1.3. A cultura de imprensa
1.3.1. O poder da imprensa
Ao pensarmos a cultura de imprensa no âmbito brasileiro, é preciso, também, considerá-la inserida num contexto específico latino-americano. A cultura de imprensa brasileira se constituiu também pelas determinações históricas que envolvem a concepção social da escritura e as relações de poder que configuram a própria estrutura social das comunidades latino-americanas. Para desenvolver esse raciocínio nos apoiaremos aqui principalmente em Rama (1985) que aborda como desde o período da colonização a estruturação física da cidade latino-americana corresponde a um projeto simbólico que tem por base a ordenação e “distribuição” do poder regente numa escala hierárquica da sociedade a cargo da concentração desse poder.
Em seu estudo, A Cidade das Letras, Angel Rama traça um panorama histórico da América Latina desde os processos de colonização e mostra como a construção das cidades seguia a um projeto racionalista que tinha por fundo a ordenação não apenas da paisagem urbana, mas dos homens, segundo uma perspectiva de futuro, moldados em “obediência às exigências colonizadoras, administrativas, militares, comerciais, religiosas, que se iriam impondo com crescente rigidez” (id. ibid., p. 23). Conforme demonstra Rama, os sistemas simbólicos tiveram por função a manutenção do poder político-econômico-administrativo- militar-religioso, primeiro servindo às metrópoles por parte de vice-reis, governadores etc; e, após os processos de independência, por parte de presidentes, governadores, congresso etc.
Mesmo antes da realização física da cidade haveria uma representação simbólica da mesma assegurada na ordem dos signos. A cidade era pensada já em função de um planejamento que se concretizava nos diagramas gráficos, sendo estes ditados pelos princípios mais racionais e lógicos das ciências matemáticas. Mas, sobretudo, a representação simbólica se firmava a priori nas palavras, com as quais se aplicavam as normas que regulavam a edificação da cidade. A posse do solo reclamava para sua garantia a escritura, somente por meio da qual se podia dar fé da propriedade. E a fé só cabia à palavra escrita, por um lado imbuída de toda a tradição filosófica medieval, de onde soprava sua aura sacra; e por outro lado, um pouco mais tarde, investida de concepções racionalistas que a presenteariam com uma identidade abstrata e normativa. Assim é que
a palavra escrita viveria na America Latina como a única válida, em oposição à palavra falada que pertencia ao reino do inseguro e do precário. [...] A escritura possuía rigidez e permanência, um modo autônomo que arremedava a eternidade.
Estava livre das vicissitudes e metamorfoses da história, mas sobretudo, consolidava a ordem por sua capacidade de expressá-la rigorosamente ao nível cultural (id. ibid., p. 30).
A manutenção do poder na América Latina colonizada principiou, então, pelos signos que garantiam simbolicamente a estrutura física das cidades: ou o desenho tipo tabuleiro de damas ou o desenho circular (situando o poder no centro e os diversos estratos sociais em sucessivos círculos concêntricos), garantidos em normas e assegurados em leis concretizadas na palavra escrita, que por sua vez ordenariam os cidadãos. Uma ou outra forma seguia os mesmos princípios reguladores: “unidade, planificação e ordem rigorosa, que traduziam uma hierarquia social” (id. ibid., p. 28). Na palavra ordem é que se condensavam os atos em função da legitimação desse poder.
A ordem deve ficar estabelecida antes que a cidade exista, para impedir assim toda futura desordem, o que alude à peculiar virtude dos signos de permanecerem inalteráveis no tempo e seguir regendo a mutante vida das coisas dentro de rígidos marcos. Foi assim que se fixaram as operações fundadoras que foram se repetindo através de uma extensa geografia e um extenso tempo (id. ibid., p. 29, grifos do autor).
Para cumprir com essa ordem, dentro da cidade real (material, física) se estabeleceu uma outra cidade para agir na ordem dos signos; é o que Rama chamada de
cidade letrada. A cidade desenvolve-se então em duas redes superpostas, há o labirinto de
ruas e o labirinto dos signos, instância em que se interpreta e ordena a cidade física. Enquanto a cidade real atua com significantes a cidade letrada age com as significações, legitimando- as, autonomizando-as e ordenando-as.
No centro de toda cidade, conforme diversos graus que alcançavam sua plenitude nas capitais vice-reinais, houve uma cidade letrada que compunha o anel protetor do poder e o executor de suas ordens: uma plêiade de religiosos, administradores, educadores, profissionais, escritores e múltiplos servidores intelectuais (ibid., p. 43). Na articulação de sua relação e manutenção do poder a cidade letrada conspirou ainda para a distância com o “comum” da sociedade, a distância entre “a letra rígida e a fluida palavra falada”, fazendo da “cidade letrada uma cidade escriturária, reservada a uma estrita minoria” (id. ibid., p. 54). O ponto alto dessa exclusividade foi a mitificação ou sacralização da escritura, fato não tão difícil de conceber numa sociedade em que a escritura registrava a lei e onde a maioria era analfabeta; em certos contextos nos séculos XVIII e XIX “em territórios americanos, a escritura constituiria uma religião secundária” (id. ibid., p. 50).
Desde então o conflito entre oral X escrito, onde o homem comum, com suas intervenções, propicia suas sensíveis modificações na cidade física e no labirinto dos signos. A cidade
letrada, por sua vez, acorre à escritura para ordenar e estabilizar esse labirinto, conforme seu
planejamento inicial, essa é sua função e assim ela agirá no transcorrer da história.
Por conseguinte, durante os períodos da modernização, com mudanças sócio-culturais e econômicas e com a ascensão intelectual de novas classes a cidade letrada tende a se adaptar para legitimar-se, uma vez que, mesmo mudando os nomes que a integram, ela não deixa de manter seus objetivos primeiros de consolidação e de manter o poder sobre a sociedade. Como bem conclui Geraldi (1996, p. 102):
Observando sempre sob o ângulo da produção da escritura, Rama aponta, ao longo dessa história de convívio com o poder, uma cidade letrada que foi ordenada, foi escriturária, foi modernizada. Politizou-se e pode ser revolucionária. A cada momento, diferentes feitos históricos, mas sempre uma constante: a capacidade paradoxal de, ao mesmo tempo, expandir-se para as periferias supostamente acolhendo novos convivas e manter a distância das distinções: escrita x oralidade; erudito x popular; culto x não-culto; alfabetizado x analfabeto; letrado x alfabetizado. Pelo prisma do letrado, ao outro sempre se atribui uma falta.
É nesse domínio que podemos situar a grande imprensa brasileira, beneficiada desde o século XIX pelas reformas educacionais e a consequente ampliação do público leitor, mas, sobretudo, pelo crescimento da parcela urbana burguesa, a qual representou já em sua origem.
Como apontamos nos tópicos acima, em todo o período de formação da grande imprensa, uma boa parcela das empresas jornalísticas esteve em constante tensão com o Estado, gerada por conflito de interesses. De um lado se colocava a ascendente burguesia e do outro a velha oligarquia. A grande imprensa se formava junto com a ascensão da pequena burguesia urbana, pois esta constituía principal fonte de receita. Ao mesmo tempo a imprensa compartilhava interesses e influía na opinião dessa parcela da população. Em diversos momentos da primeira metade do século XX, as empresas jornalísticas que se opunham ao Estado necessitavam defender-se identitariamente para manter e ampliar sua relação com o público leitor ao qual correspondiam ideológico e economicamente. Assim é que desde sua formação, mas ressaltando que não foi um processo homogêneo, a grande imprensa brasileira construiu discursivamente para si uma posição de independência em relação ao poder do Estado, ainda que econômico e politicamente determinadas circunstâncias históricas provassem o contrário. Dessa forma, a imprensa garantiria a si mesma um poder social sobre a
informação, poder este defendido em diversas circunstâncias históricas como liberdade de expressão.
Voltando à perspectiva de Rama, podemos dizer que, no século XX, a grande imprensa tornou-se a “parte mais ostensiva da cidade letrada” (ibid., p. 83). Dessas observações podemos pensar então que no contexto brasileiro a grande imprensa, culturalmente, mais do que representar um contrapoder, com a função de fiscal do Estado como dita os princípios liberais, é em si mesma um poder: o poder da escritura. Reiteramos, dizemos culturalmente porque as distinções entre escrita x oralidade; erudito x popular; culto x não-culto; alfabetizado x analfabeto; letrado x alfabetizado (como aponta Geraldi, op. cit.) penetram quase todas as relações sociais e estabelecem um sistema de hierarquias que constitui o modo como as pessoas vivem e significam suas vidas. Assim, quando falamos em cultura de imprensa estamos colocando em causa o poder da escritura e sua “distribuição” nas relações sociais; e principalmente sua valência de interpelar tanto o leitor quanto o não leitor: se para o primeiro há o pertencimento e o “pleno” exercício, para o outro, a quem sempre se atribui uma falta, resta a sua resignação e a mitificação24 da palavra escrita.