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O defloramento de Juliette: eletricidade, espírito e sensibilidade

Parte II: Dissertação contra as ilusões divinas

H) Aqueles que concebem Deus como uma causa primeira, atribuindo a ele o

III) Os milagres só podem ser comprovados por meio da persuasão de quem neles

10. O defloramento de Juliette: eletricidade, espírito e sensibilidade

Depois dessa longa dissertação ininterrupta, a abadessa propõe a Juliette colocarem em prática os princípios aprendidos. Eletrizada pelo discurso da libertina, a jovem joga-se nos seus braços, transbordando gratidão e excitação: “Eu te devo bem mais que a vida, minha querida Delbène, [...]; o que seria da existência sem a filosofia? Valeria a pena viver sob o jugo da mentira e da estupidez?”172. A superiora, por sua vez, regozija-se pelo sucesso de suas

lições: mais uma alma gangrenava-se sob a influência de sua corrupção e nada era mais prazeroso do que alastrar a perversão através de conselhos e seduções. Com isso, as carícias ficam mais ardentes, “acendemos logo o fogo das paixões na chama da filosofia”173, conta a

protagonista.

Nas aulas da prioresa, o desejo libertino é excitado tanto pela filosofia quanto pelas provocações sensuais, observa Delon174: a libertinagem eletriza Delbène175, assim como o

discurso eletriza Juliette176. Igualmente, a filosofia inflama a paixão assim como a paixão

inflama a filosofia. Há uma relação de reciprocidade em ambas as fórmulas177. A eletricidade é

ambivalente, ela se dissemina tanto no orgânico quanto no mental, ou melhor, ela circula entre o físico e o moral, num mesmo organismo ou em vários ao mesmo tempo, mantendo o desejo sempre aceso na alternância entre a argumentação e o deboche. É como se teoria e prática, discursos e corpos fossem ligados por uma única corrente elétrica capaz de propagar a energia continuamente num mesmo ciclo:

“A Histoire de Juliette desdobra-se num universo atravessado por forças e fluidos onde os corpos não são mais individualizados, mas de uma só vez reduzidos a uma série de órgãos e conectados a outros corpos. O próprio ritmo, das dissertações às cenas, da orgia à teoria, parece assegurado pela corrente elétrica. A jovem Juliette é instruída por Delbène, a iniciação é ao mesmo tempo intelectual e física, a eletricidade é ali produzida pelas fustigações e pelos paradoxos libertinos”178

.

172 “Je te devrai bien plus que la vie, ma chère Delbène, [...] ; qu'est-ce que l'existence sans la philosophie ? Est-ce la peine de vivre quand on languit sous le joug du mensonge et de la stupidité ?” (H.J., p. 225). 173 “[...] nous allumâmes bientôt le feu des passions, au flambeau de la philosophie” (H.J., p. 226). 174 Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1403, nota 2 da p. 225.

175 “[...] vivement électrisée par le libertinage [...]” (H.J., p. 184). 176 “Électrisée par ces discours [...]” (H.J., p. 225).

177 Ver Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1403, nota 1 da p. 226.

178 “L'Histoire de Juliette se déploie dans un univers traversé de forces et de fluides où les corps ne sont plus individualisés, mais à la fois réduits à une série d'organes et connectés avec d'autres corps. Le rythme même, des dissertations aux scènes, de l'orgie à la théorie, semble assuré par la chaîne électrique. La jeune Juliette est instruite par la Delbène, l'initiation est en même temps intellectuelle et physique, l'électricité y est produite par les fustigations et par les paradoxes libertins [...]” (Delon, “Électriser, un mot d'ordre au siècle des Lumières”, op. cit., p. 48).

Ébria de luxúria, a abadessa arma-se de um consolo e propõe satisfazer o desejo da aprendiz de livrar-se da virgindade. Masturbando-a cuidadosamente para adormecer a fenda intacta, as dores dos ataques são logo superadas pelos júbilos mais deliciosos, que se perpetuam por uma hora. Os papéis são então trocados, a pupila assume o consolo, é a religiosa que goza179. O êxtase colhido graças ao fim da virgindade leva nossa heroína a uma

nova constatação: “quanto mais espírito temos, melhor gozamos as doçuras da volúpia”180.

Sua instrutora explica-lhe a razão: “a volúpia não admite nenhum grilhão, ela é sempre maior quando os rompemos todos. Ora, quanto mais um ser tem espírito, mais ele quebra freios. Logo, o homem de espírito será sempre mais próprio que outro aos prazeres da libertinagem”181.

O termo espírito, no contexto específico empregado aqui por Delbène e Juliette, possui uma vasta gama de acepções. Em linhas gerais, encerra “todos os diversos sentidos das palavras: razão, bom senso, julgamento, entendimento, penetração, concepção, inteligência, gênio”. Por conseguinte, é “o fundamento da relação e da semelhança” que todos esses vocábulos têm entre si182. Segundo Rousseau, “espírito é razão temperada”. Portanto, “quem

diz espírito, diz o sal da razão”183. Para Voltaire, espírito é “uma razão engenhosa”184. A

explicação da abadessa evoca certamente uma síntese de todos esses significados: a transgressão, imperativa à intensificação do gozo, implica uma razão engenhosa, temperada, capaz de “juntar prontamente as ideias, variá-las, fazer delas quadros que divirtam e surpreendam a imaginação”185.

Juliette acrescenta que a extrema “fineza”186 dos órgãos também contribui muito para a

maximização dos prazeres da libertinagem. Delbène elucida esta última afirmação com uma

179 H.J., p. 227.

180 “[...] plus l'on a d'esprit et mieux l'on goûte les douceurs de la volupté” (H.J., p. 226).

181 “[...] la volupté n'admet aucune chaîne, elle ne jouit jamais mieux que quand elle les rompt toutes ; or, plus un être a d'esprit, plus il brise de freins ; donc l'homme d'esprit sera toujours plus propre qu'un autre aux plaisirs du libertinage” (ibid.).

182 “Il renferme en effet tous les divers sens des mots, raison, bon sens, jugement, entendement, pénétration, conception, intelligence, génie ; il tient de tout cela, & par conséquent il est le fondement du rapport & de la ressemblance qu'ils ont entr'eux” (Dicionário de Trévoux, op. cit., tomo 3, p. 857).

183 “Qu'est-ce qu'esprit ? Raison assaisonnée. Qui dit esprit, dit sel de la raison” (Rousseau, citado pelo Dicionário de Trévoux, ibid.), (itálico do autor).

184 “[...] une raison ingénieuse” (ibid.).

185 “Quelques-uns entendent par esprit l'art de joindre promptement les idées, de les varier, d'en faire des tableaux qui divertissent & frappent l'imagination” (ibid.), (itálico do autor).

186 “[...] finesse [...]” (ibid.). Conforme o Dicionário de Trévoux (ibid., tomo 4, pp. 167-168), “esse termo [...] exprime qualquer coisa de delicado e de acabado. Há uma relação com acabar. Ora, o acabado concerne propriamente à beleza que vem do trabalho e da mão do artesão. Ele mostra um cuidado particular e uma atenção ao menor detalhe. [...] A fineza, em Filosofia moral, é a capacidade de perceber o que há de mais sutil, de mais imperceptível e mais complexo nas relações superficiais das circunstâncias e das coisas”.

metáfora: quanto mais polido é um espelho, melhor ele recebe e reflete a luz dos objetos que lhe são apresentados. Ou seja, quanto mais perfeito e bem acabado é um órgão, melhor ele apreende as impressões dos objetos externos. Isso significa que a educação libertina não é para qualquer pessoa e pode ser completamente malograda se visar o sujeito errado. Quem não tem espírito, “não tem visões e é incapaz de aproveitar as dos outros”187. Quem tem

órgãos grosseiros, não consegue apreciar as sutilezas sensoriais. Dessa maneira, para sentir a existência intensamente, é fundamental possuir órgãos finos e mente afiada, pois a sensação é acentuada pela sensibilidade física e pela engenhosidade intelectual. Finalmente, estando ambas exaustas, nossa narradora aproveita o período de descanso para lembrar sua instrutora da promessa de deflorar Laurette.