• Nenhum resultado encontrado

Responsabilidade Social e o discurso da cidadania

A questão da cidadania emerge no cenário da sociedade civil, nas décadas

de 1970 e 1980, por meio da luta dos movimentos sociais, que privilegiavam a ação

política como mecanismo de ampliação da cidadania, enfatizando a luta por direitos.

Ao teorizar sobre a cidadania no Brasil, Teresa Sales (1994) explora a ideia

de subserviência e mando, numa cultura forjada na ideia da dádiva: “no nosso país ou

bem se manda ou bem se pede” (SALES, 1994, p.27). O que a autora quer enfatizar é

que os direitos emergem aqui como concessão dos senhores, dos favores fincados na

base de compromissos. Desta cidadania “concedida” para aquela cidadania “regulada”,

como aponta Wanderley Guilherme dos Santos (1979), o indivíduo para ser cidadão

deveria estar formalmente empregado em ocupações que fossem definidas pela lei, ou

seja, pelo Estado.

É interessante observar ainda, como fez Werneck (apud GRUPPI, 2000),

que no

modo de produção capitalista, é condição para que as classes dominantes possuam, além do domínio, funções e papéis de direção, num tempo histórico como este da universalização da cidadania, que sua concepção de mundo seja generalizante, fazendo parte inclusive do senso comum das massas. (idem, p.XIV)

No cenário de redemocratização, deparamos com a chamada “nova

cidadania”, termo apontado por Dagnino (1994 e 2004), fruto das lutas dos movimentos

sociais nos anos 1980. A abordagem da autora é composta de três elementos centrais:

“vinculação à experiência dos movimentos sociais, à construção democrática e seu

aprofundamento, e o nexo constitutivo entre cultura e política” (DAGNINO, 1994, p.

106-107). O que a autora enfatiza é que no interior do conceito de cidadania ampliada

ser pensados previamente pelo Estado e nem mesmo ser uma concessão, mas deve sim

surgir das lutas e práticas dos movimentos sociais. Neste sentido, a “cidadania

ampliada” significaria uma forma de transformação social e de uma estratégia de

construção democrática, oposta ao autoritarismo social presente na matriz cultural

brasileira.

Já para T. H. Marshall (1949) existem três níveis de direitos e cidadania,

que seriam os direitos civis, passando pelos direitos políticos e chegando, finalmente,

nos direitos sociais. Para este autor, os direitos civis surgem na Inglaterra e, após a

Revolução Gloriosa no século XVIII, consolida a monarquia constitucional naquele

país. No mundo moderno de hegemonia do capital, os direitos sociais foram por muito

tempo negados sob a alegação de que iriam violar as leis de mercado; de certo modo,

mesmo com todo o avanço do direito, esse mesmo direito não volta a ser negado hoje?

O artigo de Fábio Wanderley Reis, “Cidadania, mercado e sociedade civil”

(1994), parece ser exemplar nesse aspecto, pois nos coloca diante dos impasses na

relação entre indivíduo cidadão, Estado e a dinâmica do mercado. E aqui o nó da

questão: a relação capitalismo versus cidadania. Sobre o capitalismo, este autor destaca

sua forma igualitarista corrosiva e as formas de desigualdades consubstanciadas em uma

sociedade de classes. É importante observar aquilo que ele chama de “mercado

político”. O uso corrente do termo estaria vinculado à noção de “interesses”, sendo

assim, a categoria mercado, segundo o autor, não se restringiria somente a esfera

econômica: haveria o “mercado político”, fundado numa solidariedade básica,

igualitária. A responsabilidade social, as ações do terceiro setor ou as ações

participativas com apoio de segmentos capitalistas teriam como base esse “mercado

No entanto, o que se observa é que a noção de cidadania da chamada

responsabilidade social, calcada na ideia de ação solidária, desloca o sentido do

“ativismo político pela cidadania e justiça social para o ativismo civil voltado para a

solidariedade social” (PAOLI, 2002, p. 377). É o mercado político, sugerido por Reis

(1994). Vejamos, por exemplo, como a noção de cidadania ganhou espaço no debate

cotidiano: são os “Amigos da Escola”, o “Criança Esperança”, o “Teleton23”, junto com

uma linguagem financeira e não uma financeirização, como bem salienta Grün (2005)24.

A noção de cidadania, tal como difundida pelo meio empresarial,

desconsidera seu caráter de construção política, substituindo a ação política pela ação

solidária, baseada, por sua vez, em concepções de solidariedade privada como medida

de justiça social.

Tal concepção está relacionada à ideia de que o Estado não tem mais

capacidade para responder as questões sociais; é ineficiente. Sendo o Estado incapaz de

responder tais demandas, a responsabilidade filantrópica privada aparece como “seu

oposto, como a corporificação da modernidade civil agora colocada como ênfase no

campo do mercado, o qual, operando através da racionalidade instrumental própria da

gestão mercantil, captura uma participação ativista e voluntária que realiza o milagre da

cidadania da doação” (PAOLI, 2002, p. 408).

A ênfase dada pelo meio empresarial à ideia de filantropia assistencial,

através da solidariedade, ganha roupagem moderna. A ênfase, agora, recai sobre a

técnica e a eficiência como medidas para a solução da questão social brasileira. No

entanto, percebemos que essa harmonização da sociedade civil, como expressa o

terceiro setor, retira da esfera da política o conteúdo do dissenso e do conflito, inerentes

à construção da democracia. Além do mais, as concepções do terceiro setor preconizam

23

Programas televisivos nos quais se realiza o que foi chamado por Paoli (2002) como a cidadania da doação.

24

a iniciativa individual contra a ineficiência do Estado e também contra a politização dos

conflitos sociais.

Percebe-se, dado o cenário de solidificação do projeto neoliberal através da

responsabilidade social, que se trata da incorporação da cidadania enquanto discurso.

Seus princípios orientadores, na realidade, seriam reorientar e lançar a responsabilidade

pelas políticas sociais para a sociedade civil, reduzindo a cidadania à mera

solidariedade, à boa vontade com os pobres – como obrigação moral e não um dever do

Estado. Também retira o próprio direito a ter direitos dos pobres, como se estes fossem

desprovidos, inclusive, dos seus direitos universais, enquanto seres humanos. “O cerne

dessa redefinição é a diluição precisamente daquilo que constitui o núcleo da concepção

de cidadania, a ideia de direitos universais” (DAGNINO, OLVERA e PANFICHI,

2006, p. 57).

A ação socialmente responsável dos empresários passa a ter lugar

simultaneamente à mudança do papel do Estado diante da questão social. Neste novo

contexto de privatizações e da desregulamentação público-estatal do mercado, surge

aquilo que se convencionou chamar de terceiro setor. É no próprio bojo desse processo

que surge também a “responsabilidade social”, que consiste na contraparte dada pela

sociedade civil aos problemas de esvaziamento das ações do Estado, no que se refere às

políticas sociais.

O que parece existir aqui é uma “incorporação” nos termos usados por

Raymond Williams (1977), ou seja, uma adequação daquilo que é absorvido. A

incorporação, nos termos do autor, é pensada numa perspectiva do sujeito dominante,

que por meio do seu projeto neoliberal, ao “incorporar” termos como “cidadania”, ou

“participação”, passa a usá-los de forma distorcida, como uma cópia, um fac-símile, e a

ser hegemônico. E é nessa disputa política por hegemonia que os banqueiros, a nosso

ver, passam a atuar também no setor social via RSE.

Estudos apontaram a ênfase na ideia de solidariedade difundida pelo terceiro

setor. No entanto, observa-se, em anos recentes, uma mudança da concepção de

solidariedade desse campo, bem como a forma ideológica em torno desse conceito, ou

como enfatizou Gutierres (2006), de um projeto. Essa mudança acontece justamente na

mescla que há entre o campo progressivo e o terceiro setor(como veremos no capitulo

II). E isso pode mudar á atuação desses dois campos que, por conseguinte, pode mudar

todo o discurso e ações com relação a questão da cidadania, participação e da própria

construção democrática.