5. O Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã
5.1. O despertar para realidade e o desejo de mudança
Seguindo as observações e reflexões feitas para o desenvolvimento desta dissertação, podemos constatar que os moradores e moradoras do bairro dos Coelhos incidem sobre uma configuração social desfavorável para a apropriação e o desenvolvimento dos hábitos e padrões de comportamentos socialmente estabelecidos como os “adequados para os indivíduos pretensamente civilizados”.
Durante a realização deste trabalho de pesquisa, e através dos diálogos realizados com os atores da pesquisa e com os moradores e moradoras do bairro dos Coelhos em geral, foi possível constatar que mesmo esses sujeitos vivendo em situações bastante adversas, eles e elas não foram estimulados a desenvolver o hábito de refletir sobre as suas condições de vida e sobre as escassas oportunidades socialmente oferecidas para aqueles que vivem dentro desta mesma configuração social, bem como, refletir sobre até onde é possível chegar dispondo apenas das oportunidades socialmente disponibilizadas para sua configuração social.
Neste sentido, o Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã constitui-se como um ponto de inflexão nesta trajetória, uma vez que, desde a sua concepção, as atividades da intervenção são pensadas e executadas com a perspectiva de instrumentalizar os seus atores para a realização de uma leitura crítica e autônoma da realidade.
Em seu depoimento, o educador social Lukas revela que a situação em que os moradores e moradoras do bairro dos Coelhos vivem sempre o incomodou e que ele nunca conseguiu entender o porquê de atividades tão socialmente reprováveis eram aceitas e praticadas com tanta naturalidade dentro da configuração do bairro dos Coelhos.
Este educador social relata que atividades como tráfico de drogas, homicídios e assaltos são atividades vistas com naturalidade dentro da configuração do bairro dos Coelhos, mas que, também, estas atividades são
vistas, pelos residentes no bairro, como um dos fatores responsáveis pelos quais o bairro e seus moradores são discriminados e socialmente exclusão.
Ele ainda afirma que por viver essa realidade e ser incomodado por ela foi que ele começou a pensar em fazer algo para transformá-la. Ou seja, “Foi a sua inserção lúcida na realidade, na situação histórica, que o levou à crítica desta mesma situação e ao ímpeto de transformá-la” (FREIRE; 2011: 75).
Por sua vez, o educando Adilson, em seu depoimento, revela que participando das atividades da intervenção pode perceber que ao viver na configuração do bairro dos Coelhos, as exigências feitas pela sociedade para que os indivíduos consigam se inserir econômica e socialmente são ainda maiores.
Com suas palavras, Adilson afirma que para ser incluído socialmente:
Eu preciso batalhar muito, né?! O povo aí ver a gente como bandido, só porque a gente usa brinco, assim, usa roupa de marca, que só bandido usa, que a gente não é bandido também, não. E, assim, todo mundo que vive na comunidade precisa se esforçar para ser alguém na vida e pra mostrar que todo mundo na favela não é um maloqueiro, não.
Neste fragmento de seu testemunho, Adilson nos leva a inferir que a partir da participação nas atividades da intervenção, seus atores são levados a uma inserção crítica na realidade social do bairro dos Coelhos. Conforme afirma Paulo Freire, “É preciso que também se insiram criticamente na situação em que se encontram e de que se acham marcados” (FREIRE; 2011: 75).
Durante a realização do trabalho de pesquisa, podemos constatar que a realidade social na qual os indivíduos vivem imprimem marcas que moldam e condicionam a percepção que os indivíduos têm de si mesmos, seus padrões de comportamento e seus projetos de vida.
Sobre isso, a educanda Isa relata que antes de participar da intervenção ela “era só uma criança, que só viva descalça, não queria saber de outra coisa, só jogar e jogar bola”. Isa nos conta também que, na época que ela começou a participar das atividades, ela pensava que quem mora no bairro dos Coelhos não poderiam almejar nada da vida.
É possível observar que, marcada pelas condições adversas para o seu desenvolvimento humano, as pessoas que vivem em situação de exclusão tendem a criar uma sensação de impotência e incapacidade diante da realidade em que vivem.
As observações feitas durante a pesquisa nos vez acreditar que tal ocorre devido, fundamentalmente, aos grandes esforços e sacrifícios que são exigidos para os indivíduos que vivem em tais condições, e que, mesmo que esses esforços e sacrifícios sejam realizados, eles não dão a garantia que os objetivos almejados serão alcançados, nem mesmo que as oportunidades para alcançar os objetivos almejados serão acessadas.
Neste sentido, o Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã atua na perspectiva de fazer com que o seus atores percebam que as condições adversas que os moradores e moradoras do bairro dos Coelhos vivem podem até condicionar a percepção da realidade e os projetos de vida deles, mas não são esses fatores que vão determinar o seu futuro.
Isa nos conta que depois que passou a participar das atividades da intervenção ela passou a ser outra pessoa e passou a acreditar mais em si: “eu agora estou pensando mais em mim, de uma forma que eu antes não pensava, pensando mais na minha família”.
Com esse depoimento, Isa nos permite inferir que o trabalho realizado dentro das atividades da intervenção vez despertar nela uma preocupação com a coletividade, mesmo que seja com o seu grupo familiar, neste sentido, é possível afirmar que o desnível existente entre o desenvolvimento da identidade-eu e a identidade-nós também são trabalhados dentro das ações do Formando o Amanhã.
Isa nos conta ainda que participando das atividades pode perceber o quanto as suas condições de vida eram adversas, mas que também foi levada a enxergar algumas das suas potencialidades que antes ela não conhecia, e com isso ela pode perceber que estava em suas mão a possibilidade de mudar não só a sua realidade, mas também a realidade dos seus familiares.
Já o educador social João relata que ao olhar para a configuração do bairro ficava incomodado com o problema do tráfico de drogas, com suas palavras ele nos conta que “o que tem de ruim na nossa comunidade é o tráfico que está acabando com as nossas crianças, as pessoas aliciando as pessoas de menores potencial”.
Vale ressaltar que nas configurações sociais como a existente no bairro dos Coelhos, mesmo as atividades criminosas como o tráfico de drogas, tendo sua prática reprovada pela maioria dos moradores e moradoras dessas localidades, essas atividades muitas vez estão entre as poucas oportunidades que os indivíduos desta realidade social têm para entrarem e participarem da sociedade de consumo, sociedade de consumo que é bastante valorizada no nosso atual estágio do processo civilizador.
O educador social João conta ainda que ele observava que, se por um lado as atividades criminosas e o tráfico de drogas faziam parte do cotidiano do bairro e podiam ser facilmente acessada pelas “pessoas com menor potencial”, que acabavam por encontrar nessas atividades a forma de participar da sociedade de consumo, por outro lado, faltava no bairro, conforme nosso depoente, “pessoas capacitadas para oferecer outras oportunidades para as crianças, adolescentes e jovens da comunidade”.
Segundo as palavras deste educador social: “eu achava que aqui tinha que ter umas pessoas qualificadas para colocar nossas crianças no meio das coisas boas: numa oficina de música, numa aula de futebol, e outras coisas melhores que o nosso bairro nunca teve”.
Nos diálogos que mantivemos com este educador social durante o período do trabalho de campo, ele nos revelou que era músico percussionista e que cultivava o desejo de, assim como ele participava do Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã, que trabalha com os esportes, com o futebol, criar uma escolinha de música no bairro, “para mostrar para as pessoas que aqui nos Coelhos têm muitas coisas boas”.
Partindo das informações apresentadas pelo educador social João, é possível constatar que, se por um lado as condições adversas atuam nos indivíduos no sentido de produzir neles a sensação de impotência e
incapacidade diante da sua realidade, por outro, essas mesmas condições adversas fazem com que esses indivíduos desejem realizar algo que possa contribuir para a transformação do estado de exclusão em que vivem e, desta forma, contribuírem na edificação de uma sociedade justa e harmoniosa.
Neste sentido, os atores do Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã não direcionaram suas energias críticas e transformadoras para os atos reivindicativos e contestadores, mas, buscaram desenvolver ações práticas com o objetivo de enfrentar e superar os obstáculos e situações adversas que limitam a inserção de seus atores no processo civilizatório em curso.
Com isso, podemos afirmar, apoiados em Gohn (2012), que nesta intervenção a palavra de ordem é “ser propositivo e não apenas reivindicativo, ser ativo e não apenas um passivo reivindicante” (GOHN; 2012: 121).
Essa postura dota a ação de duas características, se por um lado ser propositivo e efetivo permite aos participantes da intervenção atuar sobre problemas concretos do cotidiano do bairro e apresentar resultados imediatos, por outro lado, os afastam da atuação política (que será melhor discutido no próximo tópico), que pode proporcionar mudanças mais profundas, abrangentes e duradouras.
Para os atores desta intervenção, o foco está voltado para promover atividades que enfrente as dificuldades que a configuração do bairro dos Coelhos impõem a seus moradores e moradoras e fazer com que o processo civilizatório ocorra de maneira mais harmoniosa para os participantes da intervenção.
A esse respeito, Norbert Elias afirma que
Não há dúvidas de que isso – o desenvolvimento da sociedade de maneira a que não apenas alguns, mas a totalidade de seus membros tivessem a oportunidade de alcançar essa harmonia – é o que criaríamos se nossos desejos tivessem poder suficiente sobre a realidade (ELIAS; 1994b: 17).
Finalizando este tópico, cabe informar que os relatos dos atores da pesquisa aqui apresentados para refletir e analisar o processo que foi vivenciado por esses atores, que se inicia no despertar para realidade social
em que vivem até o nascimento do desejo de atuar no sentido de promover mudanças nesta configuração, o foram por serem os mais representativos do conjunto dos relatos coletados acerca deste processo.
Por outro lado, os sentidos atribuídos a estes relatos parte do processo de formulação de sentidos desenvolvido pela teoria da análise de discursos, que busca relacionar as questões da linguagem, do texto, ao contexto social e histórico do sujeito discursivo.
Para a análise de discurso, a formulação dos sentidos nas falas e nos textos é realizado “Levando em conta o homem na sua história, considerando os processos e as condições de produção da linguagem, pela análise da relação estabelecida pela língua com os sujeitos que a falam e as situações em que se produz o dizer” (GOHN; 1999: 16).
5.2. Do pensamento à concretização: dificuldades e estratégias de