3.2 VERDADE E CLAREZA NO PRAGMATISMO DE PEIRCE
3.2.1 O pragmatismo como subsídio para pensar uma crítica marxista à
jurídica
Os elementos para a discussão peirceana acerca da verdade, no fundamental a idéias das conseqüências práticas, são também comuns nas idéias de outros pragmatistas como James.
No pragmatismo de James, de matriz individualista, a verdade é vista como o que é operativamente útil191.
Ainda que não seja sua preocupação principal criticar o conceito de verdade como correspondência, em The Principles of Psychology , quando analisa as associações como processos do pensar, James questiona como se dá as conexões entre pensamentos, isto é, os princípios da conexão entre pensamentos.
E ao questionar qual sorte de ligação se constrói, se entre pensamento ou de um pensamento com outro, traz indiretamente uma reflexão acerca da concepção ontológica de correspondência.
Tal reflexão enseja a conclusão que se há possibilidades distintas de como os pensamentos se associam, logo uma verdade como possibilidade a priori resta questionada e afastada em detrimento de verdades possíveis192.
São estas verdades possíveis ou a verossimilhança (o que se aparenta como verdade) que constituem a interpretação desenvolvida pelo discurso judicial.
Na 6ª conferência Pragmatism’s conception of truth, James inicia ilustrando com o exemplo de Clerk Maxwell (físico escocês famoso pelos trabalhos sobre eletromagnetismo) que quando criança ao ser apresentado a um fenômeno qualquer e com vaga explicação exigia saber o
191 JAMES, William. A concepção da verdade no pragmatismo. In: Pragmatismo e outros textos. São Paulo:
Abril, 1979, p. 73 e 80. E completa: “assim como a verdade é o conveniente no caminho do pensamento, o direito é o conveniente na escolha de nossos comportamentos”.
192 JAMES, William. The principles of psychology. In: Greats books of the western world. N.53. Chicago:
sentido exato ou a linha particular do dito (the particular go of it!). Aduz daí que sobre a linha particular da verdade temos um acordo/ consentimento com a realidade, assim como a falsidade seria o desacordo. O valor prático de idéias verdadeiras é, pois, derivado primariamente da importância pratica de seus objetos para nós. Deste ponto de partida coloca que a questão não é se há ou não um acordo, mas precisamente o que significa o termo acordo e realidade.193
Dewey, por sua visão de caráter mais comunitário194, busca num âmbito mais amplo, o seu teste de verificação.
Por sua vez, no pensamento de Peirce ela centra-se na formulação pela qual a idéia que se faz de algo é a de seus efeitos sensíveis195.
Essa vinculação comum com a prática não ocorre por acaso e sim porque em tal campo filosófico a experiência ocupa lugar central como critério fundamental de verdade das proposições.
Assim, o pragmatismo coloca-se essencialmente como uma filosofia prática, entendida enquanto elenco de regras voltadas a encontrar soluções contextuais, isto é, voltada para a obtenção de conseqüências desejadas.
Isto não implica em confundi-lo com um utilitarismo tosco e sim situá-lo sob a ótica de uma perspectiva moral prescritiva que busca, no âmbito da razão prática, soluções afastadas de qualquer idéia de “verdades prévias” e descomprometidas com qualquer ontologia da verdade.
Tal campo aposta na idéia pela qual o fundamento das regras de ações são as crenças que se têm e se as mesmas atendem às finalidades perseguidas e somente em tal modo de ver - isto é
193 JAMES, William. Pragmatism. Lecture VI. New York: Dover, 1995, p. 76-77.
194 Embora dotado de uma visão social e, confessadamente, admirasse a experiência soviética, Dewey manteve, no
essencial, seus preconceitos em relação ao modelo socialista. Ver, por exemplo: DEWEY, John. Freedom and
culture. New York: Capricorn books, 1963, especialmente a parte onde tenta comparar o que chama de regimes
econômicos totalitários e as democracias. P. 74-102.
195 PEIRCE, Charles S. Cómo esclarecer nuestras ideas. Traduccion: José Vericat. In: www.unav.es/gep, p.6.
de sua ação e utilidade no âmbito concreto - é que elas devem ser avaliadas e por isso mesmo julgadas verdadeiras196.
Também as idéias de Peirce acerca da natureza da ciência eram centradas na atividade humana no sentido de criar e justificar as teorias científicas.
Afastando qualquer concepção metafísica de verdade, Peirce lembra que as teorias científicas são assim tomadas a partir do reconhecimento de quatro características fundamentais (das quais a primeira reforça a velha observação marxista pela qual se a verdade fosse evidente a ciência ficaria destituída de qualquer papel), essas características são: em primeiro lugar, as teorias científicas fazem referências a ente reais, porém não observáveis (tese esta claramente antipositivista), em segundo lugar, tais teorias relacionam entidades não-observáveis com o que pode ser observado; em terceiro lugar, teorias não visam explicar fatos singulares e sem regularidades no comportamento dos objetos e, por fim, as teorias científicas são postuladas por inferências abdutivas e testadas em inferência dedutiva.197
Coerente com tais características é que o pragmatismo procura focar a verdade no que diz respeito às suas conseqüências práticas colocando-se, no campo gnosiológico, como uma filosofia que procura responder a questão de como se dá o conhecimento.
Por isso analisa o lugar da experiência não na visão tradicional do empirismo que a via como aprendizagem com o passado e sim a apontando como aprendizagem para a prática, isto é, para o futuro.
196 EINSENBERG, José. Pragmatismo jurídico. In: BARRETTO, Vicente. (org.) Dicionário de filosofia do direito.
São Leopoldo / Rio de Janeiro: UNISINOS / Renovar: 2006, p. 656,-657.
197 SHOOK, John. Os pioneiros do pragmatismo americano. Rio de Janeiro: DP & A, 2002, p. 65-66. Sobre o
conceito de abdução enquanto processo voltado para formar hipóteses explicativas, ver: PEIRCE, Charles S. “Conferências sobre pragmatismo - 6ª Conferência: Três tipos de raciocínio”. In: Peirce: Escritos coligidos. São Paulo: Abril cultural, 1980, p. 44, 46-47.
Assim, numa outra aproximação prática com o marxismo198, eles apontam a experiência como um banco de provas e de verificação do próprio conhecimento, sendo a mesma uma abertura que cria horizontes diferenciados em relação ao futuro, o que constitui uma perspectiva radicalmente nova em relação ao empirismo tradicional.199
Para Peirce, o enfrentamento da questão acerca do status gnosiológico da experiência era crucial.
No texto, já citado, ”Como tornar claras as nossas idéias”, em que fundamentou as bases de sua visão do pragmatismo – termo por ele cunhado e que depois mudou – ele afirma expressamente que os princípios ali expostos levam diretamente a um método cujo objetivo seria obter claridade de pensamento em maior grau que a mera distintividade dos lógicos, coisa que, considerava, só seria possível pelo teste da prática.
Dessa forma o pano de fundo que molda o cenário de tal concepção fundamenta-se na crença de que idéias às vezes podem se apresentar de forma obscura e hermética, ou seja, inacessível ao entendimento.
Mas, sempre que isso ocorre faz-se necessário desdobrá-la em fatos da experiência a fim de que se tornem efetivamente claras e distintas e, em tal condição, verificar sua veracidade ou falsidade.
198 Apesar da tradição oriunda do marxismo clássico e dos adeptos de Trotski negarem qualquer identificação. Ver,
por exemplo, os comentários de Lênin, em “Materialismo e empiriocriticismo; os de Gramsci, nos “Cadernos do cárcere”; os de Guy Besse, em “Práctica social y teoria”; a critica do escritor trotskista George Novack. Coube a Stalin, um marxista que não goza da menor simpatia dos círculos filosóficos, o mérito da defesa e a fixação de pontos comuns entre essas duas correntes. LENIN, Vladimir. Materialismo e empiriocriticismo. Lisboa: Estampa, 1975, p. 308; GRAMSCI, Antonio. Quaderni del cárcere. Torino: Einaudi, 1975, p. 1925-1926 (Gramsci e Lênin criticam, especialmente, James); BESSE, Guy. Práctica social y teoria. México: Grijalbo, 1969, p. 101-104, (item III.3); NOVACK, George. Marxism versus pragmatism. New York: Pathfinder, 1975, p. 9-16 (Besse e Novack examinam, com clara má-vontade, as relações entre marxismo e pragmatismo); STALIN, Josef. Os fundamentos do
leninismo. São Paulo: Global, 1977, p. 103 (nessa obra, originalmente conferências pronunciadas na Universidade
de Sverdlov, em abril de 1924, com caráter de literatura de propaganda, portanto uma retórica de segundo nível, Stalin, define o perfil do militante comunista: “ele deve ter duas características: o ímpeto revolucionário russo e o sentido prático norte-americano”).
199 BROWNE, George. William James e outra vertente do pragmatismo: o psicologismo fenomenológico. In:
Isto porque, como esclarece Browne200, as idéias não obstantes possam ser apresentadas com clareza podem não ser verdadeiras, pelo que o princípio pragmático opta claramente por não se preocupar apenas em concretizar a idéia de verdade, mas também com a precisão lógica do que se afirma e cuja comprovação requer, como é óbvio, análise.
Isto significa dizer que a máxima pragmática acerca da verdade não é um critério de verdade e sim critério de significação - ou seja, um critério lingüístico - na medida em que uma concepção de verdade não se sustenta por si mesma, como se a filosofia pudesse ser salva apenas porque se ofereceu a ela um conceito pragmático de verdade201 e não apenas, e mais modestamente, um critério de aferição dos seus significados e efeitos práticos concebíveis.202
A regra para alcançar tal grau seria considerar que os efeitos que possam ter repercussões práticas e as nossas concepções acerca dos mesmos é o que constitui toda nossa concepção sobre um objeto dado. 203
E é isso que será tratado quando, na exposição do próximo tópico, se discute de que modo a tradição jurídica pátria enfrentou o problema da clareza e distinção, focado por Peirce quando este empreendeu sua crítica ao espírito do cartesianismo.
200 BROWNE, George. “O pragmatismo de Charles Sanders Peirce: conceitos e distinções”. In: Anuário dos Cursos
de Pós-Graduação em Direito. Recife: UFPE / FDR / PPGD, 2003, n. 13, p. 237-238.
201 DE WAAL, Cornelius. Sobre pragmatismo. São Paulo: Loyola, 2007, pp. 25-26, 39-41, 46-50
202 Em razão de tal concepção acerca do pragmatismo clássico, Dworkin afirma ser o pragmatismo uma concepção
céptica ao negar que as decisões do passado não contribuem de princípio, com a justiça ou a virtude de qualquer decisão atual. Ver: DWORKIN, Ronald. El imperio de la justicia. Barcelona: Gedisa, 1992, p. 115-121.
203 PEIRCE, Charles S. Cómo esclarecer nuestras ideas. Traduccion: José Vericat. In: www.unav.es/gep, p.6.