A crise financeira de 2008 foi o ponto de viragem no comportamento de Pequim no sistema regional e global e especialmente perante o poder dos EUA na região Ásia- Pacífico91. Como vimos, até então o PCC tinha vindo a optar por um comportamento mais conciliador, essencialmente de acomodação, reconhecendo que a política de não confronto com os EUA servia melhor os interesses de fortalecimento do seu poder, de manter e acumular os ganhos retirados do recente crescimento económico regional e beneficiar do ambiente de segurança e prosperidade garantidos pela presença militar de Washington em função da preservação do “bem comum”92, ou seja, na garantia da
segurança das principais rotas comerciais na região Ásia-Pacífico, vitais para a economia Chinesa.
A partir de 2008/09 a RPC assume um tom mais assertivo perante os seus vizinhos e os EUA. Esta postura mais desafiante torna-se bem notória no plano das suas disputas territoriais e marítimas com o Japão ou com alguns países da ASEAN, tendo-se vindo a verificar um multiplicar de incidentes internacionais entre as forças marítimas militares Chinesas e de alguns países da região em torno das disputas pelo domínio do espaço marítimo93.
No plano político-diplomático e económico internacional saltam à vista as iniciativas lançadas por Pequim como as reuniões dos BRIC’s94, a reivindicação de uma
91 NYE, J. S. (2010). American and Chinese Power after the Financial Crisis. IN The Washington
Quarterly, pp. 143-153.
92 No seu trabalho, “Command of the Commons: The Military Foundation of US Hegemony” (2003), Barry
S. Posen refere-se a este bem comum como “global Commons”.
93 Exemplo disso são os sucessivos incidentes no mar do sul da china envolvendo a RPC e os demais países
da região incluindo a marinha dos EUA.
38 maior preponderância dos países emergentes no seio de instituições como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional (FMI), e uma oposição cada vez mais constante e confrontacional quanto às moções Norte-Americanas dentro do Conselho de Segurança da ONU.
Como resultado, algumas questões têm regressado ao centro dos debates académicos acerca do futuro e da manutenção da estabilidade na região Ásia-pacífico, em grande medida, suscitadas pelas dúvidas quanto ao posicionamento e atuação da RPC neste novo contexto geoestratégico e a quanto à sua interação com os EUA.
Esta nova postura Chinesa é em parte explicável pela perceção de relativo declínio do poder norte-americano ora pela crise de 2008, que deixou a sua marca na economia da grande potência global95, ora pelas visíveis dificuldades das suas forças militares no Iraque e no Afeganistão que forçaram um reajustamento da sua política externa, estratégia militar, económica e de segurança para a região Ásia-Pacífico de forma a preservar o seu estatuto de liderança face a uma RPC cada vez mais fortalecida e que acabava de anunciar a sua vontade em tornar-se numa potência marítima96.
Se do lado Chinês a dimensão militar do retorno dos EUA à Ásia inicialmente não gerou uma precipitação plasmável numa reação mais assertiva e de confronto perante este
rebalancing de Washington para a região97, já na Casa Branca, depois de anunciada a
intenção da RPC em tornar-se uma potência marítima, todos os alarmes dispararam quando o líder chinês, Xi Jinping, num discurso de claro nacionalismo, exortou á recuperação do “sonho chinês98” e da restauração do poder do país na região99.
Tanto os EUA como a comunidade internacional reagiram com natural apreensão perante esta súbita evolução da orientação política e estratégia Chinesa. Na verdade, há quem aponte para uma nítida erosão do discurso da “ascensão pacífica” da parte das elites dirigentes Chinesas e da estratégia de low profile recomendada por Deng Xiaoping para
95 Cf. dados retirados de World Bank Group apresentados no anexo 9.
96 Vontade expressa em 2012 aquando do 18º Congresso do Partido Comunista Chinês numa altura em que
os EUA anunciavam o rebalancing to Asia.
97 CARRIÇO, Alexandre (2013). “Cinco Debates, uma Grande Estratégia”. In Nação e Defesa, Nº. 134 –
5ª série.
98 Sonho esse de recuperação do seu papel de liderança da região e destino global e reunificação de todos
os territórios considerados por Pequim como seus, dos quais se integra a ilha de Taiwan, as ilhas Senkaku/Diaoyu, e os vários arquipélagos, ilhéus e respectivo espaço marítimo do mar do sul da china.
99 GRAMMATICAS, Damian (2013). China’s new presidente Xi Jinping: A man with a dream. Publicado
39 a condução da política externa nacional. Com efeito, Xi Jinping, apesar de assegurar que a RPC irá continuar a seguir o caminho do “desenvolvimento pacífico”, tem optado por um discurso onde defende uma RPC mais proactiva no sistema internacional com uma abordagem “mais musculada” e mais assertiva na defesa dos seus interesses e da sua influência política na região100.
Tal como Xi, a elite intelectual Chinesa e académicos de todo o mundo reconhecem que a RPC goza de um “período de oportunidade estratégica”101, apenas
possível porque o país dispõe atualmente de uma realidade geoestratégica favorável e de condições para transformar a sua força económica em poder e preponderância estratégica, prevendo-se uma maior vontade da liderança Chinesa em alcançar uma posição confortável no núcleo restrito de potências que detêm o poder decisório global.
Acresce o facto da RPC se apresentar já como a segunda potência com o maior orçamento para a defesa a nível mundial e a que mais gasta em meios militares na região, revelando também uma grande capacidade de modernização tecnológica dos seus equipamentos e sistemas de defesa102. Este reconhecimento do incrível robustecimento das forças armadas Chinesas e da sua maior assertividade na defesa dos seus interesses externos tem levado os seus vizinhos, especialmente o Japão, a entender a RPC como um Estado com um comportamento tradicional de uma potência em ascensão com o desejo de dominar o sistema e subordinar os seus vizinhos sob o seu poder103. De resto, como consequência e em resposta às disputas abertas pela RPC em torno da definição do seu espaço aéreo e defesa no mar da china oriental, o ministro japonês, Shinzo Abe, preparou o maior aumento de sempre no orçamento da defesa japonês quebrando assim com a política pacifista e não militarista seguida desde o fim da II Guerra Mundial104.
Parece existir um consenso geral de que a RPC tem ainda um longo caminho a percorrer e que o seu poder militar é ainda muito inferior ao dos EUA. Contudo, a
100 GREEN, Michael, et al. (2016). Asia-Pacific Rebalance 2025. Capabilities, Presence and Partnerships.
In CSIS.
101 Ibid. 102 Ibid.
103 De resto, praticamente todos os vizinhos deste gigante asiático têm aumentado as suas despesas militares
de forma a equilibrar a sua força com o poder chinês como é possível ver no quadro apresentado no anexo 3.
104 FERREIRA, Ana Gomes (2014). A Olhar para a China, o Japão prepara grande aumento do orçamento militar. In Jornal Público, publicado a 29/08/2014 - 19:13.
40 documentação oficial norte-americana105, dá conta que o poder militar chinês está em
rápido crescimento e que a RPC continuará a investir fortemente nas suas capacidades militares durante os próximos anos levando assim à conclusão de que os EUA não mais terão condições em conter a ascensão deste dragão asiático106.
Tal não impede que os EUA, desde 1997 tenham vindo a reforçar constantemente a sua presença na região, reforço esse acentuado em 2011 com a nova política de
rebalancing, transferindo consideráveis porções do seu hard power, distribuído por todo
o mundo, para o Pacífico. Segundo Ross (2012)107, o problema com este regresso à Ásia é a desproporção entre o investimento anunciado e a real ameaça que a RPC representa para os interesses dos EUA correndo o risco de incentivar Pequim, que tem até tem tido um comportamento cauteloso, a tomar uma postura mais assertiva neste novo contexto geoestratégico.