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2.1. Questões metodológicas da compreensão responsiva

2.1.1. O dialogismo como pressuposto fundamental

O problema do diálogo se faz constante em todo o conjunto da obra de Bakhtin e do Círculo, porém não se apresenta somente no plano do conteúdo, não significa um simples

consenso, nem se trata do diálogo enquanto forma composicional somente (SOUZA, 2002). Se o racionalismo viveu a dúvida como método para encontrar a verdade, instaurando uma forma de pensar e ver o mundo que atravessou os séculos, Bakhtin, já nos seus primeiros escritos, na obra Para uma filosofia do ato responsável35, rejeitará essa forma de pensamento enxergando na arquitetônica da relação entre dois centros de valores – correlatos entre si mas diferentes por princípio –, o eu e o outro, a unidade de sentido do mundo elevada ao grau de unicidade da eventicidade do ser (BAKHTIN, 2010, p. 140-2). Segundo Brait (2008, p. 90), nas posições filosóficas ali assumidas a questão do dialogismo já está insinuada, por exemplo, quando o autor trata do uso da palavra na sua plenitude semântica. E Fiorin (2008, p. 17) observa que a unicidade do ser e do evento, a relação eu/outro e a dimensão axiológica são coordenadas que estão na base da concepção dialógica da linguagem. Barros (1994, p. 02) por sua vez, destaca que “O princípio dialógico permeia a concepção de Bakhtin de linguagem e, quem sabe, de mundo, de vida”. Já na obra Marxismo e filosofia da linguagem, na consideração da estrutura ideológica social da enunciação, inscrita na interação verbal colocada numa dimensão mais ampla das relações intersubjetivas, e na contraposição às correntes de pensamento que tomavam a língua por um ponto de vista abstrato ou idealista, tem-se, segundo Brait (2008, p. 94), uma continuidade às questões de método e ao delineamento do dialogismo insinuado nos seus primeiros trabalhos.

Na obra Problemas da poética de Dostoievski Bakhtin diz que

As relações dialógicas – fenômeno bem mais amplo do que as relações entre as réplicas do diálogo expresso composicionalmente – são um fenômeno quase universal, que penetra toda linguagem humana e todas as relações e manifestações da vida humana, em suma, tudo o que tem sentido e importância” (BAKHTIN, 2008, p.47).

Podemos dizer que o próprio signo e a consciência sejam de natureza dialógica. Como afirmam Bakhtin/Volochínov (2004, p. 34), “os signos só emergem, decididamente, do processo de interação entre uma consciência individual e uma outra”. A consciência por seu turno, “adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais” (id. ibid., p. 35). Para Bakhtin, a monologização da consciência é apenas um momento, embora muito importante, em que as palavras alheias se tornam anônimas, as relações dialógicas iniciais com as palavras alheias são esquecidas e a consciência “entra como um todo único e singular em um novo diálogo (já com novas vozes

externas do outro)” (BAKHTIN, 2003, p. 403). Por isso Bakhtin também afirma que a própria compreensão, mesmo que sob a forma de discurso interior, só pode manifestar-se através de um material semiótico.

Ademais, toda produção cultural se encontra estreitamente ligada às especificidades da linguagem, pois todo produto ideológico “possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo” (id. ibid., p. 31). Tendo em vista o caráter essencial-constitutivo das relações dialógicas nas manifestações humanas, as quais, para o autor, só são dadas ao pesquisador sob a forma de texto ou texto-enunciado (id. 2003, p. 308-9), no ensaio Metodologia das ciências humanas Bakhtin, respondendo às propostas metodológicas mais em voga na época36, acentua sua própria posição:

As ciências exatas são uma forma monológica do saber: o intelecto contempla uma

coisa e emite enunciado sobre ela. Aí só há um sujeito: o cognoscente

(contemplador) e falante (enunciador). A ele só se contrapõe a coisa muda. Qualquer objeto do saber (incluindo o homem) pode ser percebido e conhecido como coisa. Mas o sujeito como tal não pode ser percebido e estudado como coisa porque, como sujeito e permanecendo sujeito, não pode tornar-se mudo; consequentemente, o conhecimento que se tem dele só pode ser dialógico (id. ibid., p. 400).

Assim, tanto se trate de pensamentos sobre pensamentos, os temas das ciências humanas, ou dos comportamentos humanos, que para o autor só podem ser compreendidos a partir da formulação de sua expressão semiótica, enquanto tomados por objeto de estudo, estão postos às dimensões da comunicação discursiva e do processo dialógico. Por isso, o dialogismo é colocado nesta pesquisa como pressuposto metodológico fundamental, dado que nosso objeto de estudo são as relações discursivas configuradas em gêneros do discurso, colocadas sob o prisma da compreensão do signo ideológico. Mas o que seria especificamente o dialogismo? Brait (2005, p. 94-5), ao perscrutar diversas obras do filósofo russo, formula excelente síntese:

Por um lado, o dialogismo diz respeito ao permanente diálogo, nem sempre simétrico e harmonioso, existente entre os diferentes discursos que configuram uma comunidade, uma cultura, uma sociedade. É nesse sentido que podemos interpretar o dialogismo como o elemento que instaura a constitutiva natureza interdiscursiva da linguagem.

Por outro lado, o dialogismo diz respeito às relações que se estabelecem entre o eu e o outro nos processos discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos, que, por sua vez, se instauram e são instaurados por esses discursos.

Fiorin (2008), por seu turno, compreende o dialogismo como o princípio unificador do pensamento bakhtiniano. Para Fiorin, o conceito de dialogismo pode ser entendido a partir de três aspectos. O primeiro se trata do dialogismo constitutivo do enunciado, isto é, que não se mostra no fio do discurso. Todo enunciado se constitui a partir de outros enunciados e é sempre heterogêneo, revelando ao mesmo tempo sua posição e uma outra em oposição a qual se constrói. O enunciado também, ao passo que se baseia em outros enunciados, solicita uma resposta, pressupõe novos enunciados, seja de concordância ou refutação. Além disso, nesse aspecto constitutivo se pode perceber uma dialogização interna da palavra, que se dá em razão do acesso à realidade ser sempre mediado pela linguagem.

Um objeto qualquer do mundo interior ou exterior mostra-se sempre perpassado por idéias gerais, por pontos de vista, por apreciações dos outros; [...] Não há nenhum objeto que não apareça cercado, envolto, embebido em discursos. Por isso, todo discurso que fale de qualquer objeto não está voltado para a realidade em si, mas para os discursos que a circundam. Por conseguinte, toda palavra dialoga com outras palavras, constitui-se a partir de outras palavras, está rodeada de outras palavras (FIORIN, 2008, p. 19).

O segundo aspecto se trata do dialogismo como forma composicional, com formas externas de mostrar a voz do outro no enunciado. Fiorin exemplifica duas formas pelas quais o discurso do outro é inserido no enunciado como discurso citado:

Há duas maneiras de inserir o discurso do outro no enunciado:

a) uma, em que o discurso alheio é abertamente citado e nitidamente separado do discurso citante, é o que Bakhtin chama discurso objetivado;

b) outra, em que o discurso é bivocal, internamente dialogizado, em que não há separação muito nítida do enunciado citante e do citado.

No primeiro caso, existem, entre outros, os seguintes procedimentos: discurso direto, discurso indireto, aspas, negação. O segundo pode ser exemplificado pela paródia, pela estilização, pela polêmica clara ou velada, pelo discurso indireto livre (id. ibid., p. 33).

O terceiro aspecto do dialogismo consiste de ser ao mesmo tempo princípio constitutivo do indivíduo e princípio de sua ação.

A apreensão do mundo é sempre situada historicamente, porque o sujeito está sempre em relação com outro(s). O sujeito vai constituindo-se discursivamente, apreendendo as vozes sociais que constituem a realidade em que está imerso, e, ao mesmo tempo, suas inter-relações dialógicas. Como a realidade é heterogênea, o sujeito não absorve apenas uma voz social, mas várias, que estão em relações diversas entre si. Portanto, o sujeito é constitutivamente dialógico. Seu mundo interior é constituído de diferentes vozes em relações de concordância ou

discordância. Além disso, como está sempre em relação com o outro, o mundo exterior não está nunca acabado, fechado, mas em constante vir a ser (id. ibid., p. 55).

O dialogismo como princípio constitutivo do ser e do seu agir aponta para a impossibilidade do sujeito ser submisso às estruturas sociais no sentido de que seja assujeitado, bem como de ser uma subjetividade autônoma em relação à sociedade, pois o indivíduo se constitui sujeito conforme sua participação ativa nas diversas relações sociais, isto é, enquanto age em relação aos outros.