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O debate ainda em aberto: ser universal na diversidade

2 Superioridade normativa

3.1 O debate ainda em aberto: ser universal na diversidade

O Direito Internacional dos Direitos Humanos convive com um grande desa io, muitas vezes olvidado: criar, por meio de tratados e costumes internacionais, um rol amplo de direitos e um grupo de órgãos judiciais ou quase judiciais que, por sua vez, determinarão interpretações comuns dos mais importantes temas das heterogêneas sociedades humanas (direito à vida, aborto, pesquisa de célula-tronco, integridade ísica, tratamento desumano, pena de morte, “waterbording”, verdade e memória, autoanistia, liberdade de informação, arquivos secretos, igualdade, ações afirmativas, união de homossexuais, entre outros temas dos dias de hoje).

Esse desa io do Direito Internacional de Direitos Humanos – ser

universal na diversidade – não é isento de polêmicas, que a loram em

especial quando as decisões nacionais – muitas vezes apoiadas pelas maiorias locais e em práticas culturais arraigadas – são consideradas violações de direitos por poucos conhecidos órgãos internacionais, que se pautam pelos tratados e costumes internacionais de direitos humanos.

Nesse momento, surgem as dúvidas tradicionais: são os direitos humanos universais? Comporiam apenas um discurso ocidental ou ocidentalizado? A universalização dos direitos humanos não eliminará a diversidade cultural que marca a humanidade? A linguagem dos direitos humanos não é totalitária ao exigir padrões de comportamento que ignoram o multiculturalismo e as diferenças entre os povos?

Tais questões são ainda atuais, mesmo que haja a reiteração da chamada universalidade dos direitos humanos em diversos diplomas internacionais.[304]

Tal reiteração, contudo, não faz calar as dúvidas, muitas delas fundadas em práticas culturais que somente agora são questionadas, gerando fortes críticas dos chamados relativistas. Na visão de DONOHO os defensores do

relativismo adotam três preposições: 1) que é possível empiricamente

observar divergências nos julgamentos morais entre as mais diversas sociedades devido às diferenças culturais, políticas e sociais; 2) que tais divergências não possuem sentido ou validade fora do seu contexto social particular; 3) que não há julgamentos morais justificáveis fora de contextos culturais específicos.[305]

Concluiu-se de tais preposições que, apesar de ser possível o compartilhamento de valores, não há como justi icar a superioridade de um

valor de uma cultura sobre outra . Logo, a alegação da unidade do ser

humano e de seus direitos inerentes como verdade absoluta não faz, como é óbvio, desaparecer as alegações de imperialismo cultural e ingerência para ins de dominação, que margeiam o ataque ao universalismo dos direitos humanos.

Resta consagrado o con lito entre aqueles que defendem a

universalidade e aplicação geral dos direitos humanos e aqueles que pregam

a possibilidade de opção local ou particular para, assim, preservar determinadas condutas ou práticas.

Tal con lito icou evidente já na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), quando alguns países questionaram a redação de alguns direitos, desquali icando pretenso consenso da humanidade. Desde então uma das características dos direitos humanos mais questionada foi a universalidade. Contudo, depois de décadas de Guerra Fria e seletividade, nas quais as violações de direitos humanos do “outro lado” eram realçadas e as dos aliados eram olvidadas, foi realizada a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos de Viena, em 1993, na qual consagrou-se a universalidade dos direitos humanos.[306]

Por isso, alguns autores consideram superado o debate: os direitos humanos, quer seja a partir da Declaração Universal de Direitos Humanos ou a partir da Declaração de Viena são universais, pois contam com o apoio dos Estados de diferentes matizes da comunidade internacional.

BOBBIO, por exemplo, sustenta que a Declaração Universal dos Direitos Humanos “representa a manifestação da única prova através da qual um

sistema de valores pode ser considerado humanamente fundado e, portanto, reconhecido: e essa prova é o consenso geral acerca da sua validade ”.

Continua o citado autor salientando que, “pela primeira vez, um sistema de

princípios fundamentais da conduta humana foi livre e expressamente aceito, através de seus respectivos governos, pela maioria dos homens que vive na Terra (...). Somente depois da Declaração Universal é que podemos ter a certeza histórica de que a humanidade – toda a humanidade – partilha alguns valores comuns”.[307]

LINDGREN ALVES, por seu turno, vê a consagração da universalidade dos direitos humanos na Declaração de Viena de 1993, na qual ocorreu o “reconhecimento, desta feita por uma comunidade internacional

representada em sua integralidade por Estados soberanos, da universalidade dos direitos de inidos na Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948”.[308]

Esse “consenso formal” entre os Estados não foi su iciente, porém, para encerrar o debate, uma vez que o questionamento da existência de direitos humanos ditos universais não é feito somente no plano do reconhecimento

de direitos , mas também no plano da interpretação do conteúdo desses

direitos e no plano de sua implementação.[309]

Assim, países como Estados Unidos podem aceitar o direito à igualdade dos indivíduos sem discriminação de qualquer natureza, mas negar a interpretação de que tal igualdade exigiria o reconhecimento da isonomia de direitos da união homoafetiva. Ou, ainda, Brasil e Estados Unidos podem

reconhecer o direito ao devido processo legal , mas se vê diferenças marcantes no conteúdo do direito de defesa, acesso aos autos, privilégios contra a autoincriminação (e outros) entre estes dois ordenamentos jurídicos.

Por isso, neste ponto do livro, cabe estudar as etapas rumo à a irmação da universalidade dos direitos humanos, bem como as objeções mais frequentemente levantadas. Após, analisaremos as possibilidades de contorno de tais objeções e também de estabelecimento de um diálogo

multicultural capaz de superação da própria dicotomia universalismo versus relativismo.