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O desenvolvimento do privilege nas Cortes do common law: Confession

1 APONTAMENTOS HISTÓRICOS: AS ORIGENS DO NEMO TENETUR SE

1.3 O Sistema Processual do Common Law na idade média e no início da

1.3.3 O desenvolvimento do privilege nas Cortes do common law: Confession

Nada obstante a extinção das Cortes Eclesiásticas, fato é que, até a edição do Treason Act, em 1696, a assistência de advogado ainda continuava sendo vedada nas Cortes de common law.

Conforme já se indicou, até o final do século XVII, não havia possibilidade alguma de representação do acusado por advogados nas Cortes do common law, o que tornava totalmente inócuo o direito ao silêncio, uma

101 TRAINOR, Scott. A. Un análisis comparativo del derecho de una corporación contra la

auto incriminación. Revista de Derecho Penal y Procesal Penal, n.1, v.1, 2007, p.15.

102 WIGMORE, John H. The privilege against self-incrimination, Harvard Law Review. v.16,

1902, p.624.

103 TEDESCO, Ignacio F. La libertad de la declaración del imputado: un análisis histórico-

comparado. In: HENDLER, Edmundo S. Las garantias penales y proesales. Enfoque histórico-comparado, 2001, p.38.

vez que o réu não possuía outra alternativa senão falar em sua própria defesa, no sistema denominado accused speaks105.

Considerava-se, então, que o acusado inocente poderia exercer, com efetividade, sua defesa no que tange à matéria fática, até mesmo melhor do que um advogado. Por outro lado, se culpado fosse, o advogado somente contribuiria para a ocultação da verdade106.

Para agravar a situação, compelindo-se o acusado a falar em sua defesa, vedava-se a possibilidade de intimação de testemunhas de defesa e, quando estas se apresentavam de forma espontânea, não se admitia que depusessem mediante juramento107.

Por último, observa-se que o standard probatório do beyond- reasonable-doubt (além de qualquer dúvida razoável) não havia, ainda, sido estabelecido, impondo-se, ao acusado, o ônus de demonstrar sua inocência ao Júri, o que também o compelia a falar durante o julgamento108.

Além de todas estas restrições, é digno de nota que o julgamento pelo Júri já era dividido entre o pretrial e trial, sendo, a primeira fase, de cunho essencialmente inquisitivo109, onde os juízes de paz (justices of the peace)

recolhiam as provas para o futuro julgamento, e o acusado, embora não submetido à tortura, era pressionado a se manifestar em seu interrogatório110.

O Treason Act passou a admitir a representação do acusado por advogado bem como a intimação de testemunhas de defesa111, porém apenas

no tocante aos processos por traição (felonie), nos quais se considerava que

105HELMHOLZ, R.H. The Privilege and the jus commune: The middle ages to the seventeenth

century, 1997, p.14. In: HELMHOLZ, R.H. The privilege against self-incrimination: its origins and devlopment, 1997, p.86.

106 LANGBEIN, John H. The privilege and common law criminal procedure: the sixteenth to

the eighteenth centuries. In: HELMHOLZ, R.H. The privilege against self-incrimination: its origins and devlopment, 1997, p.86.

107 Idem, op. cit., p.88. 108 Idem, op. cit., p.89.

109 QUEIJO, Maria Elizabeth. O direito de não produzir provas contra si Mmesmo, 2003, p.17. 110 LEVY, Leonard W. Origins of the fifth amendment, 1999, p.325.

111 LANGBEIN, John H. The privilege and common law criminal procedure: the sixteenth to

the eighteenth centuries. In: HELMHOLZ, R.H. The privilege against self-incrimination: ts Origins and Devlopment, 1997,p.88.

os Juízes – que tinham a função de instruir os réus - descuravam-se dos direitos do acusado, pendendo para o lado da Coroa112.

Por volta de 1730, os juízes das Cortes do common law passaram a permitir a defesa por advogado também em relação aos crimes comuns, o que se consolidou a partir de 1780113. Ainda nesse período, todavia, o

defensor não podia dirigir-se ao júri, o que compelia o acusado a realizar sua autodefesa.

Na segunda metade do século XVIII e no decorrer do século XIX, nota- se uma modificação substancial do sistema processual inglês, passando-se, gradativamente, do accused speaks para o testing the prosecution - que viria a se tornar o atual sistema adversarial114. Durante tais transformações, e até

meados do século XIX, o privilege ainda não possuía seus contornos atuais. No início do século XIX, o privilege se manifestava, de forma restrita e indireta, por intermédio de três regras procedimentais, a saber: o witness privilege, a desqualification for interest e a confession rule.

O witness privilege conferia, à testemunha, o direito de recusar-se a depor sobre qualquer questão que pudesse incriminá-la ou causar-lhe prejuízos à reputação. A regra aplicava-se tanto a processos civis como criminais, mas se restringia à testemunha, não alcançando, assim, o acusado115. Caso decidisse se manifestar, a testemunha renunciava ao

privilege, passando a assumir o dever de dizer a verdade e podendo ser processada pelos fatos incriminatórios declarados. Além disso, a violação do witness privilege não era sancionada com a regra de exclusão, o que permitia fossem as declarações utilizadas contra a testemunha em outro processo instaurado contra si116.

Por seu turno, o desqualification for interest - também de aplicação tanto nos processos criminais como civis -, impedia o testemunho do

112 LANGBEIN, John H. The privilege and common law criminal procedure: the sixteenth to

the eighteenth centuries. In: HELMHOLZ, R.H. The privilege against self-incrimination: ts Origins and Devlopment, 1997, p.96.

113 Idem, op. cit., p.97. 114 Idem, op. cit., p.96.

115 SMITH, Henry E.. The modern privilege: its nineteenth-century origins. In: HELMHOLZ,

R.H. The privilege against self-incrimination: its origins and development. Chicago: The University of Chicago Press, 1997, p.146.

acusado, ainda que este desejasse prestá-lo sob juramento. Na verdade, em razão de seu manifesto interesse, o acusado era proibido de prestar depoimento, o que, obliquamente, assegurava não fosse ele compelido a fornecer prova contra si mesmo117.

Complementando tais regramentos, previa-se, ainda, a confession rule, que implicava na exclusão de toda a confissão extorquida por compulsão (compulsion), aplicando-se exclusivamente ao acusado. Note-se a sensível diferença entre a confession rule e o atual direito ao silêncio, na medida em que a primeira consubstancia verdadeira regra de exclusão, tendo por objeto a invalidação de uma confissão ilicitamente extorquida. Já o privilege, em sua feição atual, tem por escopo evitar qualquer declaração não voluntária, assegurando-se a liberdade de manifestação intelectual do réu, e não simplesmente excluir aquela obtida ilegalmente118.

Portanto, em que pese tenham impulsionado o desenvolvimento do privilege e com eles se relacionassem, tais regras estavam longe de consubstanciá-lo em sua versão contemporânea.

A proibição trazida pelo disqualification for interest não outorgava ao réu um verdadeiro direito ao silêncio, na medida em que não era ele livre para, querendo, prestar declarações. A confession rule, de seu lado, não alcançava a testemunha, a qual poderia ser processada pelos fatos declarados (caso renunciasse ao witness privilege), não restando suficientemente protegida contra a autoincriminação. O witness privilege se restringia às testemunhas, não podendo ser argüido pelo acusado, e sua violação acabava por ser inóqua, desprotegendo a testemunha em um futuro processo.

Assim, havia a necessidade, para a efetivação do privilege: a) de se permitir a defesa integral do réu, inclusive com a possibilidade de manifestação do defensor perante o Júri; b) de se combinarem as regras da confession rule e do witness privilege, conferindo-se uma proteção integral

117 SMITH, Henry E.. The modern privilege: its nineteenth-century origins. In: HELMHOLZ,

R.H. The privilege against self-incrimination: its origins and development. Chicago: The University of Chicago Press, 1997, p.149.

contra a autoincriminação e c) de se abolir o disqualification for interest, assegurando-se a liberdade de prestar, ou não, declarações, ao acusado.

Em 1836, garante-se, ao réu, o integral direito à Defesa, permitindo-se que o defensor se dirija diretamente ao Júri, pondo-se fim ao modelo do accused speaks, e viabilizando-se o direito ao silêncio119.

Nesse período, precisamente em 1847, ocorre o julgamento do caso R. v. Garbett120, considerado o principal precedente que implicou no completo

desenvolvimento do privilege. No julgamento, decidiu-se que a regra de exclusão (confession rule) se estendia à testemunha, sancionando-se a violação do witness privilege. Isto acabou conferindo uma ampla extensão do direito ao silêncio121, assegurando-se a voluntariedade de qualquer

manifestação, inclusive daquela prestada pela testemunha em processo de terceiro.

Outra regra daquele período, de suma relevância para o desenvolvimento do privilege, consistiu no estatuto “Jervis’s Act”, de 1848. Este provia que o acusado, no pretrial, devia ser advertido de que não precisava dizer nada, mas que qualquer coisa que dissesse poderia ser utilizada como evidência122.

Por derradeiro, em 1898, o disqualification for interest foi abolido pelo parlamento Britânico123, conferindo-se, ao acusado, o direito de decidir sobre

declarar ou manter-se em silêncio.

Convém anotar, à guiza de fechamento, que, nos atuais sistemas anglossaxônicos/adversariais, o acusado pode se recusar a depôr, exercendo o direito ao silêncio. Porém, caso opte por prestar declarações, o faz na qualidade de testemunha, devendo prestar o juramento de dizer a verdade e

119 HADDAD, Carlos Henrique Borlido. Conteúdo e contornos do princípio contra a auto-

incriminação, 2005, p.112.

120 No processo, o acusado alegou suas declarações, prestadas sob a condição de

testemunha em outro processo, estavam sendo indevidamente utilizadas no processo criminal, violando-se o witness privilege e a confession rule.

121 QUEIJO, Maria Elizabeth. O direito de não produzir prova contra si mesmo, 2003, p.25. 122 SMITH, Henry E. The modern privilege: its nineteenth-century origins. In: HELMHOLZ,

R.H. The privilege against self-incrimination:its origins and devlopment, 1997, p.169.

123 ALSCHULER, Albert W. A peculiar privilege in historical perspective. In: HELMHOLZ,

podendo ser punido por perjúrio124. Daí a origem etimológica do termo, na

medida em que outorga ao acusado o “privilégio” de não ser ouvido como testemunha.

1.3.4 O desenvolvimento do Privilege nos Estados Unidos (período colonial e