Em seu texto Luto e Melancolia, Freud (1915/1996) escreve que o luto é a reação a uma perda e esta não é precisamente uma morte, mas também uma falta atrelada a um lugar, sentimento, pessoa. Portanto, o processo de luto é uma elaboração necessária para enfrentar uma perda, seja ela a morte ou não. A psicanalista Mucida (2017) também escreve sobre o trabalho de luto dizendo que o sofrimento é inevitável, pois lidar com a falta sempre é difícil, mas esse sentimento de falta é o que vai possibilitar ao sujeito ir em busca de significações para sua vida, levando-o a elaborar o luto a partir dessa busca.
Em seu texto Sobre a morte e o morrer, Dunker (2017) observa que a forma de sofrer está ligada aos desejos, cultura, família e singularidade. A partir disso, construímos uma concepção de morte e enfrentamos esse fato a partir das experiências subjetivas e sociais, afinal cada sujeito enfrenta esse fato de uma maneira distinta. Levando em consideração a relevância que esse enfrentamento com a morte causa, o psicanalista ressalta que esse processo de morte faz com que o sujeito seja confrontado com a própria finitude, o que lhe proporciona um momento de reflexão e reposicionamento.
Nessa perspectiva, compreende-se que esses esquecimentos por parte do idoso com DA, ocasionam o início de um processo de luto no cuidador/familiar, evidenciando que esse idoso não reconhece e não se reconhece mais e a questão da morte em vida fica exposta no processo gradual da doença. Nessa ótica, um dos desdobramentos da DA é trazer à tona o sentimento de luto, pelo fato de que o esquecimento desse doente em relação a sua vida, seus familiares, sua identidade, seus vínculos evidenciam perdas constantes, assim, o lugar da morte se ressalta.
Em seu estudo sobre doenças associadas ao luto Neto e Lisboa (2017) observam que 22% dos trabalhos realizados sobre essa temática são sobre famílias que possuem alguma pessoa com DA, prejuízos, disfunções cognitivas e demências, perdendo somente para as pesquisas dos casos de câncer que são de 60%. Assinalam que apesar de serem doenças distintas, apresentam uma semelhança nos modos de enfretamento do luto, tendo em vista serem
doenças recorrentes na atualidade e que evocam um confronto direto com o lugar da morte. Ressaltam que essa temática tem se tornado uma área de importante estudo no campo científico da saúde, e isso possibilita a construção de estratégias para melhor trabalhar com os pacientes e familiares em situação de cuidados paliativos.
Quando ocorre o diagnóstico de uma doença é evocado um sentimento que produz desdobramentos ao indivíduo e ao coletivo. Nesse sentido, esse sujeito que recebe a notícia enfrentará esse momento a partir de suas experiências subjetivas. Somos seres de corpo e psique, desta forma, sofremos a partir desses dois caminhos. Na psicanálise sabemos que a somatização surge quando falta a palavra, sendo assim, quando não se elabora o sofrimento a partir do discurso o corpo produz sintoma. (GOLDFARB, 1998).
A construção de um luto a partir de uma doença como o Alzheimer, evidencia-se no confronto com as perdas decorrentes da doença, pois o apagamento do sujeito faz surgir um novo desconhecido que apresenta palavras não ditas, silêncio, apatia e comportamentos incomuns. A filha C1 relata o silêncio quase totalitário da mãe, observa que precisa sustentar de forma completa seus cuidados, pois há um apagamento de sua autonomia, que a mãe praticamente não verbaliza tendo como formas de expressões seus resmungos.
A entrevistada C2 relata sentir impotência frente ao que sua mãe sente, vivencia uma ambiguidade de sentimentos, pois lida diariamente com a problemática vida-morte e diz que, por vezes, pensou na morte de sua mãe, vê sua mãe morrendo aos poucos e essa condição de sofrimento de sua mãe ocasionada pelas memórias passadas de conflitos, é o que mais machuca, enfatizando que gostaria de tirar esses sentimentos ruins dela, pois, ela já sofreu demais, assim, diz medicar a mãe com indicações dadas pelo médico.
Nasio (1997) propõe pensar o lugar que a dor psíquica ou a dor de amar resulta na vida do sujeito, pontuando que esta ocorre ao nos depararmos com o corte do vínculo que temos com aqueles ou aquilo que amamos. Nesse aspecto, sabemos que as relações amorosas estão permeadas em nossa vida desde muito cedo, assim, construímos um lugar, uma representação desses laços e ao
sofrimento a partir da forma que simbolizamos essas perdas amorosas. O autor ressalta que esse vazio deixa um buraco, por vezes sentido como uma dor física brutal. Sobre isso, ressalta as maneiras de lidar com essa dor, sendo a forma como sente, observa, expressa e reage diante dessa falta. Com o emergir dessa falta surge a necessidade de um desinvestimento das representações ligadas ao objeto amado, para posteriormente ser ligada a outros e integradas seu ego, sendo que esse processo faz parte de uma construção de um luto, esse esvaziamento proporcionado pela perda, é uma ação dolorosa e a sua defesa é a desinvestimento amoroso e a elaboração do luto (NASIO, 1997).
A concepção da perda de um ente querido convoca a refletir sobre o lugar que este ocupa na vida das pessoas, sobre o percurso que esta história compartilhada nos significou e representa. No caso da DA, o luto é remetido à perda da identidade e da capacidade intelectual e física do familiar acometido, o que tem como desdobramento comportamentos por vezes irreconhecíveis. Nesse aspecto, problematiza-se o lugar que esse cuidador e a família precisam construir para dar conta de acolher esse novo familiar que se apresenta. Nessa ótica, Nasio (1997) ressalta a necessidade que se instala ao sujeito ao deparar- se com a morte, perda, ausência de uma pessoa amada.
Nasio (1997) escreve que é imprescindível uma elaboração a partir de novas construções de investimentos, sendo que, o que era atribuído a essa representação perdida, precisa ser articulado e remetido a outras formas de sentimentos, objetos e relações, para conseguir sustentar, reconhecer e elaborar a nova dinâmica que se apresenta. Nesse aspecto, pensando no contexto desse estudo, o que perde ao deparar-se com esse vazio suscitado pelo comportamento desse idoso, primeiramente é o lugar que esse cuidador se remetia antes da doença e dos sintomas.
Ao pensar o lugar que a morte ocupa na vida dos cuidadores, Pereira (2014) sugere que à medida que é evocado esse lugar de morte, o cuidador vivencia o conflito com a separação, o que implica em lidar com emoções provenientes de um sentimento de tristeza, assim, entrará no embate com as afeições e ressentimentos que esse cuidador tem para com o seu familiar. Tendo
em vista esses sentimentos profundos e complexos que vem sendo construídos pode se instalar uma condição de sofrimento patológico no cuidador.
Nesse aspecto, é fundamental que o cuidador olhe para a história, lembranças e memórias provenientes da relação com esse familiar, pois assim, terá a possibilidade de elaborar a construção de um luto saudável, onde se reconhece e é reconhecido pelo seu sofrimento, de forma que se permita viver esse momento de tristeza, para estabelecer um significado a esse processo de perda (PEREIRA, 2014).
Em uma análise sobre o processo de luto em cuidadores familiares, Pereira (2014) ressalta que a temática da morte é um tabu nas discussões e emblemas sociais, familiares e individuais. O lugar da morte suscita um confronto com os aspectos essenciais do homem em sua vivência, pois, esse momento pode possibilitar uma reflexão de afetos e de percurso subjetivo na sua experiência com o outro, assim refletindo sobre o lugar que esse familiar ocupa em sua vida e o que sua ausência representa. Nesse aspecto, percebe-se que a morte em evidência produz a construção do processo de luto que pode ser entendido como percurso subjetivo que o sujeito constrói ao confrontar-se com perdas durante sua vida.
A autora ainda ressalta que os estudos sobre a morte e o processo de luto vêm sendo estudados ao longo dos anos, o que possibilita contribuições e conhecimentos sobre a temática repercutindo em novas discussões. Essa dimensão reflete a importância da singularidade que cada sujeito enfrenta na construção desse processo de luto. Nessa ótica, Kübler-Ross (2008) contribui em seus estudos sobre a morte e morrer assinalando que a morte evoca atitudes. Assim, aponta para possíveis estágios enfrentados por aqueles que se deparam com esse momento ao se confrontarem com os sentimentos de negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação.
A entrevistada C3 relata que seu pai tem a saúde física melhor que a dela e do seu marido. Conta uma situação onde achou que seu pai havia falecido e que esse fato desencadeou sua ida para o hospital, pois passou mal ao se confrontar com essa situação. Por fim, seu pai ficou em casa sorrindo e num bom
estado de saúde enquanto ela foi quem precisou de atendimento médico. C3 ressalta que, após aceitar o lugar de cuidadora principal, sua saúde sofreu abalos, mencionando problemas emocionais e físicos, enfatizando que cuidar do pai exige esforço.
Em a Psicologia do envelhecimento, Jerusalinsky (1998) aborda a temática sobre a perda dos pais reais, afirmando que esta remete ao sujeito um embate prévio com a própria morte, pois a elaboração do luto necessita o reconhecimento desses pais que não estão mais presentes, sendo fundamental para o sujeito referir-se às identificações afetivas que possui com o ente falecido. No que se refere a DA, o cuidador familiar vivenciará esse embate com o luto, pois essa identidade/singularidade do familiar acometido pela doença se perde com a evolução do quadro. A DA desencadeia o enfrentamento com o luto, considerando que se perde um ideal de pai, mãe, avô, avó. O que surge a partir da evolução da doença é um sujeito do desconhecido, de modo que aquele familiar idealizado não existe mais, é a morte em vida de uma pessoa. Assim, quando ocorre a perda de um ideal, surge o processo de luto naquele que perde o familiar que idealiza.
Percebe-se que cada cuidadora está em um processo distinto de elaboração das perdas e que cada uma articula isso a parir da sua singularidade. C1 presencia a evolução da doença e a perca da sua mãe há 5 anos, dessa forma, parece estar mais tranquila com esse processo e tem a mãe como uma pessoa que sempre foi mais silenciosa. Diferentemente de C2, que está realizando os cuidados principais de sua mãe há menos de um ano e possui um histórico de perda do pai, assim, esta cuidadora apresenta intensamente a reflexão com o lugar de perda da identidade da mãe, haja vista, que ela possui um elo bastante significativo com essa figura. A familiar C3 traz um outro olhar diante das perdas que o pai tem tido em relação a DA, esta pontua que a relação com o pai é melhor agora, assim, coloca em questão que algumas perdas cognitivas do pai melhoraram o relacionamento dos dois. Nesse caso, de certo modo, a perda se apresentou de forma positiva.
O olhar da psicanálise sobre os aspectos fundamentais na elaboração de perdas, implica em ressaltar a importância de estabelecer essa etapa como
fundante e fundamental na vida humana. Dessa forma, reconhece a dinâmica complexa dos desdobramentos que a construção de luto implica no ato de cuidar um idoso com DA, pois, além desse cuidador ter que trabalhar com seus sentimentos, referentes ao cuidar quem lhe cuidou, precisará enfrentar as emoções que surgirão com os percalços decorrentes dos sintomas neuropsiquiátricos da doença.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O lugar que a escuta sustenta no espaço de fala ao sujeito que sofre diz de uma abordagem de transmissão, fundação, identidade, diferenciação e subjetividade, fundamentalmente estabelecidas na constituição do sujeito psíquico em decorrência do Complexo de Édipo e das relações que ali se constroem, atreladas a função materna, paterna, Falo e castração. Dessa forma, compreendemos que a psicanálise pode colaborar para uma leitura sobre o afeto e sofrimento envolvidos no ato de cuidar, decorrentes dos seus processos dinâmicos e profundos.
A psicanálise reconhece a ‘cura pela fala’, de modo que o sujeito verbalize, compreenda, elabore e ressignifique seu sofrimento, implicando-se naquilo que se queixa. Essa teoria tem como pilar um ofício que se sustenta em possibilitar à palavra circular, caminhando para a construção de diálogos no campo subjetivo da clínica e grupal na esfera social, organizacional e política. Nesse contexto, este estudo possibilitou olhar para o trabalho do cuidador familiar, enquanto agente de cuidados informais, ligados por afetos, identidade, reconhecimento e uma história. A função desse cuidador familiar consiste em uma posição constituída, sustentada e elaborada a partir da experiência como sujeito que foi reconhecido, amparado e questionado pelo outro. Assim, a partir da transmissão dos cuidados que lhe foram apresentados, introjetados e simbolizados esse cuidador assumirá esse lugar.
O que se problematiza é que nem sempre esse lugar é dado pela via da construção, mas imposto, o que dificulta o estabelecimento de um lugar, considerando que este cuidará de quem lhe cuidou, colocando em jogo uma magnitude e reedições de sentimentos, cenas e histórias. Por vezes também, esse cuidado se configura como uma obrigação moral, o que coloca em questão a problemática social do desemparo, ressentimento e falta de reconhecimento. Conforme elaborado neste trabalho, o olhar e o reconhecimento do outro são fundantes e fundamentais para a manutenção da identidade. Porém, esse olhar e reconhecimento operando pela via da necessidade e não do suporte, potencializa a presença do sofrimento patológico.
Nesse aspecto, o intuito neste trabalho é possibilitar uma nova construção e olhar para o agente cuidador familiar de idosos com Doença de Alzheimer, para que possa visualizar a complexidade e questionar-se diante do lugar que ocupa, implicando-se e articulando seu sofrimento de forma criativa passando, assim, pelo mecanismo de sublimação.
Tendo o conhecimento de que essa dinâmica de cuidados se constrói e sustenta-se pelas vias de identificação e reconhecimento do lugar do outro, possibilita pensar no lugar da falta que, nesse momento, é evocada pelo afastamento subjetivo e intelectual desse familiar com DA, fazendo com que se pense no lugar da morte, o que evoca o embate com o luto. Assim, a psicanálise como abordagem que sustenta e possibilita a esse familiar olhar para complexidade dos afetos atrelados a esse momento, construindo vias de elaboração para esse sofrimento na ótica criativa; articulando o ato de cuidar como uma experiência de transmissão e associação, onde o familiar que cuida se reconheça e se questione naquilo que faz e o lugar que ocupa.
Figueiredo (2012) aponta para as vias do cuidar sendo: sustentar, reconhecer e questionar aquele para o qual direcionamos os cuidados. Tendo em vista que a intenção deste trabalho é aumentar a compreensão da dinâmica dos desdobramentos do cuidar, no que se refere ao idoso com DA, pensamos em uma questão que pode dar continuidade ao estudo, sendo: de que forma você sentiu-se cuidado em seu percurso de vida e de que maneira isso se apresenta para você hoje ao realizar os cuidados de alguém tão dependente?
Desta forma, este estudo é apresentado como abertura de questões e não como fechamento, pois ao deparar-se com a dinâmica de cuidados, mostra-se um campo repleto de discussões e elaborações que precisam ser vistas e discutidas. Questionar-se que lugar subjetivo atribui ao realizar esse cuidado é fundamental para um equilíbrio saudável e cuidar implicados.
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