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A casa principal da quinta que hoje pertence ao Duque de Bragança, no alto de S. Pedro do termo sintrense, também já não pode ostentar a famosa pintura do seu interior. Tê-la-á perdido entre ca. 1888-1895, no decurso de transformações praticadas pelo Marquês de Valada ao cabo de quatro décadas de posse da propriedade que se recordam, aliás, na sua denominação mais corrente"".

Há duzentos anos o local era bem agreste, aberto às furiosas ventanias. Ocupando o cume de um desabrido montei7°\ tinha muito menos

abrigo que a Quinta do Ramalhão, rodeada por densos arbustos, em que os fetos abundam e protegida, muros adentro, pelos arborizados jardins onde pontificavam velhos cedros de Goa e abotoados azereiros(7"; não falando

já dos densos can iça is e limoa is, por cujas alamedas, cavalgando atrás dos seus palafréns e burras, o "Fidalgo Rico"<72> — de momento, nosso

primacial informador — excitava um grupo de donzelas do paço e juvenilmente levava de revoada pelos ares folhas, frutos e flores173'.

Mas foi lá, naquele lado ermo e nu da serra de Sintra17*' e na

propriedade já anteriormente aforada (pelo menos desde 1773)'"> que o 7.2 Conde de Cantanhede decidiu erguer o conjunto das construções necessárias à condign idade das estadias de Verão da sua muito influente Casa. E confiou a traça do edifício principal, ao longo da actual Travessa da Forca, ao homem cujo prestígio e adaptabilidade cosmopolita dominavam então abertamente o reduzido panorama do consumo nacional. A autoria é atestada pelo próprio D. Diogo José Vito de Meneses Noronha Coutinho, num passo da carta enviada em Janeiro de 1788 a Beckford, no qual, bem saudoso, lhe confessa como desejava poder estar então sentado

JEAN PILLEMENT E O EXOTISMO TROPICAL - 19- sossegadarnente num sofá a seu lado, em Sintra, no Ramalhão ou na casa

feita pelo Pillemant em S. Pedro1'"-1.

Tudo leva a crer que a obra se executou rapidamente. Há cinco

anos ainda isto era uma encosta bravia toda juncada de pedras e detritos — garante-nos, em Julho de 1787, o famoso britânico, no tom afirmativo

que a constante intimidade com os Marialvas lhe permitia l77>. 0 termo a quo poderia assim recuar ao início da fixação de Pillement em Lisboa,

colocando-se pois o pavilhão da Quinta de S. Pedro como um dos seus primeiros trabalhos de maior vulto; se é que não se aventará mesmo a hipótese de haverem sido esta e outras encomendas muito rentáveis, acenadas da capital, o que o determinou a sair do Porto — recorde-se que D. Diogo despendeu na sua casa de campo para cima de dez mil libras

ester l inasn,s> e que o artista lionês se deverá bem ter cobrado, como

arquitecto e pintor de decoração que complementarmente foi. Quanto à data de conclusão, é provável que a intervenção de Pillement estivesse já cumprida ou muito adiantada nos finais de Agosto de 1785, quando escreve: Vous avé San doute apri de S. Ecxelance Monsieur le Conte de

Cantaniede que Mon sor et desidé, et que je doit partir au Printan Prochin (. . . >t7f\

Excede o âmbito do nosso estudo detalhar a crítica ao conjunto arquitectónico da villa de S. Pedro. Mas é de aceitar, depois de confrontada com a análise dos elementos originais que ainda sobrevivem e com a reconstituição apoiada num inventário notarial de 1855<Bt>), a

justeza da apreciação de um outro culto visitante, o embaixador de França: C. . . ) sans être ni régulière ni bien distribuée, a des choses

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cuja qualidade (bem como a autoria, aliás) Beckford iria afiançar, meio ano mais tarde*"'.

Fachada poente do Pavilhão da quinta de S. Pedro (Sintra)

Desse edifício, salientemos apenas algumas características, as que melhor revelam a boa resposta do autor quanto às funções próprias de cada espaço na conjuntura do local e da moda vigente, a par da sua maleabilidade face às tradições culturais portuguesas; e que, por outro

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as dimensões do salão nobre, cerca de quinze metros por dez de planta útil e um elevado pé-direito. Era o teor da vida social que impunha esta solução, palco de um aparato ritualista que contrastava (como notou o arguto autor do "Vathek" mesmo

ignorando as raízes seiscentescas de tal polarização) com a indisfarçável tacanharia dos quartos, capela e outras divisões do piso térreo;

no topo nascente, a directa abertura do pavilhão para o jardim (e, mais além, as envolventes moitas de viburnos descendo pela encosta do monte), num diálogo reciprocamente estimulante entre vários níveis de experiência e representação da natureza;

no topo oposto, ao grande pé-direito do salão correspondiam dois andares com três câmaras cada e respectivas janelas abrindo ao grandioso cenário da Serra de Sintra - mas, nos compartimentos do piso superior, esta outra fórmula de fruição do espectáculo "natural" numa das suas máximas propostas jogava, por meio de tribunas lançadas sobre o interior do vasto recinto, com a alternativa imaginária criada por Pillement, além de dar satisfação ao notório exibicionismo do espectáculo dos costumes;

a multiplicidade de vãos, singelíssimos, indiciava também a forte sobrevivência estrutural, sem atender à razão prática de respeitar as condições do clima — aliás, a menos de um quilómetro de distância, o Ramalhão lembrava a norma, com o prestígio da sua velha idade e a sucessão de desconfortáveis salões... E, sobretudo, para quê falar de comodidades se a abundância de portas e janelas afinal dava um incomparável

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ambiente éclairé par le solei í(ft4> e consentia que, após um

ginástico passeio, ali se ficasse meditativamente sentado, contemplando o poente feérico (. . . ) até escurecer de todo1"*?

Mas então, a l'heure où il fallait de la bougie<Ri\ acendiam-se

nada menos que cinquenta no esplêndido lustre suspenso da boca de um

dragão alado e as luzes, cintilando nas grinaldas de pingentes de cristal, fazianrnos refulgir como colares de diamantes, valorizando

extraordinariamente todo o trabalho de Pi l lement"7'.

Em redor do dragão, no alto do tecto, pairavam nuvens(se> tão

admiravelmente pintadas**9' que a maravilhosa imaginação do grande

escritor pré-romântico já admitia que de lá tivessem descido, como fadas autênticas, agitando-se travessamente nos vaporosos vestidos de musselina, as duas pequenitas filhas do dono da casa, D. Maria (n. 1781) e D. Joaquina (n. 1782).

Dando forma à abóbada, para ali convergiam os cumes das árvores"0', verdadeiramente fantásticas pela grandeza e entrelaçado dos

troncos"", pelo verde intenso dos ramos, pelas flores ou frutos que algumas exibiam"*'. Através do emaranhado de braços e folhagens,

espreitava um céu de Estio193'.