O PROFESSOR E O OUTRO
3.1. O educador e o cuidado
Hannah Arendt, no artigo A Crise na Educação, descreve o ser humano como alguém que desde o nascimento está a caminho de ser alguma coisa: os “recém- chegados não atingiram a sua maturidade, estão ainda em devir. Assim, a criança, objeto da educação, apresenta-se ao educador sob um duplo aspeto: ela é nova num mundo que lhe é estranho, ela está em devir. Ela é um novo ser humano e está a caminho de devir um ser humano” (Pombo, 2000, p.37). Por isso mesmo, quando chega ao mundo, ou desde que nasce até se tornar adulta, a criança está dependente do cuidado de outros seres humanos. Está assim dependente de outros para chegara àquilo que está em via de ser.
Esse cuidado, que outros seres humanos adultos prestam ao ser humano em devir, segundo a autora que agora seguimos, visa duas coisas: a vida na sua dimensão biológica – o ser humano recém-chegado tem de ser protegido das contrariedades que lhe surgem no mundo e tem de ver garantidas as suas necessidades básicas. Sem o cuidado de um ser humano adulto ninguém sobrevive, ou, mesmo que sobreviva, não desenvolve adequadamente as capacidades que distinguem os seres humanos de outros animais; e a necessidade de apresentar o mundo dos adultos à criança recém-chegada, e
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de aí a introduzir progressivamente, de modo a proteger ao mesmo tempo a novidade que ela representa e o mundo que a recebe. Hannah Arendt diz o seguinte: “A criança tem necessidade de ser especialmente protegida e cuidada para evitar que o mundo a possa destruir. Mas por outro lado, esse mundo tem necessidade de uma proteção que o impeça de ser devastado e destruído pela vaga de recém-chegados que, sobre si, se espalha a cada nova geração” (Pombo, 2000, p.38); “evitemos os mal-entendidos: penso que o conservadorismo, tomado enquanto conservação, faz parte da essência mesma da atividade educativa cuja tarefa é sempre acarinhar e proteger alguma coisa – a criança contra o mundo, o mundo contra a criança, o novo contra o antigo, o antigo contra o novo. A própria responsabilidade alargada pelo mundo que a educação assume implica, como é óbvio, uma atitude conservadora” (Pombo, 2000, p.46).
Enquanto os pais e a família são a instituição que assegura o primeiro aspeto referido, a escola é a instituição que se interpõe entre o domínio privado do lar e o mundo, de forma a tornar possível a transição da criança para o mundo. Esta transição, por sua vez, também implica uma dupla tarefa. Por um lado, trata-se de cuidar e cultivar a novidade que cada ser humano representa; “nesta etapa da educação, uma vez mais, os adultos são responsáveis pela criança. A sua responsabilidade, porém, não consiste tanto em zelar para que a criança cresça em boas condições, mas em assegurar aquilo que normalmente se designa por livre desenvolvimento das suas qualidades e características, [e dessa] qualidade única que distingue cada ser humano de todos os outros, qualidade essa que faz com que ele não seja apenas mais um estrangeiro no mundo, mas alguma coisa que nunca antes tinha existido” (Pombo, 2000, p.42). Por outro lado, trata-se de zelar pela continuidade do mundo, o que se faz mediante a apresentação do mesmo, explicando como é que ele funciona, o que nele se encontra, etc.
O mundo é encarado por H. A. como uma morada para os homens durante a sua vida na terra, e é constituído por tudo aquilo que uma vez tornado público por intervenção humana aparece sem desaparecer logo de seguida. São caso disso as casas, a linguagem, os sinais (de trânsito, de jogos, de leis, de comportamentos, etc.), as técnicas de cultivar, e tudo o que possa ser aprendido e ensinado, enfim, comunicado, de maneira a preservar o mundo e a maneira como vivemos nele. Isto é o que permite o sentimento de segurança, a capacidade de antecipar e programar os dias, bem como a capacidade de inovar e alterar as coisas no mundo. Leia-se a seguinte passagem: “o mundo, o lar feito pelo homem, construído na terra e fabricado com o material que a natureza terrena coloca à disposição de mãos humanas, consiste não em coisas que são
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consumidas, mas em coisas que são usadas. Se a natureza e a terra constituem, de modo geral, a condição da vida humana, então o mundo e as coisas do mundo constituem a condição na qual a vida especificamente humana pode sentir-se à vontade na terra” (Arendt, 1958/2001, p.158).
Pode pois, por tudo isto, compreender-se que o cuidado com a continuidade do mundo seja parte do problema educativo. O ser humano em devir só pode realizar-se no mundo que lhe oferece segurança, lhe assegure a satisfação das necessidades básicas, e possibilite as condições que asseguram o desenvolvimento das suas capacidades e do seu potencial que é, como se está a ver, original, único, novo e que por isso representa sempre um desafio para o educador. E o mundo só pode ter continuidade, existir, se os novos recém-chegados se puderem sentir responsáveis por ele, identificando-se com essa tarefa de cuidar do mundo, contribuindo com a originalidade que trazem para possibilitar a sua continuidade.16 Leia-se: “esta é a situação básica do homem. O mundo
é criado por mãos humanas para servir de casa aos humanos durante um tempo muito limitado. Porque o mundo é feito por mortais, ele é perecível. Porque os seus habitantes estão continuamente a mudar, o mundo corre o risco de se tornar tão mortal como eles. Para preservar o mundo contra a mortalidade dos seus criadores e habitantes é necessário constantemente restabelecê-lo de novo. O problema é saber como educar de forma a que essa recolocação continue a ser possível, ainda que, de forma absoluta, nunca possa ser assegurada. A nossa esperança reside sempre na novidade que cada nova geração traz consigo. Mas, precisamente porque só nisso podemos basear a nossa esperança, destruímos tudo se tentarmos controlar o novo que nós, os velhos, pretendemos desse modo decidir como deverá ser. É justamente para preservar o que é novo e revolucionário em cada criança que a educação deve ser conservadora. Ela deve proteger a novidade e introduzi-la como uma coisa nova num mundo velho, mundo que, por mais revolucionárias que sejam as suas ações, do ponto de vista da geração seguinte, é sempre demasiado velho e está sempre demasiado próximo da destruição” (Pombo, 2000, p.47).
O ser humano, para o ser, não pode deixar de aprender também a ser com outros no mundo que o recebeu e de que agora faz parte. Faz parte do seu estar a caminho de ser qualquer coisa e da sua transformação em ser humano adulto o aprender a ser num
16 Veja-se a seguinte passagem: “a realidade e a confiabilidade do mundo humano repousam basicamente
no facto de estarmos rodeados de coisas mais permanentes que a atividade pela qual foram produzidas, e potencialmente ainda mais permanentes que a vida dos seus autores. A vida humana, na medida em que é a criadora do mundo, está empenhada em constante processo de reificação” (Arendt, 1958/2001, p.120).
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mundo, numa comunidade, entre outros sem os quais não pode ser, e entre outros, que chegarão, que não podem ser sem ele. Note-se a conformidade desta perspetiva com dois dos quatro pilaresenunciados no Relatório Delors: aprender a ser e aprender a ser com (junto de) outros. Nada disto é possível se o ser humano não é cuidado, por um educador, e se não aprende a cuidar, transformando-se num educador.