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O EJA e seus propósitos: o que falam os protagonistas

Neste bloco de perguntas estaremos relacionando as perspectivas dos alunos da EJA e a relação dos mesmos com as dimensões do programa: Com que idade começou a trabalhar? Alguma vez não foi aceito por falta de escolaridade mínima? Qual o motivo que o levou a retornar à escola? Qual o nível de satisfação? Quais os objetivos pretendidos ao retornar? Qual a atividade mais interessante? O que mudou em sua vida?

Deste bloco de perguntas consideramos fundamental caracterizar o “trabalho” dos jovens antes do programa. Todos os questionados responderam a essa pergunta. Desses, cinco (5), que corresponde a 27,77% da amostra, disseram que não trabalhavam e 72,23% disseram que trabalhavam.

Em entrevista informal realizada com estes egressos, descobri que, dos que trabalhavam apenas 22% trabalhava no mercado formal, 75% informaram que estavam no mercado informal e 3% não informaram a natureza do trabalho. Essa análise mais uma vez nos remete à observação da situação de instabilidade do jovem frente ao mundo do trabalho.

Vale refletir mediante suas respostas que o egresso retorna à EJA em uma busca de certificação o que teoricamente o colocaria no mercado de trabalho e, com isso conquistar o seu lugar na sociedade garantido, possibilitando o resgate da auto- estima e passando a ser visto como um cidadão comum. Para tanto confia que sua entrada no mundo do trabalho lhe proporcione condições melhores de vida, e pensa até na possibilidade de formação de sua própria família.

Quando o egresso é questionado quanto ao motivo pelo qual resolveu fazer a EJA o que mais chama a atenção é o fato da busca pela escolarização e qualificação profissional. Respostas como: “Para voltar a estudar”, “Avançar meus estudos no médio e com um milagre entrar na UFRGS”, “Concluir o ensino fundamental”, demonstra a clara intenção do jovem na escolarização. Ele busca melhorar de vida através da educação. “Por causa da qualificação profissional”, “Para me dar uma chance de mudar meu futuro”, “Pela oportunidade que me

oferecia”. A procura do jovem pelo seu espaço no mercado de trabalho está associada a um tempo de “moratória social”, de passagem entre a infância e o mundo adulto.

Oliveira (1999) chama a atenção para as diferenças entre o público de EJA, ou seja, o “não-crianca” e o dito “jovem”:

E o jovem, incorporado ao território da antiga educação de adultos relativamente há pouco tempo, não é aquele com uma história de escolaridade regular, o vestibulando ou o aluno de cursos extracurriculares em busca de enriquecimento pessoal. Não é também o adolescente no sentido naturalizado de pertinência a uma etapa bio-psicológica da vida.

Gentilli (2002) enfatiza que para inseri-se no mercado de trabalho o indivíduo precisa ter não somente condição de educação, mas condição de consumidor. Neste caso o conceito de empregabilidade se afasta do direito à educação e o sujeito no seu direito de liberdade deve escolher entre as melhores opções que o capacitem a competir.

Gentilli (2002) enfatiza que para inseri-se no mercado de trabalho o indivíduo precisa ter não somente condição de educação, mas condição de consumidor. Neste caso o conceito de empregabilidade se afasta do direito à educação e o sujeito no seu direito de liberdade deve escolher entre as melhores opções que o capacitem a competir.

Quanto ao nível de satisfação dos egressos, com relação ao curso de EJA realizado na escola, a maioria se mostrou plenamente satisfeito, conforme mostra o gráfico ao lado.

GRÁFICO 2: Nível de satisfação dos egressos 0 2 4 6 8 10 12 14 P.SATISFEITO SATISFEITO INSATISFEITO

Quando de minhas entrevistas com estes alunos egressos, anotei alguns de seus depoimentos, que a seguir passo a relatar:

Vejamos o que diz Nelci, de 44 anos: “Bah professora, lá onde eu morava até os 23 anos ninguém estudava. Nem meus irmãos homens, meu pai não deixava”.

A frase de Nelci é uma realidade na maioria das famílias do interior gaúcho. O tradicionalismo paternalista e o próprio desconhecimento da importância do domínio da leitura e escrita demonstram uma realidade intrínseca ao meio de convivência desses sujeitos, o que provoca comportamentos dessa natureza.

Pedro, 55 anos, quando conversávamos sobre a importância de saber ler e escrever, relatou: “Eu nem sei, com a idade que tô, não enxergo mais. O juízo já ta fraco. Nunca pensei que poderia aprender alguma coisa”.

Observo que o velho estigma de que “papagaio velho não aprende a falar”, ainda se mantém internalizado na cultura da maioria dos entrevistados e estes comungam com esse dito popular.

Foram questionados os motivos que estimularam a voltar aos estudos, com a intenção de perceber se suas expectativas em relação à EJA iam ao encontro dos objetivos da proposta. A categoria da inclusão foi a única praticamente citada pelos ex-alunos. A análise das falas referentes aos motivos de voltar a estudar indica que eles sentiam-se realmente excluídos social e economicamente. Nesta perspectiva, a EJA pode se constituir em uma nova oportunidade ou novas expectativas, conforme expressam alguns depoimentos:

O trabalho depende de estudo e se a gente não estudar, as pessoas não chegam em lugar algum; por isso que eu resolvi estudar: para buscar novos horizontes. (Aureni, 37 anos).

Parei e pensei, como é que vou ser alguém se eu não me fizer alguém. (Jonas, 27 anos).

Esses depoimentos parecem evidenciar, então, que a EJA tem conseguido trabalhar as questões da inclusão, no mínimo escolar, pois dos (18)dezoito egressos que participaram desta pesquisa, ninguém manifestou vontade de desistir. Todos

estão com o firme propósito de concluírem seus estudos, seja no Ensino Médio como em Curso Superior. Todos manifestaram sentir falta de estar na nossa escola, onde realizávamos discussões e debates de assuntos gerais, conforme podemos constatar no relato de Jocenei: “Eu hoje em dia eu sinto falta, sinto saudade, [...] sinto falta da convivência.”

Ao iniciar a coleta de dados, quando entreguei os questionários para os meus ex-alunos, uma das primeiras respostas que recebi foi da Neiva (39 anos), que prontamente preencheu o questionário, disponibilizando-se a colaborar caso houvesse necessidade de uma entrevista. Ao preencher seus dados, colocou o endereço eletrônico. Num gesto de atenção, enviei um e-mail agradecendo a gentileza e a rapidez pela qual tinha me devolvido o questionário preenchido. No dia seguinte do envio da mensagem, recebi a seguinte resposta:

Com absoluta certeza, os agradecimentos são todos meus, pois se não houvesse pessoas como você, preocupadas não somente consigo mesmas, mas, e principalmente com toda sociedade, eu não estaria nem mesmo lhe enviando este email, pois não saberia como utilizar a internet. O aprendizado e a satisfação são grandes, muito maior do que você possa imaginar!!!!!!!(Neiva)

Esse depoimento sugere que os conhecimentos adquiridos na EJA foram e estão sendo significativos para a vida de Neiva.

Alessandro, 29 anos, através de seu relato, também demonstra com satisfação a mudança que ocorreu em sua vida pessoal, os medos que conseguiu superar e os ganhos pessoais que obteve.

Eu posso dizer assim, eu acordei mais pra vida, abri meus olhos. Até pra me defender eu aprendi muito, foi maravilhoso. Eu consegui até coisas que eu tinha medo de enfrentar, hoje eu encaro tudo com mais naturalidade. [...] parece que os caminhos se abriram mais.

A partir desses depoimentos, é possível inferir que sair da “linha dura” do currículo, abrir espaço para os questionamentos e reflexões sobre o cotidiano, fazendo dele o ponto de partida para a prática pedagógica, significa trabalhar com a possibilidade da construção de conhecimentos significativos.

A minha vida profissional e financeira não mudou em nada, mas eu sou livre. Isso é ser feliz. É você poder olhar de frente para o outro e falar: Oi, como é que vai? Isso é ser feliz! Então eu acho que valeu a pena, vale a pena estudar. Claro que não vou poder tudo com lápis e papel na mão, claro que não, mas bastante coisa eu posso, com certeza! Até o direito de ser livre eu tenho, eu posso! Não é adquirir coisas, é você poder se sentir, se posicionar diante da vida e diante das pessoas. Isso é que é legal! É de não ter vergonha de olhar a minha cara no espelho; eu não tenho vergonha de mim, eu me sinto bem comigo mesmo. Sinceramente, não melhorou nada na minha vida ter estudado assim, financeiramente não. Não mudei de casa, não comprei carro... Mas quem sabe um dia, não é? Vou continuar, eu estou tentando, é por aí. (Rosemar).

Finalmente, questionei os alunos que estão atualmente cursando o Ensino Médio, qual sua opinião sobre a oportunidade de cursar um Ensino Médio profissionalizante.

Seguem-se alguns depoimentos:

O que eu mais queria era fazer um Curso de Enfermagem porque eu gosto da área, é muito semelhante ao meu perfil [... ] Porque na minha família tenho duas tias enfermeiras [...]quero ajudar as pessoas a se manterem saudáveis

No momento eu gostaria de fazer um Curso de Informática [...] gostaria de ter um ensino médio melhor, que me introduzisse no trabalho, [...] ter um melhor futuro no mercado de trabalho.

Não sei em que área [...] Algo que me permitisse uma maior qualificação [...] mas precisaria logo encontrar emprego para sustentar a família que é carente e necessito de um trabalho.

.Eu gostaria de ter um curso de Administração ou Contabilidade para que eu pudesse sair do Ensino Médio e já ter um trabalho para sustentar minha família e melhorar minha condição de vida ... comprar uma moto ...

Isso reforça o PROEJA como um Programa de inclusão de jovens e adultos no sistema público de educação profissional, com a finalidade de obter uma profissionalização que contribua para a inclusão e inserção no mundo do trabalho pela via formal. Isto porque o PROEJA faz parte de um projeto nacional de desenvolvimento soberano, frente aos desafios de inclusão social e da globalização econômica.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao buscar as questões relativas à Educação de Jovens e Adultos no Brasil, desde a trajetória histórica pelos meandros deste processo encontrei muitas relações contraditórias e conflituosas acerca da EJA em nosso país. Os avanços e retrocessos que afloram neste percurso são de direções desencontradas, sem políticas públicas eficientes para a elucidação de uma, hoje, modalidade de inclusão escolar que sempre seguiu à margem do sistema educacional. Ocupando ingênuas inferências a EJA foi se inserindo na legislação oficial através da luta de alguns ícones da educação popular como o Mestre Paulo Freire.

As Primeiras palavras de Pedagogia da Esperança mostram-nos claramente a convicção de Paulo Freire (1992) sobre a necessidade da esperança e do sonho para a existência humana e a necessária luta para fazê-la melhor. Segundo ele, a esperança é uma necessidade ontológica, pois sem um mínimo de esperança não podemos sequer começar o embate. Alerta, entretanto, que atribuir à esperança o poder de transformar a realidade seria um modo excelente de cair na desesperança, pois "enquanto necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar- se concretude histórica". Assim, explica a necessidade de uma educação da esperança, pois "como programa, a desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir no fatalismo onde não é possível juntar as forças indispensáveis ao embate recriador do mundo".

Uma das tarefas do educador é desvelar as possibilidades para a esperança, não importam os obstáculos. A pedagogia da esperança faz-se também necessária para o enfrentamento das "situações-limites", ou seja: os obstáculos e barreiras que precisam ser vencidas ao longo de nossas vidas pessoal e social. Segundo o autor, as pessoas têm várias atitudes frente a essas situações limites: "ou as percebem como um obstáculo que não podem transpor; ou como algo que não querem transpor; ou ainda como algo que sabem que existe e precisa ser rompido e então se empenham na sua superação".

A esperança faz-se necessária, portanto, para romper essas "situações- limites" e, ao assumir uma postura crítica frente ao mundo, negar o dado, em ações

de superação denominadas por Freire de "atos-limites". Através desses atos-limites, transpõe-se a fronteira entre "o ser e o ser mais", ampliando a liberdade dos oprimidos e descobrindo o "inédito-viável". O inédito-viável é uma coisa inédita, que o sonho utópico sabe que existe, mas que só será possível a partir da práxis libertadora, quando a partir da reflexão-ação se derrubam as situações-limites que nos limitam a "ser menos".

Ao buscar a caracterização do egresso da EJA me ocupei em analisar o perfil do jovem que cumpriu o programa e como este interferiu na vida escolar e social deste jovem. Encontramos um egresso caracterizado praticamente na teoria que trata da Educação de Jovens e Adultos. Houve uma expectativa que em alguns casos não se concretizou. Outros egressos se dizem satisfeitos com os conhecimentos adquiridos ao longo do curso, pois possibilitou a contextualização com a realidade e o seu cotidiano. Isto reforça e vem corroborar com a necessidade da formação do professor que atua nesta modalidade de ensino.

A análise dos resultados de minha pesquisa apresentou, em sua essência, contradições materializadas na vida desses egressos da EJA, principalmente em suas condições de luta pela sobrevivência, através do trabalho. Os alunos colocaram a necessidade do estudo para se manterem no trabalho, para arrumarem emprego, para sobreviverem e terem vida digna. E apontaram que a EJA modificou as suas vidas em vários aspectos, menos na condição prioritária, que é o aspecto econômico. Foi possível perceber que as contradições presentes em suas condições de vida e trabalho, bem como o seu significado, são profundas e de difícil superação individual, principalmente por serem contradições que se fazem presentes num contexto econômico, político e social singular. Determinam as condições materiais de vida das pessoas em geral, que, para sobreviverem, têm que ser trabalhadores que vendem a única coisa que ainda lhes resta: sua força de trabalho. Sendo eles usados pelo sistema capitalista, ajudam a manter com suas características mais essenciais a exploração deste trabalhador para obter mais lucro, e assim, gerar mais mercadorias, gerar mais capital. Os resultados dão conta da necessidade que o jovem tem da formação imediata para o mercado de trabalho impulsionado pelos modos de produção e consumismo vigentes no sistema capitalista e neoliberal que estamos inseridos. Essa experiência levou-me a refletir sobre como o jovem/adulto

se vê como pessoa, como estudante e como trabalhador em um mundo em constante transformação e incerteza e como é a sua ação neste mundo.

Apontar as reflexões tão atuais do livro Pedagogia do Oprimido, da década de 1960, e reafirmar as convicções do autor em Pedagogia da Esperança e Pedagogia da Autonomia, escritos na década de 1990, chama a atenção dos educadores de jovens e adultos para a atualidade do pensamento freireano no contexto da realidade brasileira.

O reencontro com Freire é a experiência de dialogar com quem produziu reflexões acerca da teoria e da prática na educação de jovens e adultos a partir de sua vivência, é o que ele mesmo chamava de "o saber de experiência feito". É, ao mesmo tempo, um convite para os professores que atuam em alfabetização e educação de jovens e adultos revisitarem e refletirem sua própria prática.

Uma contribuição importante de Pedagogia da Esperança, reencontro com a Pedagogia do Oprimido, para alfabetizadores e educadores de jovens e adultos, é refletir sobre conceitos fundamentais da prática cotidiana, como o de alfabetização:

Quem procura cursos de alfabetização de adultos quer aprender a escrever e a ler sentenças, frases, palavras, quer alfabetizar-se. A leitura e a escrita das palavras, contudo, passa pela leitura do mundo. Ler o mundo é um ato anterior à leitura da palavra. O ensino da leitura e da escrita da palavra a que falte o exercício crítico da leitura e da releitura do mundo é, científica, política e pedagogicamente, capenga (Freire, 1992, p. 79).

A formação dos profissionais que atendem às necessidades dos jovens e adultos tem-se colocado como questão central. Os professores encontram dificuldades em sua prática por não se sentirem preparados para atuar na EJA. Não existem muitos materiais disponíveis para serem utilizados, ficando a cargo do professor a produção de seu próprio material pedagógico. Quando acontece a formação, nem sempre é suficiente e adequada para atender às demandas desse ensino. Segundo Soares (2003), a atuação das universidades na formação dos docentes é ainda muito tímida. Na UFRGS, esforços têm sido feitos no sentido de suprir essa formação.

O Curso de Especialização em Educação Profissional Integrada à Educação Básica na Modalidade Educação de Jovens e Adultos tem objetivos bastante claros, no sentido de desenvolver uma formação profissional continuada capaz de atender às particularidades metodológicas e políticas do PROEJA. Oportuniza aos profissionais que estejam atuando preferencialmente em sala de aula integrar-se às discussões epistemológicas, metodológicas e políticas inerentes a essa modalidade de ensino que, hoje, torna-se uma realidade educacional.

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