CAPÍTULO II MOVIMENTO LGBT: RETOMANDO UMA TRAJETÓRIA
2.3 O DESENVOLVIMENTO DO MOVIMENTO BRASILEIRO
A princípio, o Brasil ainda não estava devidamente inserido nesses processos de contestação e liberação homossexual na América Latina, embora houvesse por aqui um segmento homossexual masculino pulsante e uma sociabilidade lésbica incipiente, especialmente em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife, grandes centros urbanos que atraíram homossexuais vindos dos interiores dos estados em busca de anonimato, fugidos dos controles das suas famílias (GREEN, 2000b). Antes de adentrar, efetivamente, na trajetória do movimento político por direitos de homossexuais e desvendar as fases que o compõem, interessa à sua compreensão tratar, mesmo breve, do período que antecede a formação das primeiras iniciativas de organizações coletivas no final da década de 1970.
Nesse contexto de migrações para os centros urbanos, nas décadas de 1950 e 1960 a construção tradicional de gêneros relacionada à homossexualidade que persistia e era disseminada baseava-se em uma hierarquia de gênero e em papéis sexuais. Essa classificação distingue o “homem verdadeiro”, considerado como aquele que desempenha o papel de “ativo” (que “penetra”) no ato sexual e é socialmente masculino, do considerado “bicha”, “veado”, com papel de “passivo” (que “é penetrado”). No caso das relações femininas, a mulher que transgride a noções tradicionais de feminilidade manifestando características do papel masculino ao se relacionar com outra mulher é considerada como “sapatão”, “mulher-macho”. “Assim, na lógica desse modelo, a hierarquia de gênero, articulada a partir da oposição masculinidade/atividade sexual versus feminilidade/passividade sexual, englobaria de forma sistemática todas as categorias e identidades sexuais” (SIMÕES; FACCHINI, 2009, p. 54, grifo dos autores).
Retomando os estudos de Peter Fry, Simões e Facchini (2009) relembram o modelo médico-psicológico que se desenvolveu no Brasil – em conformidade com o modelo europeu – sustentando a identidade homossexual como uma qualidade inerente à pessoa. Nele, orientação sexual e gênero vão sendo desarticulados, dividindo-se inicialmente os homossexuais em “ativos” e “passivos” (estes “homossexuais de verdade”), e depois atribuindo à “condição” (no sentido de doença ou anomalia) de homossexual quaisquer homens que mantivessem relações sexuais com outros homens, independentemente da posição de “atividade” ou “passividade”. Desse modelo, derivou-se um outro que manteve a separação entre orientação sexual e gênero, apoiado também no dualismo heterossexual/homossexual. Com uma perspectiva igualitária e renegando os estigmas do outro modelo, foi articulado pelos defensores modernos dos direitos homossexuais e formou novas categoriais baseadas na orientação do desejo, como
“entendido/entendida” (nos anos 1940), “homossexual”, “gay” e “lésbica” (nos anos 1970). Esses modelos coexistem e disputam espaço em diferentes âmbitos sociais, na intersecção de ambos emerge o movimento homossexual brasileiro, que colabora para a expansão do modelo igualitário, principalmente entre a classe média urbana, ao mesmo tempo em que depende de tal expansão. De acordo com Simões e Facchini (2009), duas percepções podem ser extraídas da leitura da estruturação da homossexualidade no Brasil: a sugestão de que há uma tendência de transição do modelo hierárquico para o igualitário, mediada pelo modelo médico- psicológico, considerando que a realização histórica disso não deve ser entendida de modo linear; a adoção do termo “modelo” para refletir o plano das ideias, dos valores, das representações e categoriais sociais como procedimento para tornar os comportamentos e as identidades compreensíveis, estabelecendo fronteiras e regras claras, embora haja espaços para inconsistências e conflitos.
Conforme os autores, os esforços de articulação entre pessoas em torno da homossexualidade já existiam, pelo menos desde os anos de 1950, mas não com tons políticos e sim com a formação de associações dedicadas à sociabilidade, à diversão e à paródia. Essas associações construíram maneiras criativas que permitiram com que as pessoas, que viviam em uma época repressiva e conviviam com o estigma à sombra, se informassem, expressassem e constituíssem laços entre si. Esse jeito de viver e ver o mundo entrou em conflito com a perspectiva dos militantes do emergente movimento homossexual do país, por entenderem a atuação dessas associações como despolitizada, específica do “gueto” que reforçava a vergonha e o preconceito contra homossexuais. A aproximação entre indivíduos com vista a diversão revela-se como um dos aspectos desse período de “movimentação” (SIMÕES; FACCHINI, 2009) anterior ao início das lutas políticas.
Até o final dos anos de 1950, afirma Green (2000b), os encontros públicos entre homossexuais ocorriam em espaços urbanos públicos – como praças, alguns locais de praias, banheiros públicos – e privados, mas de maneira menos aguda – como cafés e restaurantes –, pois bares voltados para o público gay ou lésbico ainda não existiam; encontros sexuais, pequenas festas e shows privados aconteciam em locais mais reservados, alugados ou de amigos, livres de controle social. O momento do carnaval também se mostrava propício para a expressão mais livre da homossexualidade e dos desejos em público, tanto de homens como de mulheres. De tal modo que “esses lugares tornaram-se cruciais para a formação de uma subcultura urbana que se tornaria cada vez mais visível no desenrolar dos anos 50” (GREEN, 2000a, p. 267).
Foi nesse cenário de socialização homossexual (masculina) privada que surgiu o jornal O Snob. Entre as décadas de 1950 e 1960, se tornou comum dessa subcultura a formação de grupos, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, baseados no apoio mútuo entre os integrantes que se reuniam nas casas de alguns deles. Esses grupos de amigos ficaram conhecidos como “turmas” e eram formados em torno de afinidades e interesses comuns, constituindo um tipo de família alternativa para aquelas pessoas que migravam para essas capitais. Assim, observa Green (2000a, p. 291), “a turma agia tanto como rede de apoio quanto como um meio de socializar indivíduos na subcultura, com todos os seus códigos, gírias, espaços públicos e concepções sobre sua homossexualidade”.
O pequeno jornal O Snob – de duas páginas datilografadas – começou a circular na cidade do Rio de Janeiro em 1963 como um tipo de manifesto lançado por Agildo Guimarães contra o resultado de um concurso – o Miss Traje Típico. Com o tempo, o jornal aumentou o número de páginas, diversificou seu conteúdo, promoveu concursos e inspirou, posteriormente, a formação de outras publicações similares pela cidade e também pelo país. Segundo Green (2000a), o jornal retratava a homossexualidade sob diversas noções de gênero, como “bichas”, “bonecas”, “bofes”, “entendidos” e “tias” (homens mais velhos), buscava o humor como forma de expressão e procurava informar sem se envolver nas disputas políticas da sua época. Além disso, o jornal organizava suas noções da homossexualidade a partir do modelo dual “boneca” (feminina por essência, buscava relações sem compromisso com vários parceiros) e “bofe” (essencialmente masculino, homem “verdadeiro” que não se considerava homossexual). O autor elucida que esse modelo começou a ser questionado, em 1966, dentro do próprio O Snob por um membro que não concordava com os inflexíveis papéis sociais e sexuais assumidos pelas “bonecas”. De forma que nota-se o surgimento de uma nova identidade homossexual nos anos de 1960 a partir da popularização do termo “entendido” (que tem suas origens na década de 1940) pelos grupos ligados ao teatro, como reação a outros termos considerados pejorativos, como “bicha” e “veado”, e a fim de se manter uma imagem pública resguardada. O uso do “entendido” também significava, para alguns homossexuais, não adotar a dualidade e hierarquia do “ativo” ou “passivo”, “masculino” ou “feminino”, “homem” ou “bicha”.
Em 1969, O Snob anunciou através do seu então novo editor, Clau Renoir, algumas inovações para a publicação, sob o mote de “um jornal mais adulto” para acompanhar as transformações e a aproximação do novo século, numa “marcha para o progresso”. Green (2000a) relembra que a pauta política não era o foco do jornal e que foi a partir de 1968, influenciado pelos movimentos de jovens estudantes e revolucionários, que ele começou a refletir a situação estabelecida no Brasil. Nesse mesmo período (1967-1968), propôs a criação
da Associação Brasileira da Imprensa Gay (ABIG) junto às publicações produzidas por outros grupos. Entretanto, diante do temor em ser confundidos com oposicionistas e esquerdistas e, consequentemente, sofrerem repressões por parte do governo, além da crescente concorrência de opções de entretenimento e consumo – bares gays e clubes noturnos –, que reduziram a função do O Snob como rede social, muitos apoiadores e membros retiraram-se do grupo, o que levou ao fim da publicação em meados de 1969, depois de 100 números.
Do final dos anos 1960 até meados da década de 1970 o Brasil vivia os chamados “Anos de Chumbo” (1968-1974), conhecido como o período mais repressivo da Ditadura Militar (1964-1985), com sucessivas prisões, torturas, censuras e suspensão de direitos constitucionais. Contudo, a essa altura, aumentam também os espaços públicos e privados de sociabilidade entre homossexuais, assim como as opções de serviços. A “vanguarda” do consumo estava vinculada aos homossexuais masculinos da classe média – cujo poder aquisitivo havia aumentado durante o “milagre econômico” – dos grandes centros urbanos, aos quais os donos de restaurantes, bares e boates direcionavam a atenção. Evidente que, independentemente disso, os homossexuais não ficaram distantes das medidas adotadas pelo governo para acabar com os “subversivos” do país, pois as zonas e locais os quais frequentavam eram alvos da rotina policial (GREEN, 2000a). Tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, muitos dos alvos da polícia foram travestis que trabalhavam nas ruas como prostitutas, que podiam ser enquadradas pela prática de vadiagem, perturbação da ordem pública ou mesmo como praticantes de atos obscenos em público. Ainda nesse contexto de “crescente comercialização e mercantilização do sexo na sociedade brasileira” (GREEN, 2000a, p. 403), havia a figura dos “michês”, rapazes que procuravam atrair a atenção de homossexuais mais velhos para manter relações sexuais em troca de dinheiro.
A influência da contracultura se manteve viva repercutindo também no âmbito artístico- cultural, através de grupos teatrais e cantores famosos, como o grupo Dzi Croquettes, Ney Matogrosso (vocalista do Secos & Molhados) e Caetano Veloso, que trataram de apresentar imagens da sexualidade de maneira explicita ou sem os mesmos impedimentos da vergonha, ajudando a questionar os tradicionais conceitos de gênero – é nesse período que desponta a imagem andrógina. A partir da segunda metade da década de 1970, as questões em torno da homossexualidade começaram a ganhar mais espaço no cenário midiático, com a circulação de pequenos jornais caseiros que continuavam surgindo ao longo da ditadura – dentre eles Gente Gay (1976), Entender (1977) e Mundo Gay (1977)32. Na grande imprensa, destacou-se a “Coluna do Meio”, criada em 1976 pelo jornalista Celso Curi na edição de São Paulo do jornal
32 Green (2000a) lista mais de 30 periódicos surgidos entre os anos de 1960 e 1970, principalmente na cidade do
Última Hora, cujos conteúdos eram direcionados ao público homossexual, o que inspirou a publicação de outras colunas, como a “Guei” no Correio de Copacabana e a “Tudo entendido” no Gazeta Carioca, ambas em 1977 (GREEN, 2000a).
Todas as situações (políticas, sociais, culturais, econômicas) e acontecimentos relembrados até aqui – entre os anos de 1950 e meados de 1970 – compõem o que Simões e Facchini (2009) caracterizam como uma época de “movimentação homossexual”, em que se desenhou os contornos gerais que levaram ao início de um movimento político homossexual no Brasil. Como recapitula Green (2000b), em 1974 o governo militar já se deparava com o desgaste da crise econômica e com a oposição nas eleições, além do surgimento de novas formas de resistência, encetadas pelos movimentos de operários, de mulheres, de negros e de estudantes. Assim, MacRae (1997) sustenta que nessa década surgiu uma ideia de política fundamentada no conceito de identidades pessoais, em que novos movimentos sociais ergueram-se com intenções particularistas e imediatistas direcionadas a determinados grupos. Isso viabilizou, segundo o autor, o aparecimento de um novo personagem na arena política, o “militante homossexual”, e de formas alternativas de contestação da ordem vigente, como a questão da liberdade sexual e dos costumes, em detrimento das então esgotadas formas tradicionais de resistência e dos objetivos e métodos da prática política.
Na perspectiva de Green (2000a; 2000b; 2003), essa militância politizada em torno dos direitos homossexuais poderia ter surgido no país ainda no início dos anos 1970, caso não tivessem ocorrido as repressivas restrições das liberdades democráticas pelo governo militar – como as sustentadas pela imposição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968. Isto posto, o clima ditatorial, através do emprego da força policial e do uso da lei ao gosto do regime, desencorajava a contingência do afloramento de tal movimento político, ainda que homossexuais mulheres e homens não fossem o foco da ditadura e sim seus posicionamentos ideológicos e engajamentos políticos, ou seja, suas ligações com a esquerda ou com o movimento populista nacionalista. Facchini (2002), por sua vez, argumenta sobre a possibilidade de se pensar em um outro efeito que não seja apenas o negativo, levando em consideração que “a ditadura estimulou a formação de resistências em diversos setores sociais e como ela pode ter sido, inclusive, responsável pelo perfil fortemente antiautoritário que marcou a ‘primeira onda’ do movimento homossexual brasileiro” (FACCHINI, 2002, p. 65).
Posterior, então, à época de movimentação homossexual, inicia-se outro momento apontado na literatura (FACCHINI, 2002; GREEN, 2000a; 2003; SIMÕES; FACCHINI, 2009) como a primeira fase, efetivamente, da trajetória de um movimento político homossexual brasileiro, iniciada nos últimos anos da década de 1970. Aqui, adota-se a perspectiva didática
– já consolidada – da divisão da trajetória do movimento em fases, especialmente aquela proposta por Simões e Facchini (2009), que preconizam três “ondas”: a primeira, com os primeiros grupos dedicados ao movimento, que vai até a metade dos anos de 1980 durante a abertura política, encerrando com a redistribuição dos principais grupos pelo país e com a mudança da postura política deles; a segunda, durante a redemocratização, a partir de meados da mesma década quando se desenvolve um estilo de atuação com ações mais pragmáticas e voltadas para a formalização e institucionalização do movimento; e a terceira, a partir de meados da década de 1990 quando se consolida a parceria com a iniciativa estatal e impulsiona a formação e diversificação de grupos e sujeitos políticos, redes de organizações, além do aumento da visibilidade e das opções de consumo.
Um dos marcos da “primeira onda” do movimento brasileiro é, reconhecidamente, o Lampião da Esquina33, um jornal “nanico” que nasceu com a proposta de somar forças entre homossexuais e outras minorias políticas, como negros, feministas e indígenas. De acordo com MacRae (1990), o jornal surgiu em decorrência da visita de Winston Leyland ao Brasil, no final de 1977. Leyland era um ativista homossexual e editor da publicação americana Gay Sunshine, direcionada aos homossexuais. O articulador da sua chegada no país foi advogado e jornalista João Antônio Mascarenhas, que reuniu vários jornalistas para entrevista-lo e que, em seguida, no ânimo das possibilidades, discutiram e propuseram a criação e publicação de um periódico que abordasse com seriedade o tema da homossexualidade e as questões à sua volta.
A primeira edição (número zero, de circulação restrita) do Lampião da Esquina, em formato tabloide e com 20 páginas, foi publicada em abril de 1978 com tiragem de 10 mil exemplares, tendo seus custos arcados com recursos financeiros provenientes de cotas entre os idealizadores e contribuições de milhares de amigos e conhecidos espalhados pelo país. Nesse número, além de apresentar as intenções da publicação, através do editorial “Saindo do Gueto”, foram apresentados também os “Senhores do Conselho”, corpo editorial formado por personagens que já tinham algum destaque dentro das suas áreas de atuação, como Adão Costa, Aguinaldo Silva, Antônio Chrysóstomo, Clóvis Marques, Darcy Penteado, Francisco Bittencourt, Gaspariano Damata, Jean-Calude Bernadet, João Antônio Mascarenhas, João Silvério Trevesian e Peter Fry. Embora as mulheres não fizessem parte do conselho editorial, o tema da lesbianidade também recebeu atenção por parte do Lampião, com a publicação de entrevistas com elas e de vários artigos escritos por elas. Assim como abordou outras questões
33 Os números do jornal Lampião da Esquina estão digitalizados e disponíveis gratuitamente na página do Grupo
Dignidade. Disponível em: <http://www.grupodignidade.org.br/projetos/lampiao-da-esquina/>. Acesso em: 19 jul. 2017.
minoritárias, relacionadas aos negros, indígenas, ambientalistas, prisioneiros e à própria seara da homossexualidade (como transexuais, travestis, bissexuais), dando voz a esses setores e suas lutas.
MacRae (1990) assinala que, na corrente da contracultura, a visão libertária e contestatória do jornal repercutia não só na sua perspectiva da homossexualidade e da necessidade e desconstruir a imagem estereotipada do homossexual como de alguém que não se sentia realizado e com tendência à rejeição da sua sexualidade, mas também nos enfrentamentos de outras temáticas, como a ação violenta e arbitrária da abordagem policial; os maus tratos e injustiças aplicadas aos presos comuns – geralmente pobres; a crítica aos poderes judiciários e policiais; e a desaprovação do machismo e conservadorismo de setores da esquerda política. Conforme relembra o autor, o Lampião da Esquina utilizava uma linguagem cujas palavras eram comuns ao meio homossexual (“bicha”, “veado” etc.), o que contribuía para o tratamento de maneira humorada e jocosa dos assuntos. A discussão do uso de determinados termos também era problemática e ponto de discordância entre os editores, tal qual a ideia do “se assumir”, em que muitos dos membros procuraram evitar alguma determinação rígida das identidades. Também, outro ponto que o jornal deixou em aberto foi a explicação da origem da condição homossexual, expresso em um artigo de Darcy Penteado de 1978, dando a entender que “a questão das origens do desejo homossexual parecia ser relegada a algo que só dizia respeito aos próprios interessados” (SIMÕES; FACCHINI, 2009, p. 94).
Na avaliação de Simões e Facchini (2009), não havia no Lampião da Esquina consenso sobre uma posição para se definir uma estratégia efetiva de obtenção de direitos por parte dos homossexuais. Isso estava refletido, por exemplo, nas desavenças dos seus editores, como entre João Antônio Mascarenhas, por um lado, que defendia a adoção de uma linha editorial orientada pela informação e prestação de serviços aos homossexuais (especialmente aqueles distantes das grandes cidades), e alinhava-se aos moldes do contexto norte-americano, e João Silvério Trevisan, por outro, para quem era necessário “resistir a todas as formas institucionalizadas de organização e reivindicação, porque elas conduziam inexoravelmente à absorção das individualidades e à redução de seu potencial subversivo aos desígnios de uma sociedade consumista e autoritária” (SIMÕES; FACCHINI, 2009, p. 95).
Uma série de fatores contribuíram para o desgaste e, consequentemente, o fim do jornal em 1981, quando veiculou-se o último número (37), como o aparecimento de outras publicações – com mais apelação enquanto produtos mercadológicos – voltadas para o público homossexual; as contendas internas, entre os membros do Rio de Janeiro e de São Paulo; os ataques direitistas direcionados à imprensa alternativa, por meio de ameaças de atentados contra
as bancas de jornal onde os “nanicos” eram vendidos; o aumento dos custos de produção do jornal, com o aumento do preço do papel, e a frustração com a venda de espaços para anunciantes e dos próprios números (MACRAE, 1990). Os temas debatidos pelo Lampião, assim, acabaram sendo reabsorvidos pela grande imprensa e o fim da publicação acabou deixando vários grupos de homossexuais sem referência quanto à comunicação das suas ideias; o jornal “tinha abandonado o teor contestatório sem conseguir assumir as características de uma publicação voltada para o consumo” (SIMÕES; FACCHINI, 2009, p. 110).
Outro marco da primeira onda é o Grupo Somos, formado no mesmo mês (abril de 1978) em que era publicado o primeiro número do Lampião da Esquina. No Brasil, outros grupos já haviam se formados em torno do interesse pela homossexualidade, porém esse foi o primeiro a reivindicar publicamente a respeitabilidade para os homossexuais. O grupo foi idealizado no contexto de uma semana de debates promovida pela revista Versus, controlada pela Convergência Socialista (CS), incluindo discussões sobre anistia, constituinte, imprensa alternativa e as liberdades sindicais, em que pretendia-se a elaboração de uma plataforma para um planejado Partido Socialista Brasileiro. No dia reservado ao debate sobre a imprensa alternativa, colabores da seção afro-latina da Versus tentaram boicotar a participação de representantes homossexuais presentes por meio do Lampião. Refutada por uma moção de protesto, essa atitude, todavia, gerou uma longa discussão sobre homossexualidade e política, a primeira realizada publicamente (MACRAE, 1990).
Depois do episódio, o grupo de homossexuais presentes, cerca de 15 homens, resolveram realizar, semanalmente, reuniões enfatizando a sociabilidade por meio de relatos confessionais, cuja ideia era que compreendessem a essência e importância da homossexualidade, assim como a discussão mais abrangente da sexualidade com a intensão de formar um amplo movimento com outras minorias e feministas. No resgate de MacRae (1990), a primeira aparição pública do grupo ocorreu com o nome coletivo provisório de Núcleo de Ação pelos Direitos dos Homossexuais, por ocasião de uma carta de protesto enviada ao