3.7. Os Limites do Caso Julgado A Tríplice Identidade
3.7.4. O Elemento Material do Art 580º, n.º 2 do CPC
A despeito de tudo quanto ficou dito sobre a tríplice identidade, o caso julgado pode manifes- tar a sua autoridade com autonomia em relação a este critério, ou seja, independentemente da verifi- cação da identidade de sujeitos, pedido e causa de pedir. O ponto essencial é que a questão que tenha ficado decidida, não possa voltar a ser discutida. E afirmamo-lo com base no Ac. STJ, de 23-11-2011,
no Proc. N.º 644/08.2TBVFR.P1.S1176.
Contudo, esta orientação não é nova.
JOSÉ ALBERTO DOS REIS defendia que, dada a dificuldade em saber se concretamente as ações
são idênticas, e resistindo essa dúvida, “o tribunal deve socorrer-se deste princípio de orientação: as acções considerar-se-ão idênticas se a decisão da segunda fizer correr ao tribunal o risco de contradi-
zer ou reproduzir a decisão proferida na primeira”177.
Além disso, e tendo por base que a exceção do caso julgado se firma na proibição de repro- dução de decisão anterior ou de contradição do Tribunal, o TRC decidiu, em Ac. de 25-05-2000, no Proc. N.º 970/2000 que, em caso de dúvida sobre a identidade de ações, o julgador deve sustentar-se sempre na existência do “risco de contradizer ou reproduzir a decisão proferida na primeira” ação.
Não basta, segundo a jurisprudência dominante no nosso país, o preenchimento da tripla iden- tidade, porque é possível que, ainda que se afira que não há a tal identidade, os tribunais não estão livres de contrariar ou reproduzir as suas decisões anteriores. Por isso mesmo, tem sido reconhecido como preponderante a diretriz material contida no art. 580º, n.º 2 do CPC, devendo em certos casos até prevalecer sobre o elemento formal da identidade tripla.
Em consonância com isto, e logo em 12-11-1998, no Proc. N.º 99B174, o STJ decidiu que a tríplice identidade tem que ser articulada com a finalidade de evitar que haja repetição ou contradição de julgados.
Na data de 06-06-2000 o STJ foi mais além e, no Proc. N.º 00A327 acordou que pode haver
litispendência178 mesmo que uma das ações seja declarativa e a outra executiva, porquanto a identi-
dade formal dos pedidos não tem que ser rigorosa. Torna-se apenas necessário que sejam coinciden- tes. Em resultado que que “pode haver litispendência entre a providência provisória de alimentos prevista no artigo 1407 n.º 7 do CPC e a providência cautelar de alimentos provisórios prevista nos artigos 399 a 402 do CPC”.
176 De cujo sumário consta o seguinte ponto: “A autoridade do caso julgado, por via da qual é exercida a função positiva do caso julgado, pode funcionar
independentemente da verificação da aludida tríplice identidade, pressupondo, todavia, a decisão de determinada questão que não pode voltar a ser discutida.”
177 Cfr. JOSÉ ALBERTO DOS REIS, Código de Processo Civil Anotado, Vol. III, cit. p. 95, anotação ao art. 502º.
178 Recorde-se que a verificação de litispendência depende também da identidade de sujeitos, pedido e causa de pedir, e, por essa razão, invocamos aqui
No Proc. N.º 06B3027, o STJ decidiu, em 02-11-2006, que o critério relevante para a aferição de identidade de ações é o efeito jurídico que se pretende obter, haja ou não exacta identidade de elementos subjetivos e objetivos, porquanto em ambas as ações aquilo que a parte pretendia era que lhe fosse reconhecida legitimidade para suspender o pagamento do preço em dívida. E, nesta medida, se o Tribunal apreciasse uma causa em que o efeito pretendido era o mesmo, apesar de não se esta- belecer a identidade tripla com a anterior, correria o risco de a contradizer.
Também no Ac. do STJ, de 29-04-1999, Proc. N.º 99B174 podemos colher a orientação de
que a tríplice identidade exigida pelo art. 581º do CPC para aquilatar a ocorrência de caso julgado
“tem que ser conexionada com a regra basilar imposta pelo artigo 497 n. 2179 do mesmo diploma -
finalidade de evitar a repetição ou contradição de julgados”.
É certo que se não houver identidade de partes, pedido e causa de pedir, não verificamos a existência da vertente negativa do caso julgado, sob um prisma meramente formal, nos termos con- jugados dos arts. 580º, n.º 1 e 581º do CPC. Todavia, não pode ser esquecido o n.º 2 do art. 580º, que mostra o alicerce do caso julgado.
E, como extraímos igualmente do Ac. do STJ, de 19-02-2009, no Proc. N.º09B0081, é aquele
n.º 2 do art. 580º do CPC que nos permite uma extração do conceito funcional do caso julgado, mor- mente na sua vertente negativa, permitindo fixar a função acometida à exceção: “a de proteger a força e autoridade de uma decisão que, transitada em julgado, adquiriu força de caso julgado material (não interessa agora o caso julgado formal)” e que, mesmo que falhe, sempre será “socorrida” pelo n.º 1 do art. 625º do CPC, que adiante estudaremos.
Por último, mas não menos importante, baseamo-nos no Ac. TRP, de 03-11-2010, Proc. N.º 1055/06.0TAOAZ.P1, que deixa claro que a jurisprudência que consagra a importância do elemento material do art. 580º, n.º 2 se pauta naturalmente pelo perigo que pode nascer da contradição ou da reprodução já sobejamente falado. Em consonância com o que se torna indispensável a conjugação do elemento formal com o material de molde a que seja possível “destacar em cada acção, os sujeitos, a causa de pedir e o pedido e descobrir qual a relação jurídica fundamental em discussão, isto é, o direito subjetivo que fundamenta cada uma delas, para podermos confrontá-lo com o perigo de o tribunal poder contradizer-se ou repetir-se com uma decisão anterior”.
Depois do que escrevemos até aqui, estamos em posição para afirmar que é inegável que, de mãos dadas com a identidade tripla entre ações, anda a proibição de contradição ou de repetição que impende sobre os tribunais portugueses quando colocados na posição de decidir uma causa, que se revela semelhante a outra já transitada.
Sabido é que há casos em que as partes não se conformam com o resultado de uma decisão que já tenha alcançado a estabilidade de caso julgado. Isto acontece, por exemplo, quando a parte decaiu em maior razão do que aquela que achava que lhe assistia.
Mas, se a decisão já transitou e já não há possibilidade de reverter o estado de coisas por meio de um recurso, torna-se algo frequente que, através de institutos do Direito nos quais seja possível fazer o enquadramento da matéria de facto, a parte insatisfeita venha a propor nova ação.
Portanto, alterando um dos elementos formais, mas mantendo, ainda que parcialmente os ele- mentos factuais, a parte vai pedir nova apreciação ao Tribunal de uma causa que pode colocá-lo numa situação de repetição ou de contradição, se se atender apenas ao que exige o art. 581º do CPC.
E, por esta razão, ainda que falhe a similitude entre algum dos elementos formais do art. 581º do CPC, não pode o julgador desconsiderar o risco que possa haver de reproduzir ou contrariar uma decisão anterior que já tenha transitado em julgado.
Porque, não obstante a vertente negativa do caso julgado implique a tríplice identidade, o entendimento jurisprudencial corrente manifesta-se no sentido de que “a autoridade de caso julgado, por via da qual é exercida a função positiva do caso julgado, pode funcionar independentemente da verificação da aludida tríplice identidade [a que se reporta o artigo 498.º n.º 1 do CPC], pressupondo, todavia, a decisão de determinada questão que não pode voltar a ser discutida”, conforme se colhe do Ac. STJ, de 23/11/2011, Proc. N.º 644/08.2TBVFR.P1.S1.
Desta forma, à identidade de partes, pedido e causa de pedir, deve somar-se também o ele- mento do n.º 2 do art. 580º, que mantém latente a ratio do caso julgado e que, em casos de maior
ambiguidade de procedimentos180, permitirá ao juiz abster-se sequer de conhecer uma causa que,
embora não seja rigorosamente idêntica a uma anterior pelos tais elementos materiais, é-o em termos de processos intencionais, podendo fazer o tribunal incorrer no perigo de repetição ou de contradi- ção181.