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O Direito e o Estado na perspectiva Rousseauniana

4 CONCEPÇÃO DE DIREITO: DO MODERNO AO CONTEMPORÂNEO

4.1 Direito e Estado: o que revelam as concepções?

4.1.3 O Direito e o Estado na perspectiva Rousseauniana

Enquanto, para Hobbes (2001, p. 36), o estado de natureza é um estado de guerra na medida em que o homem é basicamente mau, agindo como lobo do próprio homem e, para Locke (1998, p. 2), o estado de natureza é um estado de total liberdade, regulando-se as posses e as pessoas de acordo com a conveniência dos limites da lei da natureza, para Rousseau (1978, p. 210), os homens no estado de natureza, não tendo, entre si, nenhuma espécie de relação moral nem de deveres conhecidos, não podiam ser bons nem maus, nem tinham vícios nem virtudes. Para este último, o estado de natureza era o mais próprio à paz e o mais conveniente ao gênero humano.

O homem em estado de natureza surge, segundo Rousseau (1965, p. 153), como uma “máquina engenhosa a que a natureza conferiu sentidos” e, estando na condição “animal menos forte que uns, menos ágil que outros, mas, no conjunto, mais vantajosamente organizado do que todos” os outros animais (1965, p. 146). A natureza é, para este homem, aquilo que mantém todas as suas necessidades físicas: subsistência, proteção e abrigo. Neste sentido, o que prevalece, nesse período, é sua capacidade de instinto.

Segundo Rousseau (1965, p. 148), poder-se-ia dizer que, no Estado de natureza, o homem estaria a “portar[-se] de pleno acordo consigo mesmo”. Espalhado e vivendo em um estado de isolamento, o homem pré-social tem como atributo excelente a liberdade, que tem como determinação a própria natureza.

Como pode ser visto na visão de Rousseau, o estado de natureza não representa uma etapa da história humana, marcada por imprudências a serem superadas pela criação da sociedade civil, como acreditavam Hobbes e Locke. Rousseau atribui a esse estado características positivas a ponto de ser chamado, segundo Leopoldi (2002, p. 59), “o filósofo do bom selvagem, em alusão às qualidades superiores que, a seu ver, exibiam os indivíduos que viviam no estado de natureza. Uma de suas características básicas é entender o ambiente natural como extremamente abundante e acolhedor, a ponto de parecer ter sido criado na medida exata para servir ao homem.”

Para o filósofo, o estado de natureza é um ambiente extremamente favorável à sobrevivência humana, habitado por homens essencialmente bons, que acabam atraídos para uma vida em sociedade, que os corrompe pelas próprias conseqüências negativas, que aparecem sem medida da convivência social.

Nesse novo estado, tendo uma vida simples e solitária, necessidades muito limitadas e os instrumentos que haviam inventado para satisfazê-las, os homens, desfrutando um grande lazer, empregaram-no para obter vários tipos de comodidades desconhecidas de seus pais; e foi esse o primeiro jugo que impensadamente se impuseram e a primeira fonte de males que prepararam para seus descendentes, pois, além de continuarem assim a enfraquecer o corpo e o espírito, ao se habituarem com essas comodidades, estas perderam quase todo o atrativo e ao mesmo tempo degeneraram em verdadeiras necessidades. Assim, a privação delas tornou-se mais cruel do que doce era a sua posse, e sentiam-se infelizes por perdê-las, sem serem felizes por possuí-las (ROUSSEAU, 1978, p. 186).

Nessa perspectiva, Rousseau (1978, p. 190) explica o motivo através do qual o “bom selvagem” abandona o estado de natureza para se conduzir para a sociedade civil, da qual nunca mais se libertará:

À medida que as idéias e os sentimentos se sucedem, que o espírito e o coração se exercitam, o gênero humano continua a domesticar-se, as ligações se estendem e os laços se apertam. Acostumam-se a reunir-se defronte das cabanas ou à volta de uma grande árvore; o canto e a dança, verdadeiros filhos do amor e do lazer, tornaram-se a diversão, ou melhor, a ocupação dos homens e das mulheres ociosos e agrupados. Cada qual começou a olhar os outros e a querer ser olhado por sua vez, e a estima pública teve um preço.

Noto que, enquanto, para Hobbes e Locke, o estado de natureza representa algo real, para Rousseau, ele compreende uma hipótese. Enquanto o homem vivia solitário, espalhado na natureza em estágio primitivo, conseguia manter seu aspecto bom, simples e feliz como diz Rousseau (1965, p. 155): “o homem selvagem, privado de todas as luzes, não experimenta senão as paixões desta última espécie. Seus desejos não vão além de suas necessidades físicas; os únicos bens que conhece no universo são a nutrição, uma mulher e o repouso; os únicos males que teme são a dor e a fome”.

Entretanto, ao passar a viver em grupo, sentimentos como inveja, cobiça, ambição, vaidade, também foram compartilhados de modo que originaram as lutas constantes pelo poder e pela propriedade. As palavras do filósofo demonstram esta passagem:

Aquele que cantava ou dançava melhor; o mais belo, o mais forte, o mais hábil ou o mais eloqüente passou a ser o mais considerado, e foi esse o primeiro passo para a desigualdade e para o vício ao mesmo tempo; dessas primeiras preferências nasceram, de um lado a vaidade e o desprezo, do outro a vergonha e o desejo; e a fermentação causada por esses novos germes produziu por fim compostos funestos à felicidade e à inocência. (...) A partir do instante em que um homem necessitou do auxílio do outro, desde que percebeu que era útil a um só ter provisões para dois, desapareceu a igualdade, introduziu-se a propriedade, o trabalho tornou-se necessário e as vastas florestas se transformaram em campos risonhos que cumpria regar

com o suor dos homens e nos quais logo se viu a escravidão e a miséria geminarem e medrarem com as searas (ROUSSEAU, 1978, p.190).

Percebo que, ao contrário de Locke, Rousseau coloca a propriedade não como inerente ao estado de natureza, mas como um ato individual, legitimado pelo Estado, com o nascimento do poder político. Seria um direito criado a partir do momento em que o primeiro homem delimitou uma porção de terra como sua e deu origem ao estado civil. Assim sendo “o primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: isto é meu, e encontrou pessoas bastantes simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil” (ROUSSEAU, 1978, p 222).

Dessa forma, o estado civil surge à medida que os homens assumem um contrato social para, então, viver em coletividade. Rousseau (1978, p. 61) explica a passagem do estado de natureza para o estado civil e ressalta suas conseqüências:

O que o homem perde, através do contrato social, é a sua liberdade natural e um direito sem limites a tudo aquilo que o tenta e que ele pode obter: o que ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo aquilo que possui. Para não se enganar nestas compensações, precisa distinguir bem a liberdade natural, que não tem outros limites a não ser as forças do individuo, da liberdade civil, que é limitada pela vontade geral, e a posse, que não é outra coisa senão o efeito da força ou o direito do primeiro ocupante da propriedade que não pode ser fundamentada a não ser num título positivo.

A partir do instante em que o homem opta por viver em coletividade e institui o contrato social, surge outra conseqüência: a alienação total; uma vez que “cada um de nós põe em comum sua pessoa e todo o seu poder sob a direção suprema da vontade geral, e recebemos, enquanto corpo, cada membro como parte indivisível do todo” (ROUSSEAU, 1978, p. 33).

O pacto social é o ato, através do qual, o povo se caracteriza como tal. O fato de alienar a sua vontade à de outro, faz o homem perder o seu direito individual de viver, visto que este apenas tem valor em função do Estado, que o garante através das normas do referido pacto. Rousseau (1978, p. 12) é claro nesta afirmação: “Vede, pois, dividida assim a espécie humana em rebanhos, cada um dos quais tem um chefe que o conserva para devorá-lo. Assim como o pastor é de natureza superior à do seu rebanho, os pastores de homens, seus chefes, são de natureza superior à de seus povos”.

A concepção de representatividade no poder decorre da idéia de superioridade legitimada entre vários povos. O filósofo em questão afirma que ela nasce da tendência de

comparação que os homens construíram. Ao referir-se à comparação, Rousseau utiliza o termo amor-próprio, não considerado como amor de si, mas exatamente a vontade de ser economicamente superior em relação aos outros. Isso é bem ressaltado na obra rousseauniana, já que, na sociedade de sua época, era cultivado o valor do crédito, uma vez que o homem era o que, na verdade, tinha.

É preciso não confundir o amor-próprio e o amor de si mesmo, duas paixões muito diferentes pela sua natureza e pelos seus efeitos. O amor de si mesmo é um sentimento natural que leva todo o animal a velar pela sua própria conservação, e que, dirigido no homem pela razão e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. O amor-próprio é apenas um sentimento relativo, factício e nascido na sociedade, que leva cada indivíduo a fazer mais caso de si do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem mutuamente, e que é a verdadeira fonte da honra (ROUSSEAU, 1973, p. 361-362)

A concepção de Estado, em Rousseau, resume-se à vontade geral, resultante do conflito entre as vontades particulares de todos os cidadãos. Sendo assim, defende as assembléias enquanto processos de decisão, uma vez que, havendo uma tendência do homem em colocar seus interesses individuais acima da necessidade coletiva, esse espaço possibilitaria a prevalência do interesse comum.

Ocorre que, para Rousseau, a vontade geral diferencia-se da vontade de todos, que seria apenas a soma dos interesses particulares das pessoas. “Há, às vezes, diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta só atende ao interesse comum, enquanto a outra olha o interesse privado, e não é senão uma soma das vontades particulares. Porém, tirando estas mesmas vontades, que se destroem entre si, resta como soma dessas diferenças a vontade geral” (ROUSSEAU, 1965, p. 32).

Para o filósofo, uma sociedade política e, consequentemente, o Direito são justos quando capazes de garantir a paz social e a liberdade de seus seguidores. Fruto da vontade geral, o Estado Civil apresenta-se como uma exigência racional. E, por ser a vontade geral idêntica a todos, ela é uma “vontade justa”.

O pacto social constituído a partir da vontade geral produz “em lugar da pessoa particular de cada contratante, um corpo moral e coletivo, [...], e que, por esse ato, ganha sua unidade, seu eu comum, sua vida e sua vontade” (ROUSSEAU, 1987, p.33). Pelo referido pacto, cada integrante do corpo político contrata consigo mesmo: “dando-se a todos não se dá a ninguém” (ROUSSEAU, 1987, p. 33). Dessa forma, a vontade de cada um não é alienada na vontade de um só, isto é, não há, no pacto social de Rousseau, um representante da vontade coletiva, tal como é em Hobbes. A soberania é cada um dos membros que formam o corpo

político. A soberania “não sendo senão o exercício da vontade geral, jamais pode alienar-se, e que o soberano, que nada é senão um ser coletivo, só pode ser representado por si mesmo” (ROUSSEAU, 1987, p.43-44).

O Direito é discutido em Rousseau à medida que a legislação permite o movimento e manifestação da vontade do corpo político. “O ato primitivo, pelo qual esse corpo se forma e se une, nada determina ainda daquilo que deverá fazer para conservar-se” (ROUSSEAU,1987, p.53). A lei é o que garantiria a conservação do corpo político e possibilitaria justiça.

Nesse contexto, na visão do filósofo, seria possível o alcance da justiça, na associação civil, se a positivação dos direitos, em forma de lei, representasse a expressão da vontade geral. Dessa forma, o cidadão adquire um novo papel na constituição do estado civil, pois se torna parte da história política, uma vez responsável pela elaboração das leis mediante uma consciência coletiva.

Tal impressão é percebida por Rousseau (1987, p. 120), pois, segundo ele:

O cidadão conserva todas as leis, mesmo as aprovadas contra sua vontade e até aquelas que o punem quando ousa violar uma delas. A vontade constante de todos os membros do Estado é a vontade geral: por ela é que são cidadãos e livres. Quando se propõe uma lei na assembléia do povo, o que se lhes pergunta não é precisamente se aprovam ou rejeitam a proposta, mas se estão ou não de acordo com a vontade geral que é deles.

Rousseau reforça o contrato social por meio das sanções rigorosas que acreditava serem necessárias para a manutenção da estabilidade política do Estado por ele defendido e, diferentemente de Locke, não remete ao Governo a tarefa de elaborar as leis civis, uma vez que isso compete ao soberano. Desse modo, Rousseau busca diferenciar Governo e soberano, afirmando que aquele é apenas um ministro deste (ROUSSEAU, 1978, p. 74), não sendo, portanto, correto confundi-los. Dessa forma, caberia ao soberano ditar as normas e ao Governo executá-las.

Com o intuito de encerrar estas considerações feitas sobre algumas concepções hobbesianas, lockeanas e rousseaunianas, passarei para a análise de outros autores a fim de aclarar ainda mais minha proposta.