1. ENQUADRAMENTO CONCETUAL
1.2.2. O desenvolvimento Psicossocial e Cognitivo
Vários foram os teóricos que se debruçaram sobre o desenvolvimento psicossocial e cognitivo infantil formulando teorias que ajudam o profissional de enfermagem a compreender e avaliar o comportamento da criança, de entre eles destacam-se, Sigmund Freud, Eric Erikson, e Jean Piaget.
1.2.2.1. Desenvolvimento Psicossexual – Sigmund Freud
Sigmund Freud debruçou-se sobre a “(…) perspectiva psicanalítica, segundo a qual o desenvolvimento é moldado por forças inconscientes que motivam o comportamento humano.” (Papalia & Feldman, 2013:59). Segundo a sua perspetiva a personalidade humana é composta por ‘id’, ‘ego’ e ‘superego’. O ‘id’ condiciona o comportamento dos recém-nascidos e “(…) opera sob o princípio do prazer – o impulso que busca satisfação imediata de suas necessidades e desejos.” Papalia & Feldman, 2013:59); o ‘ego’, que se vai desenvolvendo ao longo do primeiro ano de vida do bebé, está relacionado com a razão e com a realidade; e o ‘superego’, que se desenvolve entre e os 5 e os 6 anos de vida da criança, está relacionado com a consciência e com o “(…) sistema de valores da criança “deveres” e “proibições” socialmente aprovados.” Papalia & Feldman, 2013:59). Para Freud estes três componentes da personalidade correlacionam-se entre si, sendo que “O ego intermedia os impulsos do id e as demandas do superego.” (Papalia & Feldman, 2013:59).
Através da aplicação da sua perspetiva psicanalítica Freud delimitou o desenvolvimento psicossexual em cinco fases: a fase oral entre o nascimento e os 12/18 meses de vida; a fase anal entre os 12/18 meses e os 3 anos de vida; a fase fálica entre os 3 e os 6 anos; a fase de latência que se perlonga entre os 6 anos e a puberdade; e a fase genital que se estende da puberdade até à idade adulta.
Em contexto da temática evidenciada, torna-se relevante o foco na primeira fase do desenvolvimento psicossexual, a Fase Oral, em que a criança busca o prazer no ato de sugar e “(…) obtém gratificação ao chuchar, mamar, morder, mastigar e engolir (…)” (OE, 2010: 111). Em consequência desta constante busca de prazer e de satisfação imediata o bebé tem a tendência para colocar constantemente os objetos que apanha na boca, de forma involuntária, o que pode levar a situação de potencial risco, caso este apanhe objetos de menores dimensões ou que possam provocar alguma lesão. Desta forma torna-se essencial a prática de uma vigilância permanente.
1.2.2.2. Desenvolvimento Psicossocial – Eric Erikson
Erickson debruçou-se sobre o desenvolvimento psicossocial de bebés e crianças, agrupando-o em diferentes estádios.
Ao período entre o nascimento e até cerca dos 18 meses destacou-o como uma fase em que impera a Confiança VS Desconfiança. Nos “(…) primeiros meses, o bebê desenvolve o senso de confiança nas pessoas e nos objetos de seu mundo. Ele precisa desenvolver um equilíbrio entre confiança (que lhe permite formar relacionamentos íntimos) e desconfiança (que lhe permite proteger-se).” (Papalia & Feldman, 2013:219). Neste período, a criança “Depende das pessoas significativas para conforto e apoio na construção da confiança.” (Johnson & Keogh, 2012:17). Esta ao receber cuidados cria a segurança de que as suas necessidades básicas serão satisfeitas, ou seja que receberá alimentação, cuidados de higiene, conforto, carinho e atenção. “O elemento crucial para a consecução desta tarefa é a qualidade da relação entre o progenitor (ou prestador de cuidados) e a criança e os cuidados que a criança recebe.” (Hockenberry & Wilson, 2014:499). Pais e criança têm de construir esta relação em parceria, tentando compreen- der conjuntamente como responder às necessidades emergentes. É essencial que os pais compreendam os comportamentos da criança de forma a não satisfazerem as suas neces- sidades antes do tempo, ou seja, antes de ela as manifestar, nem tardiamente; pois “Quando o desenvolvimento desta sincronia fracassa, o eventual resultado é a descon- fiança.” (Hockenberry & Wilson, 2014:499). Quando esta relação é bem-sucedida e a criança adquire confiança vai ter maior capacidade para lidar com situações desconhe-
cidas em fases posteriores do desenvolvimento. Em suma, e segundo Erikson (1982), citado por Papalia & Feldman (2013:219) “Se predominar a confiança (…) a criança desenvolve a (…) crença de que poderá satisfazer suas necessidades e desejos (…). Se predominar a desconfiança, a criança verá o mundo como hostil e imprevisível e terá dificuldade para estabelecer relacionamentos.”
Posteriormente, “Erikson (1950) identificou o período entre 18 meses e 3 anos como o segundo estágio no desenvolvimento da personalidade, autonomia versus ver- gonha e dúvida, marcado pela passagem do controle externo para o autocontrole.” (Papalia & Feldman, 2013:228). Nesta fase, em consequência do seu crescimento e desenvolvimento e aquisição de competências como a linguagem e o controlo das necessidades fisiológicas, a criança manifesta uma certa autonomia, apresentando tam- bém a noção de que os seus comportamentos têm um efeito previsível sobre os outros. Por este fato “(…) é levada a buscar sua independência em relação aos vários adultos aos quais está apegada.” (Papalia & Feldman, 2013:228). No entanto esta situação leva a criança a levantar questões, surgindo dúvida, pois esta vê-se “(…) confrontada com o conflito de exercer a sua autonomia e abandonar a tão apreciada dependência dos outros. [ou] manter um comportamento dependente e submisso [que] é habitualmente recompensado com afeto e aprovação.” (Hockenberry & Wilson, 2014:590). Desta dúvida surge um outro sentimento, o da vergonha, pois a criança sente “ (...) medo de exercer as suas capacidades de manipulação do ambiente.”. (Hockenberry & Wilson, 2014:590). É pois de extrema importância a intervenção dos pais/cuidadores na media- ção e na imposição de limites. “As crianças pequenas precisam que os adultos estabele- çam limites apropriados; assim, a vergonha e a dúvida ajudam-nas a reconhecer a neces- sidade desses limites.” (Papalia & Feldman, 2013:228). Esta fase é então marcada pela “(…) aquisição do sentido de autonomia, ao mesmo tempo que ultrapassa um sentido de dúvida e vergonha.” (Hockenberry & Wilson, 2014:590).
Por fim, para a fase pré-escolar entre os 3 e os 5 anos, Erikson definiu o desenvol- vimento com o estágio da Iniciativa versus Culpa. “Erikson referiu que a principal tarefa psicossocial deste período é a aquisição do sentido de iniciativa.” (Hockenberry & Wil- son, 2014:624). Nesta fase a criança passa por um período de grande aprendizagem, desdobrando-se em múltiplas atividades. “O conflito surge do crescente desejo de plane- jar e executar atividades e as crescentes dores de consciência que a criança pode ter a
respeito desses planos. Crianças em idade pré-escolar podem fazer – e querem fazer – cada vez mais.”. (Papalia & Feldman, 2013:288). Para além disso as crianças confron- tam-se com um novo paradigma relativo à sua personalidade, por um lado mantêm a sua espontaneidade e imaturidade associada ao fato de ser criança, por outro lado começam a ter mais noção da “(…) diferença entre o certo e o errado, o bom e mau, é o inicio da moralidade.” (Hockenberry & Wilson, 2014:624).Em suma, esta fase é marcada pela aprendizagem e controlo dos “(…) impulsos conflitantes [que] desenvolvem a “virtude” do propósito, a coragem de imaginar e buscar metas sem serem indevidamente inibidas pela culpa ou pelo medo da punição (Erikson, 1982).” (Papalia & Feldman, 2013:288).
1.2.2.3. Desenvolvimento Cognitivo – Jean Piaget
Jean Piaget descreveu o desenvolvimento da criança de acordo com a sua progressão na aquisição de conhecimento.
O primeiro estádio definido por Piaget compreende “O período entre o nascimento e os 24 meses é denominado estádio sensório-motor (…)” (Hockenberry & Wilson, 2014:500). Segundo Piaget, é neste período que “(…) os bebês aprendem sobre si mesmos e sobre o mundo mediante suas atividades sensoriais e motoras. Os bebês passam de seres que respondem basicamente por meio de reflexos e comportamento aleatório a crianças orientadas para uma meta.” (Papalia & Feldman, 2013:176). Durante o estádio sensório-motor os bebés inicialmente “(…) exercitam seus reflexos inatos e obtêm algum controle sobre eles.” (Papalia & Feldman, 2013:177). Vão, então, progressivamente adquirindo controlo sobre os seus reflexos que passa de involuntários para ações voluntárias, existindo um, “Reconhecimento da ocorrência da casualidade quando a repetição de acontecimentos faz com que um estímulo produza uma resposta consistente.” (Hockenberry & Wilson, 2014:501). Ou seja, pode-se dizer que a criança inicia a coordenação das experiências sensoriais com as ações que realiza, através de processos de tentativa/erro e explorando o mundo que a rodeia, pela “Actividade reflexa através de comportamentos repetitivos simples até ao comportamento imitativo (…)” (OE, 2010:111). Ou seja, nesta fase “(…) os latentes progridem de comportamentos reflexos para atos repetitivos simples e para a atividade mimética.” (Hockenberry &
Wilson, 2014:500). Segundo Hockenberry & Wilson (2014), Piaget enaltece que a criança durante este período apreende alguns conceitos fundamentais, nomeadamente o de separação, em que a criança toma consciência dos objetos como afastáveis e em que se apercebe que não está sozinho nem é o único influenciador do ambiente que o rodeia, sendo necessária a existência de concertação entre todos os intervenientes; o de permanência do objeto, ou seja a criança começa a compreender que os objetos não desaparecem quando deixa de os ver, um sinal disso é a procura dos brinquedos debaixo de almofadas e mantas; e o de representação mental, em que a criança começa a conseguir reconhecer símbolos e indícios, começando a criar noção de tempo e espaço; o de relação causal, em que a criança começa a conseguir fazer relações de causa-efeito, como por exemplo o carregar num interruptor e a luz acender, no entanto não é ainda capaz de transferir esta informação para contextos diferentes, existindo sempre a necessidade de voltar a explorar o objeto de cada vez que se cruza com ele; o de relações espaciais, sendo que a criança começa a reconhecer as diferentes formas e a relação existente entre estas, conseguindo encaixar diferentes objetos uns nos outros. (Hockenberry & Wilson, 2014).
O segundo estádio definido por Piaget é o Estádio Pré-Operatório que vai desde os dois até aos sete anos. Nesta fase as crianças “(…) ainda não estão preparadas para se envolver em operações mentais lógicas (…)”(Papalia & Feldman, 2013:259). Entre os dois e os quatro anos as crianças vão desenvolver a sua capacidade de comunicação verbal, ocorrendo um aumento exponencial do seu vocabulário, com uma predominância de um discurso egocêntrico, em que não há uma intenção de comunicar sendo que a criança repete palavras e sons apenas pelo prazer de as ouvir, ou socializado, em que a criança comunica sobre si com os outros, com o intuito da autossatisfação ou autorreferência. (Hockenberry & Wilson, 2014). Para além disso este período “(…) é caracterizado por uma grande expansão no uso do pensamento simbólico, ou capacidade representacional (…)” (Papalia & Feldman, 2013:259), em que vai associar objetos, lugares e situações a acontecimentos anteriores, “Por exemplo, uma agulha é “uma coisa que magoa”.” (Hockenberry & Wilson, 2014:593). Ou seja, “Os avanços no pensamento simbólico são acompanhados por um crescente entendimento de espaço, causalidade, identidades, categorização e número.”. (Papalia & Feldman, 2013:259).