• Nenhum resultado encontrado

3 SOMBRAS DE UM MORRO EM UMA AVENIDA ILUMINADA

3.2.1 – TODOS NA RODA

No capítulo seguinte a esse que acabamos de abordar, datado de 03 de maio de 1905, o jornalista apresenta a descoberta de mais uma galeria:

Mais uma galeria subterrânea foi descoberta ontem no morro do Castelo. Decididamente a velha mole geológica, esventrada pela picareta do operário descrente, despe o mistério que a envolvia e escancara o seu bojo oco e cobiçado à pesquisa dos curiosos.

Já ninguém contesta que o morro lendário, célula matriz de Sebastianópolis, encerra nas arcas de seus poços interiores, atulhados pela caliça de três séculos e meio, um alto, um elevado tesouro... bibliográfico pelo menos. (1999, p. 32)

A descoberta de mais uma galeria é a continuidade dessa atmosfera carnavalesca que envolve a narrativa. O jornalista, ao apresentar esse acontecimento ironiza a crença nos tesouros. Primeiramente, ele afirma que a presença desses tesouros já é algo indubitável e, em seguida, utilizando uma pausa com reticências, especifica os tesouros que os subterrâneos do morro com certeza guardam: riquezas bibliográficas, “pelo menos”. Nessa ironia, se entrevê um pouco do perfil dos exploradores de tesouro apresentado pelo autor. Lima Barreto exibe os

nossos elegantes e sábios líderes expondo sua avidez pela materialidade e a sua desconsideração de outros tesouros, que também fazem parte da história de uma população. O autor desnuda a condição ética dos representantes da “sciencia”. A ironia em relação aos tesouros bibliográficos sugere o pouco ou nenhum interesse dos governantes por esse tipo de riqueza. Nessa construção do discurso sobre a “sciencia”, ou melhor, sobre os seus representantes brasileiros no poder, está uma pequena ironia que aponta para uma contradição altamente questionável: líderes que usam a aura do saber, da intelectualidade e do conhecimento e, no entanto, desconsideram riquezas bibliográficas em detrimento de tesouros materiais. É comum, nas obras do autor, os homens públicos aparecerem marcados pelo desânimo, pela rudeza, pela insipiência e pela corrupção. Mais adiante, em outra passagem do texto, o jornalista reforça essa face dos nossos líderes: “hoje é a própria cripta do morro que parte como a querer bradar para o céu o seu protesto contra a irreverência e a avidez dos homens!” (1999, p. 33). É interessante observar que o jornalista, que narra e é personagem da história, caminha sempre em busca desses tesouros não-materiais.

O ataque à ganância e à visão limitada de nossos governantes, através do riso irônico, é algo patente. A própria destruição do morro do Castelo, que é um dos temas centrais da narrativa, aponta para isso. A abordagem do assunto logicamente não é por acaso, ela é reveladora da brutal interferência no espaço urbano sustentada por discursos científicos e também por questões políticas e econômicas. As palavras inflamadas do jornalista nessa outra passagem do capítulo que ora abordamos não deixam dúvida: “O homem já não se contenta em querer escalar o céu, quer também descer ao coração da terra e não poderá o morro do Castelo embaraçar-lhe a ação” (1999, p. 33). Em se tratando de um autor como Lima Barreto, extremamente atento à administração do Brasil e sensível às questões sociais, torna-se evidente a pesada crítica que ele faz nessa passagem. O morro do Castelo é tradição, passado, memória cultural, “tesouro bibliográfico”, no entanto, o que tudo isso importa aos nossos líderes positivamente “científicos”, que só vem o desenvolvimento humano e social linearmente, em uma única direção: a materialidade? É possível entrever no discurso do autor que a “sciencia” na sociedade brasileira encontrava-se numa situação tensa, rodeada de interesses

políticos e econômicos. Aqui lembramos novamente Needell (1993) quando expõe que a formação de nossos jovens era orientada para o progresso material.

A confusão se intensifica com a descoberta de mais aberturas e a multidão é atraída por essas descobertas. É nesse momento que o riso carnavalesco em torno dos “homens de sciencia” ganha mais força e exibe com mais nitidez o discurso sobre a visão cientificista fundamentadora das atitudes dos líderes brasileiros na Primeira República. Encontramos, nessa altura da narrativa, uma personagem de extrema importância na exposição que o autor faz das figuras públicas governamentais. Essa figura ajuda a desenhar, através de um contraste, os líderes republicanos representantes da “sciencia”. Vamos ao capítulo seguinte, é nele que surge essa personagem.

O capítulo, publicado em 04 de maio de 1905, inicia-se com a descrição da aglomeração em torno do local onde estaria o suposto tesouro. A personagem, a que nos referimos há pouco, aparece em destaque em meio à multidão e é facilmente percebida pelo jornalista, que cobre os acontecimentos no morro do Castelo:

Aproximamo-nos. Havia uma franca comunicatividade entre os curiosos, trocavam-se comentários estranhos sobre a direção dos subterrâneos, as salas amplas, em mármore rosado, nas quais se enfileiram, pejadas de ouro e pedrarias, as arcas dos discípulos de Loiola.

Mas em meio a multidão, salienta-se um senhor alto, de bigodes grisalhos e grandes olhos penetrantes, cuja voz pausada e forte atrai a atenção de toda gente. O círculo de curiosos se aperta a pouco e pouco e os ouvidos recebem deleitados as palavras do oráculo.

De coisas extraordinárias sabe este homem; tem talvez cinqüenta anos de idade, dois terços dele gastos no esmerilhamento das verdades ocultas nas entrelinhas de pergaminhos seculares.

Ele sabe de todo um Rio subterrâneo, um Rio inédito e fantástico, em que se cruzam extensas ruas abobadadas, caminhos de um Eldorado como não no sonhara Pangloss. [grifo meu] (1956, p. 36)

Depois da descoberta das galerias, esse é o segundo acontecimento que inicia um outro momento da narrativa. A aparição é carnavalescamente interessante, tão interessante quanto à figura que aparece. A personagem surge em meio à multidão, destaca-se nela, faz com que as pessoas que ali estão a rodeiem e a ouçam. Ele não emerge dos subterrâneos do Castelo, mas vem a público a partir da confusão em torno deles e de suas lendas. O corpo dessa personagem apresenta traços do corpo grotesco. Ele é alto, tem os olhos e o bigode evidenciados; este se

destaca pela cor e aqueles pelo tamanho e pela expressividade, são olhos grandes e penetrantes. Além disso, sua voz é forte e pausada. São necessárias agora algumas considerações sobre esse corpo grotesco para esclarecermos o sentido da palavra grotesco e para embasarmos a interpretação que faremos dessa personagem.

O grotesco, corriqueiramente, é entendido como algo feio, desajeitado, pouco agradável esteticamente, porém não é esse o sentido que Bakhtin atribui a ele:

Como já sublinhamos várias vezes, o corpo grotesco é um corpo em movimento. Ele jamais está pronto nem acabado: está sempre em estado de construção, de criação, e ele mesmo constrói outro corpo; além disso, esse corpo absorve o mundo e é absorvido por ele (lembremos a imagem grotesca do corpo no episódio do nascimento de Gargântua e da festa da matança). (1999, p. 277)

Logicamente que as considerações do grotesco que Bakhtin faz no trecho acima são relativas a esse fenômeno em seu estado inaugural em forma de literatura na obra Gargântua e Pantagruel de Rabelais. No entanto, como o próprio Bakhtin salienta em A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, as manifestações do grotesco não desapareceram, elas atravessaram diferentes épocas e se mantêm vivas na literatura, embora diferentes do seu estado original. Estamos trabalhando com uma construção literária do início do século XX, logicamente que os traços do corpo grotesco, que destacamos nessa figura criada por Lima Barreto, não serão exatamente os mesmos desse fenômeno em seus primórdios.

A figura no meio da roda de pessoas no morro do Castelo tem os olhos grandes e penetrantes. Esse detalhe é importante. Geralmente, os olhos não costumam ser motivos do grotesco, a não ser que sejam exagerados. Os olhos dessa personagem apresentam, de certa forma, esse exagero. A atenção que o jornalista-narrador dá a eles é o indicativo do quanto eles chamam a atenção, do quanto absorvem o mundo e do quanto estão atentos ao movimento da vida. Como já evidenciamos através de Bakhtin, o grotesco é vida, ele nega a estaticidade, o acabamento, as verdades prontas. A personagem destacada surge em meio à multidão de populares e não no reduto dos “sábios” engenheiros. Também não se mostra perdido diante da crença nos tesouros subterrâneos e dos mistérios que rodeavam aquele local. O corpo grotesco não teme a natureza e o mistério, pois faz parte deles, ele é “a sensação viva que o povo tem de sua imortalidade histórica coletiva” (BAKHTIN, 1999, p. 284). O senhor se apresenta altivo e firme no que diz a

respeito do morro do Castelo e dos seus subterrâneos e suas afirmações vão de encontro às medidas que os sábios engenheiros fazem ao explorar o morro.

Os conhecimentos que essa personagem traz estão intimamente ligados à esfera popular. O narrador afirma que ele sabe “coisas extraordinárias”, de um “Rio subterrâneo”, ou seja, oculto, invisível aos olhos de muitos. Nessa figura que surge, estão presentes o imaginário, o passado e uma cidade bem diferente do Rio de Frontin, é uma cidade subterrânea como o jornalista narrador afirmou. Sua eloqüência e seus conhecimentos seduzem os populares ali no morro do Castelo, o que este homem sabe é bem mais próximo da população e o discurso dele mais acessível a ela. Percebe-se na estrutura da obra a intenção de mostrar nessa figura um saber vivo, próximo aos populares, diferente daquele conhecimento que circula entre “os homens de sciencia”. A personagem fala altivamente dos subterrâneos e se envereda por uma história ultrarromântica vivida por uma condessa italiana, um religioso da ordem dos jesuítas e um praticante do corso.

Tudo isso que envolve esse misterioso homem o coloca em oposição ao racionalismo dos líderes republicanos na obra. Lima Barreto, como um cronista atento ao cotidiano do Rio de Janeiro na República Velha, não deixaria registrar o forte vínculo da população com o mistério e com a emoção e o distanciamento dessa população com o rigor racional proposto pela “sciencia”. A personagem que agora focamos e seu destaque em meio à multidão ratificam essa nossa afirmativa. É conveniente aqui apresentar um trecho da obra Os bestializados que tem muito a ver com o assunto que abordamos:

Mais ou menos à época da Revolta da Vacina, por exemplo, João do Rio verificou, ao visitar a Casa de Detenção, que “Com raríssimas exceções, que talvez não existam, todos os presos são radicalmente monarquistas. Passadores de moedas falsas, incendiários, assassinos, gatunos, capoeiras, mulheres abjetas, são ferventes apóstolos da restauração”. Eram monarquistas e liam romances de cavalaria. Esta extraordinária revelação confirma o abismo existente entre os pobres e a República e abre fecundas pistas de investigação sobre um mundo de valores e idéias radicalmente distinto do mundo das elites e do mundo dos setores intermediários [grifo meu]. (CARVALHO,1987, p. 31)

As palavras de José Murilo de Carvalho convergem para a interpretação que fizemos do discurso de Lima Barreto sobre o distanciamento entre a pluralidade popular e a visão dos governantes na República Velha. A leitura rápida do discurso