2 OS AGRICULTORES DO VALE DO PARAÍBA PAULISTA: CONHECENDO OS
4.2 O valor econômico
4.2.1 O dinheiro como medida objetiva de “valor”
Os objetos são valorados por nós através de referências que sejam recíprocas, e é no dinheiro que essa reciprocidade econômica se expressaria de maneira mais pura para Simmel (1976). Em suma, o dinheiro seria uma medida comum para tornar o objeto intercambiável, a materialização da distância entre sujeito e objeto.
O “valor econômico” atribuído a um determinado objeto através do dinheiro acaba por embaçar a percepção sobre os outros valores, mesmo que aqueles não deixem de existir. E, na economia capitalista, o alargamento do círculo de troca (espacialmente e temporalmente) faz com que ele pareça independente. O uso do dinheiro também acarretará a perda da autonomia.
[...] sob uma economia monetária crescente, não se dá conta, frequentemente, deste aspecto: que nos deveres, dos quais nos livramos comprando, existem muitas vezes ainda direitos e significações mais sutis que abandonamos junto com eles. (SIMMEL, 2014, p. 30)
84 No roubo, deixaram uma lâmina da picadeira para trás, possibilitando que uma nova máquina fosse construída pela família de forma artesanal.
Encontramos essa relação nos processos e saberes, do plantar ao cozinhar, que vão sendo abandonados conforme ocorrem os movimentos de apropriação e substituição da indústria agroalimentar (GOODMAN; SORJ; WILKINSON, 2008).
Fazendo uma ponte entre essas considerações com as transformações no Campo da agricultura, conforme a economia de subsistência perde espaço, o dinheiro passa a ter cada vez mais “valor” (WILLEMS, 1947). Se a função primária da economia para a população rural é suprir seu consumo socialmente necessário (GARCIA JR., 1983), abandonada a subsistência, o dinheiro estaria entre essas necessidades nas esferas de produção e do consumo, ou seja, de comprar, ao invés de produzir, ou de vender, ao invés de consumir.
Para os caipiras, o uso do dinheiro, feito muitas vezes mais pela necessidade do que pela escolha, modificaria também a relação entre os membros da comunidade, como o exemplo do mutirão substituído pelo trabalho pago:
Atualmente o dinheiro e o contrato escrito medem e caracterizam relações que antigamente dependiam de confiança pessoal, de amizade e parentesco, portanto de fatores que raramente comportavam uma definição racional.
(WILLEMS, 1947, p. 94)
E, no que diz respeito às superstições e às crenças do caipira, o dinheiro teria um caráter profano. Em Cunha, um mercado que foi construído no local que antes era uma igreja fracassou, tornando-se exemplo dos malefícios trazidos com as negociações monetárias (WILLEMS, 1947).
Bourdieu (1979), na análise sobre a Argélia, afirmou que o auxílio mútuo alimentado pelos laços sociais opõe-se radicalmente à ideia de ter um empregado pago, com características específicas e para finalidades específicas. Além disso, uma das características da reprodução dos argelinos era a indivisão: cálculos nunca explícitos sobre a produção e consumo individuais.
A introdução do dinheiro85 passa a encorajar esse cálculo.
O dinheiro, que pretende conferir um caráter impessoal86 à atividade econômica, aumentaria a possibilidade das escolhas individuais, e isso também seria transferível para as escolhas alimentares (POULAIN, 2013). Com a modificação da sociabilidade tradicional da
85 Naquele estudo, o motivo pelo qual o dinheiro foi introduzido era para que os impostos fossem pagos para as instituições francesas. Mesmo que para os argelinos adquirir riquezas não fosse o fim da atividade econômica,
“numa economia estacionaria onde a quantidade de bens possuídos (isto é, principalmente, a terra) é constante, o enriquecimento de um supõe o empobrecimento do outro. E a ética não faz senão registrar, uma vez mais, as necessidades imanentes à economia” (BOURDIEU, 1979, p 36).
86 Para Simmel (1976), o ápice do caráter impessoal do dinheiro seriam as Sociedades Anônimas, empreendimentos em que os agentes são representados pela quantia de capital que dispõem.
área rural, é o dinheiro que permite acessar os alimentos que, só com a organização produtiva, os agentes não conseguiriam consumir. O dinheiro é genérico; o alimento, específico.
Ou seja, no novo sistema econômico, há a transformação da troca feita antes entre bens através da “cortina do dinheiro” (BOURDIEU, 1979, p 26). Por ser um bem indireto, ele nada mais é que um signo, sem destino obrigatório, permitindo inúmeras estratégias em seu uso. Por exemplo: manter determinadas produções no contexto de permuta de bens limitada poderia reduzir as possibilidades de consumo das famílias, mesmo produzindo alimentos, já que essa teria acesso a um alimento (ou grupo de alimentos) específico e, ainda assim, teria a necessidade de obtenção de outros itens pela compra.
Com isso, temos que o dinheiro modifica as relações na área rural, tanto no contexto Argelino como no do Vale do Paraíba Paulista. A previsibilidade do dinheiro e a necessidade da venda intermediada por ele vão adentrando as formas de vida dessas famílias:
É que no tempo do pai que plantava aqui, quando a gente tinha 15/16 anos, plantava bastante, né, não vendia não, nós criávamos porco, galinha... ele dava para os outros sacos de feijão, milho, carne [...] não tinha aquele negócio de vender, aquela ganância, era o uso e ia espalhando pros outros e… sei lá, vivia até bem, porque… melhor que hoje. O pai comprou esse terreninho aqui com dinheiro na hora. Hoje o caboclo trabalha, trabalha mês e mês, não vou dizer que ganha bem... mas o cara que ganha um salário não consegue comprar um lote. (SR.º CUNHA)
Posto isso, nessa análise, não se nega que as relações econômicas podem ser agregadoras, dada a necessidade de troca entre diferentes na sociedade moderna (DOUGLAS;
ISHERWOOD, 2009; ZELIZER, 2009; SIMMEL, 2014), e que, frente às diferentes assimilações do valor econômico, a solidariedade e a reciprocidade continuariam existindo ao lado de trocas monetárias e, também, através dessas.
Com o estudo dos acompanhados, pudemos ver que, conforme o Campo dos possíveis, as mobilizações do valor econômico, as relações com dinheiro e as solidárias se modificam. Os Cunhas (caso 02) não tinham como prática doar/trocar sua produção: mesmo entre parentes e vizinhos, tudo era vendido, “a questão que nós não faz o mesmo que o pai fazia, [...] por causa do custo e nosso trabalho, porque nós vive disso, né?” (SR.º CUNHA).
Não doar e só vender não significa que os laços sociais eram desfeitos, mas que as relações eram ressignificadas através do comércio. A família fazia uma separação entre negociar com o turista e com “gente mais próxima”, por isso os preços dos produtos nunca estavam visíveis na venda. E tratavam essa diferenciação de forma virtuosa: cobravam um preço mais alto do turista (pressupondo que esse poderia pagar) e um preço mais baixo das pessoas
próximas e vizinhos (pressupondo que esses teriam menos recursos), por considerar que nessa operação seus clientes turistas, bem como sua família, acabavam ajudando os outros a se alimentarem com um menor custo.
Os Cunhas, tanto por sua origem como na relação com a terra, certamente seriam o caso que mais se aproximava do “produtor familiar do tipo camponês”, que tinha como característica a irregularidade produtiva pela impossibilidade de capitalização e modernização do trabalho (BRANDÃO, 1995). E as conversas nessa família eram sempre permeadas de lembranças do passado emaranhadas com a condição do presente. Quando perguntado sobre a destinação das perdas da produção, a Sr.ª Cunha respondeu que eram dadas para as galinhas, algo feito pela família no passado, já que no presente não lidavam mais com esse tipo de criação.
As expectativas dessa família ligadas ao dinheiro não estariam relacionadas com a acumulação e a ostentação do recurso e, ao se conectarem com as garantias das necessidades vividas no passado, por vezes, ultrapassavam o futuro objetivo:
O que a gente sempre pensa é ganhar na Mega Sena pra nós fazer isso...
plantar, pra nós criar porco, galinha, pra ter esse conforto... plantar milho, feijão, abóbora, arroz, fruta, fazer um pomar de fruta, [...] eu sempre comento com ela [Sr.ª Cunha], pra gente comprar um terreninho, e não precisa de um terreno monstro não, fazenda não, é um sitiozinho. (SR.º CUNHA)
Hoje, ter a condição de vida igual à do passado só era vista como possível através do dinheiro. E não era o desejo de um bilhete premiado para deixarem de trabalhar, mas sim para que pudessem ser agricultores como desejavam.
Já o Sr.º Oliveira (caso 01), quando questionado sobre os rendimentos que a atividade agrícola representava para a família, deu risada e respondeu: “de jeito nenhum sobreviver disso, é mais ideologia [de produzir orgânicos]”. Posteriormente, complementou que se as vendas suprissem os custos da plantação e da gasolina “já tava bom”.
O fato de não dependerem economicamente dessa atividade não fazia com que a desenvolvessem sem cuidado, inclusive administrativamente. Quando acompanhamos a família na feira que realizavam no shopping de Pinda, um dos filhos do Sr.º Oliveira veio até nós e perguntou se poderia fazer uma feirinha na barraca do pai, o qual aceitou de pronto. Ao terminar de escolher o que queria levar, o pai perguntou para a Sr.ª Oliveira quanto havia custado (já que era ela quem estava fazendo as pesagens), então tirou a quantia correspondente do bolso e colocou no caixa da barraca.
Enquanto relação familiar, o alimento não foi alçado através do dinheiro, mas, enquanto negócio, o “valor” correspondente aos alimentos precisava estar registrado, inclusive para prestarem conta para a associação da qual participavam.
Os Oliveiras e os Cunhas, na relação entre as famílias acompanhadas, seriam as famílias mais distantemente posicionadas. Se na primeira as escolhas alimentares entre a produção e o consumo estariam valoradas conforme a forma ou a “ideologia” do orgânico, na segunda, a produção e a comercialização ganhavam a escala valorativa econômica, relativizadas pela falta de garantia das necessidades imediatas.
Se os Oliveiras e os Cunhas estariam distantes tanto pelas formas produtivas como pelo que a produção representa enquanto “valor”, as famílias Ribeiro e Manoel estariam mais próximas fisicamente (ambas moradoras do assentamento), mas não deixariam de evidenciar suas diferenças na relação entre a produção, a renda e a importância dessas na alimentação.
Em termos de racionalidade econômica, a família Ribeiro (caso 03), com sua produção centrada em menos itens, era a única que falava das quantidades colhidas: em 2021, foram 250 caixas de mandioca; em 2020, colheram 300 quilos de Cambuci; em 2019, mais de 6 mil bandejas de lichia; e, por semana, eram aproximadamente 70 quilos de couve.
Apesar de as vendas somarem montantes maiores, a renda da família era de até dois salários mínimos, devido aos custos com produção, processamento e entrega: “aí você paga uma coisa, paga gente pra ajudar, [...] aí a turma diz ‘nossa você faz dinheiro’, mas aí quando a gente põe ‘o preto no branco’, que a gente faz as contas, sobra isso”(SR.ª RIBEIRO), essa quantia limitada.
Apesar da “contabilidade” feita entre a produção e a precificação, a referência ao lucro quase nunca era feita, pelo contrário, não deixavam de refletir sobre um preço que estivesse, também, dentro dos “possíveis” para o consumidor e que de alguma forma o “ajudasse” a comer:
Eu falava assim, que o preço que a gente vende as coisas é um preço que paga o nosso custo, que paga o custo e sobra um pouquinho, o preço tá bom! O duro é que as outras coisas tá muito caro, aí se você fizer uma comparação [...] se você vender muito mais caro também aí você não consegue vender, fica lá, é preferível vender um pouco mais barato... É que a população tem um pouco de culpa nessa história, viu? Porque eu penso assim comigo, a pessoa prefere ir lá no supermercado e comprar e pagar 4 reais e quando vinha comprar aqui e nós falava que era 1,70 o quilo, reclamava “ah mais ta caro”, então, filho, você vai comprar lá no mercado. [...] A gente vende pro povo comer, eu acho que tô ajudando o povo a comer. [...] É que o mercado acaba ganhando muito em cima do coitado do consumidor. (SR.ª RIBEIRO)
A “culpa” dos consumidores, além de eles darem preferência para a compra no mercado, seria esperar que “na roça” a contabilidade fosse feita de outra forma. Um cliente teria ido comprar a mandioca no lote dos Ribeiros, eles estavam vendendo a 1,70 o quilo. O cliente tentou negociar um valor mais baixo, o Sr.º Ribeiro não aceitou, argumentando que o preço no supermercado seria 4,00 o quilo. Então aquele cliente pediu para levar meia caixa pelo preço inicial, mas que fosse uma metade mais “caprichada”. O sobrinho (que era quem estava colhendo no momento) alertou o cliente que eles pesavam a quantidade equivalente à metade de uma caixa. A pessoa ficou indignada com a medida, pois para ela não havia a necessidade de usar a balança, um questionamento que certamente não seria feito para o caixa do supermercado. A família Ribeiro preferia pesar, pois assim “ninguém leva a mais, nem a menos”, mas, no final das contas, deram para o cliente duas mandiocas sem cobrar por isso.
No futuro dos possíveis, essa família pensava em aumentar a comercialização de produtos minimamente processados, ainda que focada em poucas variedades de itens (couve fatiada, mandioca descascada e cenoura picada), que possibilitassem maiores rendimentos, dando conta de agregar outros familiares (irmãos, sobrinhos, etc.) no negócio. Investir nos minimamente processados como expectativa para o futuro era também uma estratégia da família Manoel, ao lado da aposta na agrofloresta.
Para a família Manoel (caso 4), precificar os itens que produziam era visto como mais complexo do que precificar os itens da revenda: “eu não gosto de vender nada caro, principalmente o que é meu” (MANU). Em 2021, já fazia mais de 4 anos que não reajustavam o preço de venda de seus produtos, mas agora sentiam a necessidade de fazê-lo, pois estavam
“investindo muito no processado, sabe? E isso dá mais trabalho, você picar, lavar, higienizar, deixar limpinho... e aí tem o preço da gasolina... eu não cobro entrega. Aí a gente tem que fazer um ajuste um pouquinho, né?” (MANU).
A Manu atrelava os resultados do trabalho na agricultura com o investimento (linguagem econômica) que era feito “se você investe bastante, você ganha bastante, se você é uma pessoa que você investe menos, tem uma produção menor, você ganha menos” (MANU).
Já os gastos com a alimentação não dispendidos por produzirem nunca foram contabilizados, apesar de a família ter consciência de que isso a desonerava e lhe permitia um consumo mais variado:
Pra suco, a gente sempre usou as polpas, desde que começou a fazer. Quer beber suco? Pega as poupas na geladeira. Pé de alface?... alface a gente nunca comprou desde que a gente planta. Tirou o tomate? Tomate agora a gente planta , tempero a gente não compra, não usa nada... ali na horta eu tenho
alecrim, orégano... então essa parte de tempero é tudo aqui mesmo, já é um gasto que a gente tá acostumado a ter cortado. (MANU)
Na família Manoel, o período em que tiveram menor acesso aos alimentos foi nos anos iniciais do assentamento, em que as filhas ainda eram crianças, a horta não era formada e era preciso trabalhar fora para suprir a demanda da casa. Ou seja, o acesso à alimentação passava exclusivamente pela compra, para a qual o dinheiro era necessário:
Não tinha essa coisa de... hoje a gente tem cartão de crédito, não recebeu ainda? Num segundo você vai lá... não tem o que fazer... e você compra. Mas antigamente não tinha isso, era só dinheiro, dinheiro, dinheiro, então se você não tinha o dinheiro, não tinha comida. (MANU)
Ou seja: sem dinheiro, sem comida. E era através da maior disponibilidade desse que percebiam o acesso ampliado à alimentação. É por isso que no período de maior participação nos programas de compras públicas tinham mais fartura, não só pela disponibilidade plantada, da qual parte ia pra mesa, mas também pela renda obtida com o escoamento:
Entrava mais dinheiro e as coisas antigamente eram mais acessíveis. Eu falo que hoje a gente entra no mercado com 100 reais, você não vai comprar nada e antigamente, nessa época, você entrava no mercado com 100 reais, você conseguia comprar uma mistura, comprar um arroz, um feijão, você comprava muita coisa, era coisa que durava mais tempo né... mas eu digo assim que antigamente a gente comia muito também aqui em casa, a gente sempre teve essa coisa de fazer muita comida, então automaticamente todo mundo comia muito, fazia muito. (MANU)
Em relação às compras da família no mercado, as estratégias para economizar e ter mais diversidade de alimentos, além de diminuir a quantidade consumida e dispor da horta, mencionavam o consumo dos legumes e frutas do trabalho da irmã:
Como a minha irmã trabalha no hortifrúti, a gente consegue muita fruta e muita verdura que ela traz de lá. Vai tirar da banca?, vai jogar fora?, então ela fala: “não joga fora não que eu levo pra casa”. Então isso já ajuda muito, que daí já é um dinheiro a menos que a gente gasta. Então o nosso [gasto] é mais com o mantimento, arroz, feijão, óleo. Está caro. A gente fala assim “a gente gasta pouco”, mas nem tanto, porque cada vez que vai no mercado para comprar só isso já fica muito dinheiro lá. [...] A gente compra bastante pão de forma, bolacha de água e sal, porque, assim, bateu uma fome? toma cafezinho, come uma bolacha [...]. A gente tá cortando mesmo, porque diminui a renda e já tem que começar se policiar para diminuir os gastos também. [...] Se tiver, a gente come, se não tiver, a gente não come. Tá muito fora da nossa realidade o valor das coisas. [...] Minha mãe ensinou assim: a comer de tudo pra não dar esse problema. Então a gente comia pé de frango, a gente adora aqui em casa,
a gente come bem pé de frango, é [...] peito de frango. Que é essas coisas que tá mais barato, mas agora nem isso também. (MANU)
Apesar das diferentes estratégias que a família utilizava para suprir o consumo de alimentos, em que esses passavam por lugares e valores diferentes, o dinheiro ou a falta dele seria o fator que mais impactaria a alimentação dos Manoel, pois também era através das relações intermediadas por ele (produção, comercialização e trabalho fora) que a alimentação era alçada.