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(2) VINICIUS SUZIGAN FERRAZ. DISCURSOS MIDIÁTICOS SOBRE O DESASTRE DA SAMARCO: UMA ANÁLISE DAS REPORTAGENS NAS REVISTAS VEJA E CARTACAPITAL. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) para obtenção do grau de Mestre. Orientador entre agosto/16 e dezembro/17: Prof. Dr. José Salvador Faro Orientador final: Prof. Dr. Mateus Yuri Passos. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2018. 2.
(3) FICHA CATALOGRÁFICA F413d. Ferraz, Vinicius Suzigan Discursos midiáticos sobre o desastre da Samarco: uma análise das reportagens nas revistas Veja e CartaCapital / Vinicius Suzigan Ferraz. 2018. 176 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2018. Orientação de: José Salvador Faro e Mateus Yuri Passos. 1. Comunicação 2. Jornalismo 3. Jornalismo (Internet) 4. Revista Veja - Análise do discurso 5. Revista CartaCapital Análise do discurso I. Título. CDD 302.2 3.
(4) A dissertação de mestrado sob o título: “DISCURSOS MIDIÁTICOS SOBRE O DESASTRE DA SAMARCO: UMA ANÁLISE DAS REPORTAGENS NAS REVISTAS VEJA E CARTACAPITAL”, elaborada por VINICIUS SUZIGAN FERRAZ, foi apresentada e aprovada em 01 de OUTUBRO de 2018, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Mateus Yuri Passos (Presidente/UMESP), Profa. Dra. Cilene Victor (Titular/UMESP) e Profa. Dra. Katarini Giroldo Miguel (Titular/UFMS).. __________________________________________ Profº. Dr. Mateus Yuri Passos Orientador e Presidente da Banca Examinadora. ________________________________________ Profº. Dr. Luiz Alberto de Farias Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de pesquisa: Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais 4.
(5) Este trabalho é dedicado aos meus pais, minha irmã e minha noiva. Também a todos os professores demitidos do PósCom da UMESP.. 5.
(6) AGRADECIMENTOS. Agradecer à minha família, por ter me dado toda a estrutura para que esse sonho pudesse ter sido concretizado. À minha noiva, Bruna Sturian, pelo imenso apoio e paciência nos dias difíceis. O seu suporte foi fulcro dessa dissertação. Agradecer o meu orientador inicial, o Prof. Dr. José Salvador Faro. Tem muito da sua influência nesse trabalho. Lembrar também dos professores que, injustamente, foram demitidos do PósCom e que demonstraram o real significado da palavra dignidade: Dr. Marli dos Santos, Dra. Elizabeth Gonçalves, Dra. Cicilia M. K. Peruzzo, Dr.a Magali Cunha do Nascimento, Dr. Sebastião Squirra, Dr. Wilson da Costa Bueno, Dr. Daniel Galindo. Os seus ensinamentos perdurarão a minha existência. Agradeço também a amizade dos inúmeros amigos e amigas que fiz ao longo do trajeto. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), fomentador da pesquisa. Pra finalizar, agradecer aos novos professores do PósCom da UMESP, principalmente os professores doutores Mateus Yuri Passos e Dimas Kunsch que contribuíram imensamente com o final da dissertação. Seguimos tentando compreender o mundo.. 6.
(7) Resumo Esta pesquisa investiga, com a ajuda da análise do discurso, as estratégias discursivas das reportagens online de Veja e CartaCapital logo após o rompimento das barragens de Fundão e Santarém, de propriedade da empresa Samarco Mineração S.A., ocasionando o maior desastre socioambiental do Brasil, no subdistrito de Bento Rodrigues, na cidade de Mariana/MG, deixando 19 mortos, um número desconhecido de feridos e desaparecidos e um rastro de 600 quilômetros de lama tóxica até desaguar no oceano Atlântico, já no litoral do estado do Espírito Santo. Parte-se da hipótese de que esses veículos, do modo como cada um deles noticia o acontecimento em suas plataformas online, acabam por trazer as suas representações dos fatos de maneira a enfatizar, em tempos de polarização política, discursos legitimadores de suas linhas e práticas editoriais numa métrica ideológica aceitável. No campo dos referenciais teóricos, na parte referente à metodologia, o trabalho dialoga com Dominique Maingueneau, entre outros autores que trabalham com AD. Entre os principais objetivos do trabalho, buscase entender se as estratégias discursivas utilizadas pelas revistas sedimentam e/ou viabilizam um caminho para essa polarização política. Dessa forma, o trabalho está estruturado em três capítulos: o primeiro consiste em recontar as histórias que envolveram o desastre de Samarco através de documentos e fontes oficiais; no segundo procura-se dar ênfase às questões teóricometodológicas de pesquisa, fazer a discussão sobre linguagem e sua imbricações com discurso e mídia; no terceiro e último capítulo, as atenções se voltam para as análises, tanto quantitativa, naquilo que chamamos de “a grande narrativa”, quanto qualitativa, aplicando a AD Francesa sobre as duas primeiras reportagens publicadas por cada portal após o acontecimento. Entendese que as duas revistas constroem suas narrativas e discursos de acordo com a hipótese aqui sugerida, legitimando, em Veja, um discurso liberal-conservador e, em CartaCapital, um discurso progressista, viabilizando caminhos para essa polarização político-ideológica. Palavras-chave: Comunicação. Jornalismo. Reportagem. Análise do Discurso. Polarização ideológica.. 7.
(8) Abstract This research investigates, with the help of discourse analysis, the discursive strategies of Veja and CartaCapital online news reports shortly after the rupture of the Fundão and Santarém dams, owned by Samarco Mineração S.A., causing the greatest socio-environmental disaster in Brazil, in Bento Rodrigues sub-district, in the city of Mariana-MG, leaving 19 dead, an unknown number of injured and disappeared, and a trail of 600 kilometers of toxic mud until it disembogue into the Atlantic Ocean, already on the coast of the state of Espírito Santo. It is hypothesized that these news oganizations, in the way each of them reports the event on their online platforms, end up bringing their representations of the facts so as to emphasize, in times of political polarization, discourses legitimizing their editorial lines and practices on an acceptable ideological metric. In the field of theoretical references, in the part referring to methodology, this work dialogues with Dominique Maingueneau, among other authors working with AD. Among the main objectives of the work, we try to understand if the discursive strategies used by the magazines sediment and / or enable a way for this political polarization. In this way, the work is structured in three chapters: the first is to recount the stories that involved the Samarco disaster through official documents and sources; In the second one, the emphasis is on the theoretical-methodological questions of research, on the discussion of language and its imbrications with discourse and the media; in the third and last chapter, the attention is drawn to the quantitative analysis of what we have called the "great narrative" and qualitative, applying the French AD on the first two news reports published by each portal after the event. It is understood that the two magazines construct their narratives and discourses according to the hypothesis suggested here, legitimating in Veja a liberal-conservative discourse and, in CartaCapital, a progressive discourse, making possible ways for this politicalideological polarization. Palavras-chave: Comunnication. Journalism. News report. Discourse Analysis. Ideological polarization.. 8.
(9) LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Antes e depois da barragem de fundão, do subdistrito de Bento Rodrigues e imediações. ............................................................................................................................... 19 Figura 2 – Variação do Índice de Produção Mineral (IPM) no 2º/2015. Base de comparação: mesmo mês do ano anterior ...................................................................................................... 28 Figura 3 – Índice de preço de minério de ferro a vista ............................................................. 28 Figura 4 – As maiores empresas do setor de mineração........................................................... 29 Figura 5 – Caminho do minério................................................................................................ 32 Figura 5 – Destruição de mata ciliar ocasionado pelo desastre da Samarco em áreas de preservação permanente ao longo do Rio Doce. ...................................................................... 38 Figura 6 – capa da primeira edição da revista Veja .................................................................. 82 Figura 7 – capa da Veja em sinal de protesto contra o AI5 ...................................................... 85 Figura 8 - Processos de “transformação” e “transação” no âmbito do contrato de comunicação de Patrick Charaudeau (2006). ................................................................................................. 88 Figura 9 – Exemplar simbólico de CartaCapital ..................................................................... 93. 9.
(10) LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Relação de tragédias no estado de Minas Gerais .................................................... 21 Tabela 2 – Diferenciação entre notícia e reportagem ............................................................... 75 Tabela 3 – Proposta de tabela de valores-notícia para operacionalizar análises de acontecimentos noticiáveis / noticiados. .................................................................................. 97 Tabela 4 – Fontes citadas nas notícias e reportagens em Veja ............................................... 100 Tabela 5 – Setores sociais invocados em Veja ....................................................................... 103 Tabela 6 – Editorias e temas em Veja .................................................................................... 105 Tabela 7 – Tratamentos em Veja ............................................................................................ 107 Tabela 8 – Fontes citadas nas notícias e reportagens em CartaCapital ................................. 108 Tabela 9 – Setores sociais em CartaCapital .......................................................................... 110 Tabela 10 – Editorias e temas em CartaCapital..................................................................... 112 Tabela 11 – Tratamentos em CartaCapital ............................................................................ 113. 10.
(11) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO. 12. CAPÍTULO 1 - CONTEXTUALIZAÇÃO: AS HISTÓRIAS POR TRÁS DO DESASTRE DA SAMARCO. 16. 1.1 A cronologia do desastre da Samarco. 18. 1.2 Política, economia e meio ambiente. 25. 1.3 Samarco, Vale e BHP-Billiton: poder e negligenciamento. 30. 1.4 O desastre ambiental. 35. CAPÍTULO 2 - A ANÁLISE DO DISCURSO FRANCESA E A REPORTAGEM: CAMINHOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS. 42. 2.1 Linguagem, discurso e ideologia. 43. 2.2 Análise do discurso e os meios de comunicação. 57. 2.3 Estruturalismo e Pós-estruturalismo. 60. 2.4 Contrato de comunicação midiático e o ethos discursivo. 63. 2.5 A reportagem jornalística em revista enquanto gênero: da mídia impressa à digital. 69. CAPÍTULO 3 - OS ESTUDOS SOBRE AS REPRESENTAÇÕES DO DESASTRE: UMA ANÁLISE QUANTITATIVA E QUALITATIVA. 79. 3.1 As revistas Veja e CartaCapital e seus ethos discursivos perante seus leitores: um contrato de comunicação. 80. 3.2 A grande narrativa: um ano de cobertura online das revistas. 94. 3.3 Análise discursiva das reportagens “Tragédia de Mariana: para que não se repita” e “Mar de lama, literalmente”, em Veja e CartaCapital. 117. CONSIDERAÇÕES FINAIS. 131. REFERÊNCIAS. 136. ANEXOS. 143. 11.
(12) INTRODUÇÃO Os meios de comunicação permeiam a vida do ser humano, principalmente a vida urbana. Pode-se dizer que sua ubiquidade é fator intrínseco à vida moderna: a mídia exerce influência em praticamente todos os níveis e instâncias socioculturais, tendo a capacidade de invadir todos os espaços e atingir a todos através de seu poder de difusão simbólico. Essa onipresença da mídia alterou e continua a alterar o caráter sociocultural, “assim, as questões tradicionais sobre o uso e os efeitos dos meios de comunicação precisam levar em consideração as circunstâncias nas quais a cultura e a sociedade passaram a ser midiatizadas” (HJARVARD, 2008, p.55) Essa sintética avaliação sobre o comportamento midiático em sociedades modernas busca explicar os objetivos desta pesquisa: entender as estratégias discursivas por trás das abordagens das revistas Veja e CartaCapital, em seus portais online, sobre o desastre da Samarco, este que é considerado um desastre tecnológico, já que o rompimento das barragens de Fundão e Santarém ocasionou a maior tragédia socioambiental brasileira. A recuperação das histórias do rompimento das barragens da Samarco, localizadas em Bento Rodrigues, subdistrito da cidade de Mariana-MG e a tentativa, por meio de fontes e documentos oficiais, de destrinchar um acontecimento dessa magnitude em todas as suas perspectivas, os seus desdobramentos sociais, econômicos, políticos, culturais e ambientais, não é tarefa das mais fáceis. Além de uma bibliografia especializada e também as luzes trazidas pela análise crítica dos discursos dos meios de comunicação sobre o evento, este levantamento demanda muita paciência e organização para que a apuração dos fatos se dê na pretensão de fazer uma reconstituição de maneira mais fiel aos relatos e documentos. É certo que o fato não se resume ao que será escrito e descrito aqui, em primeiro lugar porque seria arrogância por parte deste pesquisador em querer atingir tal objetivo; em segundo porque toda obra aberta é inacabada, a história continua a ser tecida através do tempo. Uma terceira ponderação seria a de que a representação é uma construção ativa e que ela depende sistematicamente da pragmática do contexto, mas essa é uma discussão que faremos mais à frente. Dessa forma, a iniciativa deste projeto parte da tentativa de compreender os mecanismos discursivos embutidos nas reportagens e notícias que as revistas Veja e CartaCapital fizeram sobre o caso, em seus portais online, e também as ideologias que perpassam o fato no trato noticioso, trabalho dos mais árduos, já que as representações dos acontecimentos são sempre 12.
(13) enviesadas, ou seja, as marcas, os traços e os objetivos dos enunciadores se mostram na tentativa de apresentar o fato perante o seu público, este que por sua vez tem papel ativo nessa construção: o enunciatário contrata o enunciador para dizer aquilo que ambos legitimam como verdade nessa troca simbólica. Assim, tanto Veja quanto CartaCapital, periódicos que são notadamente reconhecidos por seguirem linhas político-ideológicas distintas, acabam por imprimir os traços e marcas enunciativas nas representações que fazem da realidade através de eventos comunicacionais, sedimentando, em tempos de polarização política, caminhos possíveis que viabilizam essa divisão ideológica em polos antagônicos de pensamento, assim como nos mostra Ferraz: O que deveria servir para fomentar a discussão de ideias, o pluralismo intelectual e o crescimento do debate político inteligente vem se transformando numa divisão da sociedade em, como o próprio nome diz, polos antagônicos de pensamento que se combatem, produzindo e reproduzindo ideias superficiais, onde a intolerância se esconde na defesa do contraditório e, segundo Norberto Bobbio (1995, p. 33), “não há nada mais ideológico do que a afirmação de que as ideologias estão em crise”. E esse tipo de pensamento diádico não é novo (FERRAZ, 2018, p. 2).. Por fim, a pesquisa também tem um ar de memória, já que serve para que não nos esqueçamos de Mariana-MG, tragédia essa que é fruto, entre inúmeras outras coisas, da irresponsabilidade, negligência e da ganância das empresas que lá operam. Indignação é um léxico que nos acompanha no levantamento do nosso objeto de estudo, já que soluções ainda não foram viabilizadas para as famílias de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Barra Longa, subdistritos atingidos pela lama tóxica oriunda do rompimento das barragens da Samarco e que tiveram seus bens, parentes, amigos e sonhos soterrados pelo desastre. A esperança é que eles tenham condições de seguir as suas vidas da melhor maneira possível e que essa história, no final, ainda tenha conclusões mais positivas. Esta dissertação está organizada em três capítulos. O primeiro procura abordar, sistematicamente, os acontecimentos e os fatos que circundam o desastre da Samarco e a tragédia em Mariana-MG. Essa tarefa só foi possível graças às fontes e documentos oficiais, análise crítica dos discursos que os meios de comunicação fizeram sobre o fato e bibliografia especializada, dentre elas, o livro Vozes e Silenciamentos: crime ou desastre ambiental?, uma construção coletiva da disciplina Linguagem: Jornalismo, Ciência e Tecnologia, do Programa de Mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Labjor/IEL/Unicamp, organizado pela Profa. Dra. Graça Caldas. O livro é uma das mais competentes tentativas de resgatar a memória do desastre que, em uma abordagem multidisciplinar, se debruça sobre aspectos sociais, 13.
(14) ambientais, políticos, culturais e econômicos que estão envolvidos na complexa tentativa de expor, de maneira holística, o fato e suas representações. A publicação também aborda a vida da cidade e de seus moradores antes e depois da tragédia, o desastre tecnológico, as vozes e os silêncios promovidos pelos meios de comunicação, entre outras pesquisas contundentes. O segundo capítulo visa explicar, de maneira teórico-metodológica, alguns preceitos sobre o método aqui utilizado: a análise do discurso. Nesse sentido, fizemos uma discussão sobre o que é linguagem, o que é discurso e como esse último pode difundir aspectos ideológicos e culturais através dos meios de comunicação de massa. Para embasar o método de AD são esboçadas algumas explicações teóricas tanto para o estruturalismo, quanto para o pósestruturalismo e como esses pensamentos filosóficos intersectam a análise do discurso. Também discutimos alguns conceitos chave para entendermos a relação do nosso corpus de pesquisa, as revistas Veja e CartaCapital, com os seus leitores, por meio do que Patrick Charaudeau (2006) chamou de contrato de comunicação midiático, o que, basicamente, tece uma visão peculiar sobre os processos de trocas simbólicas embutidos nos discursos sociais e prevê certas cláusulas tácitas, que permitem a eficácia comunicativa e o reconhecimento mútuo nessa troca entre locutor e interlocutor já que "a eficácia das palavras só se exerce na medida em que aquele que a experimenta reconhece aquele que a exerce como no direito de exercê-la [...]" (BOURDIEU, apud CHARADEUAU, 2006, p. 66). Também faz parte da nossa fundamentação teórica explicar o conceito de ethos discursivo como a imagem projetada do enunciador em seu discurso e como essa imagem interfere na relação entre locutor e interlocutor, nessa relação dialogal. Para terminar o segundo capítulo, tratamos da reportagem jornalístico enquanto gênero, sua diferença com a notícia e sua trajetória do impresso ao digital. No que tange a análise do corpus de pesquisa pré-delimitado, fez-se o seguinte caminho: contextualizamos e identificamos os ethos discursivos das revistas Veja e CartaCapital e imbricamos o conceito com o contrato de comunicação, a fim de entender como se dão essas trocas simbólica, do acontecimento à interpretação. Também foi sistematizada uma análise qualitativa em cima de um ano de conteúdo, partindo das coberturas das revistas do dia 05 de novembro de 2015 ao dia 04 de novembro de 2016, interpretando os resultados através de quatro índices: a pluralidade das fontes; os setores sociais invocados na construção dessas narrativas; e, por fim, quais foram os temas e seus tratamentos respectivos. Por fim, aplicamos a AD em cima dos enunciados das reportagens “Tragédia em Mariana: para que não se repita”, em Veja e “Mar de lama literalmente”, em CartaCapital. 14.
(15) Os resultados das análises nos mostraram que a nossa hipótese estava correta e que os periódicos corroboraram com a polarização política vigente no país, mas muito por meio do que pregam em suas linhas editoriais e como abordaram a problemática ambiental, abordagens que são destinadas aos públicos leitores específicos de cada revista, sendo assim, produzidos materiais jornalísticos que condizem, ideologicamente com esses co-enunciadores através do contrato de comunicação.. 15.
(16) CAPÍTULO 1 - CONTEXTUALIZAÇÃO: AS HISTÓRIAS POR TRÁS DO DESASTRE DA SAMARCO A introdução deste capítulo possui alguns objetivos de pesquisa. Primeiro, introduzir o leitor no contexto que abrange a nossa dissertação. Em segundo, entender o multifacetado tema que percorre o nosso objeto de pesquisa e alguns dos seus nuances. Por fim, mas não por último, também dissecar o motivo da escolha lexical pela palavra desastre em vez de tragédia, ou qualquer outro sinônimo equivalente. Começaremos pelo final. A origem da palavra tragédia é retomada da mitologia grega. É a junção das palavras em grego tragos, que significa bode, e oidé, cuja representação, linguisticamente falando, está no lugar de canção. Tragédia, para os gregos, remete à canção do bode. Para a mitologia grega, toda vez que um herói ou um deus era celebrado, assim como Dionísio ou Apolo, antes da celebração, costumeiramente louvado pela apresentação de peças de autores célebres, exibiamse cantores que usavam como ornamentos pés de cabra ou de bode. Nessas cerimônias, o canto desses artistas era acompanhado pelo sacrifício de um bode. A cenografia tem como simbologia exprimir a ideia de que os bodes, como animais devastadores dos vinhedos, seriam inimigos de Dionísio, o deus grego do vinho, e por essa razão deveriam ser sacrificados. Tragédia, na modernidade, é um léxico que está para simbolizar um acontecimento catastrófico, doloroso, geralmente acompanhado de alto valor impactual, como a desgraça que acomete muitas vítimas ou, em ordem capitalista, que envolve uma grande quantidade de dinheiro. Poderíamos replicar a palavra com o significado moderno para representar o que aconteceu em Mariana-MG. Uma tragédia com vários sacrifícios sociais, econômicos, políticos, ambientais e humanos, 19, para sermos mais exatos. Vamos tentar ir um pouco mais além. Segundo o sociólogo alemão Ulrich Beck (2011), vivemos em uma sociedade de risco. Os desastres que acometem a vida social de tempos em tempos nos trazem de volta a essa realidade dura, principalmente em países subestruturados como o Brasil. Imersos em nosso cotidiano, os riscos parecem ser de ordem virtual, não nos atingindo ou simplesmente não existindo, sendo ignorado em diversos casos, como parece ser o caso do desastre tecnológico da Samarco. Dessa forma, o autor alemão propõe uma abordagem sociológica que apresente novos problemas e uma nova teoria para explicar as sociedades modernas, teoria que ousa ultrapassar os conceitos marxistas, centrais e paradigmáticos para o estudo das ciências sociais desde o 16.
(17) século XIX, que apresentam como fulcro central a luta de classes na sociedade. Isso não quer dizer que esse tipo de pensamento se esvai com a aparição das teorias de Beck, mas que existe uma associação de pensamentos para pensar a vida em sociedade de maneira mais complexa. A pesquisadora Cilene Victor desata essa complexidade na visão de Beck: Para Beck (1999), os riscos fortalecem a sociedade de classes, uma vez que os ricos podem tentar evitá-los. Escolher onde morar e ter acesso à informação confere aos ricos uma vantagem sobre as classes populares que, com pouco poder aquisitivo e dificuldade de acesso à informação, têm menos possibilidades de escolhas, especialmente de moradia (VICTOR, 2014, p. 6). Assim, o autor coloca os riscos ambientais como eixo para a definir a sociedade de risco. Não se trata aqui de riscos comuns, mas aqueles que se apresentam como causadores de graves consequências, se tornando irreversíveis e, uma vez identificados, que ultrapassam qualquer limite e classe social. Mas de qual riscos estamos falando? A socióloga Julia Silva Guivant nos ajuda: Trata-se de riscos contra os quais não podemos obter seguros para proteção, porque não podem ser calculados. Eles estão na dimensão da incerteza. A energia nuclear e os agrotóxicos eram exemplos paradigmáticos. O pacto pelo progresso realizado entre ciência e indústria teria sido a origem da sociedade de risco que agora vem até nós com um forte efeito bumerangue (GUIVANT, 2016, p. 230). Nesse sentido, o desastre é definido, então, como a materialização do risco. “Um desastre é produzido através da combinação de fenômenos naturais perigosos e situações vulneráveis” (ROMERO; MASKREY, 1993). Também pode ser entendido como a probabilidade de realização de um perigo. Portanto, é com base nas explicações científicas e não mitológicas/etimológicas que ficamos com a definição lexical de desastre para classificar o que aconteceu na cidade de Mariana-MG e suas redondezas. Também se faz necessário explicar e explicitar que o desastre (ou até mesmo a tragédia, a catástrofe) não é de Mariana-MG, como foi muito erroneamente publicado pela imprensa tradicional durante a cobertura do acontecimento. O desastre é antropogênico e por sê-lo, tem nome e CNPJ: o desastre em si é de responsabilidade da empresa Samarco e de suas operadoras, as gigantes mineradoras Vale e BHP-Billiton, além do descaso dos poderes públicos que pouco fizeram para fiscalizar a exploração mineral da área. Ora, se o desastre é de Mariana-MG, pressupõe-se um eufemismo linguístico que permite não responsabilizar os culpados pelo risco e, consequentemente, pela materialização do desastre. Permite enxergar que quem estava errada, desde o começo, foi a cidade de Mariana e 17.
(18) o seu subdistrito de Bento Rodrigues. Também é errado classificar o desastre como ambiental, também comumente utilizado pela mídia na divulgação do fato. Se o desastre é ambiental, significa subentender que ele aconteceu de forma natural, sem influência do homem, apenas por forças da natureza, tais como terremotos, furacões, entre outros. O desastre é tecnológico já que foram falhas estruturais na barragem de Fundão que permitiu a sua ruptura, inundando o subdistrito de Bento Rodrigues com a violência de uma “tsunami”. Assim, o que se procura fazer neste primeiro capítulo é entender e contextualizar o acontecimento de forma mais verossímil possível, entendendo a cronologia do desastre tecnológico das barragens de Fundão e consequentemente de Santarém, desde o seu início (por volta das 15 horas do dia 05 de novembro de 2015) até o final desse dia. Também iremos destrinchar a trinca economia, política e meio ambiente e como esses setores sociais estão imbricados com a tragédia em si, além de entender, simbolicamente, quem foram os personagens (Samarco, Vale e BHP-Billiton) que demandaram tamanho sacrifício humano e socioambiental de uma região cujo o único destino foi servir de aterro para as mazelas e negligências do capital: o subdistrito de Bento Rodrigues, na cidade de Mariana-MG. Por fim, situar o leitor na compreensão do complexo (e longo) impacto ambiental que ao qual foi submetida uma das maiores bacias hidrográficas do mundo, a bacia do Rio do Doce, contaminando o rio homônimo, prejudicando a população que um dia se aproveitou economicamente dele. 1.1 A cronologia do desastre da Samarco Iremos, neste subcapítulo, tecer uma linha do tempo sobre a sucessão de fatos para a reconstrução do acontecimento principal: o rompimento da barragem de Fundão e suas consequências, tais como a inundação da lama tóxica no subdistrito de Bento Rodrigues, distrito de Santa Rita Durão, em Mariana-MG, e também dos rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce. Essa reconstituição cronológica será feita com a ajuda de dados oficiais, fontes bibliográficas, meios de comunicação e órgãos públicos condizentes. A tentativa aqui é reconstruir as primeiras horas do fato. O rompimento das barragens aconteceu no dia 05 de novembro de 2015. Basicamente, o que aconteceu foi que a barragem de Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, distrito de Santa Rita Durão, na cidade de Mariana-MG, rompeu-se no dia 05 de novembro de 2015. A barragem, de responsabilidade da empresa Samarco Mineração S.A, era uma contenção que segurava rejeitos da exploração de minérios de ferro entre outros produtos químicos que, ao romper-se, despejou lama tóxica em cima de outra barragem, a de 18.
(19) Santarém, que conjuntamente liberaram cerca de 60 milhões de metros cúbicos no rastro de Bento Rodrigues, ocasionando a morte de 19 pessoas e vários feridos. As razões desse evento trágico são várias, desde o descaso do poder público, leis pouco severas, ganância e negligência das empresas envolvidas, entre outros fatores. Figura 1 – Antes e depois da barragem de fundão, do subdistrito de Bento Rodrigues e imediações.. Fonte: Divulgação/ Airbus Defence and Space Segundo os autos do Ministério Público Federal, por meio da Força Tarefa Rio Doce e a Procuradoria da República nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, o fato é dado dessa forma: É fato público e notório que, em 05/11/2015, por volta das 15:00 horas, houve o rompimento da barragem Fundão e o galgamento dos rejeitos de mineração sobre a barragem Santarém, localizadas no Complexo Industrial de Germano, Município de Mariana/MG, ambas operadas pela Samarco Mineração S.A, e localizadas na Bacia do Rio Gualaxo do Norte, afluente do Rio do Carmo, que é afluente do Rio Doce. O citado rompimento gerou ondas de rejeitos de minério de ferro e sílica, entre outros particulados, que pela velocidade e volume ocasionaram e continuam causando impactos ambientais e sociais imensuráveis ao longo de toda a Bacia Hidrográfica do Rio Doce (MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, 2015, p. 11).. Segundo o funcionário Andrew Oliveira da empresa Integral - uma terceirizada da Samarco -, o primeiro tremor aconteceu por volta das 14 horas. Ele foi um dos primeiros envolvidos na tragédia a falar com os jornalistas sobre o acontecimento. Após o tremor, a ordem da Samarco foi para que os funcionários continuassem a trabalhar e que o abalo era algo ordinário. Duas horas depois, um tremor mais intenso aconteceu provocando desespero nos funcionários, que começaram a correr. “Por volta das 16h30, por aí assim, começou a praticamente ter um terremoto, mesmo, um terremoto” (TRAJANO, 20115), disse Oliveira, comparando a intensidade do tremor com a de um abalo sísmico. O tremor era oriundo da barragem de Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues: 19.
(20) Em entrevista posterior concedida à revista Veja, o engenheiro da Samarco, Germano Silva Lopes, admitiu que os funcionários notaram um tremor vindo da barragem de Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, cerca de 40 km do centro da cidade de Mariana. Contudo, sua vistoria não constatou nenhuma irregularidade (CARNEIRO, 2017, p. 76).. Lopes, na mesma entrevista, afirmou que o rompimento da barragem de Fundão aconteceu apenas uma hora após a vistoria, às 15 horas. Deixou claro também que, ao romperse, a lama tóxica despejada pela barragem também sobrecarregou e ocasionou a ruptura de outra barragem, a de Santarém, “ocasionando o despejo de cerca de 60 milhões de toneladas de lama sobre o subdistrito de Bento Rodrigues” (CARNEIRO, 2017, p. 76). Às 15h30, os rejeitos tóxicos avançavam sobre o subdistrito de Bento Rodrigues e as pessoas que ali viviam ficaram ao sabor da sorte, já que a falta de aviso sonoro e os poucos avisos por telefone feitos pela Samarco não foram suficientes para que a vida de 19 vítimas, dentre elas duas crianças, uma de 5 e outra de 7 anos, fossem salvas. A tragédia só não foi maior porque a sorte, nesse caso, tinha nome: Paula Alves. A moradora local, assim que soube da avalanche de lama tóxica que se seguia para Bento Rodrigues, pegou a sua moto e saiu percorrendo as ruas da cidade, numa tentativa de alertar as pessoas sobre a enxurrada que prosseguia para lá. Para a Samarco, na figura de seu coordenador de projetos, Germano Silva Lopes, a justificativa pela falta de comunicação sonora, entre outros itens de segurança, se ampara na Lei nº 12.334 (BRASIL, 2010) que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB) e cria o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB). Para ele, todas as especificações da lei foram cumpridas integralmente, mas sua fala ignora o Artigo 12, inciso IV, que prevê “estratégia e meio de divulgação e alerta para as comunidades potencialmente afetadas em situação de emergência” (MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA, 2013). Outro instrumento legal definido pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), através da Portaria nº 526/2013, afirma que “cabe ao empreendedor alertar a população potencialmente afetada” (DEPARTAMENTO NACIONAL DE PRODUÇÃO MINERAL, 2017). No entanto, no plano de emergência elaborado e entregue em 2014 pela Samarco ao governo de Minas Gerais consta que “a responsabilidade por avisar e remover as pessoas em risco iminente é da Defesa Civil” (FERREIRA, 2017, p. 103). Em seu favor, a Defesa Civil diz que suas atividades só são acionadas após a consumação dos desastres, ou seja, não tem como objetivo prever ou/e prevenir acidentes. Outro imbróglio desta luta jurídica consiste que o coordenador da Defesa Civil de Minas Gerais, Helbert Lourdes, contou que a 20.
(21) cópia do plano de emergência não constava nas mãos do órgão e que o aviso do rompimento da barragem foi dado pela PM e não pela Samarco, assim como descreve Ferreira: No Plano entregue ao governo federal, a Samarco reconhece como sua a obrigação de “alertar a população”, mas que, em casos de ruptura das barragens “as ações não são desempenhadas somente pela Samarco”, havendo também a necessidade de órgãos públicos contatarem a população. Apesar de reconhecer como sua a atribuição de alertar em caso de acidente, a mineradora não especifica como e quem seriam os responsáveis por cada tarefa (FERREIRA, 2016, p. 103).. Às 16h49, sai a primeira notícia nos meios de comunicação sobre o desastre. O portal online Uai, pertencente ao Estado de Minas, deu o furo sobre o rompimento das barragens e continuou a fazer suítes sobre o desastre. Às 17h30, o Portal Diário do Aço, também começou a cobrir o fato e destacou que essa não foi a primeira vez que tragédias com barragens aconteceram em Minas Gerais. Segue a lista: Tabela 1 – Relação de tragédias no estado de Minas Gerais 1986. Barragem rompe na mina de Fernandinho/Itabirito. 2001. Barragem rompe em Macacos, Belo Horizonte. 2003. Barragem de resíduos rompe em Cataguases. 2007. Barragem da mineradora Rio Pomba rompe em Cataguases. 2014. Barragem da Herculano Mineração rompe em Itabirito Fonte: Portal Diário do Aço. Essa não tão breve lista demonstra o descaso do poder público e das empresas que empreendem atividade de exploração de minério em Minas Gerais, estado em que a mineração é parte importante de sua economia. A prefeitura de Mariana emitiu nota oficial, duas horas e trinta e cinco minutos depois do rompimento da barragem de Fundão (17h35). A pedido da Samarco, a prefeitura também solicitou que os moradores evacuassem Bento Rodrigues. Segue nota na íntegra: Houve o rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco Mineração, atingindo parte do distrito de Bento Rodrigues, zona rural, distante 23 quilômetros de Mariana. As equipes do Corpo de Bombeiros, agentes da Guarda Municipal e Defesa Civil municipal estão no local neste momento para avaliação dos danos (Prefeitura Municipal de Mariana-MG apud CARNEIRO, 2017, p. 78). Somente às 17h40, duas horas e quarenta minutos após o rompimento da barragem de Fundão o poder público chegou ao local. O mesmo Portal Uai, fazendo a cobertura ao vivo, 21.
(22) reportou que tinham sido deslocados helicópteros da Polícia Civil e Militar e equipes de emergências ambientais de Belo Horizonte, assim como equipes de resgate do Corpo dos Bombeiros. A assessoria de imprensa da Samarco demorou três horas e dois minutos para se pronunciar e, de maneira simplória, não forneceu grandes informações, apenas disse que apurava o acontecido. A analogia infeliz é que o “despreparo da Samarco frente à crise está claro, assim como eram as águas do Rio Doce. A cada silenciamento ou refugo, a Samarco coloca em cheque seu slogan/assinatura: Desenvolvimento com envolvimento” (CARNEIRO, 2017, p. 79).. Às 18h16, as primeiras descrições da situação começaram a pipocar nos meios de comunicação. O Globo destacou a cena desoladora da região: Em entrevista à rádio “CBN”, o comandante do Corpo de Bombeiros de Mariana, Adão Severino Júnior, afirmou que a situação é “dramática” e que o número de mortos pode passar de 40. Segundo a Polícia Militar, a lama chegou a 2 metros e meio de altura e atingiu uma distância de oito quilômetros da barragem. Cerca 600 moradores vivem no distrito de Bento Rodrigues (O GLOBO, 2015).. Finalmente, às 18h25, a Samarco, por meio de sua página no Facebook, divulgou uma nota informando e assumindo o rompimento das barragens. A nota tem um tom de apoio à população e aos esforços do poder público, mas a eximição de culpa também está presente: A Samarco informa que houve um acidente em sua barragem denominada Fundão, localizada na unidade de Germano, nos municípios de Ouro Preto e Mariana (MG). A organização está mobilizando todos os esforços para priorizar o atendimento às pessoas e a mitigação de danos ao meio ambiente. As autoridades foram devidamente informadas e as equipes responsáveis já estão no local prestando assistência. Não é possível, neste momento, confirmar as causas e extensão do ocorrido, bem como a existência de vítimas. Por questão de segurança, a Samarco reitera a importância de que não haja deslocamentos de pessoas para o local do ocorrido, exceto as equipes envolvidas no atendimento de emergência. (SAMARCO, 2015).1. As primeiras informações tocantes à culpa do desastre vieram da Folha de S. Paulo que usaram a expressão “Tsunami de lama” para começar a reportagem do dia 06/11/2015, onde ofereciam detalhes do ocorrido e usaram como fonte o Diretor do Sindicato Metabase Mariana, Sérgio Moura, que citou um suposto abalo sísmico como um dos fatores responsáveis pelo rompimento da barragem:. 1. Disponível em: https://www.facebook.com/SamarcoMineracao/posts/1677277292489086, acessado em 20/03/2018.. 22.
(23) Segundo Moura, a Samarco disse que houve abalos sísmicos na região às 14h. O Observatório da USP registrou, a 22km do local, tremor de 2,55 na escala Richter, mas considerado de baixo impacto (com até 3 na escala, nem costuma ser sentido pelas pessoas). O rompimento ocorreu uma hora e meia depois (FOLHA DE S. PAULO, 2015). Isso não quer dizer que a principal hipótese sobre o acontecimento do desastre teria sido causada por fatores de ordem natural, como os abalos sísmicos, mas é importante salientar que eles aconteceram e que também podem ter sido alavancados pelos eventos da própria barragem de Fundão. Nesse sentido, a hipótese sobre a influência dos abalos sísmicos na região e o impacto desse tipo de evento no desastre anunciada foi descartada pelos especialistas. No total, foram sentidos 11 abalos na região no dia do desastre: os dois registrados antes do rompimento foram os mais significativos, atingindo 2,7 e 2,5 na escala Richter, que vai até 9. Joaquim Pimenta Ávila, o engenheiro que projetou a barragem de Fundão, em depoimento à Polícia Federal, afirmou "que o sismo ocorrido no local, de 2,6, somente afetaria se o rejeito já estivesse quase saturado e próximo de estado de liquefação". Carlos Martinez, professor de engenharia hidráulica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) corrobora a declaração de Ávila e faz um adendo ao afirmar que “o que levou ao colapso provavelmente foi a junção de uma dezena de fatores: liquefação, problema de drenagem, problema construtivo da estrutura. Isso tudo somado pode resultar num evento catastrófico” (O GLOBO, 2016). Às 19h01, o Ministério Público de Minas Gerais instaurou inquérito para investigar as causas e responsabilidade do desastre. O responsável pela apuração foi o promotor de Justiça Carlos Eduardo Ferreira Pinto, coordenador da Promotoria de Meio Ambiente. Foi enviada uma equipe ao local para fazer a apuração dos fatos. A essa altura, o acontecimento já estava sendo veiculado na TV aberta, com ampla cobertura da Rede Globo, que apresentou um resumo do desastre com imagens ao vivo do local. A dificuldade em se chegar ao local foi um dos principais empecilhos da grande mídia para justificar a cobertura tardia do acontecimento. O prefeito de Mariana, Duarte Eustáquio Gonçalves Júnior (PPS), reuniu-se com representantes da Samarco, cinco horas após o rompimento da barragem de Fundão, às 20 horas. A Prefeitura concedeu equipes médicas, enfermeiras e funcionários públicos para ajuda aos sobreviventes. Duarte, mais conhecido como "Du", tinha assumido o cargo de prefeito de Mariana em junho de 2015, depois da cassação de Celso Cota Neto (PSDB), eleito em 2012 e cassado por improbidade administrativa no início de 2015. Foi o prefeito que administrou a 23.
(24) cidade durante o desastre da Samarco, cumprindo o final do mandato de Cota. Após reeleição em 2016 com 26.078 votos (74,37% dos votos válidos), Júnior e seu vice, Newton Godoy (PSD), também tiveram seus mandatos cassados dia 20/02/2017, em processos por suspeita de captação ilícita de votos e prejuízo aos cofres públicos. Regiane Gonçalves, mulher do prefeito, também foi alvo da decisão. Ela e o marido ficarão inelegíveis por oito anos e deverão pagar multa de R$ 150 mil. A decisão da juíza Marcela Oliveira Decat de Moura aceitou as ações do Ministério Público que alegou que um grande volume de materiais de construção foi doado pela prefeitura com a finalidade de obter apoio eleitoral. Também, de acordo com o órgão, a ajuda não cumpriu requisitos legais, já que o programa de cunho assistencial exige cadastro e análise socioeconômica prévias dos beneficiados. Assim, complementa a juíza em sua decisão: Em nenhum momento da história de Mariana era tão esperada uma conduta diferente do prefeito. A cidade, assolada por uma crise financeira sem precedentes e sofrendo com o maior desastre ambiental já ocorrido em solo brasileiro, viu seus recursos financeiros serem distribuídos indistintamente entre vários eleitores, tudo como forma de alavancar a candidatura de Duarte (JUSBRASIL, 2016).. Ele permanece no cargo, pois o recurso apresentado por Duarte Júnior ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais suspende as determinações da juíza até que o TRE-MG decida sobre o caso. Voltando ao desastre, donativos começaram a chegar às 20h08 graças a ação humanitária mobilizada pelos meios de comunicação e também pelos órgãos oficiais, pedindo ajuda aos sobreviventes do desastre que estavam alojados no ginásio Arena Mariana. O Sindicato Metabase Mariana continuou suas denúncias contra a Samarco e veio a público informar, às 20h49, que, mesmo sem dados oficiais, até o momento, 15 trabalhadores tivessem morrido e outros 45, desaparecidos. Às 22h22, o mesmo Sindicato, representado pelo seu diretor, Ronaldo Alves Bento, informou que não havia um plano de evacuação da região, ao redor da barragem e, segundo ele: Muita gente pode ter morrido por não conseguir sair a tempo. O que aconteceu foi uma irresponsabilidade. Não temos até agora informação sobre as crianças dessa escola. Todas as informações são sonegadas e ninguém tem até agora, oficialmente, a dimensão desse acidente, mas sabemos que foi muito grave. O distrito de Bento Rodrigues não existe mais (BENTO apud CARNEIRO, 2017, p. 86).. Às, 23h08, o prefeito Duarte Júnior, em conversa com os moradores de Bento Rodrigues que não queriam deixar as suas residências, garantiu que eles seriam levados aos abrigos disponíveis com o mínimo de dignidade. 24.
(25) Para finalizar o dia fatídico de 05 de novembro de 2015, a imprensa começou a veicular informações, às 23h33, sobre um levantamento realizado pelos voluntários na Arena Mariana, indicando que 100 a 200 pessoas ainda se encontravam ilhadas na parte mais alta da cidade, no aguardo por resgate. 1.2 Política, economia e meio ambiente Considerado já o maior desastre socioambiental brasileiro2, o rompimento das barragens de Fundão poderia e deveria ter sido evitada. No que compete ao dever, um simples soar de uma sirene poderia ter poupado a vida de 19 pessoas que foram soterradas pela enxurrada de lama tóxica, sirene que estava prevista nos planos da Samarco em caso de acidente, mas que não foi implementada. A política ambiental brasileira também favorece a manutenção do sigilo das empresas que trabalham com extração de recursos naturais. Diversos encontros internacionais (Cúpula da Terra, Eco 92 e Rio+20) procuraram estabelecer leis e medidas para controle ambiental com o objetivo de reduzir os impactos no meio ambiente e, amparada na Constituição de 1988, a política ambiental brasileira tem procurado atender aos desafios que surgem. Foram criados mecanismos para controle das atividades de empresas que trabalham com recursos naturais, mas esses mecanismos têm se mostrado ineficazes para conter os danos ambientais de possíveis acidentes. Assim, três instrumentos são utilizados pela política ambiental brasileira atualmente: Controle-Comando; Econômico; e Comunicação. O primeiro, como o próprio nome diz, cria normas, regras e procedimentos visando controlar e limitar a ação de empresas e suas utilizações dos recursos naturais através da fiscalização, penalização e proibição; o segundo, tem como finalidade taxar e cobrar tarifas, além de também reduzir esses encargos assim que a empresa se mostra “amiga do meio-ambiente”; e o terceiro, visa realizar informes e divulgação, selos ambientais e promoções de educação ambiental, uma tentativa de conscientização social por meio da comunicação e informação. A instância Controle-Comando bifurca em outros dois relatórios: os EIAs (Estudo de Impacto Ambiental) e os RIMAs (Relatório de Impacto Ambiental). É aí onde as empresas envolvidas são beneficiadas. Apenas os RIMAs são divulgados e levados a público, já que os 2. Asserção consensual na imprensa e na sociedade brasileira. Afirmação também encontrada no livro “Vozes e silenciamentos em Mariana: crime ou desastre ambiental?”, organizado pela pesquisadora Graça Caldas.. 25.
(26) EIAs contêm informações e estratégias sigilosas das empresas. Quem compartilha essas obrigações são os órgãos estaduais de meio ambiente e o Ibama, como partes integrantes do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA). Há implicações também na Constituição brasileira para a proteção ambiental. Cabe ao poder público e a toda a população defender e preservar o meio ambiente, mantendo-o equilibrado (art. 225, inciso IV, da Constituição Federal). Cabe às instâncias estaduais, municipais e federais o cumprimento das leis voltadas à proteção do meio ambiente (VARELA, et al., 1998). Outro instrumento que ajuda na proteção ambiental em geral é a Lei n. 9.605 (Lei de Crimes Ambientais), de 12 de fevereiro de 1998, incluindo a preservação da fauna, flora, dos recursos naturais e do patrimônio cultural. Essa lei dispõe de penas mais específicas, abrangendo infrações tanto para pessoas físicas quanto para jurídicas. Assim, falando especificamente da mineração e como essa atividade no Brasil está concentrada principalmente na região sudeste (até porque foi nessa região onde aconteceu o desastre aqui discutido), existem alguns órgãos estaduais e federais que fiscalizam esse tipo de atuação. Acima de todos está o MMA (Ministério do Meio Ambiente); abaixo dele está o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), responsável, em nível federal, pelo licenciamento e fiscalização ambiental e que, dentro dele, contém o CECAV (Centro de Estudos de Cavernas); por ordem vem o MME (Ministério de Minas e Energia), responsável pelas políticas em torno dos setores mineral, elétrico e petróleo/gás que subdividese em outros três órgãos de controle da prática mineradora: SMM/MME (Secretaria de Minas e Metalurgia), DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) e CPRM (Serviço Geológico do Brasil); ANA (Agência Nacional das Águas); e por fim o CNRH (Conselho Nacional de Recursos Hídricos). Dentre os principais problemas ambientais derivados de atividades mineradoras estão a poluição da água, do ar, da qualidade do terreno e sonora. No caso específico da extração de ferro, atividade exercida pela Samarco em Mariana-MG, o principal problema é a poluição das águas superficiais e a idade das barragens de contenção, considerada um fator de risco, que podem e geralmente ficam danificadas principalmente pela falta de manutenção apropriada. Medidas relativamente simples poderiam ser aplicadas para evitar tragédias, já que, geralmente,. 26.
(27) a atividade mineradora acontece em grandes lugares, com cidades próximas, onde os trabalhadores dessas empresas residem. As dificuldades na fiscalização das empresas responsáveis pela atividade mineradora, assim como os conflitos entre as instâncias da legislação ambiental, resultam no aumento da burocracia e do risco na exploração mineral. Ou seja, “de uma maneira geral, as empresas priorizam o mercado, em detrimento da segurança” (SIQUEIRA, 2016, p. 32). Um outro coeficiente a ser adicionado à equação entre política e legislação era o momento da mineração no Brasil no final de 2015. Atravessada pelo início da crise econômica que ainda assola o país, o setor mineral também sofria dos impactos econômicos que teve como principal locomotiva o freio do crescimento econômico chinês, resultando no fim do ciclo da alta das commodities. O reflexo disso foi um crescimento de modestos 6% no setor em 2015, que já tinha fechado 2014 com uma também pequena ascensão em 8%. Para nível de comparação, no início do século (2000), o setor mineral era responsável por 0,59% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil e, segundo dados do IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração), entre 2001 e 2011 teve uma elevação de 550%, aumentando de US$ 7 bilhões para US$ 50 bilhões. Em 2013 foi registrado uma participação do setor no PIB de 5%. Com a redução da demanda nos mercados internacionais, o valor do volume de produção - cerca de 400 milhões de toneladas anuais - caiu 20%, passando de R$ 99,4 bilhões apurados em 2014 para R$ 78,7 bilhões, segundo dados do relatório anual do Departamento Nacional de Produção Mineral do Ministério de Minas e Energia. O minério é um dos principais produtos de exportação da balança comercial brasileira (SIQUEIRA, 2017, p. 28).. O gráfico em seguida mostra a comparação de produção entre os segundos semestres dos anos de 2014 e 2015. No ano do desastre, a produção mineral demonstrava uma oscilação e variou de 9,1% em julho para 5,9% em agosto. Teve uma leve recuperação de 7,1% em setembro, subiu para 7,7% em outubro e em novembro, mês do rompimento da barragem de fundão, a produção caiu para 5,7% e terminou o ano, em dezembro, em 0,04%, queda vertiginosa principalmente em decorrência da paralisação das atividades da Samarco. Isso demonstra a pujança da empresa para o setor mineral, assim como o desastre também tem a sua perspectiva econômica.. 27.
(28) Figura 2 – Variação do Índice de Produção Mineral (IPM) no 2º/2015. Base de comparação: mesmo mês do ano anterior. Fonte: DNPM/DIPLAM Para os analistas das principais consultorias e bancos internacionais, essa retração ainda se arrastará até 2020. O rompimento da barragem não foi o único entrave para o crescimento econômico do setor, mas também o excesso de otimismo do empresariado também levou ao baixo valor do minério de ferro, já que as mineradoras pediram empréstimos demasiados e superestimaram o crescimento da demanda. Todas estas variáveis geraram uma queda no valor do minério de ferro – usado para fabricar aço – atingindo níveis abaixo de R$ 40,00 após o rompimento da barragem, valor mais baixo desde maio de 2009.. Figura 3 – Índice de preço de minério de ferro a vista. Fonte: Vale S.A.. 28.
(29) Personagem principal do maior desastre ambiental brasileiro, a Samarco aparecia como uma das líderes de receita e lucro líquido do setor de mineração e metalurgia brasileiro até 2014, conforme o quadro abaixo. Figura 4 – As maiores empresas do setor de mineração. Fonte: Valor econômico – ranking das 1000 maiores empresas Mas o hostil cenário do mercado das commodities, aliado ao desastre da Samarco, em 2015, transformaram essa realidade. A Vale, a segunda maior mineradora do mundo, pela primeira vez em sua história registrou o pior prejuízo de uma empresa brasileira, tendo um déficit de R$ 44,2 bilhões. Já a Samarco havia investido R$ 6 bilhões em suas áreas de exploração e registrou lucro de R$ 2,8 bilhões, em 2014. No mesmo ano havia figurado como a 12ª maior exportadora do país e eleita pela revista Exame a melhor mineradora brasileira pela quinta vez. Mas, em 2015, colheu um prejuízo de R$ 5,8 bilhões, afetada pelas determinações jurídicas, na casa de R$ 9,8 bilhões para a reparação de danos, pagamento de multas e exigências governamentais pós rompimento da barragem de Fundão. Diante de tal cenário econômico, as empresas mineradoras do Brasil vinham num processo de redução de gastos e do quadro de funcionários. Foram fechadas 1,5 mil vagas3 com carteira assinada apenas no primeiro trimestre de 2015. A redução de salários foi outro reflexo da crise, apresentando uma queda de 20,1% em 2015 e, consequentemente, o aumento de funcionários terceirizados. Somente a Samarco tinha em seus quadros, em 2014, 3.117 trabalhadores celetistas (Consolidação das Leis do Trabalho - CLT) e 3.517 terceirizados. O desastre ajudou a aumentar esse quadro, já que em novembro de 2015, mês do acontecimento, a companhia colocou em prática um programa para a demissão voluntária dos funcionários, programa que visava a redução em 40% da sua força de produção.. 3. Dados obtidos através do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), fornecido pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).. 29.
(30) 1.3 Samarco, Vale e BHP-Billiton: poder e negligenciamento A Samarco Mineração S.A é uma joint venture controlada pela brasileira Vale S.A e a australiana BHP Billiton Brasil Ltda., “as duas maiores mineradoras do mundo” segundo Campos et al. (2016, p. 73). A empresa, criada em 1977, é responsável pela extração de minério de ferro no complexo de Germano, em Mariana, além de administrar quatro usinas de pelotização no Espírito Santo, que exporta pelotas de minério de ferro para o exterior. Segundo a lei, empresas que operam ou exercem atividades com riscos conhecidos, como a mineração por exemplo, assumem o fardo por eventuais acidentes. Mas nem precisaria recorrer a lei para constatar o descuido e irresponsabilidade da empresa nesse (des) caso. Fundada em 1942, a Vale S.A controla 50% da Samarco. Em 2007, retirou as palavras Rio Doce do seu nome na tentativa, segundo seus executivos, de facilitar a pronúncia da marca pelo mundo afora. A Vale é líder mundial na produção e exportação de minério e pelotas de ferro, também figurando entre as principais produtoras de outros minerais, tais como bauxita, potássio, alumina, potássio, caulim, ferroligas, manganês, níquel e concentrado de cobre. A empresa tem 47% da sua divisão acionária nas mãos de investidores estrangeiros; 12% são de investidores brasileiros; 4,3% pertence ao governo federal na figura do BNDESPar. Em ações vinculadas ao Acordo de Acionistas da Vale, válido até 2020, a divisão conta com 10% com a Litel4; 4,2% para a Bradespar; 3,6% são da Mistsui & Co5; e a BNDESPar também possui 2,3% desse tipo de ação. Por fim, existem as ações dentro do lock-up period de 6 meses, que estão divididas em 11,3% para a Litel/Litela; 2,3% para a Bradespar; a Mistsui & Co possui 1,9%; e novamente a figura da BNDESPar com 1,2%. A obviedade dos números indica que a maior parte das ações da Vale pertence ao capital estrangeiro. A outra metade da Samarci pertence à BHP-Billiton, uma fusão ocorrida em 2001 entre a australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa (radicada na África do Sul) Billiton. A empresa anglo-australiana atua, além do Brasil, no Chile, Colômbia, Peru, na América do Sul, além de Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, Argélia, Paquistão, PapuaNova Guiné e Trinidad & Tobago. Tem como principais produtos o minério de ferro, diamante, carvão mineral, petróleo, cobre, bauxita, urânio e níquel. Segundo notícias veiculadas na 4. A Litel conta no seu quadro acionário com a Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil), Fundação Petros, a Fundação dos Economiários Federais (Funcef), a Fundação Cesp e fundos de investimentos em ações (FIAs). 5 Parte de um conglomerado japonês, a Mitsui & Co Ltda. é uma filial brasileira controlada pela matriz japonesa Mitsui & Co Ltd.. 30.
(31) imprensa, a Vale negocia a saída da empresa anglo-australiana do quadro societário da Samarco. A possibilidade é que a mineradora brasileira compre a participação da BHP-Billiton. Essa seria uma alternativa para a Samarco voltar a operar logo no complexo de Germano, já que com apenas um proprietário, o trabalho de reparação aos atingidos pode ser acelerado. As informações ainda não são concretas. A capacidade de produção da Samarco, antes do rompimento da barragem de Fundão, era de 30,5 milhões de toneladas de ferro por ano. As pelotas de ferro eram o principal produto da companhia, vendidas a empresas de Siderurgia do mundo todo. Além de controlar o complexo de Germano, em Mariana, a empresa também tem outras unidades espalhadas pelo mundo, tais como: unidade de Ubu, em Anchieta, no estado do Espírito Santo; escritórios de venda em Belo Horizonte/MG, Vitória/ES, Amsterdã (Holanda) e Hong Kong (China). Assim, a interligação entre o complexo de Germano e a unidade de Ubu se dá dessa forma: As unidades de Germano (MG) e de Ubu (ES) são interligadas por três canais com 400 quilômetros, aproximadamente. Dessa forma é transportado o minério extraído em Mariana para o estado vizinho. No Espírito Santo, quando o material chega, é direcionado para as quatro usinas de pelotização, que transformam o material em pelotas. Depois desse processo, a produção é direcionada para um terminal marítimo próprio, que fica na região de Ubu. Ao todo, a Samarco possui 3,5 mil fornecedores (SANTOS, 2017, p. 64). Além da operação extrativista, a Samarco também atua no segmento hidrelétrico. São duas usinas que produzem 14,5% do consumo anual de energia usado pela corporação. Uma fica na cidade de Muniz Freire, no Espírito Santo e a outra na cidade de Nova Era, em Minas Gerais, oriunda da participação do consórcio Guilman-Amorin.. 31.
(32) Figura 5 – Caminho do minério. Fonte: Site da Samarco Apesar de tudo o que aconteceu, o que mais impressiona é que a Samarco ainda conta com parte expressiva do apoio da população e das três instâncias do governo (federal, estadual e municipal) para continuar a sua atividade de exploração de minério de ferro na região de Mariana. Duarte Júnior, o prefeito da cidade, afirma que é a favor da mineração e que não apoia a total suspensão das atividades da Samarco. Segundo Santos (2017, p. 63), a justificativa do prefeito tem origem econômica. “Sem esconder o motivo de sua apreensão, o prefeito confirma que 89% da arrecadação da cidade vem da mineração". Ele não esconde a sua preocupação com a suspensão da maior atividade econômica do município, já que não houve investimentos em fontes alternativas de arrecadação. O prefeito tentou intervir junto ao Governo Federal duas vezes na tentativa de retomar as atividades da empresa. Na primeira delas, em maio de 2016, recorreu ao ministro do meio ambiente, Sarney Filho, que recusou o pedido, alegando que “ainda não havia convicção de que a tragédia tinha sido encerrada, como os fatos demonstraram. Um ano depois, a lama continuou” (SANTOS, 2017, p. 63). Na segunda tentativa, recorreu ao presidente da república, Michel Temer (MDB), em 2 de junho de 2016, para que usasse de força política na tentativa de mobilizar a retomada das atividades da Samarco na região. A justificativa é que a arrecadação caiu drasticamente na cidade. Muito ainda tem sido noticiado desde o rompimento da barragem de contenção de rejeitos Fundão. A principal denúncia é que a Samarco tinha em mãos, desde 2013, um documento organizado por professores da UFMG, portanto dois anos antes do desastre, que 32.
(33) previa a ruptura, fato ignorado pelos executivos da empresa que continuaram a explorar minério de ferro na região e também pelas autoridades competentes. O documento, realizado pelo Instituto Prístino e assinado pelos técnicos Tereza Cristina Souza Sposito, Hebert Lopes Oliveira, Felipe Fonseca do Carmo e Luciana H. Yoshino Kamino, analisou diversos aspectos técnicos da barragem e colocou-os sob o estado de alerta. Porém, o laudo técnico foi ignorado também pelas forças públicas, já que o Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais (COPAM) licenciou a obra, transformando os riscos, advertidos no documento, em condicionantes a serem cumpridas. Já o Ministério Público do estado de Minas Gerais alega que o problema tem origens mais antigas. Na solicitação da empresa para a construção da barragem, em 2007, foram entregues apenas os dados básicos, ou seja, faltou um projeto executivo com mais detalhes técnicos. Outra constatação é de que o poder público foi tão omisso quanto a empresa se mostra no aspecto apontado pelo promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, ao evidenciar que a Fundação Estadual do Meio Ambiente aceitou o projeto dessa forma, sem perguntas e exigências mais profundas. Santos corrobora: No mesmo ano de 2007, a Samarco recebeu autorização para realizar obras em um tempo curto de três meses. Já Maurício Campos Júnior, advogado da companhia, declarou que “talvez não tenha sido entregue o projeto executivo” (SANTOS, 2017, p.66).. Outra denotação de descaso do setor público e privado é que, no mesmo ano, em 2007, havia uma preocupação com a água que escorria de rejeitos oriunda de uma pilha da Vale, perto da área da barragem de Fundão. O receio era que esse escorrimento surtisse efeitos na barragem. O MPE-MG não encontrou um suposto projeto técnico que teria sido elaborado na tentativa de sanar o problema. Essa pilha de rejeito se tornou um problema em 2013. A empresa VogBR Recursos Hídricos e Geoctecnia Ltda. elaborou um relatório técnico para a Samarco, mostrando que a pressão da água estava sendo influenciada pelos rejeitos perto da barragem de Fundão, apontando para que fosse feita uma drenagem no local. A voz da consultoria de engenharia foi silenciada. Um ano depois, em setembro de 2014, alertas sobre trincas na estrutura da barragem foram feitos à Samarco. O engenheiro consultor responsável pelas recomendações técnicas, Joaquim Pimenta de Ávila, também teve sua voz silenciada. Em junho de 2016, após o desastre, o óbvio veio à tona. Autoridades vieram a público alegar que a mineradora tinha consciência dos problemas com a barragem, mas que mesmo assim assumiu os riscos da continuidade da extração mineral. Documentos que comprovam que 33.
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