INTRODUÇÃO, por Joshua C. Taylor
Em 20 de fevereiro de 1909 o agitado poeta bilíngüe e diretor de revista F. T. Marinetti, responsável pela controversa revista literária Poesia (Milão), anunciou o movimento. do futurismo num manifesto beligerante publicado na primeira página do jornal parisiense Le Figaro. A expressão “futurismo”, sensibilizou a imaginação de escritores e artistas de todo o mundo, como também a insistência de Marinetti no sentido de que o artista voltasse as costas à arte, do passado e aos procedimentos convencionais para preocupar-se com a vida agitada, barulhenta da florescente cidade industrial. Na Itália, um grupo de pintores reuniu-se com os poetas em volta de Marinetti, em 1909, para definir as implicações desse manifesto nas artes visuais. Publicaram primeiro um manifesto geral, “Manifesto dos Pintores Futuristas”, em fevereiro de 1910. Em seguida, em março, saiu outro documento, mais específico, “Pintura Futurista: Manifesto Técnico”, Só no final daquele mesmo ano, porém, é que a pintura dos três - mais notáveis signatários, Carlo Carrá (1881-1966), Umberto Boccioni (1882-1916) e Luigi Russolo (1885-1947), apresentou mudanças formais revolucionárias coerentes com os procedimentos expostos no Manifesto Técnico. Originalmente, os documentos foram assinados também por Aroldo Bonzagni e Romolo Romani, mas estes logo se afastaram, e Gino Severini (1883-1950), que trabalhava em Paris, e Giacomo Balla (1871-1958), em Roma, juntaram-se a Boccioni, Carrá e Russolo, formando o grupo intimamente coeso dos pintores futuristas.
Na pintura, o movimento futurista tem sido erroneamente considerado como um produto do cubismo. Na realidade, tanto suas raízes como suas metas eram muito diferentes, estando associado mais de perto aos objetivos do novo movimento da pintura alemã que acabou sendo chamado de expressionismo. Parte da confusão resultou da insistência dos pintores parisienses em ler o Manifesto Técnico tendo em mente os processos analíticos do cubismo. Os italianos, que insistiam tanto em manter a sua independência quanto à escola de Paris, em manter seu predomínio artístico, mostraram repetidamente as diferenças em artigos irritados publicados na revista Lacerba, de Florença. A confusão, porém, persistiu, porque vários dos pintores futuristas, Noccioni, Carrá, Soffici e Severini (que, morando em Paris, conheciam o cubismo desde os seus começos), apropriaram-se de aspectos da linguagem formal do cubismo e os usaram para seus próprios fins. Boccioni e Carrá estabeleceram contato com a pintura cubista em 1911 primeiro através de publicações, depois numa viagem de outono a Paris, sob a orientação de Severini. A semelhança, porém, é superficial e, como Carrá observa no artigo seguinte, tanto o objetivo como o efeito de sua pintura eram diferentes.
A primeira grande exposição da pintura futurista, realizada em Milão, foi inaugurada no dia 30 de abril de 1911. Começando com uma mostra na galeria de Bernheim-Jeune em Paris, em fevereiro de 1912, um grupo de obras futuristas circulou pelos principais centros europeus, provocando muitos comentários e exercendo considerável influência sobre o público e os artistas. Realizaram-se exposições na Inglaterra, Alemanha e Holanda. Notícias ilustradas dessas exposições foram publicadas por toda parte, inclusive na imprensa americana. Em 1913 Severini realizou uma exposição pessoal em Londres, e Boccioni, tendo publicado um manifesto revolucionário da escultura futurista em abril de 1912, expôs sua obra, original e surpreendente, em Paris,
Em 1912 Marinetti publicou sua teoria da poesia da “palavra livre”, na qual as palavras evocativas, impressas em tipos e tamanhos diferentes, ligadas por símbolos matemáticos e não pelos conectivos gramaticais, eram teatralmente espalhadas pela página. Os pintores aproveitaram essa idéia e começaram a usar as palavras em seus quadros, não, como fazia o cubismo, em razão de sua forma, mas como evocação de sons e associações extra pictóricas.
Publicaram-se manifestos também para a música, primeiro em,julho de 1912, por Ballila Pratella, e Russolo dedicou grande parte de seu tempo a experimentos corri a música criada por uma bateria de máquinas barulhentas. Promulgou um manifesto, “A Arte dos Barulhos”, em março de 1913. Um outro grupo fez experimentos também com a fotografia e o cinema. Anton Giulio Bragaglia publicou um manifesto, “Fotodinâmica Futurista”, em Roma, em 1912; em setembro de 1916 lançou o seu “Manifesto do Cinema Futurista” e produziu um filme futurista de longa metragem, Perfido Incanto. Peças de teatro foram também encenadas, prenunciando, em seu absurdo chocante e compulsivo, a atividade posterior dos dadaístas1.
O jovem arquiteto Antonio Sant’Elia uniu-se aos futuristas em 1914 e republicou suas estimulantes propostas de uma arquitetura moderna, que haviam sido usadas antes num catálogo de exposição daquele ano, como um manifesto da arquitetura futurista. Seus projetos extraordinários, bem como seu manifesto revolucionário, serviram de inspiração para os jovens arquitetos. Sant’Elia morreu na guerra, em 1916.
O princípio futurista do “dinamismo” como meio expressivo, a ênfase dos pintores mais sobre o processo do que sobre as coisas (e para isso recorriam à autoridade de Henri Bergson), sua ênfase na intuição e sua capacidade de sintetizar as múltiplas experiências dos sentidos e da memória numa “simultaneidade” coerente, tudo isso teve efeitos profundos em outros movimentos: os construtivistas e suas várias ramificações, os vorticistas ingleses e, posteriormente, sobre o Dada e o surrealismo.
Em fins de 1914 a primeira fase do futurismo chegava ao seu termo. Muitos dos seus partidários originais começaram a criticar-se mutuamente, protestando também contra a constante pressão exercida por Marinetti. Com a entrada da Itália na Guerra, em 1915, ardentemente defendida por Marinetti e seus companheiros, toda atividade artística efetiva cessou. Boccioni e Sant’Elia foram mortos na guerra e Russolo foi seriamente ferido. O grupo que se auto-intitulava futurista, formado em torno de Marinetti depois da guerra, pouco tinha em comum, seja nos princípios artísticos, seja na qualidade das, realizações, com o movimento original. Sua vigorosa tática de propaganda, porém, foi aproveitada pela nova liderança política e o novo futurismo passou a identificar-se com o fascismo.
F. T. Marinetti, “Fundação e manifesto do futurismo”, 19082
Ficamos acordados a noite toda, meus amigos e eu, sob as lâmpadas orientais das cúpulas de latão perfurado, estreladas como as nossas almas, porque como estas irradiadas pelo fulgor fechado de um coração elétrico. Passeamos longamente sobre opulentos tapetes orientais a nossa atávica preguiça, discutindo diante dos confins extremos da lógica e escurecendo muito papel com frenéticas escritas.
Um imenso orgulho inchava-nos os peitos, pois nos sentíamos sozinhos naquela hora, alertas e eretos como soberbos faróis ou como sentinelas avançadas defronte do exército das estrelas inimigas, que nos espreitavam de seus celestes acampamentos. Sozinhos com os foguistas que se agitam diante dos fornos infernais dos grandes navios, sozinhos com os negros fantasmas que esquadrinham as barrigas abrasadas das locomotivas lançadas em louca velocidade, sozinhos com os bêbados que cambaleiam, com um incerto bater de asas, ao longo dos muros da cidade.
De repente estremecemos, ao ouvir o rumor formidável dos enormes ônibus de dois andares que passam aos solavancos, fulgurantes de luzes multicores, como as aldeias em festa que o Pó transbordante sacode e erradica subitamente para arrastá-las até o mar, sob cascatas e através dos redemoinhos de um dilúvio.
Seguiu-se um silêncio mais profundo. Mas, enquanto escutávamos o extenuado murmúrio de preces do velho canal e o ranger dos ossos dos. palácios moribundos sobre suas barbas de úmida verdura, eis que ouvimos rugir sob as janelas os automóveis famélicos. - Vamos - disse eu. - Vamos, amigos! Vamos embora! Enfim a mitologia e o ideal místico foram superados. Estamos para assistir ao nascimento do Centauro e logo veremos voar os primeiros anjos!... Será preciso sacudir as portas da vida para experimentar-lhes os gonzos e cadeados!... Vamos! Eis, sobre a terra, a primeiríssima aurora! Não há nada que iguale o esplendor da vermelha espada do sol que esgrima pela primeira vez nas nossas trevas milenares!...
Aproximamo-nos das três feras resfolegantes para apalpar-lhes amorosamente os tórridos peitos. Estendi-me sobre o meu carro como um cadáver no caixão, mas subitamente ressuscitei sob o volante, lamina de guilhotina que ameaçava o meu estômago.
A furiosa vassoura da loucura arrebatou-nos de nós mesmos e nos arremessou através das ruas, íngremes e profundas como leitos de torrentes. Aqui e ali uma lâmpada enferma, atrás das vidraças de uma janela, ensinava-nos a desprezar a falaz matemática dos nossos olhos perituros.
Gritei: “O olfato; só o olfato basta para as feras!”
E, como jovens leões, seguíamos a Morte com seu pêlo negro manchado de pálidas cruzes, correndo pelo vasto céu violáceo, vivo e palpitante.
Mas não tínhamos um Amante ideal que alçasse até as nuvens sua sublime figura, nem uma Rainha cruel a quem oferecer os nossos salmos, contorcida à maneira de anéis bizantinos! Nada, para querer morrer, exceto o desejo de libertar-nos finalmente da nossa coragem por demais exigente!
E corremos esmagando nos umbrais das casas os cães de guarda que se arredondavam, sob os nossos pneus escaldantes, como colarinhos sob o ferro de passar roupa. A Morte, domesticada, me ultrapassava a cada curva para estender-me graciosamente a pata, e de quando em quando se arrastava por terra com um rumor de maxilas estridentes, lançando-me, a cada poça de lama, olhares aveludados e acariciantes.
- Saiamos da racionalidade como de uma horrível casca e atiremo-nos, como frutos apimentados de orgulho, dentro da boca imensa e torta de vento!... Entreguemo-nos como pasto ao Ignoto, não já por desespero, mas apenas para encher os profundos poços do Absurdo!
Mal pronunciara essas palavra quando girei bruscamente sobre mim mesmo, com a mesma ebriedade louca dos cães que querem morder o próprio rabo, e topei bruscamente com dois ciclistas que vinham ao meu encontro, titubeantes como dois raciocínios persuasivos mas contraditórios. Seu estúpido dilema discutia sobre o meu terreno... Que amolação! Auff!... Cortei-lhes o discurso e, desgostoso, arremessei-me num fosso com as rodas no ar...
Oh, fosso materno, quase cheio de água lamacenta! Belo fosso de fábrica! Saboreei avidamente tua lama fortificante, que me lembrou a santa teta negra de minha ama-de-leite sudanesa... Quando me levantei - farrapo sujo e mal-cheiroso - de sob o carro emborcado, senti o coração deliciosamente atravessado pelo ferro em brasa da alegria!
Uma multidão de pescadores armados com varas de pescar e de natura listas gotosos tumultuava já em torno do prodígio. Com paciente e meticuloso cuidado, aquela gente dispôs altas armaduras e enormes redes de ferro para pescar o meu automóvel, semelhante a um grande tubarão encalhado. O carro emergiu lentamente do fosso, abandonando no fundo,
como escamas, sua pesada carroçaria de bom senso e seus mórbidos estofos de comodidade. Pensavam que o meu belo tubarão estivesse morto, mas bastou-me uma carícia para reanimá-lo, e ei-lo ressuscitado, ei-lo correndo outra vez sobre suas possantes barbatanas!
Então, com o vulto coberto pela boa lama das fábricas - empaste de escórias metálicas, de suores inúteis, de fuligens celestes -, contundidos e enfaixados os braços, mas impávidos, ditamos nossas primeiras vontades a todos os homens vivos da terra:
1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia. 3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.
4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória da Samotrácia.
5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita.
6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-la a prostrar-se ante o homem.
8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já no absoluto, pois criamos a eterna velocidade onipresente.
9. Queremos glorificar a guerra - a única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias pelas quais se morre e o desprezo da mulher.
10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.
11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes; as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o vôo deslizante cios aeroplanos, cujas hélices se agitam ao vento como bandeira e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta.
É da Itália que lançamos ao mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária com o qual fundamos o nosso Futurismo, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários.
Há muito tempo a Itália vem sendo um mercado de belchiores. Queremos libertá-la dos incontáveis museus que a cobrem de cemitérios inumeráveis.
Museus: cemitérios!... Idênticos, realmente, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos onde se repousa sempre ao Indo de seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores que se trucidam ferozmente a golpes de cores e linhas ao longo de suas paredes!
Que os visitemos em peregrinação uma vez por ano, como se visita o cemitério no dia dos mortos, tudo bem. Que uma vez por ano se deponha uma coroa de flores diante da Gioconda, vá lá. Mas não admitimos passear diariamente pelos museus nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa mórbida inquietude. Por que devemos nos envenenar? Por que devemos apodrecer?
E que se pode ver num velho quadro senão a fatigante contorção do artista que se empenhou em infringir as insuperáveis barreiras erguidas contra o desejo de exprimir inteiramente o seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivale a verter a nossa sensibilidade numa urna funerária, em vez de projetá-la para longe, em violentos arremessos de criação e de ação.
Quereis, pois, desperdiçar todas as vossas melhores forças nessa eterna o inútil admiração do passado, da qual saís fatalmente exaustos, diminuídos e espezinhados?
Em verdade eu vos digo que a freqüentação cotidiana dos museus, das bibliotecas e das academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registros de lances truncados!...) é, para os artistas, tão ruinosa quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens embriagados por seu engenho e vontade ambiciosa. Para os moribundos, para os doentes, para os prisioneiros, vá lá: o admirável passado é talvez um bálsamo para os seus males, já que para eles o futuro está barrado... Mas nós não queremos saber dele, do passado, nós jovens e fortes futuristas!
Bem-vindos, pois, os alegres incendiários com seus dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los!... Aqui! Ponham fogo nas estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais para inundar os museus!... Oh, a alegria de ver flutuar à deriva, rasgadas e descoradas sobre as águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!
Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: resta-nos, assim, pelo menos um decênio para cumprir a nossa obra. Quando tivermos 40 anos, outros homens mais jovens e válidos que nós nos jogarão no cesto de papéis, como manuscritos inúteis. Pois é isso d que queremos!
Nossos sucessores virão de longe contra nós, de toda parte, dançando à cadência alada dos seus primeiros cantos, estendendo os dedos aduncos de predadores e farejando caninamente,às portas da academias, o bom cheiro das nossas mentes em putrefação, já prometidas às catacumbas das bibliotecas.
Mas nós não estaremos lá... Por fim eles nos encontrarão - uma noite de inverno - em campo aberto, sob um triste galpão tamborilado por monótona chuva, e nos verão agachados junto aos nossos aeroplanos trepidantes, aquecendo as mãos ao fogo mesquinho proporcionado pelos nossos livros de hoje flamejando sob o vôo das nossas imagens.
Eles se amotinarão à nossa volta, ofegantes de angústia e despeito, e todos, exasperados pela nossa soberba, inestancável audácia, se precipitarão para matar-nos, impelidos por um ódio tanto mais implacável quanto seus corações estiverem ébrios de amor e admiração por nós.
A forte e sã Injustiça explodirá radiosa em seus olhos. - A arte, de fato, não pode ser senão violência, crueldade e injustiça.
Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: no entanto, temos já esbanjado tesouros, mil tesouros de força, de amor, de audácia, de astúcia e de vontade rude, precipitadamente delirantemente, sem calcular, sem jamais hesitar, sem jamais repousar, até perder o fôlego... Olhai para nós! Ainda não estamos exaustos! Nossos corações não sentem nenhuma fadiga porque estão nutridos de fogo, de ódio e de velocidade!... Estais admirados;... É lógico, pois não vos recordais sequer de ter vivido! Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas!
Nossa bela e mendaz inteligência nos afirma que somos o resultado e o prolongamento dos nossos ancestrais. -Talvez!... Seja!... Mas que importa? Não queremos entender!... Ai de quem nos repetir essas palavras infames!...
Cabeça erguida!...
Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas. “Pintura futurista: manifesto técnico”, 11 de abril de 19103
No primeiro manifesto que lançamos em 8 de março de 1910, da ribalta do Teatro Chiarella de Turim, exprimimos as nossas profundas náuseas, nossos altivos desprezos, nossas alegres rebeliões contra a vulgaridade, contra o mediocrismo, contra o culto fanático e esnobe do antigo, que sufocam a arte no nosso país.
Ocupávamo-nos então das relações que existem entre nós e a sociedade. Hoje, ao contrário, com este segundo manifesto, afastamo-nos resolutamente de toda consideração relativa e elevamo-nos às mais altas expressões do absoluto pictórico4.
Nosso anseio de verdade já não pode ser apagado pela Forma nem Pela Cor tradicionais!
O gesto, para nós, já não será um momento parado do dinamismo universal: será, decididamente, a sensação dinâmica eternizada como tal.
Tudo se move, tudo corre, tudo se volta rapidamente. Uma figura nunca se apresenta estável diante de nós, mas aparece e desaparece incessantemente. Pela persistência da imagem na retina, as coisas em movimento se multiplicam, se deformam, sucedendo-se, como vibrações, no espaço que percorrem. Assim um cavalo a correr não tem quatro pernas, mas vinte, e seus movimentos são triangulares.
Tudo na arte é convenção, e as verdades de ontem, para nós, não passam de puras mentiras.
Declaremos ainda uma vez que o retrato, para ser uma obra de arte, não pode nem deve assemelhar-se ao seu modelo, e que o pintor traz em si as paisagens que deseja produzir. Para pintar uma figura, não é necessário fazê-la: basta criar a sua atmosfera.
O espaço não existe mais: uma rua banhada pela chuva e iluminada por globos elétricos se abisma até o centro da Terra. O Sol dista de nós milhares de quilômetros; mas a casa que está diante de nós não nos aparece talvez engastada no disco solar? Quem