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CAPÍTULO 2 ERA UMA VEZ entre lobos, “célebres” e “infames”

2.5 REGULARIDADES E DISPERSÕES NAS PÁGINAS DOS JORNAIS

Nas materialidades jornalísticas que selecionamos para compor o nosso corpus de análise e que, em parte, estão apresentados aqui, percebemos regularidades enunciativas no uso dos termos “tarado” e “menor”, atribuídos aos “infames” – acusados e vítimas – que aparecem, na maioria das vezes, nas editorias policiais. Por regularidades entendemos o que Foucault determina como uma “curva que une pontos singulares (regra)” (DELEUZE, 2005, p. 85). Ou seja, “as relações de força determinam pontos singulares, de tal modo que um diagrama sempre é uma emissão de singularidades”.

Foucault está perto do “distribucionismo” e, segundo a existência da Arqueologia, parte sempre de um corpus determinado e não-infinito, por mais diverso que seja, de palavras e textos, de frases e proposições, emitidos numa época e cujas “regularidades” enunciativas ele procura destacar (DELEUZE, 2005, p. 65).

Nesse sentido, destacamos que nosso corpus não é, de fato, infinito, corresponde ao período de existência dos dois jornais, com especial destaque para as décadas iniciais da trajetória deles e, mais recentemente, aos anos de 2008 a 2010 (período de vigência da CPI da Pedofilia).

No entanto, as expressões “tarado” e “menor” – que visualizamos como regularidades nessa dispersão discursiva jornalística sobre o tema do abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes - atravessam o curso do tempo (Figura 22), irrompendo nos enunciados jornalísticos desde a origem dos jornais O Liberal e Diário

do Pará e sendo atualizados até os dias de hoje.

O enunciado jornalístico “Índio tarado escapou de linchamento” (Figura 22) é mais um dos muitos que atribui ao acusado “infame” o termo “tarado” e que mantém a característica de relatar os fatos a partir de uma fonte policial.

Figura 22:

O Liberal, 29 mai. 1958, p. 4. Foto: Avelina Oliveira de Castro Fonte: Biblioteca Pública Arthur Viana

Como já foi assinalado em nossa análise, nas notícias envolvendo “infames” não foram observadas vozes de defesa dos acusados, por meio de advogados ou de argumentos dos próprios suspeitos de autoria, como está evidenciado no texto:

O delegado de polícia no município de Abaetetuba, sr. Isaías Silva Lima, vem de telegrafar à Chefia de Polícia, pedindo informações sobre o estupro havido há dias passados naquele município, sendo vítima uma menor de três anos de idade e autor um índio da tribo “Maués”. O semelhante caso revoltou a população do município de Abaetetuba, que queria a força, retirar o índio “tarado” da Delegacia de Polícia, onde se encontra preso, a fim de fazer justiça com as próprias mãos. O delegado Isaías avisou semelhante cena, rechaçando energicamente aqueles que tentavam linchar o índio estuprador (O LIBERAL 29 mai. 1958, p.4).

Observamos que na notícia há a presença tanto da expressão “tarado” quanto de “menor”, taxando, respectivamente, acusado e vítima. A repetição massiva dessas expressões ao longo do tempo contribui para a construção da identidade dos dois tipos de “infames”, aqui analisados (acusado e vítima), que aparecem como sujeitos nos

discursos jornalísticos. O trabalho discursivo de produção de identidades desenvolvido pela mídia cumpre, portanto, funções sociais básicas de reprodução de imagens culturais, generalização e integração social dos indivíduos (GREGOLIN, 2007, p. 50). Esses modelos de identidades produzidos pela mídia são socialmente úteis, pois estabelecem paradigmas, estereótipos, maneiras de agir e pensar que, simbolicamente, inserem o sujeito na “comunidade imaginada”.

A sofisticada técnica produz uma verdadeira saturação identitária pela circulação incessante de imagens que tem o objetivo de generalizar os modelos. A profusão dessas imagens age como um dispositivo de etiquetagem e de disciplinamento do corpo social (GREGOLIN, 2007, p 50).

A partir da afirmação de Gregolin (2007), podemos apreender que a análise da autora dirigida às imagens pode ser aplicada também para a profusão de enunciados expressos em forma de texto na imprensa. Sendo assim, é possível apreender que os saberes produzidos discursivamente pela mídia funcionam como um modo de subjetivação dos sujeitos, processo esse que foi foco de interesse de Foucault, como observa a autora:

Foucault procurou produzir uma história dos diferentes modos de subjetivação do ser humano na nossa cultura, segundo a análise das relações entre a produção dos saberes e o controle dos poderes. Ele se pergunta pelo como se processou a longa História de fazer do sujeito um objeto de conhecimento pelo estudo dos “modos de subjetivação”, das formas que “inventaram o homem”, seja como objeto de saber, seja como sujeito normalizado pelo poder, seja como sujeito de uma sexualidade (GREGOLIN, 2007, p. 46, grifo da autora).

Nesse sentido, fazendo referência ao enunciado cujo acusado é um indígena (Figura 22), destacamos que a “invenção do índio” é uma construção identitária que envolve uma complexa rede de atravessamentos de saberes e poderes (NEVES, 2009, p. 28), uma vez que “podemos entender que se trata de uma falsificação forjada pelas relações de poder do sistema colonial, que instituiu um índio genérico, antropófago, sem roupa, sem conhecimento e de mentalidade primitiva”.

No enunciado jornalístico (Figura 22), observamos que é atualizada essa imagem de “primitivo”, ou mesmo de “selvagem”, ao ser ressaltado na narrativa que o índio quase foi linchado pela população, que queria fazer “justiça com as próprias mãos” por

ter ficado revoltada com a acusação de que ele teria abusado sexualmente de uma criança de três anos. Na notícia não há nenhuma contextualização ou referência a aspectos culturais indígenas e muito menos ao sentido de sexualidade para eles.

O índio não foi inventado sozinho. Para que a imagem do selvagem fizesse sentido, muitas outras também entravam em cena. Na verdade, esta relação de dominação que aconteceu com as sociedades indígenas e com as sociedades africanas nos séculos XVI, ainda hoje continua se repetindo no Vietnã, no Iraque, na Faixa de Gaza, onde quer que existam pessoas querendo subjugar sociedades inteiras. Nestas situações sempre as invenções discursivas serão mais uma forma de violência contra os povos oprimidos (NEVES, 2009, p. 64).

Pedro Navarro (2003) também faz referência à forma de violência praticada pela mídia, essa entendida como um dos muitos dispositivos de subjugação dos indígenas. Ao analisar a cobertura da mídia impressa nacional sobre a comemoração dos 500 anos do Brasil, o autor (2003) ressalta o poder de construtor de identidades da mídia – já abordado, aqui, por Gregolin (2007) – e mostra como o discurso jornalístico remonta o arquivo de imagens do índio de forma estereotipada e a forma como a identidade dos índios foi construída discursivamente ao longo dos 500 anos em que foram oprimidos.

Além disso, ao fazer tal construção, a mídia atualiza o sentido de subjugação dos índios pelos colonizadores portugueses (NAVARRO, 2003, p. 122) e está materializando a forma como seus enunciadores interpretam a realidade, “ao mesmo tempo em que estabelece o lugar discursivo que o leitor deve ocupar para atribuir significação às imagens”.

Vemos, portanto, a partir dos enunciados que analisamos, que a imprensa paraense faz distinção na cobertura de casos de “célebres” e “infames”. Neste capítulo, analisamos mais intensamente os casos envolvendo os “infames”, mas no terceiro capítulo nosso foco de análise são os enunciados dos jornais O Liberal e Diário do Pará publicados durante a CPI da Pedofilia (2008-2010), com especial destaque para o caso envolvendo o “célebre” ex-deputado estadual Luiz Sefer.