Embora tentasse convencer a si mesmo de que tinha feito a coisa certa - mesmo a única coisa certa -, Duncan ainda estava meio envergonhado. No fundo de seu coração, sentia-se culpado de estar traindo uma velha amizade. Estava contente de que um impulso o tinha impedido de mencionar Karl, e com uma parte de sua mente ainda esperava que Mandel'stahm e Colin colidissem com obstáculos em branco e que toda a investigação fosse para o brejo.
Por enquanto havia tantas coisas para serem feitas e tanto para ver que por longos períodos de tempo Duncan podia esquecer seus problemas de consciência. Parecia-lhe ridículo ter vindo de tão longe para ficar sentado horas intermináveis todos os dias (com um tempo tão lindo lá fora!) num quarto de hotel falando num comsole .
Mas, todas as vezes que Duncan pensava que tinha terminado uma das inumeráveis tarefas que recebia de Titã, vinha uma nova mensagem reabrindo o assunto ou acrescentando novas complicações. Os seus deveres oficiais tomavam-lhe tempo suficiente. O que fazia as coisas piores eram os pedidos pessoais dos parentes, amigos e mesmo estranhos que supunham que ele não tivesse nada mais a fazer do que contatar parentes perdidos, obter fotografias de lares ancestrais, buscar livros raros, atuar como agente para escritores e artistas esperançosos, pesquisar genealogias terrenas, localizar obras de arte obscuras, conseguir bolsas de estudo e passagens grátis para a Terra - e agradecer a cartões do Dia da Estrela recebidos há dez anos e nunca respondidos. Tudo isto lembrou a Duncan que ele não tinha enviado os seus próprios cartões para esta ocasião quadricentenária. Ainda tinha tempo para enviar cartões para todos os seus amigos da Terra - Embaixador Farrel, os Washingtons, Calindy, Bernie Patras e meia dúzia de outros. Quanto a Titã, não havia pressa. Mesmo que levassem seis meses para chegar, os cartões, com seus lindos selos folheados a ouro - comemorativos do Centenário - e que tinham-lhe custado a quantia astronômica de cinco solares cada - mesmo que pela taxa mais barata de correio -, seriam muito apreciados.
Apesar destes problemas, Duncan ainda encontrou oportunidade para relaxar. Tinha visitado Londres, Roma e Atenas por "telexcursões" individuais, o que era a melhor coisa que podia ser feita, além de ir pessoalmente. Sentado num pequeno cubículo escurecido, com visibilidade e som de 360 graus de qualidade, podia facilmente acreditar que estivesse realmente caminhando através das ruas das antigas cidades. Ele podia fazer perguntas ao guia invisível que era seu alter ego, falar com qualquer transeunte, mudar de caminho para ver de mais perto algo que lhe chamasse a atenção. Somente o olfato e o tato ficavam de fora - e mesmo estes
poderiam ser adquiridos por quem estivesse querendo pagar o acréscimo na nota. Duncan não podia assumir este luxo adicional, e não sentiu sua falta.
Bernie Patras, é claro, ficou feliz por ser-lhe útil e arranjou muitos encontros agradáveis. Uma moça dengosa e cheia de talentos que era sua amiga e que ele jurou que só fazia estas coisas com pessoas que realmente queria conhecer. Ela
realmente demonstrou interesse real por Titã, mas quando Bernie, como parte interessada, quis juntar-se às reuniões, Duncan egoisticamente retirou-o da jogada.
Isto aconteceu logo depois que Ivor Mandel'stahm - desta vez no carro de Pensilvânia para Massachusetts - roubou-lhe toda a paz de espírito. Eles tinham acabado de deixar o Dupont Circle Interchange quando ele falou para Duncan:
- Tenho algumas notícias interessantes para você, mas não sei o que significam. Você talvez possa me explicar.
- Farei o possível.
- Acho que posso afirmar, sem muito exagero ou orgulho, que posso aproximar- me de qualquer pessoa na Terra. Mas, a discrição exige que isto seja feito a dois, e foi assim que procedi com Miss Ellerman. Nunca tive nenhum negócio com ela pessoalmente, ou assim eu pensava, até que você me mostrou o contrário. Mas temos amigos comuns, de modo que pedi a um deles, em quem posso confiar, sem qualquer sombra de dúvida, para que lhe desse um telefonema... Diga, você tentou entrar em contato com ela recentemente?
- Não, pelo menos... oh, por uma semana. Pensei ser melhor ficar fora do caminho.
Duncan não acrescentou a isto o fato de que estava envergonhado de enfrentar Calindy.
- Ela respondeu ao chamado do meu amigo, mas ocorreu algo muito estranho. Ela não colocou o viddy em funcionamento.
Aquilo era certamente estranho. Por uma questão de boas maneiras, ninguém desligava o circuito de visão, a não ser por muito boas razões. É claro que algumas vezes isto poderia causar sérios embaraços - um fato explorado demasiadamente em muitas comédias. Mas, fosse qual fosse a razão, a boa educação exigia uma desculpa. Dizer que o viddy estava com defeito era o mesmo que levantar suspeitas, mesmo nas raras ocasiões em que houvesse um real defeito.
- Qual foi sua desculpa?
- Uma plausível. Disse que tinha levado uma queda feia e desculpou-se por não mostrar o rosto.
- Espero que não tenha se machucado muito.
- Aparentemente não, embora parecesse um pouco infeliz. De qualquer maneira, meu amigo teve uma breve conversa com ela e levantou o assunto de Titã... de um modo tão autêntico que jamais poderia ter levantado suspeitas. Ele sabia que ela tinha estado lá, e pediu-lhe que o colocasse em contato com alguém na Terra que fosse de Titã. Na verdade, ele tinha uma ordem de exportação para expedir.
- Não foi uma história muito boa. Todos os negócios são efetuados através da Divisão de Comércio da Embaixada e ele poderia tê-los contatado.
- Se posso atrever-me, Sr. Makenzie, devo dizer que o senhor ainda tem muito que aprender. Posso pensar em meia dúzia de razões para não ir à Embaixada... pelo menos para os primeiros contatos. Meu amigo sabe disso e o senhor pode ter certeza de que Miss Ellerman também sabe.
- Acho que o senhor vai ficar desapontado. Ela disse que tinha um bom amigo de Titã que talvez pudesse ajudar, e que ele tinha chegado há pouco para as celebrações do Centenário e que estava em Washington...
Duncan começou a rir. O anticlímax tinha sido ridículo.
- Então o seu amigo perdeu seu tempo. Estamos de volta onde começamos.
- Dentro deste ponto de vista, sim. Pensei que se surpreenderia. Mas, há mais detalhes ainda.
- Continue - disse Duncan, sentindo que sua confiança em Mandel'Pstahm estava diminuindo depois desta manobra.
- Tentei muitas outras linhas de investigação, mas todas resultaram em nada. Pensei até em chamar Miss Ellerman eu mesmo e dizer a ela que sabia que era a testa-de-ferro das negociações de titanita, sem acusá-la de nada, é claro.
- Estou contente em saber que não o fez.
- Oh, seria uma coisa perfeitamente razoável... ela não se surpreenderia se eu descobrisse mais cedo ou mais tarde. Mas, na realidade, eu tinha uma idéia melhor... uma que eu deveria ter tentado logo a princípio. Verifiquei seus visitantes neste último mês.
- Como - Duncan perguntou com espanto - você conseguiu isto?
- É o truque mais antigo do mundo. Você nunca viu aqueles velhos filmes de detetives franceses? Não, suponho que não. Perguntei ao porteiro.
- Perguntou a quem?
- Vocês não têm porteiros em Titã? - Não sei nem o que são.
- Talvez você até tenha sorte. Na Terra, eles são um mal necessário. Miss Ellerman mora.... penso que sabe disto. .. num apartamento muito luxuoso ao sul do Monte Rockefeller. Na verdade, ela tem a cobertura do porão... um capricho que nunca pude compreender. .. pois quanto mais eu desço, mais claustrofóbico fico. Bem, qualquer construção muito grande tem um porteiro na porta para dizer quem está e quem não está, tomar mensagens, receber encomendas... e autorizar as pessoas certas a irem para os apartamentos certos. Isto é um porteiro.
- E você foi capaz de chegar até o seu "banco de memória"?
Mandel'stahm teve a delicadeza de mostrar-se um pouco encabulado.
- É surpreendente o que se pode fazer se você conhece as pessoas certas. Oh, não interprete mal. Não há nada de ilegal nisto, mas prefiro omitir detalhes.
- Em Titã somos muito exigentes em matéria de invasão de privacidade.
- Também o somos aqui na Terra. Qualquer pessoa que assim o deseje pode facil- mente passar desapercebida pelo porteiro, o que a mim sugere que Miss Ellerman não tenha nada a esconder, ou uma consciência pesada. Mas, diga-me, Sr. Makenzie, o senhor não sabia que ela tinha alguém de Titã hospedado em sua casa?
Duncan olhou para ele boquiaberto, mas rapidamente se controlou. É claro que Karl pode ter-se prevalecido de algum amigo de confiança para atuar como seu emissário. Isto deve ter acontecido há alguns meses. Não houve nenhuma viagem de passageiros nas seis semanas antes da Sírio . quem poderia?
Isto explicava tudo - quase tudo. Então era por isso que Calindy o estava evitando! Duncan sentiu, em igual medida, ciúmes, desapontamento - e alívio por suas manobras estarem sendo afinal justificadas pelos eventos.
- Quem é este titaniano? - perguntou tristonho. - Gostaria de saber se o conheço. - Isto é o que gostaria de saber. O seu nome é Karl Helmer.