A tarefa de quantificar os impactos ambientais de tamanhão desastre não é algo fácil. Mesmo passados mais de dois anos do acontecimento, as decorrências e as análises finais sobre qual é o tamanho do desastre tecnológico que atingiu Bento Rodrigues, a cidade de Mariana, a bacia do Rio Doce e seus afluentes, entre outras questões, estão longe de serem finalizadas.
As barragens de Santarém, Germano e Fundão formavam o Complexo Minerário de Germano. Em 2008, a barragem de Fundão foi ativada e, conforme vimos, sua segurança foi questionada em vários pontos e em várias ocasiões.
36 Às 15 horas do dia 05/11/2015, um tsunami de lama avançou sobre o subdistrito de Bento Rodrigues. O primeiro impacto da enxurrada foi a barragem de Santarém e o córrego desse subdistrito, acumulando a lama das duas barragens. Na sequência, foram atingidos os Rios Gualaxo do Norte e Carmo, este que fica a 55 quilômetros do primeiro. Mais 22 quilômetros até a lama encontrar o Rio Doce. Navegando no curso natural da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, a lama tóxica foi carregada até sua foz, na cidade de Linhares/ES chegando até o litoral capixaba, transformando o tom esmeralda do Oceano Atlântico em marrom. O Rio Doce, assim como a sua Bacia Hidrográfica possuem uma importância relevante para Minas Gerais, assim como país. Segundo Espindola et al. (2016), ela possui as seguintes características:
A Bacia Hidrográfica do Rio Doce, com uma área de drenagem de 86.715 Km2, é parte da Região Hidrográfica do Atlântico Sudeste 24. Desse total 86% encontram- se no estado de Minas Gerais e 14% no Espírito Santo. Com uma população residente de aproximadamente 3,6 milhões de habitantes, possui 228 municípios, total ou parcialmente inseridos na área da drenagem da bacia, sendo que 202 estão em Minas e 26 no Espírito Santo (ESPINDOLA et al., 2016, p. 83).
No momento do rompimento, 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro foram despejados morro abaixo que, segundo o Ibama, é um “resíduo classificado como não perigoso e não inerte para ferro e manganês, conforme a norma brasileira de Resíduos Sólidos - Classificação - ABNT NBR 10004” (IBAMA, 2015, p. 3). Desses, estima-se que 32 milhões de metros cúbicos tiveram como destino o meio ambiente. Um ano depois, ainda sobraram 18 milhões, que continuaram a ser carregados rumo ao litoral do Espírito Santo através do Rio Doce. O nível atual ainda é bastante preocupante.
No total foram 663,2 quilômetros percorridos pelos rejeitos de minério de ferro, contaminando recursos hídricos de dois estados e passando por 40 municípios. O rastro de destruição impactou, além da morte de 19 vidas humanas, vários hectares de matas nativas, a morte de toneladas de peixes e de diversos organismos aquáticos e terrestres, já que a transformação radical do ecossistema gerou consequências quase que instantâneas na região. É impossível mensurar os danos causados não apenas para a região, mas também para o país.
Um laudo técnico preliminar publicado pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) conjuntamente como o DIPRO (Diretoria de Proteção Ambiental) e o CGEMA (Coordenação Geral de Emergências Ambientais), em novembro de 2015, procurou apresentar dados preliminares sobre os impactos ambientais. A
37 apuração serviu como base para subsidiar a Ação Civil Pública e deixava claro a responsabilidade da Samarco pelos danos ao meio ambiente.
O documento apontava impactos agudos de contexto regional (entendidos como a destruição direta de ecossistemas), prejuízo à fauna e flora, assim como danos socioeconômicos que influenciaram o equilíbrio da Bacia Hidrográfica do Rio Doce "com desestruturação [sic] da resiliência do sistema" (IBAMA, 2015, p. 2).
Os primeiros apontamentos do laudo definem a intensidade do desastre. Para o Glossário da Defesa Civil Nacional, desastre significa:
“[...] resultado de eventos adversos, naturais ou provocados pelo homem, sobre um ecossistema, causando danos humanos, materiais e/ou ambientais e consequentes prejuízos econômicos e sociais. A intensidade de um desastre depende da interação entre a magnitude do evento e o grau de vulnerabilidade do sistema receptor afetado” (CASTRO, 1998 apud TOMINAGA; SANTORO; AMARAL, 2009, p. 14)
Os desastres são classificados de acordo com a intensidade, evolução e origem. São quatro classificações a serem atribuídas a um desastre enquanto à intensidade: acidentes; desastres de médio porte; desastres de grande porte; e desastres de muito grande porte (MINISTÉRIO DA INGRAÇÃO NACIONAL, 2007). O rompimento da barragem de Fundão foi classificado como desastre de muito grande porte e a conceituação sobre esse último nível de classificação indica que: “os desastres de muito grande porte, para garantir uma resposta eficiente e cabal recuperação, exigem intervenção coordenada dos três níveis do Sistema Nacional de Defesa Civil – SINDEC – e, até mesmo, de ajuda externa” (MINISTÉRIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL, 2007, p. 39-40) . O laudo do Ibama aponta:
Nessas condições, esses desastres não são superáveis e suportáveis pelas comunidades, mesmo quando bem informadas, preparadas, participativas e facilmente mobilizáveis, a menos que recebam ajuda de fora da área afetada, como foi o caso. Nessas condições, o restabelecimento da situação de normalidade depende da mobilização e da ação coordenada dos três níveis de governo (municipal, estadual e federal) e em alguns casos, até de ajuda internacional (IBAMA, 2015, p. 3)
Quanto à evolução, o evento é classificado como súbito, isto é, “caracteriza-se pela subtaneidade, pela velocidade com que o processo evolui e pela violência dos eventos adversos causadores dos mesmos” (IBAMA, 2015, p. 3)
Para finalizar a classificação do desastre ambiental, em relação à origem, os critérios disponíveis pela Política Nacional de Defesa Civil, documento elaborado pela Secretaria Nacional de Defesa Civil, que por sua vez está atrelada ao Ministério da Integração Nacional
38 são: naturais, humanos ou antropogênicos e mistos. Nesse sentido não há dúvidas de que, se foi provocado pelas ações e/ou houve omissão humana, o evento em questão classifica-se pela segunda opção, como um desastre de origem humana ou antropogênica.
O Ibama acompanhou a evolução do desastre in loco, desde o dia 6/11, um dia após o rompimento da barragem. Foram comprovados, preliminarmente:
[...] mortes de trabalhadores da empresa e moradores das comunidades afetadas, sendo que algumas ainda restam desaparecidas; desalojamento de populações; devastação de localidades e a consequente desagregação dos vínculos sociais das comunidades; destruição de estruturas públicas e privadas (edificações, pontes, ruas etc.); destruição de áreas agrícolas e pastos, com perdas de receitas econômicas; interrupção da geração de energia elétrica pelas hidrelétricas atingidas (Candonga, Aimorés e Mascarenhas); destruição de áreas de preservação permanente e vegetação nativa de Mata Atlântica; mortandade de biodiversidade aquática e fauna terrestre; assoreamento de cursos d´água; interrupção do abastecimento de água; interrupção da pesca por tempo indeterminado; interrupção do turismo; perda e fragmentação de habitats; restrição ou enfraquecimento dos serviços ambientais dos ecossistemas; alteração dos padrões de qualidade da água doce, salobra e salgada; sensação de perigo e desamparo na população (IBAMA, 2015, p. 4-5).
A turbidez da água do Rio Doce foi observada por toda a sua extensão, nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, influenciada pela onda de lama de rejeitos. A bacia hidrográfica do Rio Doce está localizada em 98% da sua área dentro do Bioma brasileiro denominado Mata Atlântica e os outros 2% pertencentes ao Bioma Cerrado. Outro impacto significante dessa mesma lama foram as áreas de preservação permanente (APP). São as vegetações ciliares, faixas marginais florestais ao longo de qualquer curso d’água, em zonas rurais ou urbanas. “São partes intocáveis da propriedade, onde não é permitida a exploração econômica direta” (IBAMA, 2015, p.7). A importância dessa “proteção” ecológica é inestimável, que acarreta desde a manutenção da biodiversidade local quanto para as comunidades que interagem com ela de forma socioeconômica.
As vegetações nessas áreas atenuam a erosão do solo, regularizam os fluxos hídricos e impedem o processo de assoreamento dos cursos da água, dentre outras funções vitais. As APPs e as áreas de reserva legal têm um papel fundamental no ciclo da bacia hidrológica como um todo (IBAMA, 2015, p.7).
Existem leis que visam proteger essas partes intocáveis. De acordo com o art. 38 da Lei 9.605/98, é crime ambiental destruir ou danificar floresta considerada de preservação permanente, mesmo que em formação, ou utilizá-la como infringências das normas de proteção.
Figura 5 – Destruição de mata ciliar ocasionado pelo desastre da Samarco em áreas de preservação permanente ao longo do Rio Doce.
39 Fonte: Ibama
Se faz necessário compreender o conteúdo da lama liberada pelas barragens de Fundão e Santarém para se ter uma ideia melhor dos impactos ambientais do desastre. A Samarco garante que a composição da lama é formada por rejeitos de minério de ferro e manganês, misturados basicamente com água e areia. Afirma também que o material não é prejudicial ao meio ambiente ou à saúde, confirmando os dados preliminares levantados pelo Ibama. Porém, o Levantamento Ambiental Expedito (LAE) colhido em Regência (vila pertencente ao município de Linhares/ES), documento elaborado pela Marinha do Brasil através do Navio de Pesquisa Hidroceanográfico "Vital de Oliveira", datado do dia 08/01/2016, confirmou a presença de metais pesados na foz do Rio Doce e no Oceano Atlântico, tais como: arsênio, manganês, chumbo e selênio, cujas presenças significam potenciais prejuízos ambientais. Resumidamente, o que as aferições hidrológicas feitas entre 26/11 a 05/12/2015, logo após o vazamento da lama pela foz do Rio Doce, apresentaram:
a) grande quantidade de sedimentos de cor laranja em suspensão em toda a coluna d'água e depositando-se no fundo nas áreas próximas da foz, num raio de até 15Km para o norte e para o sul, até a isobatimétrica de 25 metros. Ressalta-se que não foram feitas medições nas áreas de praia, com profundidades inferiores a 10 metros, onde pode ocorrer a presença de lama além do limite aqui especificado; b) Também existe lama em suspensão próximo ao fundo um pouco além desse limite citado no item a; e c) Por fim, pôde ser vista uma “lama flutuante” na superfície da água que se estende por vários quilômetros, onde a água por baixo da “lama flutuante” estava normalmente com coloração branca, indicando baixa quantidade de sedimentos (MARINHA DO BRASIL, 2015, p. 3-4).
40 Tendo em vista a polêmica sobre o que a Samarco diz e o que amostras de água analisadas também dizem, além do papel importante da opinião pública nesse processo, foi criado um coletivo científico-cidadão chamado Grupo Independente de Avaliação do Impacto Ambiental (GIAIA) para, com a ajuda de pesquisadores e colaboradores imbuídos na missão ambiental, analisar os impactos ambientais do desastre.
Em 2016, foi publicado um Relatório Técnico do GIAIA que apontou que, embora a qualidade da água estivesse melhor, levando em consideração os metais avaliados, não se pode subestimar o potencial do dano que grandes quantidades de elementos químicos que não são categorizados como metais pesados (ferro e manganês, por exemplo), podem acarretar na saúde humana e não humana. O excesso desses elementos na água pode causar efeitos tóxicos, principalmente em exposições crônicas. O documento também considerou de extrema importância analisar o que o grupo chamou de impactos secundários, tais como: contaminação de lençóis freáticos (águas subterrâneas), promoção de resistência bacteriana, extermínio de espécies aquáticas endêmicas, tanto da biota quanto da microbiota, assim como a destruição da mata ciliar e o consequente assoreamento do Rio Doce e afluentes.
Um contraponto a ser feito é que nem toda a quantidade de minério de ferro provém diretamente ou pelo rompimento da barragem de Fundão e Santarém, já que na região também existem outras atividades degradadoras do meio ambiente, como o garimpo de ouro, a pecuária, a agricultura de subsistência e a dragagem do rio. Mas, mesmo que os metais não pesados não sejam provenientes diretamente da lama da barragem, considera-se que a força do rejeito lançado “provavelmente, revirou e colocou em suspensão os sedimentos de fundo dos cursos d’água afetados, que naturalmente contêm metais pesados devido às características geológicas da região” (BIAZON, 2017 p. 158).
No tratante aos impactos aos diferentes ecossistemas da região afetada pelo desastre ambiental, como este ainda está em curso, fica impossível uma mensuração conclusiva sobre, mas existem três diferentes tipos de impacto indireto a serem levantados: de curto, médio e longo prazo. O fato concreto é que a região afetada nunca irá se recuperar totalmente devido a alguns fatores. Carlos Joly, Professor Titular em Ecologia Vegetal do Departamento de Biologia Vegetal do IB/UNICAMP afirma que:
Já tivemos outros desastres no Brasil, embora nenhum com o porte de Mariana, mas aparentemente não aprendemos as lições com os anteriores. Este desastre foi de uma magnitude que a região afetada nunca vai se recuperar totalmente. Vamos ter cicatrizes permanentes, e em todos os ambientes: terrestre, água doce
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e marinho. Em áreas com deposição de lama no ambiente terrestre, houve alteração da estrutura física do solo. A lama se depositou nos interstícios dos grãos de areia. Consequentemente, a vegetação que ocupava a região dificilmente terá condições de voltar, pois a alteração do solo é praticamente irreversível. Ou então levará centenas de anos para haver condições semelhantes ao passado, até que eventualmente ocorram novas deposições de areia, formando um novo solo sobre o solo atual (JOLY apud BIAZON, 2017, p. 166)
Indiretamente, toda uma cadeia ecológica acaba sofrendo os impactos do desastre. A vegetação próxima aos rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce, ao não conseguir absorver o oxigênio necessário para a respiração das raízes das plantas quando o solo fica encharcado, faz com que poucas espécies sobrevivam, o que desencadeia uma danosa influência na fauna que depende dessa flora para sobreviver, já que a falta de alimentos e abrigos a esses animais acarreta uma necessidade de adaptação ou migração desses animais para outros lugares, o que por muitas vezes não ocorre. Assim, um importante ecossistema é prejudicado.
Além desses impactos ambientais, outros também devem ser computados: a morte ou desaparecimento de animais de estimação e criação; plantações para subsistência, áreas protegidas, como as dos índios Krenak, e reservas biológicas, como a de Comboios; perda de inumeráveis espécies aquáticas; biodiversidade, fertilidade do solo e qualidade da água em cheque; modificação do estuário entre o Rio Doce e o litoral do Espírito Santo, onde existem locais de desovas de tartarugas marinhas em risco de extinção; entre outros. Dificilmente a biodiversidade da região será restabelecida. Foi tamanha a destruição que a melhora pode vir com o tempo, mas é improvável que, por onde a lama passou, volte a ser como era antigamente.
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CAPÍTULO 2 - A ANÁLISE DO DISCURSO FRANCESA E A REPORTAGEM: