• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 5 RELATIVIZAÇÃO DA VERDADE E ABORDAGEM TÓPICA:

5.2 O DIREITO ENTRE VERDADE E VERACIDADE COMO TOPO

E para que se aprofunde a polêmica e que se desdobre à objeção quanto ao uso, em Marx, de um conceito meramente reflexivo de verdade, visto que tal autor sempre deu destaque à realidade do objeto, ou seja, à idéia segundo a qual eles existem independentemente de nosso conhecimento é que se tratará, agora, como desdobramento da dicotomia sistema versus problema, da dicotomia verdade versus veracidade.

E diga-se que a concepção marxista de verdade nada tem a ver com concepções meramente empiricistas e/ ou reflexionistas pelas quais nossas sensações são meras reproduções de fatos brutos tal como se não houvesse processo de elaboração do conhecer e onde a atividade cognitiva não existisse comportando-se os indivíduos como tabulas rasas aonde as impressões iriam apenas se acumulando.

Como frisado quando se tratou da concepção de verdade em Marx, ele teve, ao mesmo tempo, cautela no sentido de evitar a redução de tal tese a um mero clichê e por isto a ressalva a distinção entre aparência e essência, dado que a identificação entre as mesmas tornaria banal a reflexão sobre o conhecimento.

Por isso, ainda que se valorize a experiência, não é demais perceber que a verdade científica é dotada de elementos que a separam do senso comum, que apreende, na maioria das vezes, dos fenômenos o que ele tem de imediato. Enfim, da mesma forma que o idealismo312 é

312 Alguns autores chamam tal atitude de ‘ideísta’, para evitar a conotação pela qual quem combate o idealismo é

um erro típico dos filósofos a supervalorização do empírico seria um erro característico do senso comum.

Talvez a não aplicação radical da distinção kantiana entre verdade e verossimilhança313 tenha dificultado em Marx e seus seguidores a possibilidade de tirar todas as conseqüências de como se dá a busca e obtenção de verdades em campos do saber que não as ciências exatas, onde a capacidade de predição é razoavelmente maior.

E mesmo um campo que lida com um âmbito compreensivo e interpretativo, a história, onde, ao se trabalhar com o conhecimento do passado procura se perspectivar o futuro (embora, evidentemente, esta não seja o objeto de nosso texto), não pode ser - e nem foi tratado por Marx - como um saber meramente ex post factum.

Mas não se olvide o caráter problemático da afirmação anterior, pois se é verdade que, por lidar com fatos - e, portanto, de sua interpretação - a história tem um âmbito compreensivo também é verdade que dela pode se derivar um saber com razoável dose de determinação314, desde que - como no direito - não se abdique de conectar problemas e dele tentar, ainda que com cautelas, obter resultados sistemáticos.

Já é algo bem estabelecido quanto ao nosso campo de saber que o direito não pode se enquadrar como não se enquadram outros ramos das assim chamadas ciências do espírito, nos esquemas causais, típicos das ciências naturais.

E não pode, não apenas porque seu objeto é contingente e moldado pelas circunstâncias, mas pela complexidade – e até impossibilidade – que significaria a tentativa de transposição mecânica das regras e relações necessárias da natureza para a conduta humana. Engels aborda essa questão ao tratar das relações entre liberdade e causalidade, distinguindo a causalidade de

313 Verossimilhança é uma verdade conquanto conhecida por meios insuficientes. KANT, Immanuel. Crítica da

razão pura. São Paulo: Abril cultural, 1999, p. 229.

314 Daí ALTHUSSER afirmar que Marx funda um novo continente científico, a Ciência da história e suas leis, o

uma e de outra. Citando Hegel, ele conclui: a necessidade só é cega na medida em que não compreendida. 315

O âmbito de aplicação da categoria de uma causalidade meramente reflexiva, tal como a conhecemos em alguns fenômenos naturais, é extremamente limitado e, mesmo nessas ciências ela sofre relativizações em função das novas descobertas científicas.

O conhecimento social é, fundamentalmente, relativo, dado que o seu objetivo é de buscar compreender o essencial de cada época e de cada formação historicamente determinada, que – por sua própria natureza – reveste-se de transitoriedade.

Portanto, a aplicação de leis necessárias, deve ser cercada, com muito mais razão, de cautela, nas ciências sociais. As verdades eternas saem perdendo no grupo das ciências históricas, nas relações sociais, nas formas de Direito e do Estado e onde o conhecimento é historicamente situado, problemático e contingente, mas que não exclui a possibilidade de aceitação de determinadas “verdades gerais”.

Para Engels, quem sair por esses domínios à cata de verdades definitivas, não conseguirá reunir grandes despojos, na medida em que verdade e erro, como todos os conceitos que se movem no interior de antíteses, só têm aplicação absoluta dentro de uma faixa muito restrita do conhecimento. 316

Por isso é que para se dar conta da complexidade é que deve se reportar aos aspectos da autodeterminação do jurídico, visto que a explicitação de relações entre infra-estrutura e um fenômeno isolado e destacado de seu contexto, não apresenta nenhum valor cognitivo.

E, pelo exposto, ignorar, em Direito, a particularidade da interpretação e dos fenômenos lingüísticos é reduzir o aspecto ideológico do campo jurídico, ao invés de torná-lo nítido, não

315 ENGELS, Friedrich, Anti-Dühring. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. P. 75 e 96. 316 Idem, p. 95.

sendo possível tratá-los, tão somente, como uma relação reflexa entre base material e vida espiritual317.

É dessa constatação que é o ponto crucial e o cerne da noção de autonomia relativa das esferas que compõem a superestrutura, aí inclusa o fenômeno jurídico. 318

O impasse entre o reconhecimento do direito como ordem coercitiva e a necessidade de interpretar e de produzir sobre normas319 resolve-se na perspectiva de vê-lo como estrutura argumentativa, persuasiva enfim, mas dotado de objetivos sociais e políticos claros, tema a seguir abordado.

Mas antes destaque-se que a compreensão do caráter e da natureza do direito restaria incompleta se não levar em conta que o mesmo, apesar de influenciado pela ideologia, não é pura e simplesmente um fenômeno superestrutural.

O caráter ambíguo da forma jurídica também se revela neste aspecto: sendo parte da superestrutura jurídica e política que é erigida sobre a vida social320, o direito dela sofre incidências, mas, ao mesmo tempo, sobre ela incide visto seu papel constitutivo, pelo que não se pode vê-lo unicamente como parte da superestrutura visto que, através dos aparelhos ideológicos do Estado321, ele se realiza na vida concreta dos humanos.

Como passo a tratar no próximo ponto, a diferenciação, que se consagrou na teoria marxista, entre base e superestrutura corresponde tão somente a um corte metodológico no interior da vida social e que, para ser corretamente operado, necessita de cuidados na definição de seus objetos, sob o risco de se cair em excessivas simplificações.

317 BAKHTIN, Mikhail. (V. N. Volochinov). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: HUCITEC, 1992. P.

39.

318 MIAILLE, Michel. Introdução crítica ao direito. Lisboa: Estampa 1994. P. 74-75.

319 Note-se, de passagem, que Hart resolve tal impasse (isto é, entre direito como normas de regulação de condutas e

a necessidade de fórmulas que regulem a produção destas e que as interpretem) teorizando-o como um sistema que combina regras primárias com regras secundárias.

320 KONSTANTINOV, F. V. El materialismo histórico. Barcelona: Grijalbo, 1978, p. 162-170.

321 Para o conceito de aparelhos ideológicos do estado, ver: ALTHUSSER, Louis. Sobre a reprodução. Rio de

E entre elas as diferentes instâncias que atuam em seu interior, inclusive e especialmente o direito, não se comportam de iguais modos nesse conjunto de determinações. É disso que se irá tratar a seguir e enfrentando de início a concepção que quer reduzir direito à, simplesmente, ideologia.