2 O CIENTIFICISMO E O RISO NA REPÚBLICA DA BRUZUNDANGA
2.4 – O DOUTOR NO CARNAVAL DA BRUZUNDANGA
A literatura ocupou um grande espaço neste trabalho até agora, porém o cientificismo na Primeira República tratado com o riso não afeta somente essa manifestação cultural. Como dissemos, ela é um exemplo de até onde foram os tentáculos da febre cientificista. Passaremos agora a analisar os diferentes cantos da República da Bruzundanga e as manifestações da “sciencia” tratadas com o riso. Não nos deteremos em uma área específica, como fizemos com a literatura, pois a análise dessa manifestação cultural já nos deu um bom material para se entender as reflexões sobre os problemas da “sciencia” abordados com o riso nessa obra de Lima Barreto. Trabalharemos com o conjunto de relações sociais que envolvem a figura do doutor, o representante da “sciencia”, no intuito de explorar as reflexões que o autor faz sobre o pensamento cientificista.
No decorrer da obra, o cientificismo encontra-se nas ações dos líderes nas diferentes áreas do exótico país criado por Lima Barreto. A figura do doutor é uma constante. O trabalho com o riso centra-se na exposição dessa personagem, dos seus hábitos, das suas relações de poder, da aura de superioridade que a envolve, dos seus discursos falaciosos e do seu desejo de notoriedade. Ao tratar literariamente essa figura, Lima Barreto muito nos diz da “sciencia” no Brasil, das relações de poder que essa área determinava e dos sentidos que ela possuía no pensamento dos diferentes segmentos sociais de nosso país. Essa personagem e o poder que ela exerce nas diferentes áreas da sociedade são expostos em situações marcadas pela ambivalência do riso carnavalesco. De um lado está o que o narrador concebe como ideais de ciência e de profissionais que a produzem e de outro, a “ciência” como um instrumento de ascensão social e poder para o doutor num sistema de tramoias. Encontramos, constantemente, em Os Bruzundangas, a exibição do poder dos discursos cientificistas entranhados nos movimentos sociais.
Foucault em Os anormais (2001) menciona a força dos discursos oriundos de instituições científicas e elaborados por especialistas. O filósofo trata da palavra científica associada à esfera jurídica. Nesse encontro entre ciência e justiça está a fonte de poder desses discursos, que ganham o estatuto de verdadeiros ao se julgar uma pessoa. Nesse estudo de Foucault, está a abordagem de uma relação autoritária, que servia para solidificar estruturas sociais. “Ciência” e lei, um
especialista e um juiz tornam-se os determinadores de medidas judiciárias em relação às pessoas consideradas exceção na sociedade. O filósofo nos lembra que a proximidade do saber científico com o saber judiciário fortalece o poder dos discursos desses dois campos sociais, no entanto, afasta-os dos seus objetivos essenciais. A ciência deixa muito de lado seu caráter de constante superação no conhecimento do ser humano e do mundo, e o judiciário por se prender a discursos cientificistas dogmáticos acaba se distanciando do seu intuito maior: ser justa. Foucault menciona, também, autores da sociedade moderna que refletiram sobre essa engrenagem da instância judiciária, como Kafka, Balzac, Dostoiévski e Courteline. Essa relação de poder tratada por Foucault, ainda que de forma diferente, a encontramos nas palavras de Lima Barreto, que exibe os privilégios dos representantes da “sciencia” e o poder dos seus discursos, enfim, a autoridade que exercem nos vários cantos da sociedade.
O autor carioca, ao construir um país exótico, dá uma resposta artística a questões de vida que emotivamente prenderam sua atenção, que mexeram com seus valores. Os privilégios dos doutores e seus discursos cientificistas autoritários ocupam, no momento da Primeira República, um espaço significativo no tratamento que ele dá à questão da “sciencia” no Brasil. Atentemos para as palavras de Bakhtin, que têm muito a ver com essa situação de Lima Barreto:
Já afirmamos bastante que cada elemento de uma obra nos é dado na resposta que o autor lhe dá, a qual engloba tanto o objeto quanto a resposta que a personagem lhe dá (uma resposta à resposta); neste sentido, o autor acentua cada particularidade da sua personagem, cada traço seu, cada acontecimento e cada ato de sua vida, os seus pensamentos e sentimentos, da mesma forma como na vida nos respondemos axiologicamente a cada manifestação daqueles que nos rodeiam; [grifo meu] (2003, p. 3)
Lima Barreto acentua na figura do doutor características reveladoras de uma estrutura social que feria sua postura ética diante do mundo. Esse processo de construção literária exige uma posição ativa e reflexiva do autor. É no ato escrever que ele reflete e conhece melhor suas personagens e as relações que criou. É possível perceber isso na ação da pena do autor, pois embora construa com traços fortes a figura do doutor, não uniformiza o grupo a que essa figura pertence e nem a sociedade em que ela atua. Vamos agora mostrar como é construído o riso ao se abordar o poder dos doutores numa ordem social impregnada do consumismo cientificista.
No capítulo II, o narrador apresenta o segmento social nobre da Bruzundanga. Esse segmento, vale lembrar, possui duas formações analisadas pelo jornalista que narra: uma pelo título, a chamada nobreza doutoral, e a outra, através da ascensão financeira, nomeada de nobreza de palpite. Como estamos abordando a figura do homem de saber, é a nobreza dos doutores que nos interessa.
O tratamento de nobres dado aos doutores da Bruzundanga é ambivalente. Ao usar nobreza doutoral para o grupo que se “dedica” ao “saber”, Lima Barreto já revela a sua construção do riso como forma de destronamento na obra. Essa “casta”, normalmente, está associada à superioridade, ao poder, ao dogmatismo. No entanto, a apresentação desses homens de “sabedoria” vai tirando essa aura de grandiosidade que a palavra nobreza traz. A dualidade nessa denominação atribuída aos doutores se dá pela suposta imponência da imagem da nobreza em contraste com as ações dos diplomados.
Os homens de “sciencia”, segundo o narrador, são geralmente oriundos de famílias aristocráticas e atingem a nobreza através de um título, que lhes dá privilégios sociais e confere poder aos seus discursos. O alcance desse título na escola superior se dá de diferentes formas, menos através da dedicação aos estudos. Onde está o mérito nessa jornada dos nobres doutores na Bruzundanga? É esse o riso ambivalente no título de nobreza doutoral. O título é um elemento do riso carnavalesco em Os Bruzundangas que traz em si a coroação e o destronamento. Lembremos também que, geralmente, a nobreza se dá através do sangue, da hereditariedade, algo que não deveria acontecer no mundo dos doutores.
O narrador afirma na obra que os nobres mais valorizados na hierarquia doutoral da Bruzundanga são os médicos, os advogados e os engenheiros. Isso é algo fácil de reconhecer na história brasileira no momento em que se tentava criar uma imagem moderna de nosso país. Como breves exemplos dessa afirmação, vale citar a influência de Sílvio Romero (1851-1914) na “cientifização” do Direito no Recife, a valorização do trabalho do engenheiro positivista Pereira Passos (1836- 1913) nas reformas do Rio de Janeiro e a importância dada a Nina Rodrigues (1862- 1906) no pensamento médico da época. Eram essas categorias de doutores responsáveis pelo progresso do Brasil. Segundo Jeffrey Needel (1993), a formação dos jovens doutores tinha os olhos voltados para a demanda do progresso material.
Na obra, a hierarquia em que se colocam as nobrezas doutorais já é um indicativo de um destronamento do saber nessa sociedade. Pode-se vislumbrar na “superioridade” do médico, do advogado ou do engenheiro, uma situação nada realmente científica, ou melhor, um equívoco quanto aos ideais da ciência por parte de grupos sociais mandantes fortalecedores dessa visão. O ideal seria valorizar todos os tipos de saberes entendendo assim a pluralidade de um país. A redução do “comando” intelectual de uma sociedade somente para algumas categorias com vistas direcionadas para o progresso material já se mostra negativo. O ideal seria que os diferentes profissionais da ciência fossem respeitados e socialmente valorizados, pois cada um tem o seu valor para a sociedade e para a vida. A hierarquia, que o autor-narrador expõe, acaba tirando esses doutores mais prestigiados do seu patamar, revelando que seu prestígio está mais em pensamentos sociais vulgarizados do que com o trabalho com a ciência. A ciência mesmo é uma constante busca de explicações e essa hierarquização a afasta desse caminho. A diferenciação de importância dos doutores que Lima Barreto exibe na obra revela vaidade, desejo de poder e ascensão social e isso, segundo o autor, não é próprio do trabalho científico.
O interessante nesse processo literário, em Os Bruzundangas, é que no entronamento está o destronamento. Em outras palavras, é um processo dinâmico, vivo em que a perda do trono é inseparável da coroação. É um movimento cíclico em que o prestígio dos doutores, embora destruído pelo riso, continua vivo no poder social dessa figura. A fama doutoral fortalece o riso e o descoroamento. Esses dois últimos não existem sem o primeiro. Encontramos nessa relação de dependência uma característica basilarmente carnavalesca.
Nessa apresentação que o jornalista faz dos valores dos diferentes profissionais, está uma ponta das relações de poder determinadas pelas concepções que se tinham de ciência e de profissionais que a faziam. Além de mencionar as três principais profissões na hierarquia doutoral, o narrador vai colocando os notórios “cientistas” numa situação de desmascaramento ao apresentar outras situações sobre eles:
A aristocracia doutoral é constituída pelos cidadãos formados nas escolas, chamadas superiores, que são as de medicina, as de direito e as de engenharia. Há de parecer que não existe aí nenhuma nobreza; que os cidadãos que obtêm títulos em tais escolas vão exercer uma profissão como
outra qualquer. É um engano. Em outro qualquer país, isto pode se dar; na Bruzundanga, não.
Lá, o cidadão que se arma de um título em uma das escolas citadas, obtém privilégios especiais, alguns constantes das leis e outros consignados nos costumes. (1956, p. 56)
Ao longo da obra, quando um doutor é apresentado, é perceptível que a caracterização dessa personagem serve para lhe retirar a aura de grandeza. Os doutores, no pensamento do jornalista que narra, deveriam almejar um diploma para exercer uma profissão e contribuir para o bem da sociedade. Esse é o ideal que contrasta com os caminhos que esses “homens de sciencia” trilham.
O narrador afirma que não parece haver nobreza na situação dos jovens da aristocracia se formarem em escolas superiores, no entanto os diplomados por essas escolas ganham privilégios garantidos na constituição e nos costumes do país. A nobreza atribuída à classe doutoral serve para expor os privilégios e o poder de um grupo prestigiado, não pelo trabalho com a “sciencia” com o intuito de favorecer a coletividade, mas sim por um diploma alcançado através de tramoias. No texto, ficam evidentes os lugares de onde os doutores enunciam: de início, de um segmento social favorecido financeiramente e depois, de uma instituição de ensino superior e de uma repartição do poder público. Esse percurso, que vai da instituição familiar à instituição de ensino, é um ponto forte no discurso sobre a “sciencia” e seus representantes na sociedade bruzundanguense (e brasileira).
O quadro apresentado na obra expõe o poder da família e o curso na escola superior ajudando na perpetuação de privilégios sociais. Obter um diploma de uma escola superior é um privilégio de poucos, quase sempre de jovens de famílias favorecidas socialmente, tanto no poder financeiro quanto nas relações sociais. É através da influência na rede de relações que o rapaz de “boa” família começa a caminhar para o título de doutor. No capítulo VI, ao escrever sobre o ensino na Bruzundanga, o jornalista apresenta o processo de ingresso do jovem à instituição de ensino superior e o perfil da formação desses doutores.
Há diferentes escolas na Bruzundanga formadoras de doutores, umas mantidas pelo governo geral, outras, pelo governo provincial e algumas são escolas privadas. Nas palavras do narrador, os rapazes da Bruzundanga não têm medo das dificuldades que qualquer curso dessas escolas possa oferecer. O medo deles é provocado pelos exames preliminares. Devido a isso, os pais usam de seu poder
social para interferir nas bancas examinadoras. Eles colocam nelas pessoas de suas relações, que possam ajudar na aprovação dos filhos. Os filhos são aprovados sem a mínima condição para frequentar a escola e “acabam o curso mais ignorantes e presunçosos do que quando para lá entraram” (BARRETO, 1956, p. 73). As manobras dos estudantes não cessam no processo de seleção para o ingresso à escola superior, elas continuam no decorrer do curso. Procuram fazer os exames em instituições onde as avaliações são mais fáceis e retornam de lá com as certidões de aprovação para as faculdades mais bem conceituadas a fim de receberem o grau. Quando as manobras não dão o efeito desejado, vale o poder das relações sociais dos pais: “De resto, é sabido que os lentes das escolas daquele país são todos relacionados, têm negócios com os potentados financeiros e industriais do país e quase nunca lhe reprovam os filhos” (1956, p. 74). Um pequeno diálogo que o narrador apresenta ajuda a ilustrar mais ainda essa situação que estamos descrevendo:
A nobreza doutoral, lá, está se fazendo aos poucos irritante, e até sendo hereditária. Querem ver? Quando por lá andei, ouvi entre os rapazes êste curto diálogo:
- Mas T. foi reprovado? - Foi.
- Como? Pois se é filho do doutor F.? (1956, p. 75-76)
Nesse pequeno diálogo, está banalização de situações, algo que não deveria ocorrer. São situações de protecionismo que Lima Barreto destaca no conjunto de suas produções literárias. Tudo isso faz parte de um sistema que beneficia o representante da “sciencia”, tanto na lei quanto nos costumes:
A nobreza dos doutôres se baseia em alguma cousa. No conceito popular, ela é firmada na vaga superstição de que os seus representantes sabem; no conceito das môças casadeiras é que os doutôres têm direito, pelas leis divinas e humanas, a ocupar os lugares mais rendosos do Estado; no pensar dos pais de família, êle se escuda no direito que têm os seus filhos graduados nas faculdades em trabalhar pouco e ganhar muito. (1956, p. 61, v. VII)
A passagem acima traz as bases da figura do doutor no pensamento de diferentes posições sociais na Bruzundanga. Todos esses pensamentos, desde o popular até o familiar, convergem para a cristalização da importância social dessa figura. Essa importância é, de certa maneira, o alicerce dos privilégios sociais adquiridos pelo doutor. Os populares os valorizam por eles serem detentores do
saber; as moças casadeiras buscam neles a manutenção de um poder financeiro; a família vê no diploma pouco trabalho e uma grande renda. Diferentes ideais de doutor predominam na Bruzundanga e no Brasil, menos aquele que o narrador- jornalista considera o correto para um homem de ciência. Na construção desse trajeto do doutor, desde a estrutura familiar até a vida pública, e nos pensamentos sociais que o envolvem, encontramos a exposição de comportamentos que rebaixam essa figura.
Logicamente que esse discurso radical e uniformizador de Lima Barreto em relação à classe dos doutores precisa de algumas pontuações. Sendo uma construção literária, de certa forma, recai na uniformização. Vimos com Needell (1993), no primeiro capítulo deste trabalho, a questão dos diplomados no Brasil pré- republicano e republicano. Geralmente os rapazes dessa categoria eram oriundos de famílias pertencentes à oligarquia rural e graças ao poder e as relações familiares podiam obter um diploma e dar continuidade à sua vida de doutor cujo escopo maior era, normalmente, um cargo público. Needell estuda a influência das ideias francesas aqui no Brasil e apresenta um quadro das relações da elite, os espaços de encontros dessa classe social, que ampliavam e fortaleciam elos entre as famílias abastadas. Alguns desses lugares eram os estabelecimentos de ensino destinados à elite. Até aí há situações que vão ao encontro do discurso de Lima Barreto. No entanto, a formação dos jovens da elite social na época, de acordo com o que é possível se depreender, não se dava somente através de tramoias. Isso não quer dizer que expedientes para favorecer jovens de famílias poderosas na busca de um título não existissem. É obvio que existiam e Lima Barreto direcionou seu foco nesse discurso que analisamos para tal situação. No entanto, quando se fala de um momento histórico, deve se atentar para a complexidade das relações sociais. Se havia malandragem e corrupção na formação de alguns doutores, havia também seriedade nessa formação, logicamente dentro dos ideais acadêmicos voltados para o crescimento material e para o progresso daquele tempo. O rigor da Politécnica, mencionado no primeiro capítulo deste trabalho, ajuda a ratificar nossa afirmação. A figura do professor Oto Alencar que encantou Lima Barreto por sua postura arrojada diante do seu tempo, o rigor do professor Licínio com os alunos e as exigências dessa escola com os estudantes deixam entrever que nem toda a formação dos doutores se dava através das articulações de favor.
Também as figuras de destaque no meio intelectual não podem ser resumidas em profissionais inaptos e incompetentes. Deve-se considerar que a classe doutoral não é uniforme, nela há doutores e doutores. A situação dos líderes intelectuais no primeiro momento da República é complexa. Eles se encontravam na difícil tarefa de modernizar o Brasil, um país recém saído de uma estrutura escravocrata, limitado pelo poder das oligarquias rurais, sem tradição no campo científico e fortemente influenciado pelos ideais europeus de sociedade.
Até agora abordamos parte do processo do riso em relação à figura do representante da “sciencia” na Bruzundanga. Analisamos o discurso na obra sobre o ingresso dos jovens às escolas superiores e sua aprovação através de ações corruptas. Resta abordar a vida desses rapazes “bem nascidos” após a formatura, para onde caminham e o prestígio social que ganham com o título. O ciclo de vida desses doutores oriundos de famílias poderosas se conclui, quase sempre, na vida pública ocupando altos cargos, trabalhando pouco e sendo bem remunerados. Todas essas vantagens quase sempre graças ao poderio familiar, ao título de nobreza doutoral adquirido em uma escola superior e ao pensamento dos diferentes segmentos sociais, que ajudam a sustentar a imponência doutoral. Analisemos, então, a relação dos doutores com a esfera pública e o poder dos seus discursos. Comecemos com esse trecho da obra:
Tendo crescido imensamente o número de doutôres, êles, os seus pais, sogros, etc., trataram de reservar o maior número de lugares do Estado para êles. Capciosamente, os regulamentos da Bruzundanga vão conseguindo êsse desideratum (BARRETO, 1956, p. 58).
Desde o tempo do Império, os líderes intelectuais diplomados e ocupantes de grandes cargos na esfera governamental, quase sempre, eram homens vindos de famílias influentes e o perfil deles era bem uniforme. No tempo de Lima Barreto, essa situação já era um pouco diferente, ou seja, ao lado dos doutores, que tinham o cordão umbilical na elite econômica, outros intelectuais vão surgindo devido ao processo de diversificação das atividades sociais, que ocorre na sociedade brasileira em fins do século XIX e início do século XX. Não é difícil de supor, no entanto, que os doutores “bem nascidos” ainda possuíam um poder significativo, mesmo com outros intelectuais, não oriundos de famílias abastadas, surgindo na sociedade.
A diversificação dos doutores é perceptível na passagem que apresentamos quando o narrador menciona o crescimento do número de integrantes dessa classe. Devido a esse crescimento, percebe-se a ação das famílias poderosas para se manterem na esfera dos privilegiados. Em outra passagem da obra também fica evidente o surgimento de outros doutores, com perfil e origem diferentes:
Há algumas famílias que são de verdadeiros Polignacs doutorais. Ao lado, porém, delas vai se formando uma outra corrente, mais ativa, mais consciente da injustiça que sofre, mais inteligente, que pouco a pouco, há de tirar do povo a ilusão doutoral. (1956, p. 76)
Em outro discurso, dessa vez não-literário, encontramos uma explanação sobre os nossos primeiros intelectuais. As afirmações de Lília Moritz Schwarcz vão ao encontro do que Lima Barreto apresentou sobre os novos doutores da Bruzundanga (Brasil):
Vinculado de maneira mais ou menos direta às elites econômico-financeiras do país, esse primeiro grupo de intelectuais brasileiro, até meados do século