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1 INTRODUÇÃO

2.1 Fundamentação teórica

2.1.4 O desenvolvimento da linguagem na teoria sociointeracionista

No processo de desenvolvimento do ser humano, a aquisição da linguagem representa um salto qualitativo na evolução da espécie. A comunicação, função primária da linguagem, é para a maioria das pessoas um processo que ocorre naturalmente a partir das interações e vínculos culturais e sociais que se estabelecem desde o nascimento.

Vygotsky (1987) dedica particular atenção à questão da linguagem. Conforme ele aponta, é por meio da linguagem, que o indivíduo pode combinar relações e criar um todo novo, ressignificando sua compreensão de mundo, pois ao se apropriar das palavras, ele encontra instrumentos de análise para destacar e diferenciar objetos, designando-os. Dessa forma, a linguagem se faz importante para reorganizar o pensamento, à medida que se torna um meio facilitador da construção de conceitos e da atividade mental coletiva.

De acordo com Oliveira (1992), ao abordar o processo de formação de conceitos, Vygotsky coloca a linguagem como sistema simbólico fundamental que emerge culturalmente no contexto de mediação. A linguagem tem funções básicas, que são as trocas comunicativas, como propósito social, e o pensamento generalizante. A autora aponta que essa forma de pensamento “[...] simplifica e generaliza a experiência, ordenando as instâncias do mundo real em categorias conceituais cujo significado é compartilhado pelos usuários dessa linguagem” (OLIVEIRA, 1992, p. 27).

No tocante aos indivíduos com deficiência intelectual, os prejuízos no comportamento adaptativo, que inclui as habilidades de comunicação, levam a criança ao desenvolvimento deficitário da linguagem, sendo necessário lançar mão, quando necessário, de recursos alternativos de comunicação para promover situações interativas. Dessa forma, acreditamos que a criança que vive num ambiente sócio afetivo estimulante, percebe a emergência dos vários modos de comunicação. Nesse sentido, ela aprende precocemente que existem diferentes formas de comunicar, susceptíveis de produzir efeitos diferentes sobre o ambiente, até adquirir a linguagem simbólica e acender a outros níveis de desenvolvimento. Desse modo, o professor do AEE exerce papel fundamental para a promoção desse desenvolvimento, por meio do uso de estratégias de mediação intencionais.

Neste estudo interessou-nos também a abordagem de Vygotsky acerca da relação entre desenvolvimento cognitivo e linguagem. Esse autor aponta que o desenvolvimento cognitivo do ser humano se realiza por meio da linguagem e, para que ela se efetive, faz-se necessário a mediação, que só é concebida no processo de interação, pois o desenvolvimento humano está intimamente ligado à história individual e à história social. Desse modo, os processos de mediação, na abordagem sociointeracionista, corroboram com a compreensão de que o processo de desenvolvimento cognitivo, social e afetivo é resultado da relação homem e mundo, que acontece por meio do processo de mediação simbólica. Segundo Vygotsky (1997), o processo de mediação permite ao sujeito a internalização de ações e conhecimentos construídos culturalmente por meio dos instrumentos e dos sistemas simbólicos, como, por exemplo, a linguagem. No tocante ao papel do professor do AEE como mediador do conhecimento, defendemos que as ações mediadas desenvolvidas por este profissional podem proporcionar o desenvolvimento da linguagem e, consequentemente, o avanço conceitual da língua escrita de alunos com DI. As estratégias de mediação devem emergir num ambiente potencializador de aprendizagens e desafiador cognitivamente.

De acordo com Rego (2002), o surgimento da linguagem imprime três mudanças essenciais nos processos psíquicos do homem. A primeira se relaciona ao fato de que a linguagem permite lidar com os objetos do mundo exterior mesmo quando eles estão ausentes. A segunda se refere ao processo de abstração e generalização que a linguagem possibilita, isto é, através da linguagem é possível analisar, abstrair e generalizar as características dos objetos, eventos, situações presentes na realidade, fornecendo, também, conceitos e modos de ordenar o real em categorias conceituais. A terceira mudança está associada à função de comunicação entre os homens que garante como consequência, a

preservação, transmissão e assimilação de informações e experiências acumuladas pela humanidade ao longo da história.

Ainda conforme a referida autora, estas ideias deram origem a um programa de pesquisa que foi iniciado por Vygotsky, mas aprofundado por seus colaboradores e que visava à análise de como a relação entre o uso de instrumentos e a fala, considerando a função mediadora que os caracteriza, afeta várias funções psicológicas, especialmente a percepção, as operações sensório-motoras e a atenção.

Além disso, tal programa de pesquisa observou as leis básicas que caracterizam a estrutura e o desenvolvimento das operações com signos da criança, relacionando-os com a memória. Dessa maneira, é possível perceber que a internalização dos sistemas de signos, como a linguagem e a escrita, por exemplo, que são produzidos culturalmente provocam mudanças cruciais no comportamento humano. Assim, concernente ao pensamento de Rego (2002, p.55),

os sistemas simbólicos (entendidos como sistemas de representação da realidade), especialmente a linguagem, funcionam como elementos mediadores que permitem a comunicação entre os indivíduos, o estabelecimento de significados compartilhados por determinado grupo cultural, a percepção e interpretação dos objetos, eventos e situações do mundo circundante. É por esta razão que Vygotsky afirma que os processos de funcionamento mental do homem são fornecidos pela cultura, através da mediação simbólica.

Isto posto, compreendemos que a partir de sua inserção num dado contexto cultural, de sua interação com membros de seu grupo e de sua participação em práticas sociais historicamente construídas, a criança incorpora ativamente as formas de comportamento já consolidadas na experiência humana. Nessa perspectiva, a internalização dessas práticas culturais constitui o desenvolvimento humano e assume papel de destaque.

A compreensão destes pressupostos sociointeracionistas nos remete ao funcionamento cognitivo e aos mecanismos de aprendizagem de sujeitos com deficiência intelectual. Nesta investigação defendemos que é necessário que o professor do AEE conheça seu aluno e, assim, desenvolva atividades que os desafie cognitivamente. Acreditar no potencial de aprendizagem dos alunos com DI é outra premissa para um bom trabalho a ser desenvolvido na SRM.

Segundo Vygotsky, a conquista da linguagem representa um marco no desenvolvimento do homem, pois, para ele,

[...] a capacitação especificamente humana para a linguagem habilita as crianças a providenciarem instrumentos auxiliares na solução de tarefas difíceis, a superarem a

ação impulsiva, a planejarem a solução para um problema antes de sua execução e a controlarem seu próprio comportamento. Signos e palavras constituem para as crianças, primeiro e acima de tudo, um meio de contato social com outras pessoas. As funções cognitivas e comunicativas da linguagem tornam-se, então, a base de uma forma nova e superior de atividade nas crianças, distinguindo-as dos animais (VYGOTSKY, 1987, p. 31).

Sendo assim, a linguagem, para Vygotsky, tanto expressa o pensamento da criança como age como organizadora desse pensamento. Para Luria (2010), a linguagem tem uma função cognitiva que é a característica que eleva a linguagem humana à categoria de atividade consciente, libertando o homem do contexto imediato para comunicar. Dessa forma, a linguagem seria um instrumento de pensamento e generalização, pois, segundo o autor, uma palavra não somente “designa uma coisa determinada, também a inclui em um determinado sistema de enlaces e relações” (p. 25). Este potencial nos permite expressar sobre elementos não presentes na percepção imediata, de forma que “a palavra duplica o mundo dando ao homem a possibilidade de operar mentalmente com objetos, inclusive na ausência destes” (p. 32). Assim, o significado da palavra é uma generalização, um ato de pensamento, “[...] a palavra nunca se refere a um objeto isolado, mas a todo um grupo ou classes de objetos. Por essa razão, cada palavra é uma generalização latente, toda palavra já generaliza e, em termos psicológicos, é antes de tudo uma generalização” (VYGOTSKY, 1989, p. 9).

Dessa forma, comunicar-se através da linguagem implicará numa reorganização de representações sociais, culturais e mentais que, por meio da linguagem enquanto instrumento de comunicação e psicológico (signo), permite a construção e partilha de significados. Esta dimensão comunicação-significado (signo) é uma característica do símbolo linguístico que envolve sempre duas dimensões: a dimensão da linguagem e a do pensamento, processos diferentes, mas que “[...] convergem e divergem constantemente, cruzam-se, nivelam-se em determinados períodos e seguem paralelamente, chegam a confluir em algumas de suas partes para depois tornar a bifurcar-se” (VYGOTSKY, 2001, p. 111). Ou seja, para o autor, tanto o desenvolvimento do pensamento como o da linguagem dependem dos instrumentos de pensamento e da experiência sociocultural da criança.

A linguagem é um signo mediador por excelência, pois ela carrega em si os conceitos generalizados e elaborados pela cultura humana e, além disso, ela é um sistema de signos que possibilita o intercâmbio social e cultural entre indivíduos que compartilham desse sistema de representação. Dessa forma,

[...] entende-se assim que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, pois é mediada por meios, que se constituem nas “ferramentas auxiliares” da atividade humana. A capacidade de criar essas “ferramentas” é exclusiva da espécie humana. O pressuposto da mediação é fundamental na perspectiva sócio-histórica justamente porque é através dos instrumentos e signos que os processo de funcionamento psicológico são fornecidos pela cultura. É por isso que Vygotsky confere à linguagem um papel de destaque no processo de pensamentos (REGO, 2002, p. 42-43).

Retomando a discussão sobre a importância da linguagem no desenvolvimento humano, de ampliar a percepção e o pensamento, constatamos que a linguagem se torna um mediador entre o sujeito e sua cultura, entre o sujeito e o conhecimento, entre a criança e o adulto, entre a criança e seus pares. Ela é, portanto, um meio de intervenção de um elemento intermediário numa relação.

No que concerne à modalidade de manifestação da linguagem, a fala, é de fato, o recurso prioritário nas relações humanas e por meio dos seus símbolos arbitrários, aprendidos na mediação com o outro, a fala é considerada como um dos veículos de ação mais direta sobre o ambiente, favorecendo o desenvolvimento de competências individuais e coletivas (SILVA et al., 2013; CARNEVALE et al., 2013).

A função primordial da fala é o contato social, a comunicação; isto quer dizer que o desenvolvimento da linguagem é impulsionado pela necessidade de comunicação e à medida que a criança interage e dialoga com os membros mais maduros de sua cultura, aprende a usar a linguagem como instrumento do pensamento e como meio de comunicação.

No entanto, esta modalidade de expressão nem sempre é um recurso comunicativo disponível, principalmente para sujeitos que apresentam algum tipo de deficiência, seja ela de ordem física, intelectual, psicossocial e/ou sensorial, pois podem dispor de restrições no ato da produção da fala e, estas dificuldades, refletem de forma singular no desenvolvimento das interações estabelecidas com as pessoas, com os símbolos e objetos (SILVA et al., 2013).

No subtópico seguinte enfatizamos o desenvolvimento da língua escrita na perspectiva sociointeracionista para, em seguida, apontarmos como acontece a apropriação do sistema de escrita alfabética pelo aluno com deficiência intelectual.

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