, ocasionando cansaço, irritabilidade, resistência aos fenômenos de hierarquização e da fadiga.
Síndrome Loco Neurótica (SLN): pode ocorrer diante do sofrimento ocasionado pelas perdas vividas no
cotidiano da relação laboral, atingindo a saúde do trabalhador. Refere-se a uma manifestação psicológica que interfere no cotidiano do indivíduo, inclusive nas suas atividades profissionais. Identifica-se pelo mecanismo de perda, como angústia, dúvida, desconfiança e o consequente isolamento, indiferença, fragilidade nas relações, entre outros.
Stress: está associado ao desgaste organofuncional, gerado por estímulos desagradáveis que minam a imunidade,
além da tensão ou ansiedade, a superexcitação, barulho, críticas, mudanças drásticas no modo de vida são suficientes para causar o stress. O stress pode ser identificado por dores de cabeça e musculares, problemas no estômago, hipertensão, ansiedade, depressão, angústia, insônia, falta de concentração, irritabilidade, entre outros.
Síndrome de Burn-out: é a síndrome de desistência, pois o indivíduo deixa de investir em seu trabalho e nas
relações afetivas que deste decorrem, é conhecido também como esgotamento, manifesta-se na inadequação do homem à realidade do trabalho. São elementos da síndrome de burn-out, a exaustão emocional, despersonalização e diminuição do envolvimento pessoal no trabalho.
tarefas manuais repetitivas. Sendo assim, uma dessas patologias sofridas pelo trabalhador é a Lesão por Esforços Repetitivos (LER), também chamada de Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho (DORT), que não apenas reflete dano biológico, mas consequente dano existencial (SOARES, 2009).
A LER pode ser desencadeada a partir de várias atividades laborativas, conforme aponta Christina Sara Fracaro (2013, p. 6):
As LERs podem surgir em qualquer ramo de atividade, desde que existam funções e postos de trabalho que exponham os trabalhadores a esforços repetitivos de forma contínua, visto que nestes locais de trabalho rápido são presenciados maior número de atingidos.
Constata-se, então, que quanto maior a quantidade de serviço prestado em determinado tempo, maior será o lucro da empresa, porém, a saúde do trabalhador correrá riscos, sendo a falta de um ambiente adequado um ponto negativo, que agrava o quadro de doenças.
A LER atinge principalmente os membros superiores, ataca músculos, nervos e tendões, sintomas que podem ser diagnosticados ao mesmo tempo ou independente um do outro, provocando inflamações e irritações. Surge de condições inadequadas de trabalho, juntamente com a sobrecarga das estruturas anatômicas do sistema osteomuscular com a falta de tempo para recuperação (WAGNER; RODRIGUES; FRIES, 2014).
Os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho resultam, conforme Antonalia, (2001, p. 18, grifo do autor) na
[...] dor, fadiga, fraqueza e queda da performance no trabalho. Os locais do corpo mais atingidos são membros superiores, pescoço, ombros e dorso. É claro que, onde existem articulações, músculo, tendão, fáscia e nervo, existe a possibilidade da ocorrência de DORT.
É importante deixar claro que para essa espécie de patologia existe tratamento com equipe multidisciplinar na área da saúde, e em casos graves a cirurgia é a opção indicada. A
Fadiga: ocorre quando a atividade é cansativa e desagradável e o trabalhador sente vontade de acabá-la
imediatamente, inexiste o desejo de continuidade, há perda de qualificação e decréscimo da criatividade e iniciativa. Esse desgaste atinge a personalidade e a vida mental, podendo ocasionar doenças físicas ou psíquicas. Principais sintomas são o cansaço, sonolência, falta de vontade de trabalhar, perturbações de raciocínio, redução do nível de atenção (MARQUES, 2007).
melhora, porém, só ocorrerá se a empresa promover mudanças no ambiente de trabalho. No caso de cirurgia, esta pode, inclusive, piorar a situação quando não houver indicação precisa.
Resta claro, portanto, que as condições degradantes impostas pelo empregador no ambiente de trabalho, principalmente físico, acarretam danos irreparáveis à vida de relações, refletindo diretamente na sua esfera pessoal, invadindo e impossibilitando a realização de pequenos desejos, por conta de uma doença ocasionada pelo labor. O dano existencial não deve ser tratado simplesmente como mais um dano imaterial, mas um causador de prejuízos, muitas vezes irreversíveis para o empregado, considerado frágil frente às prerrogativas do empregador.