1.5 VERDADE COMO SIGNIFICANTE PRIMEIRO
1.5.2 O Discurso do Outro
A teoria lacaniana da estruturação do inconsciente como linguagem e a da constituição do simbólico trabalha a partir de um pressuposto fundamental que irá determinar o discurso sobre a verdade: a primazia do significante.
Para LACAN os significantes são equivalentes aos traços de percepção (Wahrnehmungszeichen) constituídos simultaneamente identificados por FREUD e o processo analógico onde se dá essa constituição revela metáforas e metonímias373.
Em seu ponto de vista, é através desses traços de percepção que o sujeito atribui sentido a uma materialidade e por isso não é a palavra que funda o significante, mas sim o significante que tem efeito de significado374. Consequentemente, “o significado não é aquilo que se ouve. O que se ouve é significante. O significado é efeito do significante”375.
Com esta conclusão, LACAN promove a inversão dos termos da teoria do signo formalizada por SAUSSURE376, rompe com seu paralelismo e assinala a supremacia do significante, visto como representação da representação377.
Assim, um ente lingüístico pode ganhar um significado completamente díspar se houver seleção de significantes inaugurais diversos (a depender do sujeito) no processo de antecipação de sentido.
373 LACAN, Jacques. O seminário: Livro 11..., p. 48.
374 LACAN, Jacques. O seminário: Livro 20.., p. 29.
375 Ibidem, p. 47.
376 Diferente da perspectiva realista que trabalha com a idéia de que a palavra designa o objeto, a semiologia de Saussure propõe a substituição dessa perspectiva pela noção de signo, entendido como uma entidade de duas faces que une um nome à sua imagem acústica, sendo o significado o conceito e o significante a imagem acústica. Esta concepção, de certo modo, rompe com a perspectiva da ontologia clássica e se aproxima da noção de algo enquanto algo própria do paradigma da linguagem porque a imagem acústica tem uma natureza especial, à medida que, segundo SAUSSURE ela “não é som material, coisa puramente física, mas a impressão (empreinte) psíquica desse som, a representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos; tal imagem é sensorial e, se chegamos a chamá-la material é somente neste sentido, e por oposição ao outro termo da associação, o conceito, geralmente mais abstrato”. SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. 25. ed. Trad.
Antonio Chelini et all. São Paulo: Cultrix, 2003. p. 80.
377 LEITE, Marcio Peter. Op. cit., p. 48.
De acordo com LACAN, essa estrutura de significante abre a possibilidade de que uma linguagem comum seja utilizada para significar algo completamente distinto do que ela usualmente diz378.
Ele explica esse fenômeno primeiro através da redefinição do conceito de recalque – definido como a barra entre significante e o significado, que atua como o filtro que permite seja produzido, apenas “um” sentido dentro das inúmeras possibilidades de sentidos combináveis da materialidade do significante379.
Para entender como essa barra opera, ele se apóia nas formulações da semiologia de SAUSSURE, em especial na lingüística sincrônica e a divisão dos eixos da linguagem em sintagmáticos e paradigmáticos380.
Também encontra suporta numa releitura das noções de deslocamento e condensação freudianos a partir das contribuições da lingüística de JAKOBSON, a qual propõe que as figuras de linguagem chamadas de metáfora e metonímia revelam os modos pelos quais se constituem diferentes sentidos pelo significante381.
Com efeito, JAKOBSON verifica que a linguagem possui uma estrutura bipolar onde, no desenvolvimento de um discurso, um tema pode levar a outro por similaridade ou por contigüidade382.
A relação de contigüidade faz com que os significantes deslizem na linha da combinação (sintagma) e são próprias do processo metonímico, que faz com que haja a projeção da linha do contexto habitual para a linha da substituição e seleção383.
No exemplo trazido por JAKOBSON, um paciente com distúrbio na fala poderia utilizar o signo faca quando lhe era apresentado um garfo, uma vez que ambos aparecem ordinariamente ao mesmo tempo384.
A metonímia aparece também na substituição da parte pelo todo, como na frase “Trinta velas aportaram no cais”, velas substituem barcos385.
378 LACAN, Jacques. Escritos..., p. 508.
379 LEITE, Márcio Peter de Souza. Op. cit., p. 48.
380 SAUSSURE, Ferdinand de. Op. cit., p. 142-147.
381 LEITE, Márcio Peter de Souza. Op. cit., p. 49.
382 JAKOBSON, Roman. Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia. In:_____.
Lingüística e comunicação. 19 ed. Trad. Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo:
Cultrix, 2003. p. 55 e ss.
383 Idem.
384 Ibidem, p. 49.
Essa figura de linguagem revela a incorporação discursiva do conceito de deslocamento, que na visão de FREUD faria com que os pensamentos reprimidos e toda sua carga emotiva fossem deslocados para um alvo que guarda uma relação de contigüidade com o alvo originário da repressão386.
Assim, no exemplo trazido por ROSENFIELD, uma aversão a bengalas pode ser o resultado de um processo de deslocamento promovido inconscientemente em virtude da repressão do ódio a um tio que sempre usava bengalas387.
A metonímia, ao edificar relações contíguas e contextuais, é o mecanismo que doa o sentido permitido pelo recalque e conforme LACAN se constitui no meio mais eficaz que o inconsciente dispõe para burlar esse filtro de significação388.
Já a metáfora opera no eixo paradigmático, caracterizado pelas relações de similaridade e seleção. Seu mecanismo é a projeção da substituição de significantes a partir das semelhanças e intersecções inconscientemente identificadas, permitindo que um termo metafórico seja substituído por outro389 e faça com que um significante tome o lugar do outro na cadeia de significação, sem eliminar a presença do preterido que permanece oculto e conexo com o resto da cadeia390.
A metáfora produz um plus de significação, um sentido novo, tal como ocorre com a palavra leão na frase “Fulano é um leão” que agora passa a designar ‘homem forte’391.
Essa superposição de significantes que se dá por meio da reunião de similaridades é equivalente à condensação freudiana e torna possível a vinculação dos signos segundo o eixo paradigmático392, recurso muito usado na literatura e poesia, a ponto de LACAN enxergar nela a função poética tradicional393.
385 LACAN, Jacques. Escritos..., p. 509.
386 ROSENFIELD, Michel. A identidade do sujeito constitucional. Trad. Menelick de Carvalho Netto. Belo Horizonte: Mandamentos, 2003. p. 68.
387 Idem.
388 LACAN, Jacques. Escritos..., p. 515.
389 JAKOBSON, Roman. Op. cit., p. 61.
390 LACAN, Jacques. Escritos..., p. 510.
391 LEITE, Márcio Peter de Souza. Op. cit., p. 75.
392 ROSENFIELD, Michel. Op. cit., p. 63.
393 LACAN, Jacques. Escritos..., p. 511 e ss.
Os processos interativos entre a metáfora e a metonímia na cadeia lingüística, seus desdobramentos através de analogias e combinações de significação que se realizam inconscientemente no grande Outro, fazem notar a primazia do significante na produção do sentido e, por tabela, na formação de um sentido ou compreensão com pretensões de verdade.
No entanto, apesar do caráter social que a linguagem estruturada no grande “Outro” possui, os giros metafóricos ou metonímicos quando ocorrem na fala do sujeito são manifestações mais apropriadas à revelação da verdade individual, que expõe o que ele realmente pensa e quais as causas de suas expressões patogênicas.
Para encontrar a verdade social é preciso acessar ainda mais profundamente o Simbólico. Neste desiderato, faz-se necessário ir além do LACAN que expõe a tese do inconsciente como linguagem e anotar algo sobre o LACAN do inconsciente como Lei394, até porque conforme explica LEITE, a articulação entre o particular e o universal na psicanálise é nomeada como a relação entre o desejo e a Lei395.
A construção lacaniana da passagem do desejo à Lei, isto é, da verdade individual para o saber de todos396, se dá na interpretação do complexo de Édipo como um operador que mostra o sentido da realidade inconsciente como uma construção feita a partir do Outro, uma vez que nesse mito o indivíduo é apenas uma marionete do destino397.
Desde este ponto partida, a trajetória proposta por LEITE para o desenvolvimento da leitura lacaniana do mito de Édipo até encontrar a Lei universal pode ser resumida do seguinte modo:
Num primeiro tempo, Édipo enfatiza a função materna, entendida como relação de dependência para satisfação das necessidades vitais da criança em relação ao outro. Aqui a mãe (que não necessariamente é a mãe biológica) é
“tudo” para a criança398.
394 LEITE, Márcio Peter de Souza. Op. cit., p. 60-61.
395 Ibidem, p. 64.
396 Idem.
397 Ibidem, p. 66.
398 Ibidem, p. 69-70.
A etapa seguinte é marcada pela castração da mãe pelo pai, que é quem a mãe nomeia como seu objeto de desejo e é sempre Simbólico, baseado num reconhecimento que só pode ser dado pela palavra399.
A castração acontece com a instauração da Lei no discurso materno, o que se verifica quando houver um Outro do Outro400.
Este processo impede que a mãe seja “tudo” para a criança, pois agora há uma referência externa dentro do discurso da mãe, sobre a qual ela não tem domínio.401
Já o segundo tempo é marcado pela substituição, na forma de metáfora, do desejo da mãe pelo Nome do Pai, produzindo uma significação que é sempre fálica: vai do lugar da falta na mãe que é buscado no Pai, ou seja, “o sentido da procura do absoluto, de uma significação sustentada num modelo anterior de completude”402.
Assim, dirá LACAN que na Lei o desejo encontra seu limite e se sustenta como tal e, portanto, é o Nome do Pai que mantém a estrutura do desejo com a da Lei403.
Agora, a verdade, entendida como causa material de significação na cadeia de significantes404 é o significante castrador, primeiro.
Consequentemente, o “Outro” se confirma como lugar da verdade405.
Por isso, a verdade psicanalítica, enquanto significante gerido externamente de um discurso estranho, não conhecido, se mostra como um princípio que deve ser entendido como motivo conceitual406. Este, mesmo não possuindo referencial semântico perceptível aos sentidos407, se projeta como significante primeiro e dá significado aos elementos subseqüentes na cadeia
399 Ibidem, p. 71.
400 É fácil visualizar essa castração quando, por exemplo, a mãe diz para a criança
“Ou você vai dormir ou o bicho papão virá te comer, pois ele come crianças que não dormem”.
Essa referência exterior é o Nome do Pai. Cf. LEITE, Márcio Peter. Op. cit., p. 74.
401 Ibidem, p. 73.
402 Ibidem, p. 76-77.
403 LACAN, Jacques. O seminário - Livro11..., p. 35-38.
404 LACAN, Jacques. Escritos..., p. 890.
405 LACAN, Jacques. O seminário: mais ainda..., p. 62.
406 MIRANDA COUTINHO, Jacinto Nelson de. Introdução aos princípios gerais do processo penal brasileiro. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, Curitiba, a. 30, n. 30, 1998. p. 163.
407 Idem.
lingüística, sobre a qual se assenta o raciocínio, assumindo um evidente caráter mitológico, conforme bem assinalado por MIRANDA COUTINHO408.
Ocupando um lugar do qual nada se sabe, o significante só existe enquanto falta radical409, a qual, segundo MARQUES NETO, jamais pode ser suprida e torna impossível ao direito, ou a qualquer outro discurso com pretensões de cientificidade, conhecer absolutamente seu objeto410.
408 Nas palavras do citado professor: “De qualquer sorte, não se deve desconhecer que dizer motivo conceitual, aqui é dizer mito, ou seja, no mínimo abrir um campo de discussão que não pode ser olvidado mas que, agora, não há como desvendar, na estreiteza desta singela investigação. Não obstante, sempre se teve presente que há algo que as palavras não expressam; não conseguem dizer, isto é, há sempre um antes, um lugar que é, mas do qual nada se sabe, a não ser depois, quando a linguagem começa a fazer sentido. Nesta parca dimensão, o mito pode ser tomado como a palavra que é dita, para dar sentido, no lugar daquilo que, em sendo, não pode ser dito. Daí o big-bang à física moderna; Deus à teologia; o pai primevo a Freud e à psicanálise; a Grundnorm a Kelsen e um mundo de juristas, só para ter-se alguns exemplos. (...) O importante, sem embargo, é que, seja na ciência, seja na teoria, no principium está um mito; sempre!” (MIRANDA COUTINHO, Jacinto Nelson de. Introdução aos princípios gerais do processo penal brasileiro..., p. 164).
409 Por se tratar de desejo de absoluto, aqui, segundo LACAN, aparece a teoria do objeto a como necessária para a integração da correta função da verdade como causa. Vide:
LACAN, Jacques. Escritos..., p. 890.
410 MARQUES NETO, Agostinho Ramalho. Subsídios para se pensar a possibilidade de articular direito e psicanálise. In: _____. et all. Direito e neoliberalismo: elementos para uma leitura interdisciplinar. Curitiba: EDIBEJ, 1996. p. 26.
2 VERDADE NA PLURALIDADE DE DISCURSOS (E SUAS INTER-FERÊNCIAS NO REPENSAR DO MÉTODO JURÍDICO)
2.1 VERDADE NA TEORIA DO AGIR COMUNICATIVO