2.4 Redes e laços
2.4.1 O duplo movimento empresarial
Aqui é interessante retomar o debate de um pensador importante, Polanyi. Em seu
livro “A grande transformação”, inicialmente publicado em 1944, Polanyi (2000) desenvolve
uma análise profunda, com base em documentos históricos, da revolução industrial e os
esforços para se estabelecer e difundir um novo mercado, autorregulável.
Antes, na pré-revolução industrial, os mercados eram vistos como acessórios da
vida econômica, sendo o sistema econômico absorvido pelo sistema social: “em vez de a
economia estar embutida nas relações sociais, são as relações sociais que estão embutidas no
sistema econômico”. (POLANYI, 2000, p.77)
Neste sentido, o autor utiliza-se das pesquisas antropológicas sobre a função e o
papel da economia nas sociedades primeiras. Afirmando que a história e as etnografias
conhecem vários tipos de economia, alega que nenhuma delas seria controlada e regulada pelo
mercado. Assim, reafirma que a descoberta mais importante dessas pesquisas é que a
economia do homem está enraizada nas relações sociais. O interesse individual econômico
ausência de motivação pelo lucro, a ausência do princípio do menor esforço e, em especial,
segundo Polanyi (2000), verifica-se “a ausência de qualquer instituição separada e distinta
baseada em motivações econômicas” (POLANYI, 2000, p.67). Para comprovar seu
argumento, utiliza-se dos exemplos das sociedades tribais, os princípios da reciprocidade e de
redistribuição (idem, ibidem).
A redistribuição e a reciprocidade permitiam a coesão social, a produção, os
serviços prestados, ou seja, as pessoas ajudavam-se umas às outras, davam e recebiam
livremente. Claro que havia uma autoridade central capaz de garantir ajuda aos excluídos, aos
doentes etc., funcionando assim como o agente de redistribuição.
Além da redistribuição e da reciprocidade havia uma terceira atividade
econômica, a qual Polanyi denominava domesticidade, que consistiria na produção para uso
próprio (POLANYI, 2000, p.73). O que Polanyi apresenta com base nesses estudos
antropológicos é a não existência de um mercado, divergindo assim dos economistas e
filósofos liberais que afirmavam que os homens sempre foram negociantes e que o mercado
fora o local primeiro da instituição econômica. A base nessas sociedades era de
solidariedade, princípios morais, éticos, cooperação e confiança. No entanto Polanyi (2000)
defendia que esses princípios existiram e sempre existirão em todas sociedades, em graus
diferenciados.
Um dos argumentos importantes do autor é aquele que ele denomina de duplo
movimento, donde a dinâmica da sociedade era a expansão contínua do mercado, ao mesmo tempo em que essa expansão era enfrentada por um contramovimento vital para a defesa e
proteção da sociedade. Sendo, segundo o autor, esse contramovimento incompatível com o
mercado autorregulável e com o próprio sistema de mercado.
Esse duplo movimento pode ser entendido como a ação de dois princípios
como meta estabelecer um mercado autorregulável e o livre comércio. O outro foi o princípio
da proteção social, que dependia do apoio daqueles que eram afetados pela ação do mercado.
É a partir desses dois ângulos que ele tenta estabelecer e modelar a história social do século
XIX. A partir dessas análises históricas, podemos compreender que o duplo movimento
apresentado pelo autor pode ser uma tendência histórica, e não uma lei da história.
Se na teoria de Polanyi (2000), o contramovimento surge após a ideia de um
mercado auto regulável, parece que para nós, o contramovimento, o de proteção social, é
anterior. Dos anos 1964 a 1989 emergiram diversos movimentos sociais na luta pela
ampliação dos direitos, movimentos de negros, mulheres, sem terra, ou seja, a sociedade se
auto-organizava na luta e resistência ao poder do Estado, bem como parcela do empresariado
nacional que apoiava a ditadura. Nos dizeres sobre a época, o golpe de 1964 era empresarial-
militar (DREIFUSS, 1981). Muitas das pesquisas sociológicas apontavam os movimentos
sociais como agentes que conseguiram, na e pela luta por direitos, transformar a sociedade,
protegê-la.
E em que isso pode nos ajudar a pensar nossas questões presentes? É importante
observar que no Brasil dos anos pós-redemocratização observamos um duplo movimento por
parcelas do empresariado, o que nos parece aproximar das argumentações de Polanyi. O primeiro estaria ligado ao processo de privatização, dirigido pelo Estado, de suas maiores estatais e a compra destas por parte do empresariado nacional e internacional.
Seria aqui, a meu ver, a forma de dominar a economia, antes centrada nas mãos do Estado,
impulsionando o mercado autorregulável, ganhando espaço e poder sobre os demais caminhos
da vida econômica e política no país. Importante observar que tais privatizações foram em
certa medida financiadas pelo próprio Estado. O Estado se faz presente, mesmo quando
teoricamente não pretende: “para construir-se o pretenso mercado autorregulado, que
muito Estado, muitos recursos públicos (OLIVEIRA, 1998 p.13)”. Conforme Oliveira (1998),
para a formação do sistema capitalista é impensável não haver recursos públicos, que em
alguns casos para este autor funcionam quase como um “acumulação primitiva”.
O segundo movimento estaria ligado às criações das fundações e institutos empresariais, muitos dos quais nascidos no mesmo período das privatizações, logo após a redemocratização. Claro que encontramos entidades como a Fundação Bradesco, bem anterior
a este período, mas são poucos os casos. O boom dessas organizações se dá
concomitantemente à abertura do mercado brasileiro.
Isso, contudo, não quer dizer que esse duplo movimento, no segundo em
específico (por parcela do empresariado, do surgimento das fundações e institutos empresariais), signifique necessariamente um contramovimento como aquele descrito por Polanyi (2002), de proteção social. Parece-nos, ainda usando o autor, a criação de uma nova mercadoria fictícia: o social. É onde o mercado encontra os direitos, e isso se dá nesse
encontro com o social e toda gama de políticas que vem junto.
Como discorre Polanyi (2000), trabalho, terra e dinheiro eram elementos
essenciais para a indústria e deveriam ser organizados em mercados. Estes mercados
formariam uma parcela vital do sistema econômico. Contudo, trabalho, terra e dinheiro não
eram mercadorias, já que o postulado de tudo que é comprado e vendido tem que ser
enfaticamente produzido para venda, o que se torna irreal para esses exemplos citados pelo
autor. Portanto, eles não deveriam ser classificados como mercadorias.
Trabalho é apenas um outro nome para as atividade humanas que acompanham a própria vida que, por sua vez, é produzida pela venda mas por razões inteiramente diversas, e essa atividade não pode ser destacada do resto da vida, não pode ser armazenada ou mobilizada. Terra é apenas outro nome para a natureza, que não é produzida pelo homem. Finalmente, o dinheiro é apenas um símbolo de poder de compra e como regra, ele não é produzido mas adquire vida através do mecanismo dos bancos e das finanças estatais. Nenhum deles é produzido para a venda. A
descrição do trabalho, da terra e do dinheiro como mercadoria é inteiramente fictícia. (POLANYI, 2000, p. 94)
O autor enfatiza que, com a ajuda dessa ficção, são organizados os mercados reais
do trabalho, da terra e do dinheiro. Seria possível acrescentar, na perspectiva aqui
desenvolvida, o mercado do social? Este seria o lugar onde organizações, as mais diversas do
campo societal, e mais especificamente, do campo das instituições empresariais, se colocam
como protagonistas não só da defesa dos direitos sociais, mas da consecução desses, influindo
muitas vezes nas realizações das políticas públicas.
Polanyi (2000) ainda distingue mercados do sistema de mercado, colocando-se
contrário à unificação de todos os mercados num único sistema econômico nacional e
internacional. A pesada crítica recai, contudo, sobre o que chamou de mercado autorregulável,
ou seja, uma economia de mercado não determinada pela sociedade, mas funcionando tão
somente dentro da lógica da lei da oferta e da procura.
Seguindo a mesma linha de raciocínio de Polanyi (2000), o social não é produzido
para venda. No entanto, a nosso ver, assume como característica a função de mercadoria
fictícia, visto que a ficção que ele assume por meio dessas organizações é em certa medida o
padrão e o modo de ser da sociedade, são as relações de trocas pessoais, as disputas por
projetos e editais etc. Aqui, a face mais perversa: a economia, ao invés de ser como descrita
por esse autor, um acessório da sociedade, agora tem a sociedade como seu acessório.
Se a autorregulação significa que toda produção deveria ser vendida no mercado,
por consequência haveria mercado para todos os componentes, no caso pensando por Polanyi,
a indústria. O autor que pregou a autoproteção à sociedade não poderia imaginar que ela
mesma e as necessidades do humano poderiam, eles próprios, transformarem-se em
autoproteção social. Que no caso brasileiro parece ser outra coisa, outra forma que não
necessariamente a solidariedade pensada por Polanyi.
Para nosso caso em questão, nosso duplo movimento, existiria algum
contramovimento? O que constatamos como contramovimento, ou seja, contra as políticas
ditadas pelo mercado para a sociedade? Como a sociedade brasileira se auto protegeu?
Constatamos na atualidade o setor empresarial financiando a política partidária, os
movimentos sociais, a igreja, ONGs, ou seja, tem financiado tudo o que se refere à política e
aos cargos públicos da república. Qual o sentido dessa ação? Tratar-se-ia, aqui, da atuação do
mercado auto regulável, a busca incessante por ganhos, rompendo assim todos os laços em
nossa sociedade? Segundo Oliveira (2004, p. 6), tal configuração expressa que as “empresas
são, agora, o poder político e, na clássica divisão de poderes entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, assaltam e preenchem todos os lugares”.
Oliveira (2010) afirma que o chamado ciclo neoliberal iniciado no governo
Collor, e com mais de vinte anos com Lula, representou um ciclo anti-Polanyi. Então, na busca do entendimento desse duplo movimento descrito pelo economista húngaro, e que no
Brasil toma outra forma, optamos por seguir as pistas de Oliveira (1998), quando este se
utiliza do conceito de fundo público para investigar os processos pelos quais o capitalismo
perdeu sua capacidade de autorregulação. Na tentativa de explicar essa perda pela ótica liberal
ou neoliberal, o autor discorre sobre uma “intervenção estatal”, que segundo ele, representaria
um pseudoconceito que tenderia a apresentar mais uma matriz ideológica, empobrecendo
assim o debate.
Segundo Oliveira (1998), a crítica neoliberal transformou o Estado em agente
econômico, ou seja, com a mesma racionalidade dos agentes privados. Neste sentido o autor
questiona: de que serviria uma “intervenção estatal” de um agente igual aos outros? Oliveira
empresas multinacionais manejam recursos superiores a boa parcela dos países latino-
americanos, asiáticos e africanos. E que mesmo àqueles Estados fracos seriam diferentes
qualitativamente de uma empresa.
Para o autor, a “intervenção” só é eficaz dado o peso da transformação do Estado
no século XX, com a radical separação com relação a sociedade. É isto que torna
“qualitativamente diferente e imune aos azares dos negócios privados: sua racionalidade é de
outro nível, formada por outros elementos e sujeita a outras determinações e contradições”
(OLIVEIRA, 1998, p50).
Neste sentido, Oliveira (1998, p.53) desenvolve o conceito de fundo público. Este
conceito para o autor representa uma relação de contrariedade, já que não expressa apenas
recursos estatais “destinados a sustentar ou a financiar a acumulação do capital”. Ele também
representa, no mesmo movimento, na mesma unidade, “a razão do Estado, que é sociopolítica,
ou pública (...), e a razão dos capitais, que é privado”. Ou ainda,
O processo de produção desse movimento, que busco conceituar de fundo público, é o processo da luta de classes. Mas é também o do seu deslocamento da esfera das relações privadas para uma esfera pública ou [dos direitos], dizendo de outra forma, o da transformação das classes sociais de privadas para classes sociais públicas.
Ou seja, para Oliveira (1998), o fundo público só se mantém e se sustenta como
um processo de publicização e dos deslocamentos das lutas de classes no campo das relações
privadas para a das relações públicas.
Oliveira, em 2003, atualiza a crítica sobre a sociedade e a economia brasileira. Por
meio da tese de como o moderno e o arcaico se complementam, virando o que o autor
denominou de o ornitorrinco, ele também aborda o surgimento de uma classe, esta
encarregada agora em administrar os fundos públicos. Ao retomar a discussão sobre os fundos
públicos e sobre a estrutura de classes que sustenta tais fundos, o autor argumenta que a
foi modificada no momento em que seus dirigentes se transformaram numa espécie de
“analistas simbólicos”. Ou ainda, nos dizeres do autor (2003, p.146):
são administradores de fundos de previdência complementar, oriundos das antigas empresas estatais, dos quais o mais poderoso é o previ dos funcionários do Banco do Brasil, ainda estatal; fazem parte de conselhos de administração, como o do BNDES, a título de representantes dos trabalhadores.
Essa nova classe seria composta, por um lado, por técnicos e economistas
“doublés de banqueiros” que compõem o núcleo duro do PSDB (Partido da Social
Democracia Brasileira), e, por outro, os trabalhadores que se transformaram em
administradores de fundos (núcleo duro do PT):
a nova classe tem unidade de objetivos, formou-se no consenso ideológico sobre a nova função do Estado, trabalha no interior dos controles de fundos estatais e semiestatais e está no lugar que faz a ponte com o sistema financeiro. Aqui não se trata de condenação moral, mas de encontrar razões para o que, para muitos, parece uma convergência de contrários despropositada e atentatória contra os princípios do Partido dos Trabalhadores. (OLIVEIRA,2003, p.148).
A relação dessa classe no capitalismo globalizado funcionaria como um
intermediador estatal junto ao sistema financeiro. O “mapa da mina” é o que se quer alcançar,
e este é o não-lugar, ou seja, o lugar onde a burguesia não tem acesso, acesso ao fundo
público. Não se trata, contudo, com observou Oliveira (2003), de se apropriar dos lucros, mas
de controlar o lugar onde se forma parte dos lucros. Segundo o autor, neste cenário o que nos
resta é o domínio do capital financeiro, e o ornitorrinco está condenado a submeter-se a toda
veracidade da financeirização, sendo esse o paradoxo dos trabalhadores, na função de
operadores dos fundos. E com o domínio do capital financeiro e com todo o processo de
privatização, cabendo justamente aos trabalhadores o papel de “correia de transmissão”, ou
mais especificamente, de serem os interlocutores no processo de “transferência de
patrimônio”. “O ornitorrinco capitalista é uma acumulação truncada e uma sociedade
Um país construído no entrelaçamento entre a lógica cordial e a violência, num
processo de privatizações do público, ou das políticas que se dizem universais, apresenta
dessa forma um novo modelo de intervenção, que se situa justamente entre o público e o
privado. Se para Oliveira as empresas converteram-se em “atores políticos de primeira linha”,
sendo a política hoje domínio da economia, para Paoli (2007) todo movimento hoje na esfera
societal apresenta-se “massificado”. Como ainda observa a autora; “há a transformação do
sentido das técnicas sociais salvacionistas, usadas agora como critério principal de julgamento
tanto dos governos como das empresas virtuosas” (PAOLI, 2007, p.237).
Esse campo chamado “social” passa a ser operado agora, em certa medida, por
aquilo descrito por Oliveira (1998; 2003; 2007): operadores dos fundos públicos e
operadores da política no campo societal, este oriundo e formado na tradição de uma sociedade civil ativa e prepositiva, seja por meio dos movimentos sociais, ONGs ou na
própria academia. Isto, conforme Oliveira, muda toda a estrutura de classes. Na medida em
que os trabalhadores passam a administrar os fundos de pensão, base estrutural da formação
das classes, estes passam a servir como “correia de transmissão” não somente na esfera
Estatal, mas como pesquisado aqui, na esfera societal, para uma fração da burguesia nacional
(o setor financeiro, por exemplo). Para além do Estado, é a sociedade o espaço em disputa,
porque se anula o caráter crítico e contestatório sobre as ações do Estado que essa possa vir a
desenvolver.
Outro dado colocado por Oliveira (2007, p.271) é como justamente a “sociedade
civil” passa na administração lulista a ser representada por notórios empresários que foram
alocados em ministérios expressivos:
o CDES é o retrato da sociedade que o PT e o Lula pensam que existe, e mais, que eles querem que exista. O conselho é pensado como um retrato, uma reprodução da “sociedade civil”: muitos empresários, de todos os ramos, mas com predominância dos do setor industrial e financeiro, uma dúzia de sindicalistas, alguns intelectuais –
a eterna cereja em cima do pudim – e um representante da ABONG, a organização maior das ONGs brasileiras.
Com isso fica evidente o tipo de “sociedade civil” que o governo lulista privilegiou,
haja vista o “desbalanceamento das representações”.
Se FHC destruiu os músculos do Estado para implementar o projeto privatista, Lula destrói os músculos da sociedade, que já não se opõe às medidas de desregulamentação. E todos fomos mergulhados outra vez na cultura do favor – viva Machado de Assis, viva Sérgio Buarque de Holanda e viva Robert Schwarz! (OLIVEIRA, 2010, p.375)
Esse novo modelo que uniu parceria pública e privada na gestão petista exerceu
um efeito corrosivo, segundo Paoli (2007), na aspiração de uma igualdade. Além do mais, a
“cidadania” assumiu um caráter emergencial e as políticas públicas e privadas que transitam
nesse meio são objetos de disputas entre os vários programas de “socorro” ou “prevenção” do
“abarrotamento dos problemas sociais”.
Há como podemos verificar no “momento do encontro”, uma dificuldade que nos
é colocada: a compreensão das ações dos grupos que constituem a “sociedade civil”. Já que
suas práticas e financiamento se dão muitas das vezes no acesso a fundos públicos, via editais,
bem como, na doação privada “racionalizada de bens e materiais simbólicos” (PAOLI, 2007,
p.231).
Tanto os trabalhos de Oliveira como os de Paoli se situam naquilo que eles
classificaram como “indeterminação”. Paoli, no entanto, ao apontar em específico o mundo
do indistinto, descreve as operações no âmbito societal, e como o capital vai adentrando nesse
campo e em consonância com os demais agentes da sociedade civil, vão capturando e
transformando tudo em gestão. Se para os autores supracitados o período poderia ser
compreendido como a era de indeterminação, nos parece que, com a entrada do PT, este
ficou muito bem determinada; claro que para as estruturas do capitalismo no Brasil e seus
operadores.
Na carta ao povo brasileiro de 2002, a coalizão do PT já expressara o compromisso com uma transição moderna para o novo governo, garantindo os compromissos internacionais assumidos e o crescimento com a estabilidade, com a promessa de proteção ao superávit primário. (TORRES, 2012, p. 99)
Ou ainda, como enfatiza Iasi (2006, p. 359 apud TORRES, 2012, p.99): “a
experiência do PT é um excelente exemplo do movimento de constituição de uma classe
contra a ordem do capital que acaba por se amoldar aos limites da ordem que queria superar”.
A fala acima vai na mesma direção daquilo descrito por Oliveira (2010) como
“hegemonia às avessas”47. Para o autor, estamos em nova fase de uma nova dominação, na
qual não são mais os dominados que consentem sua própria exploração, mas sim os
dominantes,
os capitalistas e o capital, explicite-se [...] que consentem em ser politicamente conduzidos pelos dominados, com a condição de que a “direção moral” não questione a forma da exploração capitalista. É uma revolução epistemológica para a qual ainda não dispomos da ferramenta teórica adequada (OLIVEIRA, 2010. p.27)
Ora, como podemos visualizar essa hegemonia às avessas cunhada por Oliveira
(2010)? No âmbito estatal criou-se uma nova classe social, a dos operadores de fundos
públicos, e, no âmbito social, a dos operadores da política social, representado a nosso ver por todo o mosaico que tentamos descrever aqui, e em especial, pelo seu representante
capitalista, os empresários, via suas ações de RSE.
Trata-se de um fenômeno novo e ainda em curso. Outras reflexões deverão ser
realizadas. Contudo, se há um processo de disputa hegemônica no Estado, este mesmo
47 O artigo "Hegemonia às avessas", inicialmente publicado em 2007, (Piauí, janeiro de 2007) pretendeu fazer
uma provocação gramsciana para melhor entender os regimes políticos que, avalizados por uma intensa participação popular (a "socialização da política", segundo Antônio Gramsci), ao chegar ao poder praticam políticas que são o avesso do mandato de classes recebido nas urnas. É o caso das duas presidências do Partido dos Trabalhadores no Brasil. E da destruição do apartheid na África do Sul, por meio de uma longa guerra de