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O ELO SOCIAL DA SOCIEDADE INDIVIDUALISTA DE MASSAS

No documento Dominique Wolton - Pensar a Comunicação (páginas 89-95)

A história contemporânea viu sucederem-se duas rupturas radicais, que colocam ambas no seu centro a problemática do elo social. No plano sociológico, o aparecimento da "sociedade de massas" com a revolução industrial do século XIX e suas consequências: o crescimento da classe operária, da população urbana e a chegada tardia, depois das duas Guerras Mundiais e de numerosas lutas, da sociedade de consumo. No plano político, o aparecimento da democracia de massas, pela conquista do sufrágio universal.

O resultado é, aquilo a que eu chamo a sociedade individualista de massas, na qual coabitam dois dados estruturais, ambos normativos mas contraditórios, constitutivos da nossa realidade social e política: a valorização do indivíduo em nome dos valores da filosofia liberal e da modernidade; a valorização do grande número, em nome da luta política a favor da igualdade. A economia assegurou a passagem de um a outro, alargando sem cessar os mercados, até à instauração da sociedade de consumo de massas, onde encontramos as duas dimensões: escolha individual e produção em grande número. Somos obrigados, como já expliquei anteriormente, a gerir estas duas dimensões antinómicas: o indivíduo e as massas, cuja coexistência afecta o equilíbrio sociocultural anterior.

A crise do elo social resulta da dificuldade em encontrar um novo equilíbrio. Os elos primários, ligados à família, à aldeia, ao ofício, desapareceram e os elos sociais ligados às solidariedades de classes e de pertença religiosa e social esboroaram-se. O resultado é que já não há grande coisa entre as massas e o indivíduo, entre o número e as pessoas. Poucos laços

restam. É neste contexto de ausência de intermediários socioculturais entre o nível da experiência individual e o da escala colectiva que se situa o interesse da televisão. Ela oferece, precisamente, um elo estruturante, entre essas escalas e esses espaços.

Mas voltemos brevemente a falar da crise do elo social, ligada às contradições da sociedade individual de massas. Nenhuma das referências unitárias que, antigamente, organizavam o espaço simbólico das nossas sociedades é, hoje, estável. Por toda a parte dominam as dualidades contraditórias e a consequência é uma certa fragilização das relações sociais. Há, como vimos, o par indivíduo-massas, com finalidades evidentemente contraditórias; a oposição igualdade-hierarquia, onde a existência da igualdade não exclui a realidade de uma sociedade bastante imóvel e hierárquica; o conflito abertura-fechamento ligado ao facto de que a abertura e a comunicação se tornam referentes de uma sociedade sem grande projecto desde a queda do ideal comunista; o desfasamento entre a subida geral do nível dos conhecimentos e a realidade maciça de um desemprego desqualificante... Tudo isto num contexto de ruir das estruturas familiares, de desequilíbrios ligados aos movimentos de emancipação das mulheres, de crise dos modelos de trabalho, onde as identidades camponesa e operária desapareceram a favor de um terciário proteiforme, de dificuldades em fazer do meio urbano um quadro de vida aceitável...

O tributo à liberdade paga-se caro, como se paga caro o nascimento da sociedade de massas, em nome da igualdade. Mutações tanto mais difíceis de integrar quanto, por outro lado, os cidadãos, graças aos média, são projectados para o mundo exterior. Cada um, a partir da sua cozinha, ou da sala de jantar, pode dar a volta ao mundo várias vezes por dia, com a televisão. E, para aperfeiçoar o panorama, não esqueçamos que essa afirmação se acompanha de uma recusa das hierarquias, dos códigos e das regras impostas pelas múltiplas instituições que são a família, a escola, o exército, a Igreja... Cada um é livre, mesmo se o resultado é uma discreta, mas obsessiva, solidão que, explicando a importância crescente da problemática do elo social.

A minha hipótese, há muitos anos, é que a unidade teórica da televisão se situa em relação com esse desafio. Isso vê-se, aliás, na utilização da palavra. Quando falei disto a propósito da televisão, há cerca de quinze anos, as pessoas achavam a ideia, pelo menos, original, mas pensavam, acima de tudo, que ocuparem-se do elo social era menos importante do que criticar o domínio imposto pela televisão, a título de cultura de massas. Na época, éramos

poucos, nas ciências sociais, a utilizar o vocabulário do elo social, vindo dos primeiros trabalhos de sociologia e de antropologia do início do século.

Depois, tudo mudou. A violência das fracturas sociais ligadas à crise voltou a colocar esta problemática no centro da sociedade e da política. A tal ponto que hoje, erradamente, toda a gente fala de elo social a propósito de tudo. O abuso da palavra não impede o interesse crucial que esta questão bastante complexa continua a despertar.

A televisão é, actualmente, um dos principais elos sociais da sociedade individual de massas. É, aliás, igualmente, uma figura desse elo social. Como tenho afirmado repetidamente, a televisão é a única actividade partilhada por todas as classes sociais e por todos os grupos etários, fazendo assim o elo entre todos os meios. O que não impede, pelo contrário, uma crítica empírica daquilo que a televisão é. Mas é na medida dessa ambição e desse papel antropológico que é possível criticá-la. Na condição de não misturar os dois níveis, teórico e empírico.

É essencial distinguir os dois planos, e permite compreender o que me separa afinal, dos trabalhos da escola de Frankfurt. Em sua opinião, a instrumentalização da comunicação nas relações económicas e de poder do sistema capitalista, fizeram-lhe perder todo o valor normativo, fazendo-o passar, finalmente, para o lado dos aparelhos de domínio. Sem negar esta dimensão, ainda mais visível hoje em dia do que há cinquenta anos com a internacionalização das indústrias da comunicação, continuo a estar em desacordo com esta hipótese que visa instrumentalizar definitivamente a comunicação e fazer-lhe perder qualquer outra dimensão. Em contrapartida, esta tese tem muito êxito pelo facto de ser radical e sem ambiguidades. Infelizmente, o paradoxo das ciências sociais, inevitavelmente ciências da complexidade e da nuance, consiste em só terem êxito na condição de serem "radicais", como se radicalidade e verdade fossem sinónimos...

No entanto, em nome dos radicalismos sucessivos, tantos erros trágicos foram ditos e cometidos no século XX que este elo, sempre duvidoso, entre verdade e radicalidade deveria ser, de novo, posto em causa. Todavia seduz, inclusivamente nos trabalhos acerca da comunicação. O grande progresso epistemológico em ciências sociais terá lugar no dia em que se admitir que exigência crítica não é sinónimo de discursos violentos e catastróficos, nem de conclusões dicotómicas e radicais. E que, em ciências sociais, verdade não é sinónimo de radicalidade. Para quê este desvio? Porque há muitos anos que esta tese da televisão como elo social é criticada por aqueles que não a acham

suficientemente radical, logo pouco "certa", como se fosse preciso ser o mais hostil possível à televisão para estar perto da verdade.

Parece-me, pelo contrário, que os acontecimentos na Europa, depois de uns quinze anos que viram a televisão dominada pelo dinheiro, o Audimat e a aventura privada reconduzem, progressivamente, a práticas que ilustram esta hipótese do papel dos média de massas como elo social.

Naturalmente, não se trata de afirmar que a televisão "faz" o elo social — seria cair num determinismo tecnológico que eu aliás condeno — mas, sim que, num período de profundas rupturas sociais e culturais, ela continua a ser um dos elos sociais da modernidade. Não é o único, e outros seriam igualmente de desenvolver, mas o facto de não ser o único não impede que recordemos o seu papel, tanto mais importante pela sua visibilidade e popularidade. Ela contribuiu para esse "sentido", tão difícil de definir, das sociedades modernas. Aliás, dizer que a televisão contribui para o elo social não remete, antes de mais, para a técnica, como já afirmei muitas vezes, mas sim para o estatuto da sociedade individualista de massas, ou seja, para essa mescla de individualismo, de liberdade e de igualdade. E em relação a este triângulo da modernidade, espécie de estrutura antropológica da sociedade, que a televisão desempenha esse papel. Por outras palavras, prima o social sobre a técnica.

A força da televisão consiste em constituir esse elo social e em representá-lo. Retomando a hipótese de É. Durkheim sobre a religião, quase poderíamos dizer que a televisão é uma das formas elementares do social. Se há numerosas práticas sociais que contribuem para o elo social, sem visibilidade, o interesse da televisão é representá-lo, da maneira mais visível para todos. E a este nível de visibilidade e de representação, não há muitas actividades sociais e culturais tão transversais como a televisão. Não é ela, com a metereologia, a única actividade realmente partilhada por todas as classes sociais e todos os grupos etários? É porque este papel social da televisão existe, que eu critico o discurso entusiástico, demasiado técnico, que rodeia a televisão temática, apresentada como o futuro da televisão. Uma tal orientação confunde, precisamente, a dimensão social e a dimensão técnica, reduzindo a televisão à segunda.

O problema não é a existência da televisão temática, um fenómeno clássico de segmentação dos mercados. O problema coloca-se quando esta evolução, tornada possível pela técnica, é apresentada como um progresso em relação à problemática da televisão generalista. Cai-se aí na ideologia técnica.

Recordar o papel dos média generalistas em relação ao elo social é, pois, repor o desafio da comunicação no quadro de uma teoria da sociedade. A posição a favor dos média generalistas é, antes de mais, a resposta à pergunta seguinte: como criar esse elo, por intermédio dos médias generalistas públicos ou privados, no seio de sociedades onde as fracturas e as exclusões sociais são fortes? E como criar o elo, por intermédio dos média nacionais, nas sociedades abertas onde a ideologia da "comunicação mundial", directamente isomorfa em relação aos interesses das multinacionais, desestabiliza ainda um pouco mais as identidades nacionais e desencadeia, nos países do Sul, uma profunda cólera contra os países ricos do Norte? Eis o duplo desafio essencial da relação entre uma teoria dos média generalistas e a problemática do elo social. A questão não é a abertura ao mundo, já amplamente assegurada em meio século e visível hoje em dia na economia mundialista dos grupos de comunicação. Está, antes, na busca dos meios que permitem reforçar a coesão social no interior das sociedades e continuar a oferecer, em conformidade com o modelo da democracia, uma possibilidade de se informar, de se cultivar e de se divertir à escala do maior número. E, à escala mundial, assegurar uma regulamentação para evitar que essa mundialização da comunicação não conduza, por uma nova lei da selva, ao reforço dos mais poderosos e dos mais ricos.

A ligação entre o elo social e os média generalistas fica ao nível do normativo, quer dizer, da referência ao universal, enquanto que a adesão ao temático, aparentemente mais adaptada às exigências do público é, na realidade, compatível com uma teoria da sociedade que aceita fracturas, desigualdades e segmentações. O ponto de equilíbrio entre as diferentes concepções de televisão e as teorias da sociedade diz respeito ao estatuto do público. Há, aqui, duas teorias em oposição.

Uma dissocia a realidade dos públicos da questão teórica do grande público. Para a outra, o público é a soma dos Audimat. Por um lado, a problemática do público, como a da televisão, remete para uma teoria das relações entre comunicação e sociedade. Por outro ela está, antes de mais, ligada às realidades do mercado e resume-se a uma lógica económica e quantitativa. Encontramo-nos face a duas teorias: a que liga comunicação e sociedade; a que considera a escolha dos públicos como a melhor das teorias. Duas filosofias da comunicação e, finalmente, duas concepções da sociedade. Porque não? Mas na condição de situar o antagonismo no nível teórico que é o dele e de não nos perdermos em categorias económicas ou em questões de tecnologia.

É neste sentido que não há teoria da comunicação sem uma teoria implícita ou explícita de sociedade. E se eu quisesse ser polémico, diria que há uma perfeita compatibilidade entre uma sociedade organizada sobre o modelo do "politicamente correcto", onde coabitam ordeira, democrática e representativamente todas as comunidades, na indiferença geral mútua e uma sociedade assente numa teoria dos média fragmentados, onde cada indivíduo e cada comunidade disporiam dos seus média para neles se encerrar confortavelmente.

É neste aspecto que qualquer organização da televisão, como da rádio, aliás, remete para uma teoria da sociedade. É neste aspecto, também, que a valorização dos média generalistas remete para uma certa exigência cultural e democrática. É neste aspecto, enfim, que qualquer defesa da televisão generalista é inseparável de uma defesa da televisão pública e, para o futuro, da manutenção do sistema misto equilibrado, público-privado. O sistema continua a constituir, aliás, a grande originalidade da Europa, que deveria estar dele orgulhosa em vez de duvidar dele, no momento em que se vê confrontada com a imensa batalha da desregulamentação.

CAPÍTULO 4

TELEVISÃO GENERALISTA E TEORIA DA

No documento Dominique Wolton - Pensar a Comunicação (páginas 89-95)