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O efeito de algumas pequenas simplificações

No documento ESTUDO SOBRE A EFETIVIDADEDO PROCESSO CIVIL (páginas 131-138)

V. O EQUILÍBRIO NA SIMPLIFICAÇÃO DAS FORMAS

4. O efeito de algumas pequenas simplificações

As formas processuais não são fins em si mesmas, mas sim se prestam a assegurar algum resultado esperado, uma vez que sejam empregadas. Por isso, ao se pensar em reduzir as formas do processo, para torná-lo mais simples, necessário se faz verificar em que medida estas formas são instrumentos mais ou menos indispensáveis para o alcance da finalidade pretendida. Há, no processo, regras formais cuja finalidade prática se perdeu, há muito, conforme o sistema experimentou evolução, mas que continuam - ou continuavam - mantidas no texto legal. Há, por outro lado, formas de extrema importância, seja para assegurar o equilíbrio entre os litigantes, seja para assegurar a imparcialidade do julgador, ou para não permitir que o legítimo uso do poder estatal se transforme em arbítrio.

Feitas estas considerações, acredito ser possível localizar formas que possam ser suprimidas sem causar grande impacto; e emprego o vocábulo

“impacto”, aqui, em duplo sentido: nem implicarão em grande esforço para sua assimilação, por parte dos operadores do direito, nem serão motivo para

145 De acordo com o Anteprojeto nº 13, da Escola Nacional da Magistratura. V. também, Sálvio de Figueiredo Teixeira, ob. cit.

alarde. Mudanças pequenas, silenciosas, mas que, no conjunto, tornem o processo mais simples.

Neste aspecto, muito contribuiu a reforma processual, mas, ao que parece, estas normas de simplificação ficaram à sombra, diante dos holofotes que se focaram sobre as maiores novidades trazidas pelas recentes leis.

Cito, aqui, como exemplos destas modificações simplificadoras, a dispensa de compromisso pelo perito146, a dispensa de reconhecimento de firma na procuração “ad judicia”147, a desnecessidade de conclusão dos autos ao juiz para a prática de atos “meramente ordinatórios”148, ou o fim da audiência prévia de justificação, no procedimento de usucapião149, e da oblação, na consignação em pagamento150. Removeu-se um óbice injustificável, por sua vez, ao revogar-se o antigo inciso I, do artigo 217, que proibia a citação do funcionário público na repartição em que trabalhasse. A extensão do horário de prática de atos processuais, para até as vinte horas, rompeu com regra milenar que, com a mudança nos hábitos, não mais fazia sentido151. Nestes casos, formas absolutamente desnecessárias, que nenhuma garantia ou valor essencial asseguravam, foram simplesmente abolidas e, por certo, não irão fazer falta.

Noutros casos, a simplificação trazida pela reforma decorreu de uma maior uniformização que se emprestou ao sistema. No que diz respeito aos prazos processuais, o início da contagem do prazo para embargos do devedor152 passou a ser feito do mesmo modo como os demais prazos que se iniciam mediante ciência dirigida à própria parte: contam-se desde a juntada do ato aos autos do processo. No que diz respeito à duração do prazo, houve também saudável modificação ao se equiparar o prazo de contestação, no procedimento especial de consignação em pagamento, ao prazo previsto no procedimento ordinário. A multiplicidade de duração de prazos processuais, para resposta do réu é algo para, no mínimo, causar espécie. Deixando um

146 Artigo 422, modificado pela Lei nº 8.455/92.

147 Artigo 38, modificado pela Lei nº 8.952/94.

148 Artigo 162, § 4º, inserido pela Lei nº 8.952/94 149 Artigo 942, modificado pela Lei nº 8.951/94.

150 Artigo 893, modificado pela Lei nº 8.951/94.

151 Artigo 172, modificado pela Lei nº 8.952/94.

152 Artigo 738 modificado pela Lei nº 8.953/94.

pouco a precisão científica de lado, a primeira indagação - um tanto quanto cética, é verdade - que com simplicidade se poderia fazer é: serão cinco dias a mais ou a menos que irão imprimir celeridade ao processo? Visto o procedimento como um todo, estes cinco dias a mais ou a menos causarão alguma diferença significativa para o desenvolvimento do processo?

Por outro lado, se nos detivermos um instante para observar o impacto que alguns dias a menos do prazo para resposta podem causar para o litigante pobre, ou para o litigante não-habitual em geral, perceberemos o quão perversos são os prazos curtos que se iniciam após a citação da parte.

Diferentemente do grande litigante, o litigante não-habitual não tem um advogado já previamente escolhido, esperando, pronto a defendê-lo. E, se este litigante não-habitual ainda não for dotado de recursos financeiros, que lhe permitam contratar um advogado sem grande dificuldade, muito provavelmente não conseguirá ofertar resposta no prazo. Lembraria, aqui, que a existência do serviço de assistência judiciária em pouco ameniza o problema destes prazos curtos. Seja em razão do desconhecimento da existência do serviço, seja pela dificuldade de ser atendido imediatamente, ou de se dirigir ao órgão prestador de assistência judiciária, esta categoria de litigantes terá sempre prejudicada parte considerável de seu prazo para resposta153.

Daí, a fixação de prazos muito curtos para resposta do réu afronta o princípio da utilidade dos prazos processuais. Considero que prazos inferiores a dez dias, para litigantes não-habituais, podem ser considerados bastante exíguos e insuficientes para o oferecimento de defesa segura. Veja-se, por exemplo, o prazo de cinco dias para resposta na ação de depósito, velho instituto que, nos dias de hoje, praticamente se tornou uma ação cujos pólos ativo e passivo irão ser ocupados por “tipos sociais” claramente reconhecíveis: agentes fiduciários, de um lado, consumidores, de outro. Cite-se, ainda, o prazo de cinco dias para a prestação de contas, para a ação de

153 É verdade que para tentar amenizar esta dificuldade do carente, ainda foi-lhe concedido prazo em dobro. Em estudo anterior (Assistência jurídica, assistência judiciária e justiça gratuita, p. 78), sustentei que o prazo dilatado é conferido ao pobre, e não ao órgão público que o defende, e que todos os prazos, inclusive - e principalmente - o prazo para resposta, hão de ser incluídos no campo de incidência da norma. É de se reconhecer, contudo, que a interpretação acerca desta norma ainda é bastante controvertida perante os juízes de primeiro grau.

nunciação de obra nova154. No campo do processo de execução, o prazo de três dias para justificação, em execução especial de alimentos, é praticamente impossível de ser cumprido pelo carente; aqui, não fosse a inexistência, na lei, de previsão de efeito semelhante ao da revelia, e o bom senso dos magistrados em admitir apreciar justificações intempestivas, os litigantes pobres executados por alimentos estariam todos presos. Nem a necessidade do alimentando justifica prazo tão fugaz: se o Judiciário não tem condições de expedir imediatamente o mandado, e cumpri-lo, ato que na prática irá demandar muito mais do que os três dias, não nos parece razoável que o processo venha a ser acelerado apenas no momento que tem o executado para oferecer sua justificativa. E, no dia em que tivermos um aparato judiciário assim tão eficiente, mais ainda poderemos nos assossegar, certos de que a atribuição de prazo razoável ao executado não se tornará espera insuportável para o alimentando.

Assim, feitas estas considerações, merece aplauso a iniciativa de uniformizar prazos para resposta - dilatando-os - e os momentos do início da contagem. Espera-se que este germe dê outros frutos, uniformizando, entre os vários procedimentos, a maioria dos prazos possíveis para atos idênticos ou assemelhados, em quantidade de dias tal que o prazo atenda ao princípio da utilidade. A meu ver, isso corresponderá a um processo mais simples, com menos obstáculos a influir no resultado final.

Ao contrário de muitas críticas que se opuseram, considero também uma simplificação positiva a supressão da liquidação por cálculo do contador. Mas, sobre este ponto, irei me deter com maior profundidade no Capítulo IX, adiante.

Mostra-se interessante, também, a maior flexibilização que se permitiu para a documentação ou para a prática dos atos processuais. Neste campo, a alteração inserida no artigo 170 merece destaque não pela inclusão da estenotipia, uma velharia travestida de novidade, mas pela expressão “ou de outro método idôneo” que foi acrescentada ao corpo do artigo. Se a realização prática desta nova disposição depende de certo volume de investimentos destinados ao Poder Judiciário, ao menos é um consolo verificar que estamos libertos de qualquer camisa de força legal no que tange ao uso de novas tecnologias de documentação. Poderia citar, aqui, a gravação

154 Artigo 803, aplicado por determinação do artigo 939

de áudio ou vídeo, inclusive por meios digitais, o que permitiria inclusive gerar registros não adulteráveis, se assinados mediante assinatura digital.

Ainda no tocante à utilização de novas técnicas, é de se lamentar que até o momento a utilização do fax não tenha sido objeto do devido apreço pelo legislador processual, que por ora só permitiu seu uso no processo na infeliz norma da nova lei de locações, a autorizar a realização de citação por seu intermédio. Foi o legislador, em 1991, justamente permitir o uso do novo aparelho para a prática de ato tão delicado quanto o é a citação155. A incidência de citações assim praticadas, ao que parece, deve ser ínfima. No mais, mesmo após sete anos da “descoberta” do fax pelo legislador, nenhuma outra permissão foi inserida na lei para a prática de atos processuais por seu intermédio. Principalmente para a prática de atos processuais pela parte, dada a extensão continental de nosso país, a admissão expressa do uso do fac-símile teria sido extremamente benéfica para permitir maior acesso do jurisdicionado aos órgãos judiciários, em especial, aos tribunais superiores, ou mesmo aos tribunais locais. Em Portugal, país de área muitas vezes menor que a nossa, desde 1992 teve o legislador esta preocupação de facilitar o acesso da parte a juízo, com o uso do aparelho, como anota Antonio Santos Abrantes Geraldes156.

Há, na Reforma, em verdade, duas brechas que, a depender da interpretação que se lhe atribua, podem permitir o uso, não só do fax, mas de outros meios, para protocolo de petições em juízo. Falo do artigo 506, cujo novo texto permite que a petição do recurso seja “protocolada em cartório ou segundo a norma de organização judiciária”; igualmente, o artigo 525,

§2º, admite que o agravo de instrumento possa ser interposto “por outra forma prevista na lei local”. Poderia a lei local de organização judiciária permitir o uso do fax, ou de outros meios eletrônicos, para protocolização de petições? Entendo que sim. A flexibilização da norma permite, até, que a lei de organização judiciária faça o papel de adequar a norma processual geral às peculiaridades do Judiciário local, ou com eventuais serviços que este venha a implementar mediante uso de novas tecnologias.

155 O artigo 58, inciso IV, da Lei nº 8.245/91 dispõe que: “IV - desde que autorizado no contrato, a citação, intimação ou notificação far-se-á mediante correspondência com aviso de recebimento, ou, tratando-se de pessoa jurídica ou firma individual, também mediante telex ou fac-símile, ou, ainda, sendo necessário, pelas demais formas previstas no Código de Processo Civil;”

156 Temas da Reforma do Processo Civil, vol. 1, pp. 206-207.

Na jurisprudência, é verdade, encontram-se posições favoráveis ao uso do fax, mesmo sem previsão legal expressa; outras, porém, não o admitem, ou tornam absolutamente inútil a sua utilização, ao exigir que os originais cheguem ao protocolo dentro do prazo normal157.

Ainda sobre a aceitação do fax pelos tribunais, diz Ellen Gracie Northfleet:

“A experiência dos Tribunais Regionais Federais tem revelado que se alteram posições mais ou menos rígidas em relação à matéria. Ainda são, em verdade, mais numerosos os acórdãos que restringem a veiculação de 157 A favor de seu uso:

“EMENTA: Processual Civil. Embargos Declaratórios. Pretensão de sobrestamento do processo. Artigo 535, CPC. 1. A precipitação do recurso por expedito meio eletrônico de comunicação (fax), ao depois, confirmado pelo original da petição, beneficiando a agilização do processo, em louvação ao seu caráter instrumental, recomenda o Judiciário não se distanciar da modernidade.

Demais, o advogado subscritor do fax goza de ínsita fé pública. 2. Sem alegação de contradição ou omissão, resumindo-se a pretendida dúvida em questão rodoviários, está sendo coagido por Juiz classista de TRT a fazer com que pelo menos 30% dos empregados da categoria compareçam ao serviço. A impetração se fez por fax. O Ministério Público Federal, sem abordagem do mérito, foi pelo não conhecimento: o fax, com o tempo, esmaecerá, tornando ilegível o pedido. 2.

A Administração da Justiça, para atender à crescente demanda de prestação jurisdicional pronta e eficaz, tem, sem desprezar a segurança que as relações processuais requerem, de utilizar-se de todos os meios eficientes que a técnica e a ciência colocam a seu alcance. No caso específico, trata-se de medida urgente, que vale hic et nunc. 3. A exigência do impetrado é abusiva, uma vez que o paciente não tem como compelir os sindicalizados a comparecer ao serviço. 4.

Ordem concedida.”(RSTJ 57/58).

Contra, ou criando óbices que tornam o uso do fax inútil:

“EMENTA: Processual. Recurso. Transmissão fac-similar. Falta de autenticação. Não conhecimento. Apesar da excelência do chamado fax message, os atos processuais assim instrumentados, inclusive os recursos, não se dispensam à exigência da autenticação do original radiofotograficamente transmitido.” (RSTJ 15/45).

“EMENTA: Processual Civil. Resposta. "Fax". Prazo.

A contestação manifestada em fac-símile seguida de apresentação do original fora do prazo legal, ainda que em atenção à dilação concedida pelo juiz, é resposta oferecida a destempo.” (RSTJ 74/356).

atos processuais às formas tradicionais. Isso se deve a um efeito inercial que ainda remete às primeiras e corretas reservas feitas ao emprego do fac-símile. Mas, a tendência que se parece firmar é a de que deve preponderar a garantia de amplo acesso à Justiça, permitindo-se que este acesso se dê por formas, até há pouco, inexistentes, desconhecidas ou imperfeitas para alcançar a finalidade de dar conhecimento ao Juízo da manifestação de vontade das partes”158.

Mais recentemente, outras formas de comunicação têm-se mostrado muito mais eficientes do que o fax, novidade já superada pela velocidade do avanço tecnológico, de modo que eventual previsão do uso do apetrecho no direito processual chegará com inevitável atraso. A tendência parece apontar para a Internet e o correio eletrônico como os futuros meios de comunicação de massa. Tais meios exigem, por certo, uma maior habilidade no seu uso, equipamentos mais sofisticados, além do difícil desapego aos meios tangíveis, como o papel; entretanto, corretamente utilizados, superam até mesmo a segurança dos meios tradicionais, mediante o uso de assinaturas digitais159. A economia de custos, maior produtividade e a ampliação do acesso à Justiça que pode ser propiciado pelo uso de novas tecnologias merece que nossos legisladores vençam a natural resistência às parafernálias eletrônicas e dêem a elas uso prático no processo.

“O apego ao formato-papel e às formas tradicionais de apresentação das petições e arrazoados não nos deve impedir de vislumbrar as potencialidades de emprego das novas tecnologias. No limiar do terceiro milênio devemos, também nós do Poder Judiciário, estar prontos para utilizar formas novas de transmissão e arquivamento de dados, muito diversas dos antigos cadernos processuais, recheados de carimbos, certidões e assinaturas, em nome de uma segurança que, embora desejável, não pode constituir obstáculo à celeridade e à eficiência.

Teremos, certamente, a oportunidade, ainda em nosso final de século, de assistir ao ingresso dos pleitos em Juízo mediante simples transferência de arquivos eletrônicos, desde os escritórios de advocacia; à consulta dos

‘autos’ processuais em telas de computador; ao confronto entre as peças 158 “A utilização do fax pelo Judiciário”, in Revista Forense, nº 335, p.

443.

159 Sobre o tema, e do uso de assinatura digital, v. Lorijean G. Oei,

“Digital Signatures”, in Online Law; v. também o meu artigo “O documento eletrônico como meio de prova”.

produzidas pelas partes e os elementos de prova, através de um ‘clic’ de mouse ou de um comando de voz; ao arquivamento de enormes massas de informações em Cds e à sua pesquisa mediante a utilização de recursos de busca aleatória e hipertexto. Toda essa tecnologia já é disponível e ingressa na nossa vida diária para reduzir a repetição de esforços e tarefas rotineiros e permitir a utilização de nosso tempo em tarefas efetivamente criativas. Vista desta perspectiva, a discussão sobre o uso de uma máquina já quase obsoleta como é o fac-símile, parece nem se justificar. Ela, todavia, serve para testar nossa capacidade de adaptação ao novo, sem que percamos de vista o permanente anseio de fazer melhor Justiça”160.

A tecnologia para isso, sim, está disponível. Roga-se que sejam feitos os investimentos bastantes para implementar os equipamentos necessários e, principalmente, treinar os funcionários para o seu uso. No que compete à lei processual, temos já um primeiro passo, no artigo 170, a permitir a documentação de atos por “outro meio idôneo”. Para a prática de atos pela parte, por petição, há um aceno ao uso de novos meios nos artigos 506, § único, e 525, § 2º, como já assinalado acima. Bom caminho para o legislador, até para não engessar a lei processual e torná-la obsoleta com o avanço tecnológico, seria remeter cada vez mais à legislação de organização judiciária as regras mais minuciosas a respeito da forma de documentação e do modo de apresentação dos atos em juízo.

5. Normas processuais de interpretação controvertida e a

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