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2 OS AGRICULTORES DO VALE DO PARAÍBA PAULISTA: CONHECENDO OS

3.2 O caipira diante das transformações

3.2.2 Relações com o poder público

Dentro da sociologia reflexiva, situam-se os agricultores em relação ao Campo da agricultura no Brasil. E, nesse Campo, o Estado seria uma importante instituição que atua construindo e reforçando as regras de funcionamento do jogo.

Em nome da racionalidade produtiva, o governo nacional foi um agente fundamental para a modernização da agricultura. Conforme dito anteriormente, a partir dos anos 1960, foi instituída uma série de políticas para o setor: investimento em pesquisas (Embrapa e Embrater) e linhas de créditos para a adoção de inovações (Sistema Nacional de Crédito Rural), de acesso aos insumos (Plano Nacional de Fertilizantes e Calcário Agrícola, 1974; Plano nacional de

Defensivos Agrícolas – PNDA, 1975; II Plano Nacional de Fertilizantes, 1987), de escoamento (Política de Garantia de Preços Mínimos) e contra perdas (Programa de Garantia da Produção).

Houve também medidas favoráveis ao setor de processamento (construção de grandes plantas agroindustriais), investimento nos canais de distribuição (rodovias), programas de promoção para expansão da fronteira agrícola no cerrado e na floresta amazônica, além de mudanças na legislação sanitária que colocavam limitantes aos sistemas de produção domésticos, favorecendo a agroindustrialização (NIERDELE;WESZ JR., 2018).

No entanto, como também foi dito, essas medidas favoreciam produções específicas (para a exportação), ficando restritas a algumas regiões do Brasil, e tinham a produção de subsistência como sinônimo de atraso. Ou seja, elas não contemplavam o agricultor tradicional, aquele que lidava com a terra para o sustento de sua família.

Na história recente, as relações do Estado com os agentes do Campo da agricultura podem ser resumidas da seguinte forma: de um lado, estariam os herdeiros dos beneficiados com a modernização da agricultura, os agentes do agronegócio; e, de outro, os descendentes da agricultura tradicional de subsistência e comercialização de excedentes, as famílias de agricultores. Essas são classificações generalizantes, que servem apenas para dar seguimento a nossa análise em relação às políticas públicas, pois, na prática, consideramos que há inúmeras outras combinações de agentes da agricultura com o Campo.

O agronegócio foi um termo criado nos Estados Unidos, nos anos 1960, para designar a nova política alimentar derivada da Revolução Verde. A mobilização discursiva do termo ajudava a distanciar a agricultura moderna da tradicional e aproximá-la do interesse empresarial de torná-la um negócio como outros. Esse termo, e seus representantes, ganham força no Brasil nos anos 1990.

Segundo Ribeiro Neto (2018), nesse período, para legitimar a importância do setor, os representantes do agronegócio tinham como discurso aquela mesma justificativa utilizada na implementação da Revolução Verde: a garantia do abastecimento alimentar. Mas apelavam, também, para a questão econômica, sendo um importante setor para o superávit da balança comercial do país. Assim, o termo “agronegócio” era instrumentalizado politicamente, beneficiando uma parcela específica de empresas, proprietários rurais e políticos.

A mobilização do termo “agricultura familiar” é próxima desse período, ganhando expressão política no país no final dos anos 1980. O contexto da construção desse termo no Brasil já foi, exaustivamente, discutido por outros autores (ABRAMOVAY, 1992;

ALENTEJANO, 2015; SCHNEIDER, 2003).Aqui, nos interessa saber que esses agentes, antes

tidos como “camponeses”, “trabalhadores rurais”, “pequenos proprietários” e etc., ou seja, tudo aquilo que não era o latifúndio agroexportador, ficaram à deriva do poder público até os anos 1990.

A categorização “agricultura familiar”, em nome da “viabilidade produtiva”, desconsiderou a multiplicidade de formas das quais as famílias lançavam mão para dar conta de suas necessidades sociais e econômicas e contemplou apenas parte desses agentes dentro do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), lançado em 1996.

Até o período recente, o agronegócio continuou beneficiado pela concessão de créditos, construção de infraestruturas, isenções fiscais e tributárias (NIERDELE;WESZ JR., 2018). E, apesar dos avanços com o PRONAF (2000/2010) em abarcar uma “agricultura familiar” mais diversa, as políticas para esses agentes continuavam menos expressivas quando comparadas aos montantes empregados no agronegócio.

Os últimos governos (2015/2018) diminuíram ainda mais o apoio à “agricultura familiar” ao limitar os investimentos dos programas de escoamento da produção (PAA e PNAE) e desmontar órgãos consultivos (CONSEA) e instituições que prestavam assistência técnica (CATI).

A ausência de apoio pelo poder público é sentida também localmente. Conforme demostramos anteriormente, o apoio à agricultura não era uma prioridade no Vale do Paraíba Paulista54, e as atuações nas áreas rurais estavam centradas, sobretudo, entre o turismo e a

“preservação” ambiental.

Nas cidades onde moram as famílias dos casos acompanhados, os documentos dos Planos Diretores indicaram algumas questões sobre como essa população e seus locais são tratados. Inicialmente o bairro Ribeirão Grande era identificado como um Núcleo Rurubano (PINDAMONHANGABA, 2006), atualmente ele foi reclassificado como pertencente à macrozona urbana, sendo uma “Zona de Ocupação Restrita”, que visa a impedir o avanço urbano (PINDAMONHANGABA, 2022), devido à Área de Proteção Ambiental da Serra da Mantiqueira.

54 Willems (1947) também apontou sobre o papel dos governos locais, nos anos 1940, na tentativa de incluírem novos cultivos em Cunha/SP. Esses eram o de batatinha (termo utilizado pelo autor), trigo e fumo. O primeiro vingará, convivendo com as culturas tradicionais; o último se limitou em fornecer matéria-prima (o fumo de corda), que já é comum na região; já o trigo não havia prosperado. Fracassou, também, a tentativa de introduzir uma raça maior de suínos, que, principalmente, por seu volume, não podiam ser carregados nos transportes utilizados na época (o feito por outros animais). São exemplos que mostram a tentativa do governo em trazer aquilo que é de fora, nem sempre condizente com a população local.

Em Santo Antônio do Pinhal, o documento, ao não fazer menção ao termo rural, classifica essas áreas como aquelas que não são da Zona Urbana, mas que poderão ser algum dia, chamando-as de “Zona Urbana de Expansão” (SANTO ANTÔNIO DO PINHAL, 1999).

Já em Tremembé, haveria uma Macrozona Rural, que incluiria as áreas destinadas à agropecuária, de interesse arqueológico, conservação, proteção e recuperação ambiental, até as áreas dos aterros sanitários e das unidades prisionais (TREMEMBÉ, 2014). Colocar os assentamentos no mesmo zoneamento do local destinado ao descarte de lixo e dos presídios poderia ser algo exclusivamente relacionado à divisão espacial física, se não tivéssemos nos deparado com essa frase durante as entrevistas:

Se o prefeito não faz nada a gente vai tocando, quando o prefeito faz um pouquinho... como condução e estrada... vai muito bem, mas a maioria dos prefeitos atrapalham... tudo que é ruim é associado ao assentamento...

vagabundo, roubo de carro, maconha, lixo. (FUNCIONÁRIO DO ITESP)

Essa fala foi seguida de uma afirmação sobre os governos locais. Se eles pudessem escolher, dariam preferência para a instalação de mais um presídio na região, em detrimento de um assentamento55.

Nos assentamentos, muitas dimensões da vida do assentado passariam por determinações dos poderes públicos. Por se tratar de uma população sem recursos financeiros, só o acesso à terra não bastaria, haveria a necessidade de infraestrutura nesses locais, em que tivessem estradas de boa qualidade, acesso a água e energia, créditos habitacionais, acesso ao transporte público, postos de saúde e escolas, bem como a necessidade de fomentos para a formação da produção, processamento (agroindústria), escoamento e assistência técnica.

A articulação entre essas políticas seria responsável pela qualidade de vida dessas famílias e, consequentemente, possuiria um papel relevante para a qualidade alimentar (MALUF; ZIMMERMANN, 2020). Não à toa, a época de mais fartura de alimentos para as famílias Ribeiro e Manoel foi relacionada ao período de maior participação nos programas do PAA e PNAE, em que a produção era abundante, possibilitando o consumo direto mais diverso e a compra de mais alimentos, através do recebimento desses programas.

55A relação entre esses grupos não seria só pela proximidade de zoneamento: através de compras institucionais, os assentados contribuíam para o abastecimento alimentar dos presídios da região. Ao falar sobre isso, o Sr.º Ribeiro concluiu que os encarcerados viviam muito bem, às vezes melhor do que eles (os assentados), pois tinham tudo “do bom e do melhor”, e que o justo mesmo seria que eles trabalhassem para produzir a própria comida.

O recuo de tais políticas públicas foi o motivo expresso de maior descontentamento dessas famílias com o governo federal atual: “não temos mais a merenda escolar, não tem PAA [...] como é que pode um governo entrar e ir tirando tudo?” (SR.ª RIBEIRO).

A intenção, ao trazer aqui as políticas públicas para o Campo da agricultura e as relações dos governos com os agentes rurais nas diferentes instâncias, é mostrar que as decisões dessas instituições podem ampliar ou reduzir o Campo dos possíveis das famílias de agricultores, modificando suas relações com a produção e o consumo de alimentos.

As políticas públicas (ou a ausência delas) atingem os casos acompanhados de diferentes formas, não só os assentados. Os Oliveiras também se mostravam descontentes com o governo federal, mas o principal motivo de sua reclamação era a liberação crescente de mais tipos de agrotóxicos. Por outro lado, essa família mantinha uma boa relação com o governo municipal:

tinha algumas amizades entre os representantes, participava de órgãos consultivos e viabilizava feiras de produtores.

Já na família Cunha, o sentimento era de abandono pelo poder público. Eles não conseguiam acessar nenhuma política para a agricultura, por não poderem comprovar a atividade, devido à condição da terra. O Sr.º Cunha mostrava-se indignado sobre as condições impostas para o acesso às linhas de financiamento do PRONAF: “Eles disseram que precisa ter no mínimo um hectare [...] você acha que se eu tivesse um hectare pra plantar ia precisar emprestar dinheiro?” (SR.º CUNHA).

É também pela falta de documentação que a Sr.ª Cunha não conseguia se beneficiar da aposentadoria rural, a despeito das regras justificadas para evitar fraudes. Não se pode desconsiderar casos como o dessa família, em que as formalidades impostas não eram parte da vida dessas pessoas. Um contrato de trabalho, posse de terra ou de casamento não se fazia necessário para que essas relações fossem estabelecidas.

As regras e o contexto que envolvem a concessão do direito à aposentadoria rural mostram, mais uma vez, o peso da instituição Estado no Campo da Agricultura e na legitimação de quem é o trabalhador ou a trabalhadora rural, principalmente quanto às especificidades dos que não são assalariados e vivem sob a economia familiar produtiva.

É preciso considerar que o modelo de previdência social do setor urbano, com base em períodos e rendimentos regulares, não contempla as formas de trabalho no rural, e fez parte do histórico da concessão desse direito o atraso em relação às outras categorias de trabalhadores.

Ocorre uma das primeiras iniciativas só por volta dos anos 1970, com o Programa de

Assistência Rural (PRORURAL), tendo uma contrapartida que correspondia a metade do valor de um salário mínimo (BRUMER, 2002).

Como se não bastasse, a efetivação desse benefício para as mulheres rurais foi ainda mais tardia,

principalmente porque, para poder receber os benefícios da previdência social deviam, antes de mais nada, ser reconhecidas como trabalhadoras rurais. Esse reconhecimento, por sua vez, era de difícil comprovação, tendo em vista que grande parte do trabalho feito por elas é invisível, sendo geralmente declarado como “ajuda” às tarefas executadas pelos homens e, com frequência, restrito às atividades domésticas, mesmo que essas incluam atividades vinculadas à produção. (BRUMER, 2002, p. 52)

A legislação tinha como foco o indivíduo para a concessão do benefício, o que era um obstáculo a mais para a mulher, principalmente por sua forte atuação no trabalho familiar. Ou seja, para serem vistas como público de direito da previdência social e terem outros direitos trabalhistas (como o salário-maternidade), elas precisavam, antes de mais nada, não serem vistas somente como dependentes de seus maridos ou pais.

Com a mobilização organizada dessas agentes, somada às estratégias políticas (BRUMER, 2002), houve avanços que consideravam a particularidade do trabalho da mulher dentro da família rural após a Constituição de 1988. Mas, ainda em tempos recentes, elas enfrentam problemas no reconhecimento do direito à aposentadoria rural, pois a documentação exigida para a comprovação da atividade, o título da propriedade, os contratos, as notas de vendas, quando existentes, são feitas, muitas vezes, em nome dos homens, dando continuidade à invisibilidade do trabalho da mulher rural.

Em uma pesquisa publicada em 2017 sobre a concessão da aposentadoria especial rural na Paraíba, Neri e Garcia evidenciaram que os posicionamentos dos magistrados se valiam das subjetividades para reafirmar hierarquias e preconcepções entre o trabalho do homem (“pesado”) e o da mulher (“leve”) nas audiências. Deixam evidente que há atividades exercidas no trabalho no campo que são mais legítimas para o reconhecimento do trabalhador rural que outras. Essas seriam a do “roçado” e “com a enxada” (NERI;GARCIA, 2017, aspas das autoras), que produziriam características físicas e comportamentais capazes de serem identificadas na presença dos agentes:

Desse modo, os magistrados acreditam que a pele queimada e com manchas de sol, as mãos calejadas, um “certo odor”, a vestimenta e a linguagem utilizada pelos agricultores podem ser percebidos diretamente a partir de sua vasta experiência com outros agricultores, sendo uma prova difícil de ser fraudada. (NERI;GARCIA, 2017, p. 117)

Tendo em vista os julgamentos realizados dentro do regime do trabalho familiar, o benefício à mulher, quando concedido, também apontava que não era por reconhecimento da sua atividade como trabalhadora rural, mas como membro do grupo doméstico que exercia uma atividade “auxiliar” ao filho ou ao marido, esses sim os legítimos trabalhadores rurais.

Fazendo um exercício hipotético, ainda que a família Cunha tivesse as provas documentais que permitissem dar entrada no benefício da aposentadoria rural, a Sr.ª Cunha poderia ser julgada como uma trabalhadora rural “não legítima” por exercer, principalmente nos anos recentes, a atividade de comércio da produção agrícola e não o trabalho com a enxada em si, ainda que sua aparência física não negasse os anos de exposição ao sol.

Além dessas questões documentais que balizavam a relação da família com a instituição Estado, em vários momentos, o Sr.º Cunha fazia referência em se sentirem “pequenos” como agricultores e opostos aos “grandes” e, por isso, sem a possibilidade de mudar a sua situação:

Nunca os pequenos tiveram apoio de fazer o melhor. O governo tem esse apoio pra dar pros pequenos, deixava esses maior só pra fora, e expandisse os pequenos pra gente comer, ué! Comer barato. [...] vai montar uma cooperativa em Santo Antônio do Pinhal pra você ver se consegue? Não vai conseguir nem pensar, porque... o que que acontece... o grande não deixa nem começar isso aí, pra não atrapalhar eles, e se fizer também, o que ele faz? Ele compra da cooperativa tudo que é mais barato [...]. O errado pra nós é o certo pra eles, e o certo pra eles é errado pra nós, é complicado. (SR.º CUNHA)

Sobre semente, adubo, tudo essas coisas que vai, né, nós já discutimos isso aí, tudo caro e sem benefício, e tem mais, uma coisa você pode escrever... que isso aí nunca vai conseguir melhorar, nunca vai conseguir melhorar essa área, nunca! Porque os grandes já ganharam poder. (SR.º CUNHA)

Além disso, diante de tantas regras que sua família precisava cumprir por estar em uma área de proteção ambiental e que não a deixava ser beneficiada como “agricultor familiar”, o Sr.º Cunha indignava-se com o tratamento dado para o “grande agricultor”, pois “ele mete o trator, ele derruba árvore, ele ranca, ele cerra rio, ele põe veneno onde ele quiser” (SR.º CUNHA, 2021), e aparentemente não recebiam punição nenhuma por isso.

O poder público que faltava à família foi, recentemente, alçado devido às condições de saúde da Sr.ª Cunha. Por esse motivo, a família chegou até a estrutura de assistência social local, após um “grito de socorro”, pois eles achavam que iam “morrer de fome”. É assim que o Estado passa a socorrer a família, não como agricultores, mas através do benefício de saúde recebido, dos remédios disponibilizados e de cesta básica.