CAPÍTULO 3 – APRENDENDO COM A TURMA DA MÔNICA: DISCURSOS
3. O Perfil dos discursos de orientação e formação
3.2 O Discurso Religioso e seu perfil “educativo”
O discurso religioso sempre esteve presente em diversos momentos históricos vividos pelas sociedades, e se manifesta através de instituições religiosas como as Igrejas católica e evangélica, por exemplo. Grande parte da produção cultural humana encontra-se influenciada por esta modalidade discursiva, que se revela nos discursos de sujeitos interpelados por essa ideologia. A religiosidade, seja ela qual for, ao longo dos séculos, serviu também como fonte de inspiração para a produção de obras artísticas e culturais de um modo geral, conforme aconteceu na pintura de grandes mestres como Michelangelo, na literatura com os sermões do Padre Anchieta e até mesmo na produção musical de compositores consagrados mais contemporaneamente.
Na arte seqüencial esta influência não poderia ser diferente. Ao observar as mais variadas histórias em quadrinhos, é possível perceber a presença do discurso religioso através de marcas discursivas que salientam temas, símbolos e ensinamentos relacionados às mais diversificadas orientações religiosas. A presença destas marcas discursivas contribui para reafirmar a inserção de determinados conteúdos ideológicos próprios de determinadas religiões e, em determinadas produções quadrinizadas, estas marcas discursivas podem revelar a adesão dos sujeitos discursivos a dada orientação religiosa.
Em várias histórias da Turma da Mônica, as instituições religiosas surgem representadas pelas concepções das Igrejas Católica e Evangélica, e pela Doutrina Espírita de orientação cardecista, por exemplo. Há também a presença da cultura indígena e suas crenças, bem como a cultura africana, representada, principalmente, pelo Candomblé. A partir dessas orientações religiosas, são abordados temas como a existência de Deus e do Diabo, do céu e do inferno, além da eterna dualidade do bem e do mal. Além desses, são tratados ainda temas como a existência de espíritos que, por algum motivo, habitam a terra, e também a presença de anjos no convívio dos seres humanos.
Freqüentemente, o discurso religioso aparece conjugado com outros discursos, mantendo uma interseção que, geralmente, tem função instrutiva e educativa. Como não poderia deixar de ser, assume contornos ideológicos, uma vez que colabora com a transmissão de valores e conteúdos identificados com certas doutrinas religiosas. Este fato pode influenciar diretamente a formação moral e educacional dos leitores dessas histórias, o que será revelado pelo comportamento e por práticas destes leitores no seu convívio com os demais indivíduos do grupo social.
Todo esse conjunto de fatores estará presente na memória discursiva destes sujeitos que mobilizarão esses valores através de formações discursivas, orientadas por formações ideológicas identificadas com determinadas doutrinas religiosas. E todo este processo discursivo poderá também contribuir para revelar adesões a este ou àquele discurso que, por sua vez, revelará a adesão a esta ou àquela religião, crença ou seita espiritual. É o que acontece, em certa medida, na história “Aprendendo a dividir”, publicada na edição nº 462, em julho de 2006, na qual Chico Bento aparece como personagem central, contracenando com o vigário e outros personagens transitórios.
Nesta história, o Discurso Religioso aparece em primeiro plano como discurso predominante, evocado através de ensinamentos relacionados aos procedimentos e atitudes solidárias e positivas, como exercer a partilha do alimento e dividir os bens materiais, por exemplo. Estas práticas e comportamentos estão identificados com a educação cristã, sendo transmitidos pela Bíblia e pelos sermões feitos pelas autoridades religiosas da Igreja Católica. São também assimilados e difundidos por outras doutrinas religiosas que vêem de maneira positiva esses valores comportamentais e compartilham desta mesma prática.
A figurativização do Aparelho Ideológico Religioso acontece principalmente pelo personagem do Vigário, reconhecidamente um importante representante da Instituição Social Igreja, que, nesta história, exerce também papel educativo, o que reforça a idéia de que há também a presença do Discurso Pedagógico. Isto porque a possibilidade de instruir o leitor para exercer a prática solidária de dividir a comida com os outros vem associada ao ato que Chico Bento repete várias vezes no decorrer da narrativa, ao encontrar um de seus amigos da roça no meio do caminho. Vale lembrar que este ato somente passou a ser praticado por ele após o vigário ter entrado em ação, como uma autoridade no assunto, instruindo o pequeno a agir de tal maneira.
A vontade de Chico Bento era de devorar todo o lanche sozinho, conforme é revelado pelo personagem logo no início da história, quando diz “Aposto como eu posso comê tudo numa bocada só...”, escondendo o bolo no momento em que passa diante do vigário e, por acaso, vai ao encontro de Zé Lelé. O vigário, percebendo as intenções e atitude de Chico Bento, interpela o pequeno e procura instrui-lo sobre o modo como agir, de acordo com a educação cristã, com a qual ele compartilha, contribuindo com a sua disseminação. Isto pode ser percebido nos enunciados proferidos pela autoridade eclesial “Temos que ser bons e carinhosos, Chico! Ajudar os outros! Dividir o pão!”. Estes são alguns dos aspectos mostrados na seqüência de quadrinhos da história, conforme pode ser visto a seguir:
Figura 22: História “Aprendendo a dividir”, publicada na revista Chico Bento, edição nº 462,
Ao observar a narrativa desta aventura, é possível verificar alguns conteúdos ideológicos, manifestados por estruturas lingüísticas subjacentes ao texto. A expressão verbal “temos que”, por exemplo, combinada com o infinitivo do verbo “ser” assume aqui função instrutiva, uma vez que é dada como uma orientação pelo padre, figura autorizada para desempenhar tal função. Isto revela a importância dada pelo sujeito discursivo à ação sugerida e, conseqüentemente, ao discurso disseminado neste momento.
O discurso em questão fica ainda mais evidenciado com o emprego dos adjetivos “bons e carinhosos”, que aparecem na seqüência argumentativa, e são utilizados para delinear a formação do caráter e o perfil da personalidade, considerados como ideais pelas instituições religiosas. Os verbos “ajudar” e “dividir” reforçam ainda mais as orientações dadas pelo vigário, que são, na verdade, orientações contidas nas formações discursivas religiosas, orientadas pelas formações ideológicas correspondentes a elas.
A historinha mostra o pequeno Chico seguindo as orientações do líder religioso e, de certo modo, arrependendo-se de suas atitudes, pois estas não são correspondidas pelos seus amiguinhos, já que os mesmos aceitam a oferta de Chico Bento, mas não exercem a solidariedade praticando a partilha do “pão”, conforme orientou o vigário. Neste momento, os valores altruísmo e egoísmo são sutilmente confrontados, revelando um pensamento muito peculiar às instituições religiosas que tradicionalmente evocam a dualidade do bem contra o mal em suas doutrinações.
Esta dúvida a respeito do que é certo fazer, se o correto é continuar dividindo solidariamente a comida com os amiguinhos ou saciar a sua própria vontade de comer, traz à tona mais um elemento tipicamente presente no discurso religioso: a fraqueza humana, que torna o homem vulnerável às tentações e propenso a seguir seus impulsos instintivos. Esta análise mostra-se ainda mais evidente quando se observa que, ao lado da solidariedade de Chico Bento, instaura-se como contraponto o egoísmo de seus amigos, que abocanham o alimento sem se preocupar com o menino.
Os aspectos anteriormente mencionados ficam relativamente evidenciados através das estratégias utilizadas pelo protagonista da história, visando despertar o desinteresse dos demais colegas pelo lanche trazido por Chico. Isto pode ser verificado no enunciado em que Chico diz “Cruz-credo! Mas ela tá tão dura qui aposto qui quem mordê vai quebrá todos os dente!”, referindo-se a mais uma de suas merendas: a rapadura. Todo o enunciado serve para revelar a dúvida que o protagonista da história tem em relação à prática que ele está realizando em contraposição ao que ele realmente quer fazer.
Toda a prática de Chico Bento, nesta historinha, é vigiada de perto pelo padre que representa a instituição religiosa e utiliza o seu poder de influência para corrigir as ações do pequeno caipira, visando conduzi-lo a trilhar “um bom caminho” e não se deixar vencer pelas fraquezas inerentes à natureza humana. Logo nos primeiros quadrinhos, a aparição do vigário reforça a sua função na trama e o posicionamento de mais um enunciador que dá vida à voz da instituição religiosa Igreja, esta última orientada pelo catolicismo cristão. As imagens que mostram o padre com olhar investigativo e feições desconfiadas, em certa medida, contribuem para figurativizar o tema da orientação educacional de cunho catequizador exercida pela autoridade eclesiástica personificada no vigário.
Ainda nestas primeiras seqüências da história, pode-se ver o padre instruindo Chico Bento sobre atitudes e comportamentos vistos como ideais e positivos, de acordo com a doutrina cristã, ao mesmo tempo que cobra dele o exercício destas atitudes consideradas corretas, conforme dogmas religiosos, inclusive da Igreja Católica, que conduzem à prática da solidariedade e da partilha. A primeira expressão indagativa de surpresa do vigário, seguida da expressão facial investigativa que sugere desconfiança em relação às intenções de Chico Bento e, logo após, a severidade tenaz do padre, reveladas, principalmente, pelo seu discurso, mas também pela sua feição séria, com os olhos fechados, rugas na testa e mãos posicionadas de modo explicativo, contribuem para a produção do discurso em questão.
Com isso, as aparições do padre, na seqüência analisada e no decorrer de todo o enredo, têm a função de exercer a cobrança da boa conduta e garantir a prática da partilha solidária, que representa a bondade e a austeridade da personalidade humana que aceita seguir na trilha do bom caminho. Assim, o vigário funciona, de certo modo, como a figurativização da presença divina na terra e, por outro lado, a representação desta força divina que busca redimir o homem dos seus pecados e condutas errôneas. Desse modo, fica evidenciada na figura do vigário a presença do principal enunciador responsável por veicular o discurso religioso e, conseqüentemente, os conteúdos ideológicos da Instituição Igreja, que, por sua vez, são os mesmos pertencentes ao Aparelho Ideológico Religioso.
Neste sentido, a composição imagética dos quadrinhos colabora com a criação do personagem vigário e, conseqüentemente, com a evidenciação do discurso religioso. Assim, o referido personagem é apresentado como um indivíduo relativamente gordo, de estatura média/alta, de feições ora sisudas, ora simpáticas, com uma careca aparentemente visível e vestimentas tipicamente franciscanas, fazendo alusão a São Francisco de Assis, um dos mais representativos santos da Igreja Católica. Estes são, portanto, signos não-verbais que servem para simbolizar através de elementos pictóricos o discurso religioso e, principalmente, a
ideologia da Igreja Católica, o que contribui também para sugerir certa simpatia do enunciador em relação aos dogmas da referida organização religiosa.
E, de fato, a postura do padre é de extrema e tenaz vigilância, tanto para as ações de Chico Bento, quanto para as ações de Nhô Lau, personagem que surge no final da narrativa como uma espécie de figurativização da “ovelha desgarrada do rebanho”, necessitada de conselhos, orientações e, principalmente, vigilância, aspectos que conduzem ao discurso bíblico praticado pelo catolicismo. Assim como Chico Bento aprendeu as lições transmitidas pelos ensinamentos divinos, o velho fazendeiro também deve fazê-lo, exercendo a solidariedade e dividindo a riqueza, os bens materiais, o pão (figurativizados aqui pelos lanches de Chico Bento, anteriormente, e pelas goiabas de Nhô Lau no desfecho da história).
Os aspectos mencionados anteriormente também podem conduzir o leitor à reflexão sobre a gula, uma outra temática marcadamente presente no discurso religioso, a qual está relacionada aos sete pecados capitais, dentre os quais a gula está presente. O discurso do enunciador faz uma sutil referência a este pecado praticado, no caso, pelo personagem central da historinha que tenta comer sozinho os lanches por ele adquiridos sem dividi-los com os demais colegas. Estes, por sua vez, também contribuem para figurativizar a gula, no memento em que aceitam imediatamente a oferta de Chico Bento, induzida pelo vigário. Eles comem todo o lanche sem deixar nada para o coleguinha e sem demonstrar nenhum arrependimento ou preocupação, apenas satisfação e contentamento.
Neste momento, surge outra vez a atuação do representante de Deus no mundo terrestre, que orienta Chico Bento a praticar o perdão e o desapego aos bens materiais, não se importando nem criticando, portanto, as atitudes praticadas pelos seus amigos. Para o vigário, o que importa é o reconhecimento de Deus em relação à postura benevolente e humilde de Bento, e, conseqüentemente, o aperfeiçoamento do seu espírito cristão que ofertou sem esperar nada em troca. Esta concepção é revelada pelos enunciados do padre, quando ele consola o garoto dizendo: “Não fica assim, Chico. Papai do Céu viu tudo e sabe que você é um menino bonzinho!”.
Os argumentos do vigário reforçam a concepção católico-cristã de que todos devem praticar o bem com sinceridade, convicção e espontaneidade, pois há uma força superior possuidora de um olhar divino que reconhecerá estas atitudes corretas e as recompensará devidamente. Isto fica ainda mais evidenciado pela continuidade do discurso eclesiástico enunciado pelo padre, quando este reforça sua doutrinação em prol da prática de ações positivas, solidárias que configuram o exercício do bem, nos quadrinhos que finalizam a
história. Nestes momentos da narrativa, o vigário, numa postura catequizadora, diz que “Temos que aprender a dividir as coisas! Isso faz bem para o coração!”.
O verbo “ter”, aqui utilizado na primeira pessoa do plural, sugere uma atitude de inclusão discursivo-ideológica por parte do enunciador, o que significa dizer que assim como Chico Bento, seus colegas da roça, o próprio vigário e, posteriormente, o fazendeiro Nhô Lau, todos os demais devem agir da mesma forma, inclusive o enunciador do discurso em questão, que se incluiu neste contexto, ao fazer a opção pelo uso do “nós”, implícito na forma verbal utilizada. E como não poderia deixar de ser, o interlocutor também deve se inserir neste contexto, pois foi convidado a agir do mesmo modo como agiu Chico Bento na história criada por Mauricio de Sousa, na medida em que ele, o leitor, entra em contato com este conteúdo discursivo-ideológico, identificado com a ideologia católico-cristã.
O discurso religioso aparece aqui na fala de um vigário de uma região interiorana, ou seja, na zona rural da qual Chico Bento, Zé da Roça, Rosinha, Zé Lelé, Hiro, Nhô Lau dentre outros personagens também fazem parte. Estes dados servem para reforçar a afirmação de que neste contexto sócio-cultural a influência da Instituição Igreja é mais marcante, sobretudo da Igreja Católica. Isto porque a devoção, a fé e a crença das pessoas que vivem nas pequenas cidades tipicamente rurais são mais marcantes, convictas e, de certo modo, mais explícitas, fatores estes orientados por questões sociais e culturais historicamente construídas e arraigadas. Todos estes aspectos colaboram para que a ideologia cristã esteja mais presente e enraizada nas cidades e regiões campesinas.
Desse modo, é possível concluir que o enunciador realiza uma articulação discursiva no sentido de evidenciar e disseminar o discurso religioso que sugere e, ao mesmo tempo, defende a prática do bem materializada em atitudes que valorizam comportamentos sociais positivos como a solidariedade, a socialização de bens materiais e o exercício do perdão, quando este se faz necessário. Além disso, a manobra discursiva aqui analisada conduz ainda para o reconhecimento da existência de uma força celestial que rege o mundo e acompanha o ser humano a todo o tempo, visando conduzi-lo para o caminho correto, o caminho do bem, conforme constatado anteriormente.
A crença na existência de forças divinas e santificadas que acompanham e fiscalizam as ações humanas praticadas no dia-a-dia está presente no interior de formações discursivas que são influenciadas por formações ideológicas veiculadas pelas instituições identificadas com o discurso religioso, como as igrejas evangélica e católica, por exemplo. Esta modalidade discursiva também se faz presente na obra quadrinizada de Mauricio de Sousa e é difundida por variados personagens em contextos discursivos diversificados, embora tenha uma maior
incidência nas histórias ambientadas na zona rural. Estes são aspectos que ficam evidenciados em histórias como “Será que foi homenagem?”, conforme apresentada a seguir:
Figura 23: História “Será que foi homenagem?”, publicada na revista Chico Bento, edição nº 449, em julho de 2005.
A história em questão, publicada na revista Chico Bento, edição de número 449, em junho de 2005, apresenta o garoto caipira protagonizando um enredo representado imageticamente, na maior parte da narrativa, e com acréscimo do texto verbalizado apenas nos últimos quadrinhos da seqüência. Este enredo mostra basicamente, através das imagens e situações ilustradas por elas, um cotidiano típico da vida rural, na qual os moradores do campo desenvolvem atividades relativas ao seu dia-a-dia como, por exemplo, fazer pescarias, alimentar os bichos e cuidar dos animais do rebanho.
Em “Será que foi homenagem?”, Chico Bento figurativiza o estilo de vida campestre que, de um modo geral, caracteriza-se pela simplicidade e tranqüilidade observadas nas relações entre o homem do campo e os elementos típicos deste ambiente social, além da harmonia no contado do homem com a natureza. São abordados, ainda, nesta história,
aspectos relacionados à fé cristã e à crença em figuras santificadas, elementos intrinsecamente ligados aos dogmas das instituições religiosas e, ao mesmo tempo, reforçados pelo senso comum e saber popular.
No primeiro momento da narrativa, Chico Bento aparece colocando comida para os porcos, alimentando os cavalos e, em seguida, dando ração às galinhas, ou seja, o garoto é apresentado como um típico representante do homem campesino, desenvolvendo atividades peculiares ao cotidiano da zona rural. Apesar de não haver texto verbalizado nesta seqüência, é possível resgatar o discurso nela presente, a partir da observação e análise das imagens que compõem o trecho. Trata-se de um discurso que orienta o leitor a pensar sobre o fato de que os animais devem ser bem tratados, com carinho e atenção, pois assim eles serão saciados em suas necessidades naturais, o que trará benefícios para os homens, uma vez que estes animais ao serem bem cuidados e alimentados adequadamente terão maior disposição para desenvolver suas funções no dia-a-dia da fazenda.
Assim, Chico Bento dá voz a um primeiro enunciador responsável por veicular um discurso marcado por uma formação discursiva em que se revela a ideologia que defende a prática de atitudes corretas do homem em relação aos animais, representados neste momento pelos bichos do sítio. Este aspecto pode ser ilustrado pelo tratamento dado por Chico aos animais, quando o protagonista da história realiza as tarefas rurais que, por sua vez, vão além do simples cumprimento de uma rotina.
Os afazeres desenvolvidos pelo simpático caipira constituem-se como atividades agradáveis para o pequeno Chico, que as realiza com prazer e muita satisfação. Isto pode ser confirmado logo neste primeiro momento da história, ao se observarem as expressões de alegria e contentamento transmitidas pelas imagens do personagem nas seqüências iniciais da narrativa em questão. Assim, Chico Bento não só desempenha algumas de suas funções no sítio, alimentando os porcos, cavalos e galinhas, como também os observa, com muita satisfação e admiração.
No segundo momento do enredo, Bento pratica ações que demonstram seu apego e carinho pelos animais. Ele devolve os pequenos peixes ao seu habitat natural, livra a tartaruguinha de uma situação difícil que a deixa indefesa, e ainda salva o passarinho da armadilha feita pelo homem, libertando-o ao colocá-lo novamente em contato com a natureza. As imagens que mostram o garoto realizando tais ações revelam a presença de um segundo enunciador, responsável pela veiculação de um discurso identificado com a defesa dos animais e, conseqüentemente da natureza, figurativizada, neste caso, pelos representantes da
fauna. Tal discurso é orientado pela ideologia que tem por essência a defesa dos animais e preservação da natureza.
Nos dois momentos iniciais da narrativa, em que o texto escrito não está colocado, a linguagem não-verbal é a grande responsável pela veiculação discursiva. Desse modo,