O EXOTISMO E A MOTIVAÇÃO PARTICULAR DE ALGDWS CLIENTES
1. O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E O INTERESSE PELO ULTRAMAR
Nos último período do Antigo Regime raras disciplinas científicas beneficiaram de um desenvolvimento tão sustentado como a Botânica. As relações íntimas e úteis consequências que a prendiam à ciência médica, agricultura e artes manufactureiras, bem como a dimensão pluri-contmental do Estado português colocavam-na privilegiadamente para o ensaio, a um tempo só, dos princípios nacionalistas, progressistas e pragmáticos do pensamento das Luzes: Os fins dos jardins
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botânicos não são, como alguém diz, restritos puramente ao conhecimento das plantas medicinais; eles são sumamente amplos, porque além da
instrução dos alunos de Farmácia e Medicina envolvem também as dos que se dão a diferentes artes, a diversos ramos da agricultura e à Botânica filosófica. As suas ut i l idades não se limitam ainda somente a isto, porquanto eles são um repositório de plantas raras e preciosas, principalmente exóticas, e aonde de mais disso, costumam de todas as províncias nacionais recorrer os farmacêuticos, diferentes agricultores e pessoas ricas, curiosas de promover a cultura de algumas plantas para
bem das artes e do comérc/o(,"\
Recordemos que Francisco Xavier de Mendonça Furtado já em 1751, governando o Grão-Pará e Maranhão e preocupado em evitar a saída do reino de important íssimas somas a troco de má qualidade, se interessou em poder substituir o linho cânhamo pelo crauatá, planta local; e, três anos mais tarde, o mesmo referido irmão de Pombal organizou uma expedição científica ao Rio Negro, composta por naturalistas e matemáticos "6 0\
Ao longo do século XVIII foi-se tornando cada vez mais frequente o emprego de novos fármacos de origem vegetal exótica, designadamente tropical: chinchonina, café, ipecacuanha, jaborandi, mendobi, mangabeira. Além das contribuições de vários químicos e botânicos, destacam-se sobretudo os trabalhos do médico Bernardino António Gomes, autor, entre outras, das obras Memória sobre a ipecacuanha (1801),
Ensaio sobre a chinchonina (1810) e Observações botânico-médicas sobre algumas plantas do Brasil (1812) "*". Em Agosto de 1794 decretava-se que
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no laboratório da Real Casa Pia do Castelo se areassem boticários
conforme ao espírito dos estatutos da Universidade de Coimbra, sendo-
-Ihes ministradas aulas de Botânica e de Química.
Quanto è Agricultura, é por demais conhecido todo o esforço de actualização científica e técnica vertido nas páginas das "Memórias Económicas" da Academia Real das Ciênc ias<1"\
De facto, a fundação da Academia (que tanto se deve a um naturalista, o Abade Correia da Serra) veio intensificar o convívio dos sábios entre si, mesmo os mais afastados — e logo em 1781 vinham a lume as Breves Instrucçoens aos correspondentes da Academia das Sciencias de
Lisboa sobre as remessas dos productos e noticias pertencentes a história da Natureza para formar hum Museo Nacional. Ainda por via
epistolar, alargava-se o convívio aos meios cultos estrangeiros, contacto também aprofundado pelo acréscimo de importação de literatura especializada; enquanto o dirigismo da Corte e o interesse de um ou outro lúcido mecenas subsidiavam a aprendizagem em centros europeus de alguns estudiosos, metropolitanos e brasileiros.
A partir de 1807, o Brasil assumirá, como é óbvio, de modo ainda mais decidido"*" o lugar fulcral nesta política de triangulações atlânticas — e ocorre na verdade ter presente, a propósito, o centralismo pombalino quanto ao ultramar, procurando romper a dominante das relações laterais directas e praticamente coloniais (Brasil / Angola e S. Tomé; índia / Moçambique) por meio não apenas de reformas da administração mas outrossim da superação das limitações geográficas
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(primelras iniciativas para efectivar a ligação terrestre de Angola à contra-costa) "**'.
Assim, apoia-se a criação de jardins botânicos com pendor fortemente experimental e incentiva-se a introdução de novas espécies
(oriundas da índia no Brasil, americanas em África, etc. ) " " \
Mas a verdadeira pedra de toque desta orientação científtco-
-tecnológica de enorme alcance internacional residiu nas "viagens filosóficas", logo planeadas e treinadas (trabalhos de campo na Metrópole e comunicações à Academia) nos começos do reinado de D. Maria
I.
Fr. José Mariano da Conceição Veloso, que deixou o nome também ligado à história da gravura em Portugal"6", havia já recolhido
espécies vegetais na Capitania de São Paulo quando foi convidado pelo Vice-Rei Vasconcelos e Sousa a realizar, para a região do Rio, uma vasta empresa de pesquisa, classificação e recomendação de utilizações práticas. Esta campanha de estudo das plantas fluminenses durou de 1782 a 1790 e mobilizou amplos recursos humanos suportados pelo governo"47'.
Em 1783 inicia-se, sob o impulso de Martinho de Melo e Castro (secretário de Estado da Marinha e Domínios Ultamarinos escolhido por Pombal em 1756 e mantido no cargo até morrer em 95), a grande expedição científica conduzida durante quase uma década ao Grão Pará, São José do Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá pelo Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira. Na sua equipa contavam-se os hábeis desenhadores e aguareiistas José Joaquim Freire e Joaquim José Codina •<«>. Os resultados foram notabilíssimos, interessando ao conhecimento rigoroso da flora e da
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fauna mas também versando a Geografia, a Geologia, a Mineralogia, a Medicina, a Agricultura e a Antropologia; e viriam a ser largamente pilhados do Museu da Ajuda por Etienne Geoffroy Saint-Hi lai re (1808), por ordem do ministro francês do Interior.
Cinco anos após a partida do Dr. Rodrigues Ferreira, publicava o "pombalino" Domingos Vandelli (que o havia indicado para aquela missão) o opúsculo Florae Lusitanicae et BrasíI iensis Specimen, que já citámos, em larga medida apoiado nos informes de um seu ex-aluno e sócio correspondente da Academia, o Padre Joaquim Veloso Miranda, de Minas Gerais.
Entretanto, a África não era descurada e no mesmo ano de 1783 inicia-se um importante conjunto de três missões científicas, cometidas a bacharéis que desde há cinco anos tinham experiência de campo (região de Coimbra e Ribatejo) e vinham tirocinando nas instalações da Ajuda.
A de Angola, que iria durar até 1808, foi entregue a Joaquim José da Silva. Bastante a prejudicou o cargo de Secretário do Governador que o chefe da expedição também desempenhava e a precoce perda de colaboração qualificada, pois em 1784 já tinham sucumbido aos rigores do clima os dois desenhadores saídos de Lisboa, Ângelo Donati e José António. Ainda assim se estudaram Cabinda, Massangano, Ambaca, Huila e Benguela. Em vários embarques, remeteram-se sementes e plantas (com particular interesse pelas de uso medicinal), animais preparados
(numerosos peixes, uma hiena, um crocodilo) e vivos (especialmente aves), amostras minerais e conchas, exemplares de armas indígenas. Mesmo nas condições muito precárias em que participou na exploração (1785) da
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costa sul"*", J. J. da Silva conseguiu recolher alguns espécimes naturais.
Acumulando iguaLmente com idêntico posto da administração colonial, Manuel Galvão da Silva foi o naturalista designado para a África Oriental. Atacado por doenças, sem apoio dos burocratas locais e tendo-lhe falecido logo em 1787 o riscador António Gomes, conseguiu porém, até 1793, ir a Goa e à Ilha de Moçambique, percorrer os territórios dos Rios de Sena, Manica e Tete e obter alguns dados de interesse, mormente no domínio mineral.
E para Cabo Verde partiu João da Silva Feijó, mais especializado em Química, que publicou três valiosos estudos nas referidas "Memórias Económicas""70'. Regressado em 1797 para colaborar com Rodrigues
Ferreira no complexo da Ajuda, ali se conservava o seu herbário da flora cabo-verdiana que, como os congéneres do Brasil e de Angola, seria
levado pelos Franceses.
Toda esta actividade é fruto da reforma pombalina da Universidade de Coimbra <1772) e do teor naturalista com que então se dotou o currículo da Faculdade de Filosofia; testemunha o valor do corpo de cientistas que ali se graduou e de alguns "estrangeirados" a quem a morte de D. José permitiu o regresso; e p3e em destaque o rumo fisiocrático do governo, a resposta à concorrência dos produtos das Antilhas e o papel essencial de Lisboa na investigação dos recursos coloniais necessários à nascente industrialização europeia.
Todavia, tendo na época ficado inédita quase toda a massa dos relatórios e muito material radicado no Brasil (antes e depois de 1807), não falando daquele que a Convenção de Sintra deixou perder para a
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França, o impacto deste estudo rigoroso do mundo exótico tropical não foi, na Metrópole, imediato.
Sobretudo, devemo-lo limitar a um círculo restrito, dominado por estadistas de larga visão, com saliência para o referido Martinho de Melo e Castro e D. Rodrigo de Sousa Coutinho, personagem que muito interessa também, como veremos, ao mecenato artístico. E, sob outra perspectiva, círculo que se realiza na acção (cultural, ideológica e política) de um notável grupo de sábios, como Correia da Serra, Avelar Brotero, Silvestre Pinheiro Ferreira e José Bonifácio de Andrade e Silva, enquadrado por um escol de antigos discípulos de Vandelli que suporta científica e tecnicamente os Jardins Botânicos da Universidade e da Ajuda, o Gabinete de História Natural, alimentando ainda com pesquisas de campo os debates e publicações da Academia das Ciências07".
Assim, na construção da imagem brilhante e sedutora do Brasil, maior efeito que as exaustivas recolhas e classificações do baiano Dr. Rodrigues Ferreira tiveram, sem dúvida, certas lides poéticas de alguns seus patrícios.
2. ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES LITERÁRIAS PARA A IMAGEM