4 FATORES INFLUENTES NA ESTRUTURA DE UM MODELO PARA A CONCEPÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE PROMOÇÃO DA
4.3 Abordagem sistêmica de fatores
4.3.1 O diamante da competitividade econômica territorial
Buscando responder a questões do tipo: “Por que empresas de alguns países possuem vantagens competitivas em relação a empresas de outros países?” Porter (1989) argumenta que indústrias ou segmentos de indústrias terão sucesso onde o sistema de condicionantes que denomina de “diamante nacional” for mais favorável. Esse “diamante” possui quatro componentes inter-relacionados: (i) condições dos fatores de produção, (ii) condições da demanda, (iii) condições das indústrias correlatas e de apoio e (iv) condições das estratégias, da estrutura e da rivalidade empresariais. Possui também outros dois parâmetros secundários, representados pelo ( v) governo e pelo (vi) acaso. A Figura 4 mostra o Diamante da Competitividade.
Se discorre a seguir sobre cada um dos determinantes do Diamante da Competitividade.
Condições dos fatores. Envolve recursos humanos, infra-estrutura, instituições de pesquisa, matérias primas, energia, acessibilidade geográfica, fuso horário, recursos de capital, processo inovador, etc. Esse determinante será abordado em detalhe mais adiante.
Condições de demanda. Diz respeito à demanda interna pelos bens e serviços do setor produtivo. Interessa o padrão de crescimento da demanda, a sofisticação e a natureza das necessidades, pois é o comportamento da demanda o elemento balizador da atividade privada. Consumidores exigentes constituem uma demanda sofisticada e pressionam as empresas locais a melhorar a qualidade e a inovar mais depressa. Também é importante que as necessidades de consumidores de
outros países sejam prenunciadas pelos consumidores internos, compondo o que seria uma “demanda precursora”. As condições macro-econômicas são muito
influentes nas condições da demanda.
Condições das indústrias correlatas e de apoio. Se relaciona com a intensidade das relações inter-empresariais, representada pela densidade dos clusters presentes em uma região. Este tipo particular de arranjo empresarial permite uma transferência de conhecimentos a partir das indústrias mais competitivas,
ACASO
Fonte: Porter (1989, p.146)
Figura 4: Diamante da competitividade
ESTRATÉGIA, ESTRUTURA E RIVALIDADE DAS EMPRESAS CONDIÇÕES DOS FATORES CONDIÇÕES DA DEMANDA GOVERNO INDÚSTRIAS CORRELATAS E DE APOIO
desde que se incentive a integração da cadeias produtivas. “Os fornecedores ajudam as empresas a ver novos métodos e novas possibilidades de aplicar uma tecnologia nova. As empresas podem significar oportunidade de servir de teste para o desenvolvimento de novos produtos sugeridos pelos fornecedores. O intercâmbio de pesquisa e desenvolvimento leva a resultados mais rápidos e eficientes. Fornecedores comuns de diversas empresas divulgam as inovações...” (op. cit. p.121). Na perspectiva local de desenvolvimento econômico, a atuação sobre os clusters pode representar um dos mais importantes espaços de manobra, pelo impacto sistêmico que provoca sobre amplos conjuntos do setor produtivo e pela forte vinculação regional desses arranjos empresariais.
Condições das estratégias, estrutura e rivalidade das empresas. Se relaciona com o nível de competitividade do ambiente onde evoluem as empresas, os condicionantes estratégicos subjacentes à atuação das empresas e ao espírito empreendedor. As formas de gestão empresarial e a exposição à concorrência internacional figuram entre os elementos mais importantes. A política de juros, a disponibilidade de crédito e a estabilidade econômica são fortes condicionantes desse determinante.
O acaso é representado por eventos fora do controle das empresas e do governo, como por exemplo fatores históricos, grandes invenções, acontecimentos políticos externos, dentre outros.
O governo, por outro lado, pode melhorar ou piorar a vantagem competitiva de acordo com as políticas públicas que implemente. Ainda que o autor não considere a ação governamental como um determinante de primeira grandeza, alerta para o fato de que não se pode subestimar as conseqüências de sua atuação.
O que sobressai do enfoque acima são as interações sistêmicas entre determinantes. Além da ação isolada de cada determinante, a vantagem competitiva territorial depende fundamentalmente da maneira com que uma determinada ação mobilize os demais determinantes. Desta forma se produzirá uma potencialização de efeitos. O efeito de um determinante depende, com freqüência, do estado dos outros. Por exemplo, a sofisticação da demanda não estimulará a elaboração de produtos mais avançados a não ser que a indústria
disponha de recursos humanos habilitados para produzi-los. Em sentido inverso, a existência de recursos humanos com alta qualificação também concorre para a sofisticação da demanda. A interação entre a estrutura e rivalidade das empresas e a criação de fatores produtivos pode ser ilustrada da seguinte maneira: vários competidores locais, numa disputa vigorosa, estimulam o rápido desenvolvimento de recursos humanos habilitados, tecnologias correlatas, infra-estrutura especializada. As próprias empresas acabam investindo na criação e aprimoramento de fatores, isoladamente ou através de associações, estimulando programas especiais em universidades e instituições de pesquisa e a emergência de publicações especializadas. Em conseqüência, essa abundância de fatores é capaz de atrair um número maior de empresas concorrentes. A ação conjunta desses dois elementos: rivalidade interna e concentração geográfica da indústria (essas são características marcantes de um cluster de empresas) – têm capacidade particularmente grande de transformar o diamante num sistema. A rivalidade interna, porque promove o aperfeiçoamento de todo o diamante. A concentração geográfica, porque eleva e amplia as interações dentro do “diamante”. Em suma, “a existência de um grupo de indústrias correlatas e de apoio, que utilizam insumos, conhecimentos e infra-estrutura comuns estimula ainda mais a criação de fatores” (op. cit. p.165).
Ao tratar das premissas da política governamental para a indústria, Porter (1989) afirma que “as discussões sobre políticas para estimular a competitividade preocupam-se com o governo nacional e com as circunstâncias nacionais gerais. Igual ou maior atenção deve ser dada ao nível regional e local, em áreas como educação universitária, infra-estrutura, regulamentação local, iniciativas de pesquisa local e informações” (op. cit. p.696). Exemplifica, através de sua pesquisa, que “as iniciativas governamentais em áreas como Baden-Württemberg (Alemanha) e cidades italianas, individualmente, pareciam ter influência mais significativa sobre a vantagem competitiva do que quaisquer políticas nacionais” (op. cit. p.697).
Entretanto, o escopo da abordagem sistêmica do diamante da competitividade, por ser muito amplo, é mais facilmente aplicável no âmbito dos Estados nacionais. Determinantes tais como condições da demanda são muito menos dependentes
da ação dos governos locais, se comparadas com a margem de manobra em outros fatores. Os determinantes mais ao alcance dos níveis decisórios locais dizem respeito (i) às condições dos fatores e (ii) ao incentivo às aglomerações locais de industrias correlatas e de apoio.
As condições dos fatores em um território incluem fatores básicos e adiantados. Os fatores adiantados podem ser generalizados ou especializados. Fatores básicos (ou ativos naturais), são aqueles herdados passivamente, sem exigir grande esforço tanto das empresas quanto do governo. Incluem recursos naturais, clima, localização geográfica, circunstâncias históricas, mão-de-obra não especializada. Eles estão cada vez mais acessíveis para as empresas no ambiente de globalização. Depender exclusivamente de fatores básicos é como competir só na liderança de custo ou só na eficiência operacional: uma estratégia de limitada eficácia na promoção da competitividade, como se demonstrou no capítulo 3, pois tornam-se baixas as barreiras aos novos entrantes. Fatores adiantados (ou ativos criados, por oposição aos ativos naturais) incluem mão de obra qualificada, infra-estrutura moderna de telecomunicações, institutos de pesquisa e desenvolvimento, ambiente favorável ao empreendedorismo. São mais raros de se encontrar no mercado global. Exigem grande esforço, longo prazo para serem criados, substanciais e contínuos investimentos em capital humano e capital físico. Fatores generalizados são um tipo particular de fatores adiantados mais facilmente encontrados em diversas regiões. São melhores que os básicos, mas a vantagem competitiva dura até que uma nação ou região mais atrasada se desenvolva e consiga, com relativa facilidade, desenvolvê-los. Fatores especializados são os mais raros. Ás vezes a sua posse configura uma situação como que de monopólio, inexpugnável por um bom tempo. Decorrem muito da capacidade de inovação, da descoberta de formas diferentes de fazer as mesmas coisas, ou então, de fazer coisas diferentes. São fatores relevantes para um número limitado de indústrias. Por exemplo, porto especializado em produtos químicos, instituto de pesquisa especializado em óptica, corpo de projetistas hábeis em automóveis, em mobiliário urbano, em transportes urbanos por ônibus, disponibilidade de reserva considerável de capital de risco para financiar empresas de alta tecnologia. O investimento neles é mais arriscado, justamente pela seu
foco estreito. Sobre os fatores, se pode considerar em suma, que os fatores especializados de hoje serão os generalizados de amanhã e os básicos de depois de amanhã. Essa afirmação reflete a intensa dinâmica e os desafios enfrentados por políticas de promoção da competitividade territorial.
Visto ser o fenômeno da inovação o processo mais evidente de criação de fatores avançados, inclusive para compensar uma desvantagem na dotação de fatores, se ressalta que a existência de um grupo de várias indústrias que utilizam insumos, conhecimentos e infra-estrutura comuns estimula as empresas e os governos a investir em mecanismos de criação de fatores. “A infra-estrutura especializada é ampliada, são gerados efeitos secundários que aprimoram a qualidade de um fator e aumentam a sua oferta. Por vezes, surgem indústrias totalmente novas para proporcionar infra-estruturas especializadas a esses grupos” (op. cit. p.165). Uma firma isolada pode ter algum efeito sobre este processo de inovação, particularmente se tiver influência econômica preponderante sobre a cidade ou a região. Mas um grupo de rivais, competindo e colaborando entre si, oferece mais estímulos, pela maior pressão coletiva sobre instituições educacionais, de pesquisa e fornecedores de informações, evitando o risco do investimento na criação de instalações e conhecimentos vinculados ao sucesso ou insucesso de uma única empresa, aumentando as possibilidades de disseminação do conhecimento.
Quanto ao escopo de políticas públicas locais de desenvolvimento econômico, duas condições sobressaem da abordagem acima.
Em primeiro lugar as políticas públicas devem ser sistêmicas. Isto é, buscar influenciar todos os determinantes, apesar das evidentes limitações para os governos locais. A característica desejável é que o governo atue na função de articulador, de sinalizador para o setor privado. As ações de planejamento estratégico regional são excelentes instrumentos de articulação e prospecção do futuro.
Em segundo lugar, devem ser enfatizadas as ações sobre as quais há possibilidade concreta de influência local, tais como sobre os clusters e o sistema de inovação.