• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1 CRIANÇA E ADOLESCENTE NA AMAZÔNIA: história e

1.4 O ECA E O RECONHECIMENTO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) entrou em vigor em 1990 e foi um marco jurídico no estabelecimento de uma doutrina de proteção integral para crianças e adolescentes, que passaram, desde então, a ser enxergadas como “sujeitos de direitos”. Segundo a pesquisadora Camila Teixeira Heleno (2010), a implementação da lei foi resultado de muitas lutas travadas pelos movimentos sociais, sobretudo na década de 1980, período de mais intensidade nas ações e manifestações. Porém, passadas mais de duas décadas, ainda há um longo caminho a ser perseguido para a operacionalização do que preconiza o dispositivo legal (HELENO, 2010, p. 19).

No livro organizado pela autora junto com a também pesquisadora Simone Monteiro Ribeiro, intitulado "Criança e Adolescente: sujeitos de direitos" há uma série de artigos que discutem essa nova ordem jurídica e trazem um paradigma para a construção de políticas públicas que tratem da questão da infância e adolescência, considerando a sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.

A autora (2010) explica também que no Brasil predominou por muito tempo a sociedade patriarcal, na qual o homem era o chefe das famílias. Atualmente, os últimos levantamentos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD, 2012)18 mostram que já chega a quase 40% o número de lares brasileiros chefiados pelas mulheres. O reflexo dessa mudança, após, sobretudo, à inserção da mulher no mercado de trabalho (HELENO, 2010, p. 22), resultou em um movimento jurídico para trazer não só a mulher para ter amparo legal, mas também os filhos. A afirmação da pesquisadora toma como base a Constituição Federal:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à

18 O levantamento tomou como referência o ano base de 2011, a partir do levantamento do Instituto

Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dados da pesquisa do PNAD podem ser conferidos em:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/09/22/mulheres-chefes-de-familia-nao-sao- mais-pobres-e-nem-sozinhas-diz-pesquisadora.htm. Acesso em: 13, jan. 2014.

cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988).

Na mesma obra citada, a pesquisadora Tânia Ferreira (2010) faz referência, ao falar da criança e do adolescente como sujeitos de direitos, ao fato de que, historicamente e culturalmente, a infância sempre foi tida como um período de ausência de responsabilidades, na qual a criança não é capaz de compreender muitas coisas e, por isso, precisa do adulto para falar por ela. Já a adolescência, segundo a autora (FERREIRA, 2010, p. 34), é vista como um período de crise da vida., pois o termo vem do latim adolecer, adoecimento, algo definido como "síndrome da impotência", como se fosse um "mal da idade". Nesse sentido, ela questiona: "Se o mal é da idade, como escutá-lo?".

Para a autora (2010), o grande problema em não enxergar a criança e o adolescente como sujeitos de direitos está no fato deles, na maioria das esferas sociais, serem vistos como objeto. Ou seja, esse olhar fere a condição de sujeito e de direito desse segmento (FERREIRA, 2010, p. 37). Ela explica que para a criança ascender à condição de sujeito precisa deixar de ser vista como um objeto, como um complemento, precisa ser vista como um ser falante e que é capaz, a despeito de sua pouca idade, de posicionar-se frente ao que diz. E essa condição de sujeito deve ser reforçada pelo Direito, que precisa garantir, efetivamente, a proteção absoluta de crianças e adolescentes (FERREIRA, 2010).

Maria José Gontijo Salum (2010) destaca que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) surge como um dispositivo legal de reconhecimento de direitos dos cidadãos nessa fase peculiar do desenvolvimento humano, mas também envolve todas as instâncias de poder, como Estado e família, nessa garantia.

O ECA está fundamentado na seguinte premissa: crianças e adolescentes são seres em desenvolvimento. A criança necessita ser objeto de cuidados e por ela um adulto deverá ser responsável e responsabilizado (...). Ao adolescente a seguinte tarefa se impõe: sair da posição infantil para uma outra, responsável (...). O adolescente deverá contar com o apoio das diversas instâncias encarregadas da socialização: família, escola, grupo de amigos, cultura, sociedade (SALUM, 2010, p. 53).

As pesquisadoras Maria Amélia Azevedo e Viviane Nogueira de Azevedo Guerra19 (2011, p. 336-337) complementam a avaliação sobre o ECA, dizendo que o dispositivo jurídico trocou o uso do termo “menor”, que era usado pelo Código de Menores de 1979, pelas expressões “crianças e adolescentes”, o que não representa apenas uma mudança retórica.

Mais do que mera substituição retórica (...). Ela sinaliza a compreensão da criança e do adolescente num sentido positivo e não depreciativo, enquanto sujeitos de direitos (cidadãos), pessoas em condição peculiar de desenvolvimento a requerer proteção, e consequentemente, credores do reconhecimento de que devem ser prioridade absoluta no nível de políticas sociais (AZEVEDO; GUERRA, 2011, p. 337).

A afirmação das pesquisadoras ressalta, portanto, que a substituição do termo “menor” por “crianças e adolescentes” no dispositivo jurídico reflete uma mudança no olhar jurídico dado às crianças e adolescentes, após a substituição do Código de Menores (1927)20 pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990. A pesquisadora Cecília Barros-Cairo (2012, p. 35),21 em seus estudos sobre “menores infratores” na mídia brasileira, destaca que o termo “menor” carrega um estigma de marginalização, que coloca esse segmento social como o “abandonado”, o que não tem família ou qualquer outro amparo estatal, ou seja, o “desinstitucionalizado”.

É a elaboração do Código de Menores (ou Código Mello Matos) no Brasil (Decreto n. 17.943-A, de 12 de outubro de 1927) no qual a categoria “menor” define limites etários e condição civil jurídica, mas também designa um tipo específico de criança: aquela em “situação irregular” (BARROS-CAIRO, 2012, p. 35).

Em nossa pesquisa, observamos que essa “situação irregular” leva ao uso do termo “menor” pela mídia tanto em casos em que o adolescente é acusado de ter praticado ato infracional, como analisou a autora (BARROS-CAIRO, 2012) quanto para

19 A Profª Drª Maria Amélia Azevedo é coordenadora do Laboratório de Estudos da Criança (LACRI) do

Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e a Profª Drª Viviane Nogueira de Azevedo Guerra é pesquisadora do LACRI. Ambas são organizadoras do livro “Infância e violência doméstica: fronteiras do conhecimento” (2011), além de autoras de várias outras obras e artigos publicados sobre violência doméstica contra crianças e adolescentes (VDCA) (AZEVEDO; GUERRA, 2011).

20 O Decreto n°17.943 A, de 12 de outubro de 1927, regulamentou o Código de Menores, elaborado pelo

juiz José Cândido de Albuquerque Mello Mattos.

21 Cecília Pinheiro Freire Barros-Cairo é autora da dissertação intitulada “Percursos discursivos do

‘menor infrator’ na mídia brasileira impressa e televisiva – história, memória e corpo”, no Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade, defendida na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), em 2012.

nomear as vítimas de violência sexual (Figuras 4 e 5). O termo permanece sendo usado na atualidade, como era na época do Código de Menores – mesmo o ECA já estando em vigor há mais de duas décadas – como observamos em nossa análise nos capítulos seguintes.

Figura 4:

O Liberal, 22 mai. 1958, p. 5. Foto: Avelina Oliveira de Castro Fonte: Biblioteca Pública Arthur Vianna.

Figura 5:

Diário do Pará, 16 nov. 2009, Polícia, p.10. Foto: Avelina Oliveira de Castro. Fonte: Biblioteca Pública Arthur Vianna.

No entanto, a despeito do tratamento dado pela imprensa às crianças e adolescentes, nomeando-as - e reconhecendo-as - como “menores”, as pesquisadoras (AZEVEDO; GUERRA, 2011, p. 256) destacam que o ECA “constitui hoje – não obstante algumas limitações – uma das legislações mais avançadas no nível mundial em termos de proteção dos direitos da criança”. Atualmente, as autoras (2011) têm desenvolvido seus estudos, trabalhando com o conceito de Violência Doméstica Contra Criança e Adolescente (VDCA), que é mais abrangente, pois engloba o contingente de

vítimas da violência praticada no lar, que incluem desde os maus-tratos físicos, a negligência, o abuso sexual até a violência psicológica.

O pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA), Ricardo Pimentel Méllo, em livro publicado em 2006, intitulado "A construção da noção de abuso sexual infantil", destaca que o surgimento da concepção de “abuso sexual infantil” foi favorecido pela construção da noção de infância a partir do advento do Estado, da família e da escola.

É nesse lugar atribuído para a criança na sociedade e na família (com as mudanças desta também), especialmente a partir do século XVI, solidificando no século XVII e com formas imperativas a partir do século XVIII, que permitiu, já na metade do século XX, julgar a relação sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente como "abuso" sexual, constituindo-o como um tipo e lhe dando autonomia suficiente para se "universalizar" e "naturalizar" (MÉLLO, 2006, p. 44).

O autor destaca também que a relação sexualidade-criança-jovem-adulto teve várias construções ao longo do tempo. A prevalência da moralidade cristã na constituição e aplicação das leis favoreceu a ilegalidade de várias atividades sexuais, como o adultério, a bigamia, o incesto, a sodomia (MÉLLO, 2006, p. 45). A prática legal de algumas atividades sexuais somente se tornou possível, segundo o pesquisador, no interior do casamento ou mediante a prostituição.

Méllo (2006, p. 51) explica que o sistema jurídico que prevê garantias de direitos para crianças e adolescentes coloca o Estado na condição de tomar para si o cuidado com as crianças, policiando as famílias. Como ele explica, são atribuídas responsabilidades aos pais e/ou responsáveis no cumprimento dos direitos das crianças, mas caso eles não sejam capazes de manter seus filhos em dispositivos disciplinares, o Estado, por meio de inquérito e decisão judicial, exerce a guarda dessas crianças.