2 CAPÍTULO I – PRECEDENTES HISTÓRICOS DA
2.6 O PACOTE DE ABRIL
2.6.3 O decreto-lei 1542/77
Este decreto foi feito com o objetivo de possibilitar a sucessão da presidência ao Chefe do SNI, João Batista Figueiredo. Todos os presidentes militares que ascenderam desde Castelo Branco tinham uma característica em comum. Eram Oficiais Generais com 4 estrelas, a patente de maior hierarquia da carreira militar.
Este fato possibilitou que Orlando Geisel, irmão do presidente então Ministro do Exército do governo Médici, se colocasse contra o nome do então General Affonso Albuquerque de Lima, membro da chamada linha dura e, com apoio dos quartéis e das baixas patentes, à sucessão de Médici. Pois o General ainda não tinha conferido a 4ª estrela e, para as Forças Armadas, um presidente da república comandante chefe da nação não podia ter patente inferior aos seus subordinados em função do princípio militar da hierarquia e da disciplina.73
Ernesto Geisel sabia bem que este mesmo argumento seria utilizado se o seu indicado fosse João Batista Figueiredo. Àquela altura ele tinha consciência das aspirações da linha dura e do General Silvio Frota à sucessão que, inclusive já conquistara uma bancada de apoio de mais de 40 deputados no Congresso Nacional.
João Batista Figueiredo ainda não ostentava a 4ª estrela, só preencheria os requisitos no fim de março daquele ano. A lei complementar nº5, de 1970, previa prazo de 6 meses de prazo mínimo de desincompatibilização de funções públicas para que determinados agentes se tornassem elegíveis.
71 BRASIL. Decreto-Lei 1.541/77. Disponível em: <http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/
Decreto-Lei/1965-1988/_quadro.htm>. Acesso em: 9 nov. 2010.
72 FROTA, 2006, p. 357. 73 GASPARI(A), 2003, p.186.
Art. 1º - São inelegíveis:
Il - para Presidente ou Vice-Presidente da República: [...]
b) até 6 (seis) meses depois de afastados definitivamente de suas funções
1 - os Ministros de Estado; [...]
3- o Chefe do Serviço Nacional de Informações;74
Entre esses agentes estava o cargo de Chefe do SNI, função desenvolvida pelo General João Batista Figueiredo. O objetivo do decreto foi de diminuir para 3 meses o prazo de desincompatibilização, para que o General Figueiredo fosse agraciado com a 4ª estrela e ostentasse os pressupostos de elegibilidade para eleição no colégio eleitoral em outubro daquele ano75.
Como além do chefe do SNI o prazo de desincompatibilização foi reduzido também para os ministros de Estado, este fato naquele momento não teve tanta repercussão quanto o restante do Pacote de Abril. A candidatura de Figueiredo só viria tornar-se pública um ano depois76.
Após o retorno do recesso de abril, a situação no parlamento ficara difícil perante a opinião pública. O governo providenciou, assim, um resgate da ―dignidade do parlamento‖ e, um furo de reportagem para impressa escrita e televisiva. Com o quórum para aprovação de emenda constitucional reduzido para maioria absoluta, o governo liberou a bancada da ARENA e submeteu ao parlamento a votação o projeto da Emenda Constitucional nº9 com o seguinte texto:
Art. 175. A família é constituída pelo casamento e terá direito à proteção dos Poderes Públicos. § 1º - O casamento somente poderá ser dissolvido, nos casos expressos em lei, desde que haja prévia
74 BRASIL. Lei Complementar nº 05/70. Disponível em: <http://www. planalto.gov.br/ccivil
/leis/LCP/Lcp05.htm.>. Acesso em: 10 nov. 2010.
75 FROTA, 2006, p. 358. 76 GASPARI(A), 2003, p.190.
separação judicial por mais de três anos; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 9. de 1977)77
Até o ano de 1977, figurava ainda no Brasil a idéia do casamento indissolúvel, do pátrio poder e da relação conjugal hipossuficiente. Para a igreja isso sempre foi um grande tabu. Para os movimentos sociais e feministas uma bandeira de luta. Geisel, como luterano, nunca se opôs ao divórcio, àquela altura a aprovação de uma emenda, acabando com a indissolubilidade do casamento teria uma dupla função: Propiciar a opinião pública nacional e internacional um avanço nas liberdades civis, ofuscando assim o ato autoritário do Pacote de Abril e, ainda atacar os brios da igreja católica, que naquele momento era um dos pilares da oposição à ditadura encabeçada por Don Evaristo Arns.
Com a edição do Pacote de Abril e com a demissão de Silvio Frota o Governo Geisel conseguiu estabelecer bases para a sucessão presidencial, e uma composição parlamentar amplamente favorável aos interesses militares.
Apesar da luta pela redemocratização e pela anistia ampla, geral e irrestrita naquele período ter sido uma prerrogativa disputada com uma ampla mobilização da sociedade em prol das liberdades civis e dos direitos humanos78, o que se viu naquele período foi a utilização do movimento social e do parlamento para contrapor os interesses contraditórios palacianos, do que qualquer tipo de negociação ou composição para uma transição negociada ou acordada, como tanto se tem propalado.
Após a edição do Pacote de Abril restou-se comprovada à tática do governo nas eleições de 78, o governo conseguiu recompor sua maioria parlamentar o colégio eleitoral elegeu João Batista Figueiredo o novo presidente. Durante aquele ano o processo de descompressão unilateral continuou a acentuar-se, embora sem desprestigiar os instrumentos de exceção, como no caso da cassação do deputado Alencar Furtado com base no AI-5.
77 BRASIL. Constituição Federal de 1967 com Emenda Constitucional n° 01 de 1969.
Disponível em: <http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Emendas/ Emc_anterior1988/emc01-69.htm.>. Acesso em: 19 nov. 2010.
78 MEZAROBBA, Glenda.Um acerto de contas com o futuro. A anistia e suas
Em outubro de 78 o governo envia ao congresso a proposta de emenda à constituição nº11, que entre outras coisas: restabelece as imunidades parlamentares no que tange a votos, palavras e opiniões; impede alteração da constituição na vigência de estado de emergência e de sitio (art. 1º); restabelece os direitos e garantias individuais, como a vedação de penas cruéis e a garantia do habeas corpus; e, principalmente, revoga expressamente todos os 17 atos institucionais editados de 64 até 78 (art. 3º). A emenda entrou em vigor no dia 1º de janeiro de 1979.
Já no fim do mandato o governo aprova uma nova Lei de Segurança Nacional (6620/78), atenuando as penas do antigo decreto- lei 898/69 e retirando do ordenamento as penas de morte, banimento e perpetua que o antigo diploma ostentava79.