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O discurso de “verdade”

No documento IN MEMORIAM (páginas 57-61)

Capítulo 2–Navegando pelas águas da Palavra

2.1 GESTOS DE DISCURSO: JORNALISMO

2.1.1. O discurso de “verdade”

2.1.1. O discurso de “verdade”

Retomo a atualidade de Peucer (2004) que, em 1690, descreveu a necessidade dos jornalistas perseguirem a verdade, tal como se lê no 13º capítulo da tese: “relaciono com a vontade do escritor de periódicos a credibilidade e o amor à verdade. Não seja o

11 A referência à independência dos Estados Unidos pode ser lida em Kunczik, 2002.

58 caso que, preso por um afã partidário, misture ali temerariamente alguma coisa de falso ou escreva coisas insuficientemente exploradas sobre tema de grande importância”

(PEUCER, 2004, p.19).

O princípio da objetividade em textos jornalísticos, que faz com que os mesmos se aproximem da “verdade”, na opinião de teóricos e profissionais, teria por base quatro acontecimentos: a criação das agências de notícias, o desenvolvimento industrial, as guerras mundiais e o advento da publicidade e das relações públicas. As agências vendiam notícias por atacado e, com a ampliação do leque de clientes, a mesma redação deveria servir a todos, ou seja, com um certo grau de imparcialidade para atender a banqueiros, governo, comerciantes e quem mais comprasse o produto informativo (AMARAL, 1996).

Extra, Extra! Aos brados os jornaleiros da pennypress anunciavam mais uma notícia espetacular, um crime, um fato extraordinário da comunidade americana – mudança editorial que renderia aos jornais crescimento nas vendas e, em consequência, se há boa tiragem, os anúncios aparecem na sociedade que se industrializa. Anunciantes que sustentam o parque gráfico dos empresários da comunicação não podem ser

“desagradados” com opiniões ou preconceitos nas matérias; leia-se, portanto: quanto mais neutralidade, mais anúncios.

E com a inserção de profissionais de relações públicas no mercado (que precederam ao cargo ocupado hoje por assessores de imprensa), ainda de acordo com Amaral (1996), os jornalistas americanos trataram de separar, ainda mais, o caráter interpretativo e opinativo dos fatos (dados fornecidos pelas relações públicas), de seu relato imparcial.

O modelo do jornalismo americano, tendo o mito da objetividade/neutralidade como verdade inquestionável, foi prontamente seguido no Brasil. Aqui, esse fato se deu em meados do século XX, quando as condições sociais e políticas do país favoreceram o desenvolvimento de uma imprensa massiva. A reforma dos jornais (começando no Rio de Janeiro e depois chegando aos outros estados) com a saída de cena do chamado

“nariz-de-cera”12 e das crônicas jornalísticas, para a entrada do lead nas notícias, aos

12 “Nariz-de-cera” é jargão jornalístico para um enorme contexto periférico sobre a notícia que venha escrito antes do fato principal.

59 moldes norte-americanos foi decisiva para um novo conceito sobre o fazer jornalístico brasileiro13.

O lead é uma técnica de redação, em pirâmide invertida, que em resumo significa colocar as informações principais no começo do texto e não na base (o quê, quem, quando, como, onde e por quê), invertendo a prática da escrita norte-americana que, até então, se caracterizava pelo desenvolvimento contextual no entorno dos fatos, antes de revelar o que seria essencialmente a notícia. Em jornalismo de televisão, por exemplo, o “o quê” já deve estar no texto a ser lido pelos apresentadores dos telejornais.

Outro traço de influência americana no telejornalismo brasileiro seria o livro Television News, de Irving Fang, inspiração do manual da Rede Globo, por sua vez fonte de inúmeras cópias e adaptações em outras emissoras e mesmo nos cursos de Comunicação Social / Jornalismo. Publicado em 1972, o livro tem um caráter de guia básico de treinamento em telejornalismo [...]. Com relação à redação da notícia, o livro traz uma série de recomendações como “o repórter ou redator deve considerar a audiência como uma pessoa apenas, clareza, precisão e imparcialidade como exigências das notícias em TV (lembrando que três séculos atrás, Tobias Peucer já havia mencionado a necessidade de clareza e concisão na linguagem dos periódicos). Entre os profissionais de TV que publicaram obras abordando linguagem e formato jornalísticos de acordo com os manuais de redação, destacam-se: Paternostro (1999), Curado (2002) e Barbeiro (2002).

Em clássica obra do jornalismo americano, “Opinião Pública”, Lippmann (2008) defende a objetividade como um ideal a ser alcançado na atividade jornalística. E, como tal, embora permaneça ideal que se sabe inatingível, foi esse valor profissional, identificado na adoção do método de se ouvir “todos os lados de uma notícia” que deu, à imprensa, credibilidade junto ao público (leitores, telespectadores, ouvintes, seguidores digitais). Por trás da noção de que uma reportagem objetiva é possível, está a ideia de que a informação apresenta-se com tal equilíbrio, que permita aos seus receptores formar sua própria opinião.

13 Às referências à reforma dos jornais, como o Diário Carioca e Jornal do Brasil, podem ser lidas na Revista de Comunicação nº 30, de 1992.

60 Crença viva entre nomes consagrados da mídia brasileira. Treze jornalistas foram entrevistados para o documentário “O Mercado de Notícias”14 que estreou nas salas de cinema em agosto de 2014. O tema da objetividade jornalística veio à pauta e, para ilustrar, reproduzo três declarações:

Fernando Rodrigues: “o desafio diário do jornalista é tentar perseguir ao máximo uma objetividade que é evidentemente inalcançável, mas ela é

‘perseguível’, então, é perseguir essa objetividade e traduzir isso no produto final do seu trabalho” (Jornalista da Folha de São Paulo).

Geneton Moraes Neto: “talvez a realidade seja irreproduzível. Mas o que a gente pode dizer a favor do jornalismo é que talvez a coisa que tenha chegado mais perto de reproduzir a realidade tenha sido o jornalismo. Primeiro com o talento, a capacidade de observação do repórter, e, com o passar dos anos, décadas e séculos, com o avanço dos equipamentos” (Jornalista da Globo News).

José Roberto de Toledo: “sempre vai ter uma interpretação por mais factual e concreta e hard que seja a base das informações, sempre vai ter um viés ou mais de um viés. Você precisa estar constantemente tentando corrigir os seus vieses e se você disser que não tem viés nenhum, é sinal de que você tem muitos” (Jornalista da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).15

Mas a objetividade jornalística, alerta Barbosa (1995), há muito tempo é considerada uma falácia. Ao priorizar e hierarquizar os fatos – com critérios subjetivos – o que o jornalismo faz é criar uma memória futura do próprio acontecimento. “E é essa capacidade de ser um dos senhores da memória da sociedade que lhe dá um inegável poder” (BARBOSA, 1995, p.88).

Para o senso comum, um poder legítimo. Uma reportagem do jornal O Globo em maio de 2006 revelou que os brasileiros acreditavam mais na imprensa do que no

14 O documentário “O Mercado de Notícias” tem roteiro e direção de Jorge Furtado. Foi produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, estreou nos cinemas em 07 de agosto de 2014. As entrevistas dos jornalistas entrevistados para o documentário estão disponíveis em http://www.omercadodenoticias.com.br/

15 Os trechos foram transcritos respeitando os modos de fala da gravação original. Depoimentos disponíveis em < http://www.omercadodenoticias.com.br/> Site acessado em 19/09/2014.

61 governo16. Sem promover juízos de valor acerca da política nacional, pode-se tomar este dado como um indicativo de que há uma receptividade pública de que a mídia anuncia seu discurso sob a chancela da “vontade de verdade”, típica dos discursos científicos, para gozar de tal autoridade.

Legitimação dada aos veículos offline e também aos novos modelos online, de maneira que o jornalismo assumiu, ao longo de sua história, um discurso de credibilidade, de confiança, constituindo-se um saber autorizado – para organizar e

“sintetizar” o mundo.

Assim, acredito ser o discurso, muito mais propriamente do que a notícia que divulga, o seu legítimo produto.

No documento IN MEMORIAM (páginas 57-61)